UMA OPINIÃO INSUSPEITA

UMA OPINIÃO INSUSPEITA

Isaltino Gomes Coelho Filho

Civilização – ocidente x oriente, de Niall Ferguson, é um desses livros que, terminada a leitura, deixa-nos a sensação de ter feito um curso. Só a bibliografia ocupa trinta páginas. Apesar de ser severo com Max Weber e A ética protestante e o espírito do capitalismo, seu capítulo “Trabalho” (págs. 302-344) faz uma acurada análise do trabalho e sua relação com a fé cristã. Ele começa citando o boquirroto John Lennon: “O cristianismo vai deixar de existir. Vai definhar e desaparecer. Não preciso discutir isso; tenho razão, e o futuro vai mostrar que tenho razão”. Logo após, cita um membro da Academia Chinesa de Ciências Sociais, mantido no anonimato por razões óbvias: “Nos últimos 20 anos, percebemos que o cerne de nossa cultura é a religião de vocês: o cristianismo. É por isso que o Ocidente foi tão poderoso. A base moral cristã da vida social e cultural foi o que tornou possível o surgimento do capitalismo e então a transição bem-sucedida para a politica democrática. Não temos dúvida quanto a isso”. O acadêmico parece estar certo. Lennon deixou de existir e desapareceu.

Ele associa a ênfase no trabalho duro e na prosperidade com a doutrina protestante, mesmo com reparos a Max Weber. Embora não soe a Emilio de Lavelleye, menciona a ênfase protestante na leitura, no livro e na alfabetização como molas propulsoras do progresso. Um protestante precisa saber ler porque a compreensão de sua fé depende da leitura do Livro. Numa observação sobre o Islã e o catolicismo, diz ele: “Vimos como o poder dos imames e mulás eliminou qualquer chance de uma revolução científica no mundo islâmico. E vimos como a Igreja Católica atuou como um dos freios ao desenvolvimento econômico da América do Sul”. Apesar da interpretação ridícula da obra de C. S. Lewis, Cartas de um diabo a seu aprendiz, ele ressalta o valor do ensino da Bíblia e o peso da fé cristã na civilização. Sim, a Bíblia é o maior livro da humanidade e narra o propósito de Deus para os homens. E conta a história do maior de todos os homens, Jesus de Nazaré. Ela é fonte de elevação.

Ferguson deixa claro que a descristianização da Europa, não sem razão, coincide com sua opacidade atual, em contraposição aos Estados Unidos. Ele ainda afirma que “o aumento da poupança e dos negócios na Ásia veio de mãos dadas com o efeito colateral mais surpreendente da ocidentalização: o crescimento do cristianismo, sobretudo na China”. Em 1958, Mao Tse Tung proclamou a cidade de Wenzhou como “livre de religião”. Em 1997, as autoridades chinesas locais lançaram uma campanha para “remover as cruzes” da cidade. Mas atualmente desistiram. Hoje, na cidade há 1.339 igrejas das aprovadas pelo governo, sem contar as clandestinas. As cruzes são visíveis por todos os lugares. A cidade é chamada de “Jerusalém chinesa”. Segundo ele, “o caráter utópico do maoísmo criou um apetite que hoje, com uma liderança partidária mais tecnocrática que messiânica, só o cristianismo parece capaz de satisfazer”. Zhuo Xinping, um acadêmico chinês, declarou que “a compreensão cristã da transcendência teve papel decisivo no progresso do Ocidente”. Tem razão. O conceito de Deus nutrido por uma nação a eleva ou a põe abaixo. “Feliz a nação cujo Deus é Yahweh…” (Sl 33.12).

Entendi porque os interessados numa revolução social insistem na desconstrução dos valores morais que o cristianismo impregnou na sociedade. E porque têm uma fixação em, mais que negar, combater a fé cristã. O evangelho de Jesus traz as sementes de uma sociedade mais justa e progressista. Ele melhora as pessoas e a sociedade. Isto é tão óbvio que antes de renunciar à presidência da China, Jiang Zemin teria dito que se pudesse emitir um decreto para ser obedecido em toda parte seria para tornar o cristianismo a religião oficial da China. Ainda bem que não o fez. Mas ele reconheceu o valor da fé cristã.

A fé cristã não é ópio das massas. Pelo contrário, está bem longe disso. É um estímulo para viver uma vida correta. Uma exortação à retidão e à construção de um mundo melhor, enquanto aguardamos o céu. Dizer que um Martin Luther King Jr. foi um alienado, entorpecido pelo ópio religioso é, no mínimo, má fé. O “Ato contra o comércio de escravos de 1807”, na Inglaterra, que teve grande impacto na luta contra a escravidão, foi produto do protestantismo evangélico inglês. Charles Colson se converteu quando condenado pelo escândalo de Watergate. Sua luta pela humanização das prisões não é uma alienação. Da mesma forma William Wilberforce. O que os batistas brasileiros têm feito nas cracolândias das grandes cidades é mais produtivo que os projetos sociais do poder público. A Prefeitura de S. Paulo dispersa os viciados. Os batistas trabalham para restaurar os viciados com o evangelho.

Em alguns momentos, ficamos acuados com o mau testemunho de muitos cristãos ao longo da história, bem como dos cristãos atuais. Céticos nos confrontam com erros do passado e mau testemunho atual. Mas a fé cristã é a grande mensagem de esperança para a humanidade. Jesus Cristo não garante apenas a vida além, mas nos dá poder para vivermos de maneira correta, justa e sóbria enquanto o Senhor não retorna (Tito 2.11-13).

Pessoalmente, dou graças pelo evangelho. Se não fosse ele, provavelmente eu seria apenas um dono de bar, hoje. O evangelho me firmou a vida, me estimulou, me deu uma razão para viver e encheu minha vida de significado. A opinião insuspeita de um intelectual não cristão me confirmou isso. A fé em Cristo é um poderoso instrumento para viver bem. Evangelizar e fazer missões é beneficiar o mundo.