2ª CARTA DE PEDRO

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para núcleos de estudos bíblicos

Se a primeira carta de Pedro não é muito lida, pregada e estudada em nosso meio, com a segunda a situação é pior. É quase que ignorada em nossos púlpitos. Para piorar, alguns comentários bíblicos são bem mais enfáticos com problemas críticos que com seu conteúdo. O comentário da Almeida Século 21, na sua maneira de argumentar sobre as dificuldades do livro ter sido aceito no cânon do Novo Testamento, por exemplo, é tão desalentador que tira a vontade de estudar a carta. A justificativa para a relutância da aceitação no cânon é tão tênue que nada resolve. Chega a ser surpreendente que uma edição da Bíblia, através de um comentário, deixe mais dúvidas que certeza sobre o valor da Bíblia. Coitada da segunda epistola de Pedro! Ignorada pelos cristãos, desprezada pelos críticos e quase que tolerada pelos comentaristas de uma edição bíblica.

O Manual Bíblico, de Halley, reconhece a dificuldade que houve, mas é mais positivo: “Era reconhecida na Igreja Primitiva como escrito genuíno de Pedro e, através dos séculos, tem sido reverenciada como parte da Escritura Sagrada” (p. 587). Da mesma forma o Manual Bíblico SBB é enfático: “Uma tradição antiga, e o cuidado tomado pelos concílios da igreja antiga no sentido de eliminar documentos considerados falsificações, pesam a favor de Pedro como autor” (p. 752).  Gloag foi feliz ao afirmar: “Devemos recordar que os Pais do século IV, no tempo em que foi fixado o cânon do Novo Testamento, tinham muito mais elementos do que nós para resolverem o assunto, e sabe-se que nenhum escrito podia fazer parte das Escrituras canônicas sem que sobre ele houvesse um cuidadoso exame” (Broadus, História, Doutrina e Interpretação da Bíblia, II, p. 307).

AUTORIA E DATA – Apesar dos comentaristas, a questão da autoria parece se definir logo em 1.1. O autor se apresenta como Pedro. Os críticos alegam que é um caso de pseudonímia, o ato de usar o nome de alguém famoso em sua obra, para justificá-la, evento comum nos tempos antigos. Mas um pouco mais à frente, em 1.16-18, o autor declara que foi testemunha ocular da transfiguração, evento narrado em Mateus 17.  É a segunda declaração interna a favor de uma autoria petrina.  Em 3.1, ele declara ter escrito uma carta anterior. Embora o comentarista da Século 21 diga enfaticamente que não devemos supor que se trata da primeira epístola de Pedro ( por que não?), não é possível imaginar outro autor que não seja Pedro. Além disso, há semelhanças conceituais com a primeira epístola. O estilo literário é diferente, o que pode se explicar por ter Pedro usado amanuenses (redatores de sua narração) A data presumível fica entre os anos 64 e 68, e teria sido escrito não muito após a primeira.

DESTINATÁRIOS – Em 3.1 temos a informação de que os destinatários são os mesmos da primeira carta: os cristãos que estavam espalhados na Ásia Menor. Mas 1.1 sugere que o autor pretendia que seu escrito tivesse um alcance maior: ele se dirige “aos que conosco alcançaram fé igualmente preciosa…”. Parece que deseja alcançar todos os cristãos. Já comentamos isto anteriormente, no estudo da primeira epístola: se Paulo havia morrido, Pedro se sentia responsável pelos cristãos de origem gentílica, que ele havia antes recusado. As heresias estavam avançando e competia aos apóstolos doutrinar as igrejas na revelação de Jesus.

PROPÓSITO DA CARTA – O propósito da epístola é tríplice: (1) Fortalecer os irmãos (capítulo 1, principalmente 1.19); (2) Denunciar falsos mestres (capítulo 2, principalmente 2.1); Orientar os cristãos sobre a segunda vinda de Cristo (capítulo 3, principalmente 3.9-10). Neste propósito tríplice, dois textos parecem ser a espinha dorsal da epístola: 2.1 e 3.1-4. Eles nos ajudam a entender o assunto.

UM ESBOÇO DA CARTA – De estrutura bem simples, esta epístola pode ser esboçada da seguinte maneira, como já delineamos no propósito:

  1. Um estímulo à vida cristã –  1.1-21.
  2. O perigo de falsos mestres –  2.1-22.
  3. A segunda vinda de Cristo e o julgamento – 3.1-18.

Ela termina abruptamente, sem saudações pessoais e sem uma conclusão formal.  A ausência de saudações pessoais não significa nada em termos de inspiração ou de autoria. Pode apenas significar que a carta era geral, talvez uma circular, correndo as igrejas. A ausência de uma conclusão formal também nada indica.

UMA CARTA MODELADA NO SALMO 1? – O Salmo 1 é chamado de “O salmo dos dois caminhos”. Ele sintetiza e é, ao mesmo tempo, um prólogo do Saltério. Ele mostra que há dois caminhos por onde andar. Esta idéia fica presente nestaa obra de Pedro, que também nos fala de dois caminhos. A palavra hebraica para “caminho” é hallaq, que vem do verbo halaq, “andar”. Acabou significando um estilo de vida. A 2Pedro mostra duas maneiras de viver. A primeira, mostrada no capítulo 1, é chamada de “caminho da verdade” (2.2), “caminho direito” (2.15) e, ainda, “caminho da justiça” (2.21). Estas expressões estão no capítulo 2, mas é no início da carta que Pedro fala sobre o procedimento do cristão. O outro caminho, que no Salmo 2 seria o dos ímpios, é o dos falsos mestres, e é apresentado no capítulo 2 e chamado “caminho de Balaão” (2.15). Atente-se para o fato de que, ao falar do caminho de Balaão, Pedro não se refere àqueles que nunca conheceram o Senhor, mas sim de pessoas que foram resgatadas (2.1), mas desviaram-se das veredas da justiça (2.15,20-22).  Balaão era um profeta verdadeiro, mas desviou-se da verdade por dinheiro.

Esta figura de dois caminhos faz parte do ensino bíblico. Desde o Antigo Testamento, com as bênçãos e maldições, até o Novo Testamento, como na conclusão do sermão do monte e em muitas das parábolas de Jesus. Mas na 2Pedro, a teologia do Salmo 1 se faz bem presente.

Cada um destes caminhos tem ponto de partida, modo de caminhar e ponto de chegada, conforme fica evidente na epístola.

1 – Caminho 1 – Um estímulo à vida cristã – 1.1-21 – 1.1-21.  Este capítulo trata da trajetória cristã. O ponto de partida está em 1.4: “… havendo escapado da corrupção que pela concupiscência há no mundo”. Trata-se da conversão. Quem se converte não pode achar que já tem tudo o que Deus pode oferecer. A partir do versículo 5, encontramos uma lista de qualidades ou capacidades que devem ser alcançadas pelo cristão. Quem se converte tem fé. A fé foi alcançada (1.1), mas ela não é um fim em si mesma. Pelo contrário, é o início de uma jornada. Com diligência (ou zelo) (1.5), o cristão deve buscar: virtude (bondade ou bom procedimento), conhecimento, temperança (ou domínio próprio), paciência (ou perseverança), piedade, amor fraternal (fraternidade), amor (ágape).

Estas virtudes são interdependentes e complementares. Elas precisam uma da outra e se completam, uma com a outra. Pedro apresenta um plano de crescimento, o qual deve ser o alvo de todo cristão. É desse modo que a natureza divina se desenvolve em nós (1.4). Não convém ao recém-nascido permanecer como tal. Ele deve crescer. Aliás, ele deixou isso bem claro na 1Pedro 2.2.

A fé sem conhecimento e sem reflexão geralmente degenera em fanatismo e heresia. Por outro lado, o conhecimento sem fé degenera num intelectualismo oco ou em um legalismo cruel. Quem tem fé e conhecimento, mas não tem amor é uma pessoa perigosa, tornando-se manipuladora e até mesmo agressora. Quando Tiago e João quiseram pedir fogo do céu para destruir os samaritanos, eles demonstraram que tinham conhecimento e muita fé, mas nenhum amor ao próximo, nenhuma bondade, nenhuma paciência, nenhum domínio próprio. Jesus impediu aquela tragédia e, mais tarde, aqueles discípulos aprenderam a amar. Não basta que tenhamos conhecimento, nem mesmo poder espiritual. A misericórdia é extremamente necessária. Esta é uma das grandes tragédias da igreja contemporânea. De um lado, a tendência de dimensionar a vida cristã em termos cognitivos e transformar as divergências em campo de batalha. De outro, a tendência de transformar a fé em mero sentimentalismo e sensações, o que dilui a fé cristã ao nível aguado de uma nova era com tintura cristã.

No relato de toda essa experiência cristã, Pedro se vale de diversas termos que podem, no entanto, ser divididos em dois grupos: ações divinas e ações humanas. O início da nossa caminhada se dá pela operação do “divino poder” do Senhor (1.3). A partir daí, o homem tem muito a fazer.

Se Pedro estava exortando (1.12-15) os irmãos a cumprirem a sua parte no que diz respeito ao crescimento espiritual, é para evitar que  eles, depois de tudo o que Deus fez, se sentarem e esperado que Deus fizesse tudo na vida deles. É assim que muitos cristãos sofrem de miopia espiritual, e acabam esquecendo por completo as verdades aprendidas. Há muita gente que se converte, mas pára de crescer. Isto é lamentável.  Devemos caminhar para o crescimento. O texto de 3.18 mostra isto bem.

Nesta epístola, a caminhada rumo ao progresso espiritual é muito bem definida em 3.11-18. É uma chamada à santidade, que vai se desenrolando até o clímax de 3.18, que nos recomenda crescermos na graça e no conhecimento do Salvador Jesus Cristo. Esta é a última recomendação da carta, que mostra que o caminho da justiça é a firmeza em Cristo.

2 – Caminho 2 -O perigo de falsos mestres –  2.1-22.

No capítulo 2, o autor muda para um assunto extremamente oposto ao que estava sendo tratado até então. Seu conteúdo é muito semelhante à epístola de Judas. Não é necessário pensar que um copiou do outro. Os apóstolos não viviam sem contatos entre si, e suas cartas eram conhecidas uns dos outros. Em 3.15, por exemplo, Pedro cita as cartas de Paulo, mesmo sem nominá-las.

No capítulo 1, Pedro falou a respeito dos cristãos fiéis. Agora ele passa a se referir aos falsos mestres, seu caráter, suas obras e o conseqüente castigo. Esses são os que andam pelo “caminho de Balaão” (2.15). Reconhecendo que sua morte estava para suceder (1.14), Pedro se preocupa com seus sucessores, tanto no ministério, como na vivência comum da vida na igreja. Quer alertar bem sobre os falsos mestres. Mas, quem são eles? O que ensinam?

  • Foram resgatados, mas se desviaram (2.1,15,19,20-22).
  • Apesar disto, continuam dentro das igrejas (2.1,13).
  • Estão na liderança (2.2 – muitos os estão seguindo).
  • Seu interesse é o dinheiro,  como Balaão (2.3,14-15).
  • São comparados aos anjos caídos, aos contemporâneos de Noé e aos habitantes de Sodoma e Gomorra (2.4-6).

O ponto de partida desse caminho é o mesmo daqueles mencionados no primeiro capítulo. Já que foram resgatados (2.1), o lugar de onde saíram está identificado como as “contaminações do mundo”, de onde escaparam mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo (2.20). Mas se desviaram da rota traçada pelo Senhor (2.15), sendo envolvidos e vencidos pelo mundo, terminando por se afastarem do santo mandamento de Deus (2.20-21). Mundo, aqui, é um sistema de valores voltados contra Deus, não o mundo social. Pode-se estar na igreja e se ser do mundo. Pode-se ser recluso do mundo social e estar no mundo. Não é lugar. É um modo de vida.

O seu modo de caminhar é identificado através de seu comportamento. O texto apresenta verbos e adjetivos que nos fazem compreender o caráter desses homens:

– Falsos, dissimulados, hereges, destruidores, negam a Cristo, libertinos, avarentos, mentirosos, fazem comércio de vidas, são carnais, seguem paixões imundas, são rebeldes, atrevidos, obstinados, como animais irracionais, blasfemos, injustos, luxuriosos, enganadores, adúlteros, insaciáveis, malditos, vaidosos, arrogantes, inconstantes, escravos da corrupção (2.1-3,10-14,18-19; 3.3). Tais palavras variam um pouco de uma versão bíblica para outra.

– Apesar de todo esse conteúdo maligno, tais homens apresentam uma aparência positiva. Afinal, são líderes, são mestres, e prometem liberdade aos seus seguidores (2.1-2,19). Mas, no final, “são fontes… sem água. São nuvens… também sem água” (2Pe.2.17; Jd.12). O seu aspecto é promissor, mas eles não produziam nada de positivo. Para um povo que vivia em região seca, árida, onde as chuvas eram extremamente necessárias, nuvens sem águas eram inúteis,  um triste engodo. É triste saber disto, mas há cristãos inúteis. Não beneficiam ninguém. São enganadores.

Das muitas características apresentadas, percebemos que se destacam as atitudes desses falsos mestres em relação à autoridade e ao dinheiro. Eles são rebeldes e avarentos, entre outros adjetivos.

O ponto de chegada desse caminho está demonstrado pelas expressões:

  • “… a sentença…” (2.3).
  • “… a perdição…” (2.3).
  • “… inferno…” (2.4).
  • “… cadeias da escuridão…” (2.4).
  • “… juízo..” (2.4).
  • “… destruição…” (2.6).
  • “… o dia do juízo, para serem castigados.” (2.9).
  • “… a negridão das trevas” (2.17).
  • “… o último estado pior do que o primeiro” (2.20).
  • “… juízo e destruição…” (3.7).

3 – A segunda vinda de Cristo e o julgamento – 3.1-18.

Pedro encerra sua obra com um capítulo de ter escatológico, mas sem dissociá-lo da vida cristã. Sua escatologia não é teórica. É o pressuposto à questão: como devemos viver (3.11). depois de ter falado sobre dois caminhos, dois tipos de vida, ele fala sobre a segunda vinda de Cristo (3.4) e, pela perspectiva do juízo, comparando-o ao dilúvio dos dias de Noé (3.7). O dilúvio foi um escaton para aquela geração. Mas o escaton de Jesus é o ponto final da história, e até mesmo do kosmos (v. 12). Sem constrangimento algum, ele comenta a demora da parousia, termo grego que é usada para a segunda vinda de Jesus, e que designa “aparecimento”, geralmente de uma autoridade. Pedro comenta que o tempo de Deus é diferente do nosso. “Um dia para Deus é como mil anos e mil anos como um dia” (3.8).

A segunda vinda demanda duas posturas de nossa parte: fé e paciência. A aparente demora de Deus é manifestação da sua misericórdia. Ele está dando tempo para muitos ainda se arrependam e se convertam (3.9). Devemos crer e aguardar. A vida cristã é uma vida de fidelidade ao Senhor e de expectativa do fim da história. Infelizmente, muito da pregação contemporânea enfatiza mais a fidelidade de Deus para conosco que a nossa para com ele, e as realidades deste mundo mais que as do mundo vindouro. Talvez isso explique porque 2Pedro não é uma carta interessante. Os pregadores do cristianismo aguado de nosso tempo não sabem o que fazer com seu ensino.

O dilúvio foi o julgamento de um mundo ímpio pela água. Pedro diz que o fim desta nossa era se dará por meio de um “dilúvio de fogo”. O apóstolo idealiza um cenário de julgamento iluminado pelas chamas da ira divina. O fogo abrasará (3.10,12), destruirá (3.7) e derreterá (3.12). Serão atingidos: os céus (3.7,10,12), a terra (3.7,10) e todas as coisas que nela há (3.10-11). Semelhantemente ao texto de Apocalipse 21.1, Pedro também fala de novos céus e nova terra (2Pe3.13; Is.65.17). Na realidade, mais que uma nova realidade cósmica, ele está falando de uma nova ordem, pois que a primeira foi afetada pelo pecado (Gn 3.17-18, Rm 8.20-22). Esta é a idéia de novos céus e nova terra: uma nova ordem, não contaminada pelo pecado, regenerada por Deus. É a idéia que Paulo comentara em Romanos 8.18-22.

CONCLUSÃO

Não é uma carta em um estilo brilhante como as de Paulo ou como o livro de Hebreus. Mas é um livro do discípulo que mais de perto privou da companhia de Jesus, e que pode-se presumir, o que mais assimilou os seus ensinos.  O estilo é simples, o autor respeita Paulo, mas tem seu valor pessoal. O texto de 3.17-18, com que ele encerrou sua epístola, é a melhor maneira de terminarmos este estudo. O último ensino de Pedro é que os cristãos se aprofundem na pessoa de Jesus Cristo.  Que estas palavras fiquem conosco.