MINISTÉRIO PASTORAL: FIRME E CONTEMPORÂNEO – ESTUDOS NAS EPÍSTOLAS PASTORAIS

MINISTÉRIO PASTORAL: FIRME E CONTEMPORÂNEO – ESTUDOS NAS EPÍSTOLAS PASTORAIS

4º. ENCONTRO ANUAL DA ORDEM DOS PASTORES BATISTAS DO BRASIL – TOCANTINS

ACONTECIDO EM PALMAS, 27 A 29 DE SETEMBRO DE 2012

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

OBSERVAÇÃO: Este material foi preparado para o encontro com os pastores do Tocantins, e para discussão com eles. Seu uso fora do ambiente para o qual foi preparado carece de, pelo menos, uma autorização do autor.

A 1ª. EPÍSTOLA A TIMÓTEO

As duas cartas dirigidas a Timóteo e a carta a Tito são costumeiramente chamadas de “epístolas pastorais”. Mas todas as epístolas de Paulo foram pastorais, porque foram escritas por um pastor e com finalidade pastoral. Mas estas são assim denominadas porque foram diretamente escritas a dois pastores, para tratar de questões atinentes à vida das igrejas e dos pastores da época, bem como com orientações para a vida deles. Elas foram produzidas no fim da vida de Paulo, quando ele se preparava para morrer e queria deixar os dois jovens pastores bem firmados (2Tm 4.6-9). O tom é bastante sentimental e em alguns momentos chega a ser melancólico, de alguém que se despede (2Tm 6.20). O conteúdo é rico mostra como era a vida das igrejas, não apenas em termos de doutrina, mas muito mais de formação de liderança. Neste primeiro momento, cuidamos da primeira carta a Timóteo. Este foi um dos pastores mais destacados da igreja primitiva, sendo neto e filho de mulheres cristãs (2Tm 1.5). Ele fazia parte da terceira geração de cristãos, portanto. Parece que foi Paulo quem o evangelizou, porque o chama de “filho na fé” (1Tm 1.1). O apóstolo o considerava mais que um filho na fé. Tinha-o como um verdadeiro filho (2Tm 1.2). Dito isto, vamos à carta.

 

O CONTEÚDO GERAL DE 1TIMÓTEO

O conteúdo é diversificado, mas a maior parte trata da vida da igreja, em termos de funcionamento, e não de teologia. Ele relembra seu passado de perseguidor da fé cristã e como a graça de Deus o transformou (1.12-14). Deus fez isto com ele para ele servir de exemplo: v. 16. É muito bom quando podemos servir de exemplo para os demais. Não em termos de sermos melhores, mas podermos mostrar como Deus agiu na nossa vida. Isto nos traz à mente o valor de uma vida transformada que pode ser testemunho para os outros. A nossa vida, como pastores, pode ser um exemplo para nossas ovelhas? A influência de uma vida tocada pela graça de Cristo é muito grande.

Em 1.15 ele começa a falar do que Deus fez na sua vida, mas deixa uma boa mensagem da obra de Cristo: ele veio para salvar os pecadores. O ministério de Jesus fica bem claro, aqui. E ele corrobora isto em 2.5. A palavra “mediador”, no grego, é mesités, “alguém entre”, que significa “quem faz a ligação”. Cristo fez a ligação, a ponte para chegarmos a Deus, o Pai.

Paulo deixa um ensino que não observamos com seriedade. Falamos muito mal de nossa classe política (e é verdade que ela se esforça para fazer jus a isto), mas vejamos sua recomendação em 2.1-3. Não é que devemos apoiar este ou aquele político, mas que devemos exercer o ministério da intercessão. A igreja é chamada à intercessão pelo mundo. Deve cultivar a oração, como lemos em 2.8. “Levantar (epaíro) as mãos” era um gesto de rendição, na cultura oriental. Ao fazê-lo, a pessoa mostrava que não possuía armas nas mãos. Ela as erguia, exibindo-as e aos braços: sem armas. Há pessoas, hoje, que fazem questão de levantar as mãos quando cantam ou quando oram. Tudo bem. Gosto é gosto. Mas em algumas igrejas é até um shiboleth. Quem não fizer assim corre risco de ser visto como “tradicional”, um termo que, na melhor das hipóteses, tem o sentido de um “crente frio, sem vida”. A questão, para nós, não é imitar o gesto, mas reproduzir o sentimento que o gesto expressava. Podemos levantar as mãos, gestualmente, mas estarmos com o coração amargurado e insubmisso. A questão é essa: oração deve ser sem espírito de contenda. Orar intercessoriamente é um mandamento para todos nós.

A seguir ele fala da mulher (2.9-15). Sua visão é tipicamente oriental, de subordinação da mulher ao seu marido. Seu valor era quase que nulo naquela cultura. Seu grande mérito era ter filhos (v. 15). Por vezes, penso que o apóstolo não aprofundou sua doutrina da graça neste aspecto. Ele mostra mesmo má vontade para com as mulheres. Fico com a impressão de que não se pode negar isto. Alguns podem até ficar chocados com esta minha afirmação, mas assim me soa.

O capítulo 3 trata das qualificações dos pastores (3.1-7) e dos diáconos, os auxiliares do pastor (3.8-10). O texto em 3.11 alude à mulher do diácono, porque os versículos 12-13 voltam a falar do diácono. Paulo nada fala da mulher do pastor. Alguns comentam que fez isto porque ele mesmo não era casado e nem Timóteo o era. Não que fosse proibido o pastor casar-se, porque Paulo recomenda que o pastor tenha família (v. 4). Mas ele e Timóteo eram missionários, eram itinerantes, vivendo praticamente cada ano num lugar diferente. Talvez uma família não lhes fosse conveniente. Aliás, uma esposa de Paulo sofreria muito vendo o marido ser espancado, fugitivo, ameaçado de morte, naufragando, etc. Leiamos, em 2Coríntios 11.22-28 uma breve descrição de Paulo sobre sua luta como obreiro. Carregar uma mulher para estas situações seria muito problemático. Muitas de nossas esposas nos veem passar por dores não físicas como as de Paulo, mas veem nossas angústias e como somos machucados.

Embora estivesse perto da morte, Paulo não entregara os pontos. Ainda pensava em fazer uma viagem, como lemos em 3.14. Outra boa lição: enquanto se pode viver, viva-se. E um obreiro cristão só para de trabalhar quando morre. O texto de 4.1-16 traz várias exortações do Pastor Paulo ao Pastor Timóteo, em termos de cuidado pessoal. É importante isso, porque há pastores que são meio grosseiros no trato com as ovelhas. Em 5.1-6, as orientações são como Timóteo deve tratar os velhos e as viúvas. As viúvas eram assistidas pelas igrejas, que as sustentavam, por isso a orientação em 5.9-13. Mais uma vez se vê que Paulo tinha algumas dificuldades com o casamento (vv. 11-12). O texto de 5.17-19 trata da relação entre o pastor e a igreja. Aqui, o pastor é chamado de “ancião”. O grego é presbyterós e traz a ideia de uma pessoa que tem dignidade concedida pela idade. Antes, Paulo falou de como o pastor deveria ser. Agora, de como a igreja deve se portar, inclusive na questão do sustento.

Parece que quando Paulo escreveu os ricos já tinham entrado em bom número na igreja, à luz das recomendações de 6.10 e 17. O cristianismo começou com pescadores e logo se esparramou por todas as classes sociais, em todo o mundo. Aliás, é impressionante o poder propagador do evangelho. Mas o ponto a ressaltar aqui é que não é verdade que o cristianismo era uma ideologia de escravos. Veja-se, a propósito, Filipenses 4.22. Isso mostra que o evangelho tem poder de penetrar em todas as camadas sociais e econômicas.

Por algum motivo Paulo exorta Timóteo a usar de autoridade (4.11, 5.7 e 5.17). Especula-se que ele fosse um jovem tímido e Paulo queria exortá-lo a ter autoridade, mas isto é suposição. Com base nisso muita gente acha que Timóteo era um fracote. Num artigo que escrevi sobre este jovem pastor e que intitulei de “Timóteo, a fé não fingida”, fiz esta observação: “Normalmente, a imagem que fazemos de Timóteo é de um jovem fraco e enfermiço, por causa da declaração de Paulo: ‘por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades’ (1Tm 5.23). Até mesmo Stott, autor criterioso, o dá como ‘de estrutura física fraca, de disposição tímida…’. Segundo Fairbain, Timóteo era ‘mais inclinado a ser comandado do que a comandar’. De onde Stott e Fairbain tiraram estas ideias?

O mais correto é pensar que Timóteo fosse uma espécie de supervisor de pastores, porque é ele quem impõe as mãos, consagrando-os ao pastorado (5.23), como Paulo fizera com ele (2Tm 1.6). Há uma recomendação curiosa em 5.17, que mostra a atividade de Timóteo. Paulo diz que os pastores que desempenham bem o seu trabalho devem receber “duplicada honra”. O grego é diploís timé, “duplos valores”, literalmente. A Linguagem de Hoje traduz por “merecem pagamento em dobro”, que é o sentido literal do texto. Mas isto está sendo dito para Timóteo e não para as igrejas. Parece que Timóteo, além de consagrar os pastores, fazia pagamentos aos pastores. É provável que ele recebesse as ofertas das igrejas, sobre as quais Paulo fala em outras cartas, e as distribuísse. O certo é que as pistas mostram que Timóteo tinha alguma relevância na vida administrativa das igrejas. A eclesiologia da igreja ainda era incipiente.

O PROBLEMA DOS FALSOS MESTRES

Paulo orienta Timóteo contra os desvios doutrinários. Este sempre foi um dos maiores problemas da igreja: as heresias. Primeiro, a igreja devia ter boa conduta, como lemos em 1.8-11. Estas heresias incluíam a pregação do celibato e a abstinência de alimentos (não se pode casar e não se pode comer isto ou aquilo), como lemos em 4.2-3. Isto é doutrina de demônios (4.1). Tudo que Deus criou deve ser desfrutado (4.4-5). Não é o rigor no tocante à comida (um lembrete aos comilões: não se aproveitem para comer demais, por causa disto) que nos faz mais santos.

Esses falsos mestres se preocupavam com genealogias intermináveis (1.4). Provavelmente eram os judeus, querendo remontar sua origem a vultos do passado, no seu esforço para ter mais autoridade na Igreja, por causa disso. Esta era uma prática dos sacerdotes e rabinos, a de alistar seus antepassados. Lembro-me de colegas do seminário, orgulhosos de seus sobrenomes estrangeiros! Cá para nós: se o mérito de uma pessoa está nos seus antepassados, ela é muito fraca! Estes homens queriam ser grandes, mas eram ignorantes (1.7 e 6.4). A tentativa de se impor aos outros, mostrando-se mais espiritual e possuidor de verdades que os outros não possuem, não é algo novo. E deve ser rejeitado. O padrão não é domínio, mas o serviço, como Jesus mostrou na sua vida e como lemos em Marcos 10.45. Nós insistimos em querer ser grandões. Achamos que isto é sinal de importância. Aos olhos humanos pode ser. Aos olhos de Deus o importante é aquele que serve.

O VALOR TEOLÓGICO DA CARTA

A carta não é apenas para os pastores. Ela mostra como a igreja deve se organizar e desenvolver, para executar sua missão. Mostra como os pastores e diáconos devem ser e como as igrejas devem tratar os pastores. Mostra o nível de autoridade pastoral. Mas mostra como a igreja deve resistir às doutrinas exóticas, e firmar-se na Palavra.

A 2ª. EPÍSTOLA A TIMÓTEO

Já vimos que Timóteo foi um dos pastores mais destacados da igreja primitiva, sendo neto e filho de mulheres cristãs (2Tm 1.5). Ele era a terceira geração de cristãos, portanto. Paulo o chama de “filho na fé” (1Tm 1.2), mas quando o conheceu ele já era convertido (At 16.1). Talvez “filho na fé” seja porque Paulo o discipulou e o encaminhou no ministério (At 16.3). Em Atos 16.4, parece que Timóteo já estava acompanhando Paulo, pois o sujeito deixa de ser “ele” (v. 1) e passa a ser “eles”. Em Atos 16.6 se diz “Paulo e seus companheiros” (King James). Na segunda carta, a que estudamos neste momento, o trato é mais pessoal, ainda, que na primeira. Paulo o considera como um verdadeiro filho (2Tm 1.2). Dito isto, vamos à carta.

 

A AÇÃO DE GRAÇAS – 1.3-5

Paulo tinha boa recordação de Timóteo e da sua família (vv. 4-5). E intercedia por ele (v. 3). Impressiona em Paulo este sentimento de responsabilidade pelas igrejas, orando por elas. Todas as suas cartas começam com uma palavra dele que está orando por aqueles irmãos. Talvez a oração intercessória seja uma das práticas mais esquecidas na vida das igrejas de hoje. Esta figura do pastor como sendo um sacerdote, no sentido de ser um intercessor, precisa ser recuperada por nós. Levo a sério quando uma de minhas ovelhas me pede que ore por ela. Vou fazê-lo mesmo! Devemos orar pelos nossos rebanhos! Isso nos ajuda a amá-lo e eles confiam em nós.

 

VERGONHA, NÃO! – 1.6-14

Neste bloco de versículos em que trata do zelo e da firmeza pelo evangelho, duas vezes Paulo fala de não ter vergonha. Primeiro, é Timóteo quem não deve se envergonhar (v. 8). De duas coisas. Uma, do evangelho. Outra, da prisão de Paulo. Pelo contrário, convida Timóteo a participar dos sofrimentos a favor do evangelho. Numa época em que só se prega felicidade, o apóstolo lembra que sofrer pelo evangelho não é vergonhoso. A igreja primitiva encarou isto como motivo de orgulho (At 5.41). Depois, é Paulo quem não se envergonha de sua prisão (v. 12). Vergonha se deve ter nas condições mostradas em 1Pedro 4.15. Mas, sofrer pela fé, não. Veja, a propósito, 1Pedro 4.16. Lembremos, nestes dias, do Pr. Youcef, preso e condenado pelos muçulmanos, e que só foi libertado pela intensa pressão mundial.

Timóteo foi consagrado ao ministério pastoral por Paulo (v. 6) e deveria guardar isto como um tesouro (v. 14). Como Paulo estava guardando o seu (v. 12), ele que fora designado pregador, apóstolo e mestre (v. 11) por Cristo. De tudo isto se ressalta a convicção que uma pessoa deve ter no serviço cristão. Quem tem desejo de servir a Deus deve encarar esta vocação como um tesouro, guardá-lo e nunca permitir que as contrariedades o façam desistir.

Não pode passar despercebida a declaração do v. 9. Deus já preparara graça para nós, em Cristo, antes dos tempos eternos. A salvação em Cristo não é um ato impensado ou um “estalo” repentino de Deus. É algo planejado desde a eternidade. Lembremos-nos de Apocalipse 13.8. É bom recordarmos isto. Os atos de Deus por nós, na pessoa de Cristo, são o alicerce da vida cristã.

 

A SITUAÇÃO DE PAULO – 1.15-18

Os verdadeiros amigos se conhecem no momento da crise. Quando Paulo foi preso alguns de seus colaboradores o abandonaram (v. 15). Demas, dirá ele mais, tarde, se enamorou do mundo e deixou a carreira de pregador e o abandonou (4.10). Mas Onesíforo foi atrás de Paulo, procurou-o pelas prisões de Roma até achá-lo (vv.16-17). Onesíforo significa “portador da luz”. Fazia justiça ao seu nome. Cada obreiro cristão deveria ser um portador da luz para os que sofrem, tentando ajudá-los.

EXORTAÇÃO À FIDELIDADE – 2.1-13

A exortação é para que Timóteo seja fiel. Três exemplos são dados. O primeiro: o soldado que quer agradar o comandante (2.4). A figura é militar e evoca lealdade e dedicação. O serviço a Cristo deve ter estes dois ingredientes. O segundo: o lutador que segue as regras da luta (2.5). Isto evoca disciplina, bem como obediência. O serviço a Cristo requer disciplina e obediência. Disciplinar o temperamento (Paulo, várias vezes, tenta levantar o ânimo de Timóteo) é necessário. Paulo era colérico, antes de sua conversão, como vemos em Atos 9.1. Timóteo parecia tender para a melancolia, pelas exortações que lhe são dirigidas. Um temperamento disciplinado por Deus é necessário. Terceiro: um agricultor que trabalha com afinco (um agricultor não pode ser displicente) e que deve desfrutar do seu trabalho (2.6). O texto de 2.11-13 tem a semelhança de uma doxologia ou de um hino. Parece haver um choque entre os versículos 12 (se o negarmos ele nos nega) e o 13 (se somos infiéis ele continua fiel). É que tratam de aspectos diferentes. Se o negamos, no sentido de não o confessarmos como Senhor, ele não age em nossa vida. Ele não aceita quem não o aceita. Leia Mateus 10.33. Mas, se o aceitamos, mesmo quando falhamos, está empenhado conosco. Este é o sentido mais coerente de 2.13.

 

EVITANDO HERESIAS – 2.14-26

Havia muita falação religiosa naquela época. Paulo exorta Timóteo a evitar isto. Vejamos os textos de 2.14, 16 e 23. Um obreiro tem mais o que fazer que ficar batendo boca: 2.24. A síntese da fé cristã fora dada por Paulo em 1Timóteo 1.15 e 2.5. O resto é acessório. Mas é provável que se trate dos famosos judaizantes, que perseguiram Paulo por todo o seu ministério.

Os hereges a quem Paulo se refere, além de amarem uma discussão, anunciavam que a ressurreição já acontecera (2.18). Este grupo deveria ser de gnósticos, os esotéricos da época. Parece que alguns ensinavam que a ressurreição dos mortos, tão bem exposta por Paulo em 1Coríntios 15, era um evento privado. A pessoa morria e ressuscitava, após esta morte, no céu. Negava-se, assim, a grande ressurreição anunciada pelo evangelho.

 

AS COISAS VÃO PIORAR! – 3.1-9

Se já estavam ruins, as coisas iriam piorar. O texto de 3.1 a 5 mostra como a sociedade se tornaria em tempos próximos ao fim. Qualquer semelhança com a nossa não é mera coincidência. Paulo compara tais pessoas aos opositores de Moisés, dando-lhes nomes (que o livro de Êxodo não menciona – ele cita da tradição judaica da qual era profundo conhecedor, como fariseu como fora) e diz que não irão avante (3.9).

 

TU, PORÉM – 3.10 a 4.5

Há uma descrição dessas pessoas pervertidas. Em contrapartida, há três “tu, porém”, quando ele se refere a Timóteo. Ele contrasta como os falsos mestres são e como Timóteo deve ser. O primeiro está em 3.10. Que Timóteo olhe para Paulo e veja a sua seriedade e sinceridade e o imite. Quem quer servir a Deus e viver uma vida santa não deve pensar que não sofrerá (3.12). O segundo está em 3.14. Que Timóteo permaneça firme nas Escrituras, “as sagradas letras” (v. 15). Os versículos 16-17 mostram a eficácia da Palavra de Deus na vida da pessoa. Em vez do blá-blá-blá dos hereges, firmeza na Palavra, é o conselho de Paulo. Em nome de Cristo, Timóteo deve pregá-la em meio ao alarido de novidades (4.1-2). Muita gente, ainda hoje, tem coceira nos ouvidos e adora novidades e exotismo. Paulo insiste na firmeza na Palavra de Deus. Ela foi “inspirada” por Deus (3.16). O grego é theopneustos é significa “soprada por Deus”. O que o apóstolo quer dizer é que Deus soprou suas palavras para o texto. Esta é a doutrina da inspiração: o texto bíblico foi soprado por Deus. Contém seu sopro. É significativo que tanto “Espírito” como “sopro” são no hebraico, a mesma palavra: ruah. E no grego também acontece isto: pneuma serve para “sopro” e “Espírito”.

O v. 5 é notável! Um chamado ao equilíbrio (KJ: “sê equilibrado em tudo”). Quanto problema por desequilíbrio emocional ou espiritual do pastor! Há obreiros que se portam tresloucadamente! “Suporta as aflições” (kakopathéu, “sentir o mal”, com a ideia de sofrimento) mostra que o sofrimento faz parte do ministério pastoral. “faze a obra de um evangelista” seria, literalmente “mostra como prova a tua diakonía”. O termo “ministério” e “ministro” nos soa pomposo. Mas gostamos de dizer que “diácono” é servo, principalmente para enquadrar os diáconos. O pastor é um diácono, um servo, e não o dono da igreja. Meu amigo. Pr.Tarcisio, de Divinópolis, conclui suas pastorais com a assinatura “servo dos servos do Senhor”. Há pastores que pensam ser donos dos servos do Senhor.

 

O FIM VEM – 4.6-18

Paulo sente que o fim está chegando. Segundo alguns, sua situação diante do império romano (ele fora considerado como sedicioso) já fora definida e a condenação era certa. Por isto ele fala de sua morte por vir, em 4.6-8. “Libação” era o vinho derramado ao redor do altar, nos sacrifícios do Antigo Testamento. Sua vida e morte eram uma oferta a Deus que ele fazia. Sua dedicação não consistia de palavras, de doação da própria vida. Cada pastor deveria oferecer sua vida como um sacrifício a Deus, como um ato de culto.

Paulo amadurecera. Anteriormente brigara com Barnabé por causa de Marcos (At 15.36-39). E cá pra nós: sinto-me inclinado a dar razão a ele. Agora pede que Marcos venha ter com ele. A questão é um desafio para nós. Há obreiros que nunca amadurecem em termos relacionais. E justificam sua imaturidade como sendo zelo pelo Senhor. Nunca aprendem a perdoar, a refazer relacionamentos, a esquecer pontos negativos do passado. Há obreiros que estão sempre brigando com os demais. Deixam um astro de inimizades por onde passam. Pode ser que sua atitude seja de zelo, mas é oportuno recordar que há “zelo sem entendimento” (Rm 10.2).

Não bastassem as dificuldades próprias do ministério, Paulo ainda tinha que tolerar certos membros da Igreja, como Alexandre (v. 14). O grande problema do ministério pastoral são os crentes alexandres! Todos nós enfrentamos alguns alexandres em nossos ministérios. Mesmo assim Paulo confia que Deus o guardará (4.18). Só Deus mesmo para nos guardar dos “alexandres” e das “alexandras” de nossas igrejas…

 

O FINAL DA CARTA

As saudações costumeiras surgem no final da carta. Priscila é chamada pelo seu nome “Prisca”, e não pelo diminutivo. Seu nome precede o do marido. Paulo devia ter muita intimidade com o casal, para chamá-la, em cartas anteriores, de Priscila (o diminutivo) e por colocar seu nome antes do nome do marido. Mas o casal já hospedara Paulo anteriormente (At 18.1-30). O evangelho leva a fazer amizades que atravessam os anos e torna as pessoas como se fossem uma família. Além do sentimento do apóstolo por este casal, sua afeição por Timóteo mostra isso. A palavra final é a bênção com que ele encerrava as cartas (2Tm 4.22). Primeiro, uma bênção pessoal a Timóteo (“teu espírito”) e depois uma bênção para todos os que com ele estavam (“convosco”). Mesmo no meio das provações e com a morte se avizinhando, Paulo tinha ânimo para abençoar os outros. Uma oportuna lição para nós, que desejamos muito ser abençoados, mas nem sempre queremos ser ou abençoar os outros.

 

A EPÍSTOLA A TITO

A carta a Tito tem data ao redor de 62 a 64, e deve ter sido escrita, portanto, durante a quarta viagem missionária de Paulo. Foi produzida na Macedônia (3.12). Tito não era judeu, mas grego, tendo sido ganho para Cristo por Paulo: Gálatas 2.1-3 e Tito 1.4. A decisão paulina de não circuncidar Tito está em consonância com Atos 15 e é um exemplo vivo do novo tempo do evangelho, de liberdade da lei (Gl 1.4). Não fosse esta carta seria ele um personagem obscuro, mencionado apenas de passagem. Atos omite seu nome. Mas ele foi um grande homem de Deus e pode nos lançar luzes sobre nossa conduta como homens de Deus.

 

A FIGURA DE TITO

Parece que ele acompanhou Paulo na segunda e terceira viagens missionárias, e em parte da quarta. Foi um autêntico missionário. Durante a terceira viagem recebeu uma missão delicada: apaziguar a belicosa igreja de Corinto, onde muitos contestavam e acusavam Paulo. O apóstolo não podia ir. Ele e Tito combinaram encontrar-se em Trôade, o que não sucedeu (2.12-13). Paulo foi a Macedônia para encontrar-se com Tito, que chegou com boas novas (2Co 7.5-6, 13-14). Quando lemos 1 e 2Coríntios percebemos que o relacionamento entre Paulo e a igreja foi bem tumultuado. Tito parece ter posto ordem na casa. Há três lições que podemos tirar daqui:

  1. Há igrejas que rejeitam pastores, por melhores que sejam. Há igrejas boas e amorosas, mas há igrejas que são cemitérios de vocações ministeriais. Hansen, no livro O poder de amar sua igreja, fala de um diácono contando, feliz, que os quatro últimos pastores daquela igreja abandonaram o ministério. Há leigos e igrejas cruéis, que responderão a Deus por suas atitudes. Devemos entregá-los a Deus, para que cuide deles.
  2. Devemos ser cuidadosos em comentários sobre pastores em dificuldades. Há circunstâncias que independem do obreiro e há igrejas problemáticas. O fato de um colega ter se dado mal em um pastorado não significa que não seja chamado ou que vá se dar mal em todos.
  3. Há obreiros que têm habilidade como a de Tito. Devem ser mais empregados em nosso meio. São diplomatas, são organizadores, têm capacidade de trabalho em ambientes espinhosos.

 

Tito também organizou a coleta para os cristãos pobres de Jerusalém: 2Coríntios 7.6, 13-14. Era homem de confiança. Ele também foi para a Dalmácia, atual Croácia (2Tm 4.10). Para alguma atividade administrativa, relacional ou missões? Não sabemos. Mas vemos algo: um homem envolvido com a obra, digno de confiança, com espírito missionário. Uma lição: não devemos compartimentalizar nosso serviço como ministros. Uma pergunta: somos honrados, dignos de confiança?

Em 1.5 ele está em Creta, como organizador da obra. Em 3.12 ele é chamado a se encontrar com Paulo em Nicópolis. Há algo fantástico nestes obreiros: eles eram homens sem residência fixa. Eles tinham uma visão global, não paroquial, do reino. O paroquialismo é muito prejudicial. Uma dos grandes problemas de nossa denominação é a admiração do próprio umbigo. E também devemos observar que busca de segurança e bem-estar apaga o brilho do serviço. Pensemos em Atos 20.24, Colossenses 4.17 e 2Timóteo 4.5. A nós compete a dedicação. Deus cuida do obreiro fiel. Humildemente: eu provei isto em 41 anos de ministério pastoral. Sobre todas as minhas falhas, tenho procurado ser fiel. Deus tem cuidado de mim e de minha família. Nossa segurança vem de nossa fidelidade.

 

UM DEVER DE TITO – CONSTITUIR PRESBÍTEROS (1.5).

Era Tito um pastor “presbiteriano”? Em Atos 20.17 vemos que a igreja de Éfeso tinha presbíteros (v. 17), que eram bispos e pastoreavam a igreja (v. 28). Os termos se intercambiam na mesma pessoa, mostrando aspectos diferentes de sua função. Seria Tito um arcebispo sagrando bispos e pastores? Não me parece ser a resposta. E esta não é a questão principal. Até mesmo porque temos uma eclesiologia incipiente, sendo ainda estruturada, na vida da Igreja e das igrejas. Eis o principal, o caráter dos presbíteros. Ele alista aqui as mesmas qualidades que os gregos pediam dos homens públicos (deveríamos pedir dos nossos, também). O pastor é um homem público. Tem uma imagem externa pela qual deve zelar e que ele projeta na comunidade. Deve ser, conforme 1.6-9:

 

  1. Irrepreensíveis – Em 1.6, o grego é anekgletós, “inacusável”. Uma pessoa de quem, quando se diga algo acusatório, as pessoas saibam: “Ele não!”. O sentido é de uma pessoa que não seja reprovada em conduta. O reprovado deve ser advertido (1.13)
  2. Marido de uma só mulher – O sentido literal é o de não ser bígamo. O mais aceito é de lealdade à esposa. Outros entendem que significa que se ele enviuvasse, que não se casasse de novo. Mas parece que esta interpretação não é a mais consentânea com o contexto.
  3. Ter filhos crentes. Este foi o problema de Eli. Devemos investir muito em nossa família. Cânticos 1.6 soa triste se visto como aplicável a nós. Nossos filhos devem ser nossa prioridade no nosso ministério.
  4. Defeitos de trato que não deve ter – Não deve ser arrogante, não deve ser dominado pela ira, nem deve se embriagar, não deve violento nem cobiçoso. O pastor deve ser sustentado pelo que faz, e se faz bem, deve receber bom sustento, como vimos em 1Timóteo 5.17. Mas não deve ser ganancioso.
  5. Qualidades de trato que deve ter – Hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio (equilibrado, de bom senso), justo, piedoso, autocontrole, apegado à Palavra.

 

Nossos seminários valorizam muito o cognitivo. Devem fazê-lo, porque não é errado, mas devem enfatizar mais o caráter. O aspecto formativo não é secundário em relação ao informativo. Liderança cristã sem caráter é um desastre. Aliás, carisma sem integridade tem sido uma desgraça na vida da igreja.

 

O PROCEDIMENTO DIANTE DO ENSINO DESVIRTUADO

É um ponto alto na carta: 1.10-16. O grande problema era a judaização do cristianismo (v. 10). Atos 15.28-29 deixa bem claro o que ficamos com a responsabilidade de guardar, do Antigo Testamento. Há hoje uma forte rejudaização do evangelho. Cuidado com tal prática. O curioso é Paulo chamar Epimênides de “um seu profeta”. Alguns pensam que aqui o termo “profeta” tenha sido usado no sentido lato e não estrito. E alguns aventam que fosse uma ironia. As duas me soam bastante plausíveis. Inclino-me mais um pouquinho para a segunda. A rejudaização é fábula judaica de gente desviada da verdade (v. 15). Devemos ser sadios na fé (v. 14), isto é, ficar com a nova mensagem do evangelho, e não com a antiga do judaísmo. O conceito paulino sobre os judaizantes não é bom: vv. 16-17.

 

CONSELHOS AOS NÃO PRESBÍTEROS

Não eram apenas os presbíteros que recebiam recomendações. Todos os demais membros da Igreja o recebem. Vejamos:

  1. Homens idosos – os maduros: v. 2.
  2. Mulheres idosas – as maduras:v. 3. Devem ser referenciais para as mais jovens (vv. 4-5).
  3. Jovens – criteriosos (RAB e VR), prudentes (NVI), moderados (IBB). Moço é impulsivo e muitas vezes extremado. Tenha bom senso. Tito deveria ser o modelo (v. 7). Linguagem sadia era necessária.
  4. Servos – dignos e honrados(v. 9-10). Por que o cristianismo não combateu a escravidão? A estrutura social da época ajuda a entender. Segundo Edward Gibbon, em Roma havia 600.000 livres e 600.000 escravos. A libertação deles seria um caos social. Mais de meio milhão de pessoas estariam livres, mas, ao mesmo tempo, estariam sem teto e sem comida. Stott disse que o evangelho armou bombas de tempo que explodiram no momento certo, acabando com a escravidão.

 

A GRAÇA SALVADORA DE CRISTO

Este é um dos mais belos momentos do NT: 2.11-15. A graça é salvadora, educadora, santificadora e esperançosa. E o quadro da graça se explica: (1) Quem é Jesus Cristo: v. 13. (2) O que ele fez: v. 14a. (3) O que devemos ser: v. 14b. A graça muda a vida das pessoas, não apenas as agracia (com o perdão pelo pleonasmo), mas as transforma.

 

UMA SAUDAÇÃO

Que Timóteo cuide de Zenas e Apolo, que talvez tenham sido os portadores da carta (3.13). Paulo era um homem bastante preocupado com os parceiros de ministério. Este é um oportuno ensino para nós! Apolo não era seu rival, mas um colaborador (1Co 3.5, 9). Muitos de nós nos vemos como rivais. Há pastores sempre em constante competição com os colegas. E, por fim, a bênção final sobre um pastor. Quando terminamos nosso contato com um colega podemos abençoá-lo?