VIDAS TRANCADAS

VIDAS TRANCADAS

Isaltino Gomes Coelho Filho

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 17 de fevereiro de 2013

Rachel de Queiroz tem um conto intitulado Tangerine Girl, sobre uma jovem que se enamora de um marinheiro americano que sobrevoa diariamente seu quintal, num dirigível. Ela idealiza o romance com o marinheiro. Só que não era um marinheiro. Eram vários, e nenhum, em particular, apaixonado por ela. Eram rapazes corteses, que a tratavam bem, na solidão em que viviam, e em resposta a um aceno seu, inicial. Ela se tornou uma espécie de mascote do regimento. Mas há uma bela frase de Rachel, mostrando o sentimento do primeiro marinheiro: “O marinheiro agitou-se todo com aquele adeus. Várias vezes já sobrevoara aquela casa, vira gente embaixo entrando e saindo; e pensara quão distantes uns dos outros vivem os homens, quão indiferentes passam entre si, cada um trancado na sua vida”.

“Cada um trancado na sua vida”. As pessoas passam umas pelas outras, sem imaginar o que vai no coração alheio. Fecham-se em seus sonhos, planos e problemas. Numa ocasião em que fui a S. Paulo, não havia teto em Cumbica. O avião sobrevoou Sampa por mais de meia hora. Olhando o mundo de luzes lá em baixo, imaginei que havia gente se amando, se odiando, assaltando, matando, estudando, morrendo e nascendo, rindo e sofrendo. Cada pessoa era um mundo, rico e cheio de sentimentos. Também eram milhões de vidas isoladas. Vidas que não se cruzam nem intercambiam emoções. Muitos de nós somos assim. Guardamo-nos, sem nos envolver com os outros. Cada um se torna uma ilha, apesar do melancólico romance de Simmel, Homem algum é uma ilha.

Vitor Hugo disse: “Se não queres sofrer, guarda teu coração num cofre de ferro. Não o dês a ninguém”. Um bom conselho, o de evitar o sofrimento. Mas guardar o coração num cofre de ferro é amesquinhá-lo, torná-lo insensível, perder oportunidades de enriquecer a vida de outros e ser enriquecido pela vida de outros.

Há membros de igreja trancados. Sua comunhão fraterna é pequena. Não se envolvem com os irmãos. Que pena! Perdem a oportunidade de enriquecer alguém. Perdem a oportunidade de serem enriquecidos por outros. Uma das belezas da vida cristã é exatamente o vasto leque de amigos que fazemos. Amigos, por vezes, mais valiosos que parentes sanguíneos. Há na Bíblia amizades como a de Jônatas e Davi (que já tentaram torcer, mostrando-os como homossexuais), de Noemi e de Rute (que ainda não torceram, mas talvez, na ânsia de provar suas teses, o façam), Paulo e Lucas, etc.

Tenho amigos em Cristo e colegas de ministério mais chegados que muitos parentes. São presentes de Deus. E os momentos após o culto, em que “o papo rola solto” e é preciso “enxotar” o pessoal para fechar a igreja? Meu gabinete parece estação rodoviária. Numa ocasião havia doze pessoas tagarelando. É tão bom! O relacionamento é de amizade e de confiança e de sentir-se bem uns com os outros.

Muitos perdem os momentos após o culto, correndo para casa. Alguém disse que “o culto começa quando você chega”. Ou seja, chegando ao templo, ponha-se em atitude de adoração. Mas o culto não termina com a bênção pastoral ou com o poslúdio. O culto continua na amizade cristã, no bate-papo, na conversaria no saguão e na calçada, que mostra nossa alegria em pertencer à comunidade de Deus.

Não se tranque para os outros. Não saia correndo do culto. Fique mais um pouco. Você lucrará.

De um incorrigível batedor de papo,

Isaltino Gomes Coelho Filho