MENOS BATISTA, MENOS…

Isaltino Gomes Coelho Filho

                Estava em Monte Dourado, no vale do Rio Jari, aonde vou mensalmente para lecionar para um grupo de servos de Jesus e da sua igreja. Um privilégio dado por Deus, o de trabalhar na formação de obreiros. Vêm irmãos de Vitória do Jari, Laranjal do Jari e Munguba (do Amapá), Almeirim e Monte Dourado (do Pará).  Estudo sério, um bom café, e sempre um bom peixe, no sábado.

Normalmente hospedo-me na casa do Sales, irmão da igreja local. Desta última vez, um galo tresloucado começou a cantar de madrugada, e às 10 da manhã ainda cantava. Que fôlego (e que falta do que fazer!) do penoso galináceo!  Sales disse que foi presente de uma irmã da igreja para seu filho. E ela deu-lhe logo dois galos! Citei-lhe um “provérbio” maldoso: “Quer se vingar de um inimigo? Dê uma corneta para o filho dele!”. A irmã deve ter querido se vingar dele… Dois galos! E, no ensejo, contei a história do galo que se julgava o mais poderoso da fazenda onde morava. Mais poderoso que o boi, o cavalo e até mesmo que o dono da fazenda. É que quando ele cantava, o sol nascia. Só ele conseguia fazer isso. Nem o fazendeiro! O sol nascia porque ele cantava.

Uma noite, o galo ficou na farra até altas horas, perdeu o tempo, e só acordou às 9. O sol já ia alto. Consternado, ele descobriu que, cantasse ou não, o sol nasceria. Ele não era tão importante assim. Até entrou em crise existencial. Não era o que pensava…

Há gente como este galo. Julga-se muito importante. Sem elas o mundo não iria bem, ou a igreja afundaria. “Quero ver a igreja se virar sem mim!”, diz o crente vaidoso. Ou “Se não fosse por mim, o reino de Deus não avançaria!”, pensa o obreiro com complexo deste galo da história. Há famílias donas de igrejas (e como há!) que pensam que sem elas a igreja morreria. São pessoas que têm um conceito mais alto de si do que deveriam ter. Talvez a igreja melhorasse muito se elas saíssem!  Vez por outra, no Facebook (onde há coisas boas, mas medram bobagens alimentadas pela falta de senso analítico, ausência cada vez mais aguda no cenário evangélico) aparece um quadro com esta mensagem: “Você é insubstituível!”. Aliás, título de um livro de autoajuda, da autoria de um escritor famoso. Todas as vezes que vejo tal quadro me recordo de uma frase: “Os cemitérios estão cheios de insubstituíveis!”. O mundo funcionava sem nós. E depois que nos formos, o mundo ainda funcionará.

E também o reino de Deus. Para cada Moisés Deus tem um Josué. Para cada Elias Deus tem um Eliseu. Para um Judas que se vai, há um Matias que vem, e que até melhora o ambiente. Deus é Soberano. Usa quem quer, quando quer, e não deve nada a ninguém por isso. Usou a Assíria para disciplinar Israel, o Norte, e exclamou: “Ai da Assíria, a vara da minha ira!” (Is 10.5). Usou a Assíria, mas esta não ficou com crédito junto a ele. Ele a julgou. Nações e pessoas são instrumentos, apenas. O sujeito das ações é ele. O autor da história é ele. A glória é dele. O reino é dele, não nosso. A igreja é dele, não nossa. Só ele é insubstituível. Aliás, ele é O INSUBSTITUÍVEL.

O serviço cristão não é, como alguns dimensionam, algo a ser feito para ajudar a Deus nem para salvar a igreja de uma hecatombe espiritual. Deus não precisa de salvadores e a igreja é muito maior e muito mais poderosa do que pensamos. Ela sobreviveu a pessoas melhores e a pessoas piores que nós. Ela sobreviveu à perda de um Paulo e ao surgimento de um Nero. Ela é de Jesus e exatamente por isso nunca será vencida.

O serviço cristão é útil, sim, ao reino e à igreja. Isto é inegável. Mas se falharmos, o reino e igreja continuam. Deus não fica desorientado porque perdeu um auxiliar de ponta. Ele não é alguém patético, mas é o Senhor. “Socorro e livramento virão de outra parte” (Ester 4.14). Ele terá outros para o serviço. Mas o serviço é, também, para termos senso de utilidade. Para mostrarmos nossa gratidão a Jesus (“O amor de Cristo nos constrange”- 2Co 5.14). Para nos realizarmos como filhos de Deus. Quem serve com alegria é sempre abençoado. Não vive buscando bênçãos. Sua bênção maior é servir. Quer glória maior que esta?

Sou pastor de uma igreja que foi muito machucada. E como é uma igreja amorosa e sensível, presumo que sua dor seja mais aguda do que se fosse uma igreja insensível em relacionamentos. Sei que sou útil a ela.  Sou obreiro numa região carente. Mas não sou um herói. Nem um benemérito espiritual. Minha igreja me é mais útil que eu para ela. Meu campo me é mais útil que eu para ele. Dão-me, igreja e campo, oportunidade de me realizar como crente em Jesus (o pastor não deixa de ser um crente em Jesus!). Posso fazer alguma coisa para meu Salvador. O serviço cristão não é para nossa glória. É para nós glorificarmos a Deus. É uma oportunidade para mostrarmos nosso amor a Jesus. Bem aventurado quem tem um espaço para ser servo. A grande bênção da vida cristã é ser útil. Porque o serviço cristão enriquece o servo. Dá uma dimensão enorme à sua vida. Servir beneficia mais a quem serve que a Deus. Ele anda bem sem nós. Nós não andamos bem sem ele. Nossa vida tem mais sentido quando somos instrumentos dele.

O galo que ficou na gandaia e perdeu a hora me lembra de um personagem de humor (humor fraco, mas humor) da televisão. Um personagem chamado Batista elogiava muito o chefe e este apenas dizia: “Menos Batista, menos…”. Pois, se alguém pensa de si mesmo que é o galo que faz o sol nascer, fica esta palavra: “Menos Batista, menos…”. Seja servo.