DEUS E AS RIQUEZAS

 

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24).

 

Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Publicado originalmente pela revista “Você”. Publicado no site por deferência da revista.

 

Como tudo que Jesus disse, aqui há uma profundidade extraordinária. Ele revelava muita sabedoria em suas palavras e nesta declaração nos deixa um conselho que, se observado, muito ajudará nossa vida espiritual, como também a emocional e até mesmo a vida material. Ele trata da nossa relação com os bens materiais. Eles devem ser nossos servos e devem ser usados por nós. Não podem ser nossos senhores nem nos dominar.

Na nossa cultura uma pessoa é feliz e realizada se consegue ter muitas coisas. “Bem-aventurados os ricos, porque eles podem todas as coisas” parece ser a bem-aventurança de nossa sociedade. Por isso, muitas pessoas são dominadas pelas coisas. Elas vivem em função de bens materiais e sempre querem mais. São consumistas, como as filhas da sanguessuga: “A sanguessuga tem duas filhas, a saber: Dá, Dá” (Pv 30.15). Nunca estão satisfeitas com o que tem e sempre desejam mais. O moço rico que queria seguir a Jesus, desafiado a deixar tudo por ele, ficou com o tudo, mas ficou muito triste (“Mas o jovem, ouvindo essa palavra, retirou-se triste; porque possuía muitos bens” – Mt 19.22). Curioso: continuou rico, mas frustrado. As coisas não conseguem encher nossa alma de significado. Há quem tenha muitas coisas, mas não tem paz interior nem segurança espiritual. Isto mostra que há valores mais preciosos que bens materiais. Como cristãos precisamos pensar nisso.

 

ENTÃO, A GENTE TEM QUE SER POBRE?

“Isso quer dizer que só pobre pode seguir a Cristo? Ter bens materiais é pecado?”. Não foi isso que Jesus disse. Devemos ter cuidado ao interpretar as palavras do Salvador. Na Idade Média surgiram as ordens de frades mendicantes. Eles entenderam erradamente o ensino de Jesus. Pediam esmolas para sobreviver e achavam que sendo mendigos estariam mais pertos de Deus. Eles não podiam ter bens porque isso os tornava espiritualmente depreciados, mas os outros precisavam ter bens para ajudá-los. Então, o problema não é a posse de bens, mas o seu uso. Porque alguém precisava ter bens para que eles vivessem!

 

Outras pessoas fazem voto de pobreza para melhor servir a Deus. Respeitamos isso como um compromisso da pessoa com Deus, mas precisamos saber que ser rico não é pecado. Quem sustentava Jesus e os doze discípulos, enquanto eles iam pregando de cidade em cidade? Quem comprava mantimentos? Quem lhes dava dinheiro para comprarem roupas? Havia mulheres ricas que serviam a Jesus com seus bens (Lc 8.3). José de Arimatéia, um homem rico, foi quem tomou providências para sepultar a Jesus (Mt 27.57-60). Barnabé, um homem rico, colocou seu dinheiro para ajudar na igreja (At 4.36-37). Ao longo da história do evangelho, e ainda hoje, muitos crentes de posses têm investido no reino de Deus, sustentando obreiros, construindo templos, mantendo instituições evangélicas.

 

Há muita crítica ao consumismo em nosso tempo. Deus fez o ser humano como consumidor (Gn 1.29). Os animais são consumidores (Gn 1.30). O problema não é consumo. Consumimos roupa, alimento e combustível. O problema é viver em função do consumo. É viver para ter coisas. Quando isso acontece, a pessoa deixa ter bens e os bens passam a ter a pessoa. Os bens não a servem, mas ela serve aos bens. Eles são seu dono, seu senhor.

 

Não temos que ser pobres. Nem viver desesperados para sermos ricos. Pobreza ou riqueza não são virtude ou pecado. São circunstâncias da vida. O mais importante é viver dignamente com o que temos. A Bíblia diz: “Mais digno de ser escolhido é o bom nome do que as muitas riquezas; e o favor é melhor do que a prata e o ouro. O rico e o pobre se encontram; quem os faz a ambos é o Senhor” (Pv 22.1-2).

 

A Bíblia diz: “Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1Tm 6.10). Prestou atenção? Ela não diz que o dinheiro é a raiz de todos os males, mas que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Guardemos, então, isso. Não é o dinheiro, não são os bens, não são as coisas, não é o nosso patrimônio. É o nosso sentimento para com eles.

 

DEUS OU MAMOM?

Algumas versões bíblicas trazem “Não podeis servir a Deus e a Mamom”. Outras trazem esta informação em nota de rodapé: a palavra “riqueza”, no original, é “Mamom”. Não é Mamão, é Mamom. Não era uma divindade, como se afirma. Era a palavra aramaica, a língua de Jesus, para riquezas ou opulência. Nos escritos judaicos, o termo foi personificado, isto é, mostrada como se fosse uma pessoa. A idéia dos contemporâneos de Jesus é que as riquezas agem sobre a vida das pessoas como se fossem alguém, como se fossem gente. O que Jesus diz é bem preciso: ou se serve a Deus ou se vive dominado pelos bens materiais. No sermão do monte ele disse: “Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.21). Se nosso tesouro, que nas palavras dele significam nosso maior bem, estiver nas coisas, nosso coração estará nas coisas. Se nosso bem maior for Deus, nosso coração estará com Deus. Ou com um ou outro.

 

O que Jesus diz aqui é algo que muitos cristãos piedosos descobriram e viveram. Nossa paixão maior dominará nossa vida. Nossas emoções, nossos anseios e nossos atos serão direcionados no rumo dessa paixão. Lembremos de Paulo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2.20) e “Mas em nada tenho a minha vida como preciosa para mim, contando que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Entendeu a questão? Não é o quanto temos ou o que temos, mas qual é a nossa maior paixão. Uma banda de rock? Artistas de televisão? Dinheiro? Todas essas coisas podem trazer boa dose de prazer, mas nunca podem dar o sentido da vida para a pessoa. Só Deus pode. E aqueles que têm uma vida consagrada a Deus e dedicada a seu serviço descobrem uma segurança e uma paz interior que nada pode dar.

 

MAS, COMO VIVER SEM PREOCUPAÇÃO COM DINHEIRO?

Todos nós necessitamos de dinheiro. E, sendo honestos, é melhor ter dinheiro do que não ter. Mas ter riquezas é diferente de ser dominado por elas. E necessitar de dinheiro é diferente de viver em ansiedade por causa dele.

 

Lembra de Salomão? Deus lhe disse para pedir o que quisesse. O que você pediria? Muito dinheiro? Salomão pediu sabedoria para governar bem o povo e desempenhar bem a missão que Deus tinha para ele. Deus não apenas lhe concedeu sabedoria, mas disse-lhe outra coisa: “Também te dou o que não pediste, assim riquezas como glória; de modo que não haverá teu igual entre os reis, por todos os teus dias” (1Rs 3.13). Notou o que aconteceu? Porque ele colocou ser útil a Deus e cumprir sua missão, a missão que Deus lhe designara, de ser rei, recebeu também riquezas, que não havia pedido.

 

Jesus disse isso de maneira admirável: “Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33). Ele nos ensinou que quando colocamos o reino de Deus em primeiro lugar em nossa vida, e não os bens, as demais coisas nos são acrescentadas. Não é preciso viver ansiosos. É apenas necessário viver dentro da vontade de Deus e não ser dominado por Mamom. Lutero disse que “aquilo que domina a vida de uma vida isso é seu deus”. Que nosso Deus seja Deus e não um deus tipo Mamom ou roupas de grife.

 

CONCLUSÃO

Qual é a postura correta com as riquezas? Como devemos nos relacionar com os bens materiais?

 

Agur nos ensina uma boa oração, no livro de Provérbios: “Duas coisas te peço; não mas negues, antes que morra: Alonga de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem a pobreza nem a riqueza: dá-me só o pão que me é necessário; para que eu de farto não te negue, e diga: Quem é o Senhor? ou, empobrecendo, não venha a furtar, e profane o nome de Deus” (Pv 30.7-9). É a medida justa que ele pede. Nem de mais nem de menos.

 

Se, eventualmente, você tiver de menos, lembre sempre de Mateus 6.33. Ponha o reino de Deus em primeiro lugar, e Deus cuidará de você. Se tiver sobrando, lembre-se do exemplo de Barnabé. Não seja dominado pelos bens. E se você subir na vida, e enriquecer, ganhar muito dinheiro de forma honesta, nunca deixe Deus no degrau de baixo, em sua subida. Suba sempre com ele e invista no reino. Contribua para a obra, sustente missionários, ajude pobres, órfãos e viúvas. Não viva para si mesmo. Quem vive para si, além de ser uma pessoa medíocre, perde o sentido da vida. “Quem ama o dinheiro não se fartará de dinheiro; nem o que ama a riqueza se fartará do ganho; também isso é vaidade” (Ec 5.10). E lembre também de 1João 2.17: “Ora, o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre”.