Não me adianta me queimar; se me queimar vem outro em meu lugar

“(…) O rei as cortava com uma faca de escrivão e as lançava no fogo braseiro, até que todo o livro foi queimado no fogo do braseiro (…) E enquanto Jeremias ditava, Baruque escreveu nele todas as palavras que Jeoaquim, rei de Judá, tinha queimado. E foram acrescentadas muitas outras palavras semelhantes” – Jr 36.23 e 32 (Almeida Século 21).

Raul Seixas, roqueiro baiano, compôs uma música chamada “A mosca na sopa”. Ela mescla e alterna os ritmos de rock e música baiana (que é sempre a mesma, embora mude anualmente o nome). Se me lembro bem, foi sua resposta à crítica que recebera de alguns cantores baianos que queriam que ele só cantasse música baiana e não o rock, “símbolo do imperialismo”. Ele se dizia a mosca que pousara na sopa de alguém, e, em certo trecho, diz: “Não adianta me dedetizar porque se me matar aí vem outra em meu lugar”. O patrulhamento ideológico dos “intelectuais” não impediria o estilo do rock de avançar, mesmo na Bahia. Foi isso que entendi, ao ler a questão. Aliás, os intelectuais e a esquerda libertadora são patrulheiros. A liberdade é sempre para si, nunca para os outros. Vide a liberdade de imprensa cubana e chavista.

Sem vulgarizar, foi isso que Jeremias e Baruque fizeram com o rei Jeoaquim. Por ordem de Deus, Jeremias ditou a Baruque um livro para o rei Jeoaquim. Quando Baruque o leu perante os funcionários reais, estes tremeram. Levaram o livro ao rei. Este, no palácio de inverno, instalado diante da lareira, ouviu a leitura, e na medida em que o livro (em forma de rolo) era lido, cortava o que fora lido e jogava no fogo. E mandou prender Baruque e Jeremias. Típica atitude do pecador. Tantos fazem assim hoje! Ao invés de ouvir a Palavra de Deus, desprezam-na e ameaçam os que a divulgam. Como este mundo pecador cerceia a pregação do evangelho! Como apologiza o pecado, desdenha da Palavra de Deus, e levanta cercas ameaçadoras à pregação!

Deus estava atento. Mandou Jeremias escrever de novo, e com outras palavras mais. Levantar cercas, desprezar a Palavra, hostilizar o evangelho, tudo isso não resolve. Deus continua atento e suas palavras não passam. Da mesma forma sucede com pregadores que tentam domesticar o evangelho e fazer da igreja uma comunidade bonachã, massageadora do ego de pecadores, ao invés de fazer da igreja uma comunidade fiel a Deus e sua Palavra, respeitada pela coerência, e não pela bajulação. Podem hostilizar e ridicularizar os Jeremias e Baruques, os fiéis, os que pregam a verdade. Deus está atento. Não suspende o juízo, não muda suas advertências nem altera seus planos. Segue na mesma toada.  Sempre há outro livro a ser escrito e sempre há um profeta a dizer a mesma coisa.

A igreja está acuada e descaracterizada, em alguns segmentos. Em crise de identidade. Não sabe o que deve fazer nem dizer ao mundo. Mas está no Livro! Basta ler o Livro. Tentar queimá-lo ou varrê-lo para baixo do tapete, substituindo-o por livros de pensadores seculares, não remove o juízo. Deus continua o mesmo.

Lembremos as palavras de Paulo: “Que os homens nos considerem, pois, como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus. Ora, além disso, o que se requer nos despenseiros é que cada um seja encontrado fiel” (1Co4.1-12). O que se requer da igreja é a fidelidade ao Livro, mesmo que o mundo queira se livrar dele. Toda tentativa de queimá-lo se revelou inútil e toda tentativa futura será inútil. Deus o manterá sempre vivo.

Que as igrejas preguem o Livro!