A Denominação dos Meus Sonhos

A Denominação Dos Meus Sonhos



        Sou batista há 36 anos, pois que me converti na minha adolescência, aos 15 anos, numa igreja batista carioca. Converti-me a Cristo e, com ele, aceitei a doutrina batista. Apaixonei-me, simultaneamente, pelo evangelho e pelos batistas.  Não vi incompatibilidade entre os dois. Vi profunda sintonia. E foi ainda na adolescência, com 19 anos de idade, que me matriculei num seminário batista. Sou pastor batista há 28 anos, indo para 29, em novembro. Fui secretário, vice-presidente e presidente de assembléias convencionais, presidente, vice e secretário de juntas, professor, deão, diretor, vice-reitor de instituição teológica, diretor de mestrado e outras coisas. Não  declaro isso por mérito nem gabolice. Seria até ridículo. Há gente com mais tempo e com uma maior folha de serviços, que pensa diferente de mim.  É para dizer que não sou estranho nem apedrejador da denominação. Não desci de pára-quedas em nenhum desses postos e funções. E nunca tirei proveito deles. Sempre servi com zelo e sempre me retirei quando perdi o entusiasmo. Não fiquei só por causa do ganha-pão. Nunca fraudei um centavo que fosse nem efetuei manobras para galgar qualquer posto nem fiz quaisquer esforços para manter-me neles. Trabalhei sempre com dedicação, sem apego a títulos e rótulos. Não apenas Deus é testemunha disso. Os que me conhecem também o são. 

        Sou batista e acho que não saberia ser outra coisa. Fui acusado de adúltero, de homossexual, de herege, de liberal, de renovado, de fundamentalista, de conservador, de comunista e de reacionário.  Fui chamado de biblicista-literalista e de negador das Escrituras. Fui dado como moribundo, como atropelado, cirurgiado e às portas da morte. Enviuvaram minha esposa, deram-me outra, sem que eu soubesse e quisesse.  Fui chamado de “novo Lutero” e de “estropício” (seja lá o que isso seja). Até de torcedor do América do Rio me chamaram …  Isto tudo, nunca por incrédulos, que estes sempre me respeitaram (torcer pelo América não é desrespeitoso, mas sou bangüense). Fui chamado assim por batistas, irmãos e pastores. São esses que temo. Como sabem machucar! Mas entendo porquê agiram assim: quando as razões faltam, lama é um bom substituto. E lama, em nosso meio, gruda bem.

         Mas continuo batista. Fiel aos princípios históricos e doutrinários dos batistas. E como é coerente a doutrina batista! E que coisa mais linda os princípios históricos dos batistas, pelos quais muitos de nossos antepassados deram a vida! Mas hoje estou bastante desconfortado com o que chamam de “denominação”. E, para mim, chamam equivocadamente. Denominação, no meu entendimento, são as doutrinas batistas e as igrejas que as sustentam há séculos. O que alguns chamam de “denominação”, entendo e chamo de “estrutura”. Fui homem de estrutura, de fechar com ela, em suas decisões. Hoje, sinto-me cada vez mais distante dela e, mesmo que seja chocante dizer isto,  bem pouco interessado em seus destinos. Sinto-me até assustado em pensar que ela, muitas vezes, é inimiga do que entendo como denominação. Por isso que, ao falar da denominação dos meus sonhos, quero falar do ambiente estrutural dos meus sonhos. Usarei o termo como entendido pelos demais, em desacordo com minha própria visão, mas para facilitar o entendimento do que digo. Quero falar como é a vida na estrutura denominacional dos meus sonhos.

         A denominação dos meus sonhos é aquela que entende que a pedra de toque do trabalho batista é a igreja local. E que o homem chave da denominação é o pastor da igreja local. Do ponto de vista do Novo Testamento, a única organização reconhecida e legitimada é a igreja local. Assim sendo, a denominação dos meus sonhos é aquela em que juntas e instituições não chamam a igreja para orbitar ao seu redor, mas se vêem como servas das igrejas. A denominação dos meus sonhos é aquela em que a estrutura se vê como o que  deve ser: pára-eclesiástica, ou seja, ela existe para estar ao lado da igreja. O que chamamos de pára-eclesiástico, deveria ser visto como pára-denominacional. Mas a estrutura se vê como quem serve à igreja. A denominação dos meus sonhos não tem arcebispos humanos nem estruturais. É respeitadora e valorizadora do sistema congregacional. Não  usa a igreja como seu mercado, mas serve-a. Não lhe empurra programas, mas procura saber o que ela deseja, para atendê-la. Porque é a igreja local que a mantém e é para a igreja local que ela existe, secundariamente. Primariamente, existe para servir a Deus. Secundariamente, para servir a igreja local.

        A denominação dos meus sonhos é aquela em que os negócios são tratados com clareza, urbanidade e amor. Nunca em tramóias e fofocas urdidas em bastidores, denegrindo a honra alheia. É aquela em que as pessoas são escolhidas para ocupar funções por sua capacidade, por sua liderança cristã, pela sua probidade e habilidade em lidar com a coisa pública e com pessoas. Nunca são escolhidas por motivos inconfessos, para impedir a ascensão ou a presença de outros que não “fecham” com os detentores da informação e do poder. É aquela em que ineptos são afastados, com misericórdia, mas com decisão, em vez de se criarem cercas ao seu redor para mantê-los na função, mesmo estando eles desmoralizados e rejeitados. 

        A denominação dos meus sonhos  vive em cooperação denominacional autêntica. Isto é mais que contribuir com 10% das entradas para o Plano Cooperativo e com o levantamento das ofertas missionários. Mas é aquela onde ninguém é rival de ninguém e ninguém procura lucrar às custas de ninguém. Vive-se em solidariedade.  Um exemplo: a Faculdade Teológica Batista de Campinas (escrevo sem ter vínculo com ela, a não ser que minha filha lá estuda) pulou de 100 para 200 alunos. Está contígua às instalações de outra junta denominacional, instalações estas que estão fechadas e desativadas.  Mas não podem ser lhe cedidas. Cooperação denominacional é ajuda mútua e não apenas repasse de dinheiro. Porque o fim é mútuo: o serviço da estrutura às igrejas. As próprias igrejas trabalham em harmonia e os pastores não vivem em competição, lutando por espaço. Lutam e vivem em solidariedade, apoiando-se mutuamente e planejando em comum. Não se procura fazer carreira denominacional pisando nos ombros dos outros. Os outros não são o inferno, como na peça de Sartre, mas são oportunidade de serviço a Deus.

        Na denominação dos meus sonhos ninguém é marginalizado por pensar diferente. Não se buscam clones. A estrutura (ou as pessoas que detém o poder nela e pensam que são ela) não se põe acima das igrejas e não lhes diz o que fazer ou não fazer para que sejam batistas. Uma igreja consagra uma mulher ao ofício pastoral e é desligada da convenção estadual a qual pertence. Uma outra convenção estadual vota aceitar consagração de mulheres ao ofício pastoral. Passamos a ter duas eclesiologias batistas diferentes. O certo ou errado agora depende de geografia.  Esta situação insólita e surrealista sucedeu porque a estrutura perdeu de vista seus objetivos e seus limites. Passou a se ver como paradigma doutrinário ou eclesiológico. Deixou de ser serva e passou a ser juíza. 

        Um líder denominacional, depois de ocupar a presidência convencional, deixou escapar uma triste frase: “estou firmemente convencido de que os caminhos do reino não passam pela nossa estrutura denominacional”. Na denominação dos meus sonhos não sucede assim, mas os caminhos da denominação se identificam com os do reino. Porque o reino de Deus é posto em primeiro lugar. Os valores espirituais são priorizados e há temor no serviço cristão.  Em Perestroika, novas idéias para meu país e para o mundo, Gorbachev declarou que as estruturas são criadas para viabilizar idéias mas, não raro, apossam-se das idéias e se tornam fins em si mesmas e não meio. Passam a usar a idéia para justificar sua existência. Na denominação dos meus sonhos não é assim. A estrutura não é fixista nem autoperpetuante. É meio para se chegar a um fim e é por este critério que deve ser avaliada.  Não se tenta perenizar organizações que as igrejas não querem, que os crentes não querem e não se as empurra para as igrejas para que então  “sejam batistas”. Em Vinhos novos em odres novos, Snyder diz que toda organização ou programa de igreja que precise constantemente de empurrões pastorais e de apelos para funcionar, deve ser deixado de lado. O povo não o quer. Na denominação dos meus sonhos, a ênfase é  treinar pessoas para que estas cumpram sua missão, e não  cumprir programas para ocupar as pessoas. É, portanto, em obreiros e não em organizações. Nos dons que Jesus  deu à sua igreja e não em programações que não podem ser abandonadas e que, quando se fala em mudá-las é como se atacássemos o bebê de alguém. Na denominação dos meus sonhos buscam-se alternativas para que a igreja melhor desempenhe sua missão (e esta não significa batizar alguns para dizer que cresceu, mas modificar o contexto que está inserida) e desembaraça-se do que não funciona, e é rejeitado pelas igrejas. Na denominação dos meus sonhos, a criatividade sadia é vista como dom de Deus, buscada e valorizada,  e não como ameaça satânica porque ameaça o  statu quo funcional e programático da estrutura.

        Por isso, na denominação dos meus sonhos, os pastores e as igrejas que estão apresentando novos caminhos, novas alternativas para evangelizar o mundo e transformar a sociedade e estão conseguindo, são chamados a ensinar, a compartir o que estão fazendo, e não postos de lado como perigosos, como desintegradores, como novidadeiros. E as igrejas que estão assim fazendo são objeto de atenção e não motivo de desconfiança.

Na denominação dos meus sonhos, os pastores são amigos e não trocam tiros entre si. O ambiente é de confiança e não de relacionamentos ambíguos. É o ambiente em que as pessoas são vistas e respeitadas pelo seu valor, inclusive os obreiros são assim tratados pelos obreiros, e não pela sua utilidade para consecução de algum propósito, sendo logo descartados quando não podem mais ser usados pela estrutura.

        A denominação dos meus sonhos, infelizmente, não é a denominação em que vivo.  Mas eu gostaria que fosse. Na realidade, sendo sincero, não sei se estou disposto a lutar para ter uma denominação assim, como idealizo. Estou muito frustrado. E até mesmo magoado.  E achei uma igreja admirável para a qual “vendi a minha alma” e espero gastar o tempo que ainda me resta de vida naquilo que mais me dá realização hoje: o pastorado de igreja local. Mas sei que uma denominação assim é necessária para que outros não se desiludam e para que alguns dos desiludidos voltem a se perfilar no trabalho denominacional ou, melhor dizendo, estrutural. Não que me julgue a personificação dos descontentes ou que esteja credenciado a falar por eles. Falo em meu nome. Mas ouvi muitos deles e sei que se não tivermos mudanças significativas, muitos obreiros mais hão de se distanciar. Talvez  irremediavelmente. Nossos maiores problemas hoje são a hiper-institucionalização e a hiper-estruturação, que ameaçam a autonomia e a soberania da igreja local. É por isso que muitas delas estão se afastando. Não querem a tutela da estrutura. Querem serviço dela a seu favor. Se cremos na ação do Espírito Santo em nossas igrejas, deixemos que ele sopre. Tudo que não for dele não permanecerá. Mas não sejamos achados lutando contra Deus. É um dado para pensarmos: todos os grandes avivamentos surgiram fora da estrutura e muitas vezes tiveram que lutar contra ela para que Deus agisse. Não presumo que o avivamento de que precisamos seja em termos de liturgia ou de volume de decibéis. Penso que virá em forma de renovação de estruturas denominacionais e eclesiásticas, mudando o que imobiliza e engessa para que a igreja deslanche e cumpra sua tarefa.

         Creio que está na hora de mudar. Para que tenhamos uma denominação que seja de todos e não de alguns poucos.  Que empolgue e não que seja vista com indiferença. Em nossas assembléias convencionais, em nível nacional, o número de igrejas que não envia mensageiros é maior do que o número das que enviam.  Os alvos financeiros, inclusive os missionários,  não estão sendo alcançados e o número de igrejas que não contribui sistematicamente é bem elevado. Isto é significativo. É um sinal que não pode ser ignorado. As igrejas estão insatisfeitas.  Há mais gente querendo outro tipo de denominação. Que pode não ser igual a que idealizei, mas que, me parece,  não é como a que temos, presentemente.

        Isaltino Gomes Coelho Filho,  pastor da IB do Cambuí, Campinas, SP