LUZ TEMPORÁRIA, SIM; DEFINITIVA, NÃO

“Ele era a lâmpada que ardia e alumiava; e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz.” – João 5.35

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Luz” é uma das metáforas usadas por João, como verdade, vida, caminho, água, etc. Ele se ligou muito neste estilo de Jesus ensinar. Esta palavra do Mestre que ele registrou em 5.35 é significativa. Jesus falava de João Batista (v. 33). Os homens se alegraram com sua luz, que era temporária. Mas quando veio a luz verdadeira, que João não era (“Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava chegando ao mundo” – Jo 1.8-9), eles não quiseram.

Numa ocasião, quiseram fazê-lo rei (“Percebendo, pois, Jesus que estavam prestes a vir e levá-lo à força para o fazerem rei, tornou a retirar-se para o monte, ele sozinho” – Jo 6.15). Depois não o quiseram como rei e disseram que César era seu rei (“Mas eles clamaram: Tira-o! tira-o! crucifica-o! Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso rei? responderam, os principais sacerdotes: Não temos rei, senão César” – Jo 19.15). Eis outro contraste registrado por João. Mestre literário, ele sabia tecer o enredo e ligar pontas que, aparentemente, ficavam soltas.

Esta atitude dos contemporâneos de Jesus é um emblema da postura das pessoas que ouvem o evangelho hoje. Elas querem Jesus, querem um Rei, querem Deus, mas soft. Querem Deus, mas não muito. Só o suficiente para serem energizadas para seus negócios, e assim obterem sucesso. Querem um “tantinho” só de Deus. Lembro-me de minha avó Isaltina, me oferecendo café após o almoço: “Só um ‘goliquinho’”. Um pequeno gole, que ela, no falar fluminense, chamava de “goliquinho”. Há gente que quer um “goliquinho” de Deus. Quer Deus, mas domesticado, amestrado, de acordo com suas conveniências. Uma luzinha só basta. Muita luz é problemático. Tais pessoas querem satisfação, mas não compromisso.

Já notou que hoje todo mundo quer ser adorador, e ninguém quer ser servo? Adorar faz bem. Servir é problemático. Exige autodoação e mudança. Ser adorador dá status. “Servo” é termo, mesmo enobrecido espiritualmente, que deprecia. Servo reprime suas emoções para cumprir as ordens do Senhor. Adorador libera emoções. Servo ouve (“Depois veio o Senhor, parou e chamou como das outras vezes: Samuel! Samuel! Ao que respondeu Samuel: Fala, porque o teu servo ouve” – 1Sm 3.10). Adorador fala. Alguns declaram!

Nossos cultos de celebração têm boa freqüência. A Escola Bíblica Dominical, não. Queremos Deus, mas só um pouquinho. Culto alegre, sim. Debruçar-se sobre a Bíblia, não. Ouvi que nos Estados Unidos só 5% dos crentes lêem a Bíblia diariamente. Não deve ser diferente aqui. Basta ver o grande número de crentes sem Bíblia, nos cultos. Um “goliquinho” só de Deus. Porque muito vai mexer em nossa vida. Um Deus que abençoe, que dê saúde, que dê vitória, tudo bem. Traz esta luz para cá. Um Deus que exija, bem, isto é outra história.

Quem é da luz e ama a luz quer luz, e não uma lanterna. “Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que seja manifesto que as suas obras são feitas em Deus” (Jo 3.20-21).

João era uma luz de pouca intensidade, comparado com Jesus. Ele é o sol: “Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça…” (M. 4.2). Fique com o sol, não com uma lanterna.