ESTUDO BÍBLICO NO LIVRO DE ECLESIASTES

 

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para grupos de estudo bíblico

 

INTRODUÇÃO

Um livro curioso e dos mais atraentes.  Para alguns, um livro desalentador, mas não é bem assim. É um dos mais ricos e profundos da Bíblia e que exige certo cuidado em seu estudo. O autor mostra caminhos errados para se realizar na vida, e depois mostra o caminho certo. Ao mostrar os caminhos errados, ele não os defende. Isto faz parte de sua estrutura de trabalho. É um livro diferente, num estilo diferente. Ele mostra uma pessoa, que no relato é ele meso, procurando o significado da existência. Frustrou-se com todas as possibilidades. Por fim, descobre como fazer. É assim que o livro caminha.

1. TÍTULO – O título hebraico é Qoheleth e significa “Pregador” ou “Mestre” ou “alguém, um orador público, que se dirige a uma assembléia (de qahal,  congregar) de pessoas”.  Não sabemos se é um nome pessoal, um pseudônimo, ou o título de um ofício.  O termo surge sete vezes em Eclesiastes (1.1,2, 12; 7.27; 12.8,9,10) mas não aparece em nenhum outro livro do AT.  A LXX deu o nome de Eclesiastes (ek,  fora de; klesis,  chamado).  A palavra Igreja no grego é   ekklesía,  “uma assembléia, um grupo chamado fora (separado)”.

2. AUTOR – Não há menção do nome do autor, mas 1.1 o chama “filho de Davi, rei de Jerusalém”.  A única pessoa que preencheria tais características é Salomão, devido à sua sabedoria (Ec 1.16 e 1Rs 3.12; 4.29,30), sua riqueza (Ec 2.8 e 1Rs 10.23-24,27), seus projetos de construção (Ec 2.4-6 e 1Rs 6.1; 7.1) e sua coleção de provérbios (Ec 12.9 e 1Rs 4.32-34).  O autor se identifica em 1.1,12; 2.7,9; 12.9.  Alguns acham que a expressão “filho de Davi” poderia se referir a qualquer descendente de Davi, e que 1.16 e 2.9 não teriam sentido se o autor fosse Salomão.  Assim sugerem que o autor é uma pessoa anônima que está apresentando a sabedoria de Salomão para nossa consideração, e que Salomão é um tipo de “patrono” e “fundador” da tradição de sabedoria. Esta é uma posição que tem ganhado muitos adeptos.

 

3. LUGAR NA BÍBLIA – Eclesiastes é o quarto dos cinco livros poéticos: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares, em nossa Bíblia.  Na Bíblia Hebraica, é o quarto dos  Cinco Rolos (ou Megilloth), como são chamados Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, e Ester.

 

 

LIVRO TIPO DE

LITERATURA

PALAVRA CHAVE FESTA ONDE

LIDO

ASSUNTOS PRINCIPAIS
Provérbios Sabedoria, Didático Sabedoria Nenhuma Sabedoria prática para vida íntegra, piedosa
Eclesiastes Sabedoria, Didático Futilidade Tabernáculos Futilidade no mundo; esperança em Deus
Sabedoria, Didático Provações Nenhuma Sofrimento do justo para seu aperfeiçoamento
Salmos Emoções, Devocional Adoração Nenhuma Oração e louvor a Deus no cotidiano
Cantares Emoções, Devocional Amor Páscoa Amor puro entre dois amantes; Deus e seu povo
Lamentações Emoções, Devocional Destruição Dest.de Jerusalém Lamentação da desolação e do julgamento

 

 

4. DATA – Alguns presumem que Salomão tenha escrito Cantares no início do seu reinado (cerca de 965 a.C.), Provérbios no meio, quando seus poderes intelectuais estavam no auge (cerca de 950 a.C.), e Eclesiastes no final do seu reinado, quando estava decepcionado e desiludido com sua vida mundana (cerca de 935 a.C.).  Se o autor não foi Salomão, o livro pode ter sido escrito por um descendente de Davi entre 800 e 600 a.C., talvez no 4º século a.C.  O Talmude registra que houve objeção inicial da Escola Rabínica de Shammai e de outros rabinos quanto à inclusão de Eclesiastes no cânon da Bíblia Hebraica. Mas estas observações me parecem surgir por causa da dificuldade em lidar com o teor do livro. E pode ser que o livro não seja de Salomão, mas produto de uma escola de pensamento que o teria maturado por longo tempo.

 

5. PALAVRAS CHAVES – Há cinco palavras ou frases chaves que identificam a mensagem de Eclesiastes:

(1) Vaidade (Hb,  hevel) – 39 vezes (33 vezes no restante do AT) =  futilidade, ilusão, vazio, sem sentido, passageiro, efêmero – sem valor eterno. (“Vaidade de vaidades” é uma forma superlativa de se expressar).  Uma paráfrase colocou a frase: “Bolha de sabão, bolha de sabão, tudo é mera bolha de sabão”.

(2) Debaixo do Sol – 29 vezes = terrestre, preso à terra, a visão mundana do homem natural

(3)  Deus , 40 vezes, sempre Elohim, o Deus criador, onipotente, infinito, majestoso; nunca Adonai ou Iahweh (Êx 6.3), o Deus pessoal de pacto, amor, e salvação.  Tudo vem de Elohim (Ec 7.14).

(4) Sabedoria/Sábio (hokhmah e hakham) – 45 vezes, significando um discernimento entre o bem e o mal, uma prudência prática.  A verdadeira sabedoria está numa vida centrada em Deus, pois debaixo do sol, nada satisfaz.

(5) Eternidade  (‘olam) – 7 vezes (1.4; 1.10; 2.16; 3.11; 3.14; 9.6; 12.5).  Contraste: “debaixo do sol” e “eternidade”.

 

6. LITERATURA FILOSÓFICA – Eclesiastes investiga a vida do ponto de vista filosófico.  O livro é uma indagação de alguém que vê apenas futilidade em tudo ao redor de si até seus olhos se abrirem para contemplar sentido na vida ao tomar em conta a existência de Deus.  Assim, muitas afirmações de Eclesiastes têm causado perplexidade e interpretações errôneas, pois suas perspectivas e seus propósitos não foram analisados dentro do contexto em que o livro foi escrito.

 

A filosofia é “o estudo que leva à compreensão da realidade na sua inteireza”; ou dito de uma forma mais simples, “a busca do homem pela verdade”.  Existem duas escolas principais de pensamento na filosofia:  1) Empirismo, e  2) Racionalismo.  O empirismo ensina que a experiência humana, principalmente através dos cinco sentidos – tato, olfato, ouvido, visto, paladar – é a única fonte do conhecimento; isto é, o homem pode saber somente o que ele experimenta.  O racionalismo ensina que o raciocínio humano é a fonte primária do conhecimento e da verdade espiritual; isto é, o homem pode saber somente o que ele compreende mentalmente.  Foram René Descartes (1596-1650), com sua filosofia Cogito, ergo sum – “penso, logo existo”, e Isaac Newton (1642-1727) com seu método científico, que iniciaram a era moderna do Humanismo/Racionalismo, baseado no  Iluminismo e na Renascença de 1350-1650 d.C.

 

O movimento Nova Era, nos últimos anos, está tentando introduzir uma terceira opção na Era Pós-Moderna.  Rejeitando o paradigma cartesiano/newtoniano do raciocínio, este movimento ensina que o homem experimenta a realidade, não através dos cinco sentidos e certamente não do raciocínio e da lógica, mas mediante técnicas místicas, esotéricas, ocultistas, como meditação transcendental, ioga, zen, etc.. Estas técnicas o levariam a uma “experiência cósmica”, isto é, a um “estado alterado de consciência” onde ele se identifica completamente com a única realidade e verdade que existe – a energia cósmica.  Parando de raciocinar, de objetivar, de ser científico, o homem experimenta a realidade dentro de si mesmo de uma forma intuitiva, subjetiva, mística, pois ele é apenas uma “manifestação” desta realidade – energia cósmica.

 

O livro de Eclesiastes registra as observações, reflexões, pesquisas, experimentações de Qoheleth, que buscou em vão a realidade e a verdade através do racionalismo (raciocínio) (Ec 1.13,16-18; 2.12-16) e do empirismo (experiência) (Ec 2.1-11).  Em ambas as indagações ele sempre se frustrou, concluindo que “tudo é futilidade” (Ec 1.2,14; 2.11,21,23; 12.8).  Nesta busca, então, ele descobriu que a verdade essencial está em Deus e que tem que vir por Revelação Divina.  Entendido desta forma, nem tudo expresso em Eclesiastes é verdade.  A Bíblia não contém erros, mas a Bíblia registra erros.  São coisas diferentes e que devem ser bem entendidas. Isso de forma alguma fere a doutrina da inspiração das Escrituras.  Afirmações como as que lemos em Eclesiastes 1.18; 2.24; 3.19-21; 7.1,16; 9.2-3,5,10-11 são conclusões lógicas do filósofo humanista, do homem natural, sem a luz da revelação divina.  O autor não é um homem assim, mas no seu raciocínio mostra como pensa um homem assim. No final de várias conclusões sobre a futilidade debaixo do sol, o Qoheleth reconhece a Deus e faz  uma interpretação de outra perspectiva da vida (Ec 2.24-26; 3.10-17; 5.19; 8.17; 9.1; 11.9; 12.1,13-14.  Assim, Eclesiastes confirma o vazio de tudo à parte de Deus, como fazem outros trechos bíblicos – 1João 2.15-17, Mateus 6.19-21, Tiago 4.1-4 e Colosenses 3.2.

 

7. AS DEZ VAIDADES (FUTILIDADES) – São dez as vaidades (futilidades) que levam à frustração na vida:

1) Ec 2.15-16 – Futilidade da sabedoria humana – Os sábios e os estultos têm o mesmo fim – a morte.

2) Ec 2.19-21 – Futilidade do trabalho humano – O esforçado no final não tem vantagem sobre o ocioso.

3) Ec 2.26 …. – Futilidade do propósito humano – O homem propõe, mas Deus dispõe.

4) Ec 4.4 …… – Futilidade da rivalidade humana – Muito sucesso traz mais inveja do que alegria.

5) Ec 4.6-7…. – Futilidade da avareza humana – Ter muito alimenta a cobiça.

6) Ec 4.16 …. – Futilidade da fama humana – Ela é breve, incerta, e logo esquecida.

7) Ec 5.10 …. – Futilidade da riqueza humana – Ela não satisfaz; o aumento somente alimenta outros

8) Ec 6.9 …… – Futilidade da cobiça humana – O lucro muitas vezes não pode ser desfrutado, apesar do desejo.

9) Ec 7.6 …… – Futilidade da leviandade humana – Ela apenas camufla o triste fim inevitável.

10) Ec 8.10,14 – Futilidade do galardão humano – Troca de galardão: o mal é honrado; o bem é desprezado.

 

8. O TEMA – FUTILIDADE DEBAIXO DO SOL, MAS SIGNIFICADO DE VIDA EM DEUS – A chave para se entender o livro é 12.3.

 

9. O PROPÓSITO – Mostrar a futilidade de estabelecer alvos materialistas, terrestres, como fins em si mesmos para dar significado à vida, e apontar a Deus como a fonte de toda realidade/verdade e a vida centrada nele como a única satisfatória.

 

10. O ESBOÇO  -

INTRODUÇÃO – 1.1-11

I. A BUSCA DA REALIDADE E VERDADE PELA EXPERIÊNCIA PESSOAL …………..1 – 2

1. A procura na sabedoria ………………………….         1.12-18

2. A procura no prazer ………………………………          2. 1-11

3. A comparação dos dois …………………………..        2.12-26

II. A BUSCA DA REALIDADE E VERDADE PELA OBSERVAÇÃO GERAL ……………..3 – 5

1. A predeterminação da vida ……………………..        3.1-22

2. Os males e enigmas da vida …………………….        4.1-16

3. Os conselhos na luz destas observações ……..       5.1-20

III. A BUSCA DA REALIDADE E VERDADE PELA MORALIDADE PRÁTICA ………… 6 – 8

1. As coisas materiais não satisfazem …………..         6.1-12

2. A moralidade é um caminho melhor …………        7.1-8.8

3. As irregularidades da vida ………………………        8.9-17

IV. A BUSCA DA REALIDADE E VERDADE REVISTA E CONCLUÍDA …………………..9 – 12

1. Conclusões humanas ……………………………..         9.1-11.8

2. Conclusões espirituais ……………………………         11.9-12.14

 

11. O PESSIMISMO E CETICISMO DE ECLESIASTES -  O livro expressa certo pessimismo, talvez mesmo de Salomão, mostrando provavelmente a própria decepção e desilusão de uma pessoa materialista (veja, por exemplo, Eclesiastes 7.26-29).  Seu pessimismo tem três causas:

1) Ele vivia a vida egoisticamente em vez de socialmente – Vivia para TER em vez de SER ou DAR. O paradoxo da vida é que quanto mais a pessoa obtém, tanto menos ela realmente tem; quanto mais ela dá, tanto mais recebe; quanto mais ela vive por sua própria felicidade, tanto menos é feliz (Dt 15.7-10; Pv 11.24; 19.17; 22.9; 21.13; 28.27; Ec 5.13; Jr 17.11; Mc 8.35; 10.29-31).

2) Ele viu a vida como algo separado de Deus em vez de controlado por Ele (Ec 9.11)

3) Ele viu a vida terminar com a morte em vez de ter um destino além (Ec 3.19-22; 9.5,10).

 

É possível verificar que o autor buscou o sentido da vida. Este é o tema contextualizado do livro: onde está o sentido da vida?  Procurou por ele:

 

(1) Nos prazeres (2.1 e 3)

(2) No poder (2.7)

(3) Nas riquezas (2.9-11)

(4) Na sabedoria (2.13-17 e 12.12)

(5) No trabalho (2.20-23).

 

12. CONTRASTE COM PROVÉRBIOS – Enquanto Provérbios aplica a sabedoria no benefício prático de uma vida dirigida por Deus, Eclesiastes aplica a sabedoria no objetivo filosófico de entender o significado da vida.  Ele indaga o “porquê” da vida.  Valeu a pena ter vivido?  No  epílogo (Ec 12.13-14) ele chega à conclusão certa e final.

 

13. A REJEIÇAO DO NATURALISMO E DO HUMANISMO – Nenhum outro livro da Bíblia é mais específico na rejeição do naturalismo e do humanismo.  O autor expõe a futilidade de uma filosofia de vida baseada apenas na sabedoria natural, e mostra como a sabedoria, riquezas e prazeres resultam em desilusão, se procurados como sendo um fim em si mesmos.

 

14. O PROCESSO DE ENVELHECIMENTO -  No capítulo 12, há uma descrição do processo de envelhecimento: vv. 2-8. “Os maus dias” (v. 1) são a velhice. V. 2:  o calor da vida está indo embora. “Guardas da casa” são os braços. “Homens fortes” são as pernas. “Moedores” são os dentes.  “Olham pela janela”, os olhos. “As portas da rua”, os ouvidos.  “For baixo o ruído da moedura”, a boca, com poucos dentes, a pessoa mastiga pouco. Não havia prótese dentária naquela época. “Levantarmos à voz das aves” mostra o ancião que acorda cedo. “As filhas da música ficarem abatidas” retrata  a surdez. “Temerem o que é alto” mostra o pouco fôlego do ancião para subir ladeiras. “Florescer a amendoeira” mostra os seus cabelos brancos. “Gafanhoto for um peso” se refere à sua pouca força física.  “Falhar o desejo” significa que cessou o impulso sexual. “Homem se vai à casa paterna” é uma figura para designar a partida para a eternidade. “Pranteadores” são as carpideiras profissionais. Como agentes os agentes funerários hoje.   No versículo 6 aparecem quatro figuras da morte.  “Quebre o copo de ouro” é uma figura que aparece em 2001, Uma Odisséia Espacial.Um copo se quebra, na cena final do filme.

 

CONCLUSÃO

O livro tem um tom melancólico e no final se encaminha para o desespero: 12.8 é o fim da argumentação existencial, de crise. Então vem a resposta para o uso da vida. Começou em 12.1 e conclui em 12.13. Conferir com Salmo 37.25 e 2Timóteo 4.7-8. Estes versículos respondem à questão do autor de Eclesiastes.