Marcelo Quirino
Psicólogo Clínico
Membro da PIB Guarani – São João de Meriti
www.marceloquirino.com
Um descompasso se evidencia na espiritualidade da juventude cristã destes dias. Há uma discrepância entre a fé e a prática da fé cristã bíblica. Cada vez mais a juventude se aproxima de Deus, sem que isso signifique mudança profunda de vida.
Uma pesquisa realizada pelo instituto alemão Bertelsmann Stifungem 21 países, entre eles o Brasil, tornou evidente uma preocupação. Segundo a pesquisa, 95% dos brasileiros entre 18 e 29 anos se dizem religiosos e 65% afirmam que são profundamente religiosos. Quando a pesquisa perguntou sobre a prática da fé, somente 35% dos jovens brasileiros disseram viver de acordo com os preceitos religiosos. Por quê?
Em Psicologia um mecanismo psicológico chamado de falso self. A pessoa introjeta em si algumas características para adquirir benefícios com a suposta mudança, mas não obtém alterações profundas na estrutura da personalidade, apesar de acreditar tê-la obtido. Será que não estamos vivendo em épocas de falsos selfs espirituais e construindo casas na areia imaginando ser rocha o alicerce?
Hoje não adoramos mais imagens, dirão alguns. Ledo engano, pois há uma nova imagem tão próxima que dizemos não ver, mas a olhamos sempre. Há a idolatria da própria imagem evidenciada pelo exibicionismo, pelo culto ao corpo, à estética, à ostentação de bens e a alguns perfis cristãos de internet. Tudo isso tem conexão próxima com o desejo.
Além disso, o maior dos livros nos diz que chegará um tempo no qual as pessoas não suportarão a verdade e terão vontade de ouvir coisas novas de acordo com o desejo dos seus ouvidos. Tais pessoas ajuntarão para si doutores que atendam a tais desejos. Estamos em pleno acontecimento de II Timóteo 4.3. Só que muitos jovens cristãos não se deram conta disso.
Diante destas provas nos resta ousar afirmar que observamos a centralização do desejo sobre ideais do ego humano. O resultado direto disso é que a prática da fé cristã pode se tornar subserviente aos desejos desnorteados em detrimento da ética bíblico-cristã.
O desnortear do desejo
Precisamos entender a fé da juventude destes tempos levando em consideração duas movimentações fundamentais ocorridas na passagem do período moderno para o pós-moderno.
A primeira é a movimentação que tomou o conceito de verdade. Assim, ao mesmo tempo em que o desejo não possui ideais, ele também não possui mais verdades únicas a serem seguidas. O desejo se perde e tende a focar-se de maneira egoísta em verdades criadas.
O desejo moderno de fraternidade, igualdade e de liberdade compartilhado em coletividade falhou. Respectivamente por indiferença, desigualdade socioeconômica e violência urbana. Assim, o desejo sai do projeto coletivo para o projeto pessoal. A felicidade pessoal alcança status de fetiche do desejo da juventude cristã. Derrubam-se as verdades únicas.
A segunda movimentação diz respeito à estrutura psicológica que hoje conduz a relação entre os jovens e Deus neste tempo. Ao longo da história, o homem sempre se aproximou de Deus regido por diferentes aspectos de sua personalidade.
Na época de domínio da igreja católica o homem se relacionava com Deus através do temor e do receio, sentimentos típicos do superego, parte da personalidade também responsável pelas culpas. Na época moderna o homem se relacionava com o divino através da razão, uma função do ego humano.
Já nesta época o homem se relaciona com Deus através do desejo sem limites, típico da parte desejante chamada ID. Isso explica a irracionalidade dos parâmetros de relacionamento entre homem e Deus presente em algumas igrejas, pois apenas se quer desejar mais para si mesmo aquilo que é visto como bom para si próprio.
Essa centralização do desejo que impulsiona a relação dos jovens com Deus está relacionada com as angústias existenciais deste século. O desejo direciona-se para ideais do ego humano em busca da diminuição dos anseios diante do mundo globalizado despido da razão, de verdades absolutas e de ideais.
Contudo, o desejo deveria voltar-se para outro lado. Deveria ser de Cristo nos dois sentidos da frase: deveria ser desejo voltado para Ele e convertido por Ele.
Verdades construídas
De forma aparentemente paradoxal, o aumento da religiosidade coincide com o momento irracional do pós-moderno. A ruína das verdades no pós-moderno parece querer acabar com as verdades bíblicas e ao mesmo tempo faz um movimento de busca individual por verdades particulares.
Se a ausência da verdade é fonte de angústia para o humano, e neste tempo as verdades coletivas do período moderno foram derrubadas, restaram, portanto, as verdades individuais subjetivas criadas pelo desejo.
Então criam-se tribos espirituais que possuem dentro de suas fronteiras as verdades que não são aceitas em outros locais e que ali são compartilhadas por todos como manifestação do direito de desejar livremente.
Assim, o mote do democrático desvirtua a exegese bíblica e em seu lugar põe um eixo hermenêutico psicológico. Isso explica o resultado obtido numa pesquisa do IBGE que obteve 35 mil respostas diferentes para a pergunta “Qual é a sua religião?”.
Essas verdades construídas por tribos espirituais são inquestionáveis pela razão, pois são da ordem do desejo livre. O desejo não pode ser questionado ou racionalizado, senão não é desejo livre. Cultua-se o irracional.
Assim, as identidades doutrinárias se pulverizam e o que era tradicional se esvai no tempo das verdades dos desejos. Formam-se novas igrejas e renovam-se as antigas com nova expressão da subjetividade espiritualizada em verdades próprias.
Muda-se o visual, a forma da expressão litúrgica e, para dar cabo disso, se compromete o eixo doutrinário bíblico. Nascem as verdades orientadas pelo desejo e paralelas ao eixo neotestamentário.
Assim, múltiplas verdades se constituem e se sustentam sem conflitos. Em alguns com a bandeira do ecletismo em detrimento da identidade. Dar direito a outros de sustentarem a própria verdade retira de sobre a Bíblia o lastro doutrinário e o põe na democracia que permite a diversidade de expressão de fé em detrimento dos parâmetros neotestamentários.
O desafio da Igreja
A garantia que mantém a motivação para ir aos cultos é que lá funcione como o local de manutenção da esperança individual sobre o projeto pessoal de vida. Assim, o desejo particular é o novo Mamon.
Ser a manutenção do desejo deve ser o papel da igreja. Igreja que não desempenha este papel está fadada ao fracasso. Assim, um perigo se evidencia: a igreja tem se transformado no local das verdades para-bíblicas.
A igreja pós-moderna assume papel de dar guarita para os desejos criados pelas verdades pessoais. A grande comissão está em função da conquista de adeptos que querem desejar. A igreja é uma seguradora e vendedora do desejo e não mais uma agência do Evangelho, da santidade e da mordomia cristã.
A mensagem de Cristo era para que os cristãos edificassem o desejo de forma a transcender o tempo cultural do humano. É tirar a fé da prisão do desejo que sempre é produzido em sociedade a fim de que não se espere de Deus somente nesta terra. É tornar o desejo escravo da fé e não a fé escrava do desejo humano.
A fé tem se tornado instrumento do psicológico e não fruto do espiritual, daí sua debilidade. Caso não resguardem o ideal coletivo da grande comissão, os pastores correm o risco de se transformarem em psicoteólogos com púlpitos em função de desejos desnorteados, pois a grande comissão corre na mão contrária dos desejos humanos produzidos neste século.
A fé deve se permitir reorientar o desejo, passando do descontrole do ID para a santificação e para a verdade bíblica. Desta forma, será possível construir cristãos que são sal para tempero, que fogem das amarras do tempo e que estão atentos aos laços da história.
Contudo esta é uma tarefa difícil, porque a subjetividade neste tempo encontrou guarita em partes da Bíblia como aportes hermenêuticos para o ego humano e para os desejos desenfreados. Nossa oração precisa ser a de Salmos 38.9: “Senhor, diante de ti está todo o meu desejo”.
Marcelo Quirino
Psicólogo Clínico (UFRJ)
Fone (021) 8260.6966
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