Arquivos da categoria: Meditações em Gênesis

OBEDIÊNCIA E CONSAGRAÇÃO IMEDIATAS

OBEDIÊNCIA E CONSAGRAÇÃO IMEDIATAS

OU

“NO MESMO DIA”

 

“Quando acabou de falar com Abraão, Deus subiu e o deixou. Naquele mesmo dia Abraão fez como Deus havia mandado. Ele circuncidou o seu filho Ismael e todos os outros homens da sua casa, incluindo os escravos nascidos na sua casa e os que tinham sido comprados de estrangeiros.  Abraão tinha noventa e nove anos quando foi circuncidado, e o seu filho Ismael tinha treze. Os dois foram circuncidados no mesmo dia. E foram circuncidados também todos os escravos de Abraão, tanto os nascidos na sua casa como os que tinham sido comprados de estrangeiros” (Gênesis 17.22-27).

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

A obediência à orientação divina era uma prática constante na vida de Abraão.  Ele recebeu do Senhor a instrução sobre a circuncisão. Era um sinal do pacto entre os dois. No mesmo dia o patriarca se circuncidou (aos 99 anos!), bem como ao filho Ismael e a todos os homens de sua casa, incluindo os escravos. Não foi no dia seguinte, mas no mesmo dia. Podemos tirar três lições aqui.

Continue lendo OBEDIÊNCIA E CONSAGRAÇÃO IMEDIATAS

CARTAS NA MESA

“Quando Abrão tinha noventa e nove anos, o Deus Eterno apareceu a ele e disse: – Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Viva uma vida de comunhão comigo e seja obediente a mim em tudo. Eu farei a minha aliança com você e lhe darei muitos descendentes (…). Naquele mesmo dia Abraão fez como Deus havia mandado. Ele circuncidou o seu filho Ismael e todos os outros homens da sua casa, incluindo os escravos nascidos na sua casa e os que tinham sido comprados de estrangeiros” (Gênesis 17.1-2, 23).

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Neste texto, o Deus Eterno reafirma e sela sua aliança com Abrão. O relato é majestoso: “Eu sou El Shadday”. Literalmente, “o Deus que é suficiente”, com a idéia de que ele tem poder para fazer as coisas acontecerem. É um título antigo para Deus, usado mais em Gênesis e Jó, e poucas vezes em outros lugares da Bíblia. Normalmente associa o poder de Deus com a fraqueza humana. Passaram-se dezesseis anos entre os capítulos 16 e 17. Havia dezesseis anos que Deus não se revelava a Abrão, e se  haviam se passado vinte e quatro anos desde que ele fez a promessa de 12.1, quando chamou o patriarca. Usando este episódio de Abrão, há gente prometendo “resultados” em uma semana de reuniões e contribuições na igreja. Mas foram dezesseis anos de silêncio. E hoje há gente que tem revelações de cinco em cinco minutos. Abrão deve se sentir inferiorizado com essas pessoas…

Continue lendo CARTAS NA MESA

USADOS, ABUSADOS E DESCARTADOS, NÃO ESMOREÇAM!

“Então, ela invocou o nome do SENHOR, que lhe falava: Tu és Deus que vê; pois disse ela: Não olhei eu neste lugar para aquele que me vê? Por isso, aquele poço se chama Beer-Laai-Roi; está entre Cades e Berede” (Gênesis 16.13-14).

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Pobre Agar! Apenas um objeto nas mãos de Sarai e Abrão. Sarai dispôs dela como se fosse uma coisa.  Deu-a a Abrão para que o marido a engravidasse. A escrava era apenas uma coisa, como um animal.   Os filhos dos escravos não eram seus, mas do dono. Como os filhotes de gatos e cachorros que os humanos, donos da fêmea animal, dispõem como querem. Sarai a deu a Abraão para ela, Sarai, ter um filho.

Continue lendo USADOS, ABUSADOS E DESCARTADOS, NÃO ESMOREÇAM!

A ARTE DE CULPAR OS OUTROS

“Aí Sarai disse a Abrão: – Por sua culpa Agar está me desprezando. Eu mesma a entreguei nos seus braços; e, agora que sabe que está grávida, ela fica me tratando com desprezo. Que o Deus Eterno julgue quem é culpado, se é você ou se sou eu!” (Gênesis 16.5).

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Depois de culpar a Deus (como vimos na meditação anterior, baseada em Gênesis 16.5), Sarai, a mulher que não soube esperar o tempo de Deus, arranja mais uma pessoa para nela colocar a culpa de seus problemas, o marido, Abrão. Aliás, muita gente ainda gosta de culpar seu cônjuge…

Continue lendo A ARTE DE CULPAR OS OUTROS

A ARTE DE SABER ESPERAR

 

“Um dia Sarai disse a Abrão: – Já que o Deus Eterno não me deixa ter filhos, tenha relações com a minha escrava; talvez assim, por meio dela, eu possa ter filhos…” (Gênesis 16.2).

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Sarai e Abrão tinham recebido uma promessa da parte de Deus. Para que ela se cumprisse, eles deveriam ter um filho. Sarai era estéril e o tempo avançava. Um filho, só por milagre. Mas ela não conseguiu esperar e fez aquilo que muita gente ainda faz em nosso tempo: decidiu ajudar Deus. Decidiu “fazer o milagre”.  Não sem antes culpar Deus: “Já que o Deus Eterno não me deixa ter filhos…”. Quando um crente começa a culpar Deus vai se envolver em enrascadas, sem dúvida alguma. A racionalização culpabilizante é indício de que a vida espiritual vai mal. E que mais problemas surgirão.

Continue lendo A ARTE DE SABER ESPERAR

A SOMBRA DA CRUZ DESCE SOBRE ABRAÃO

“A noite caiu, e veio a escuridão. De repente apareceu um braseiro, que soltava fumaça, e uma tocha de fogo. E o braseiro e a tocha passaram pelo meio dos animais partido” (Gênesis 15.17)

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

A situação que o velho patriarca vive é um momento de aflição para ele. O Eterno o chamou para celebrarem um pacto (berith, “compromisso”): “O Eterno respondeu: – Traga para mim uma vaca, uma cabra e uma ovelha, todas de três anos, e também uma rolinha e um pombo”. Ele se prontifica. Faz como lhe foi ordenado: “Abrão levou esses animais para o Deus Eterno, cortou-os pelo meio e colocou as metades uma em frente à outra, em duas fileiras; porém as aves ele não cortou. Então os urubus começaram a descer sobre os animais mortos, mas Abrão os enxotava” (vv. 10-11). Esta é a razão da aflição.

Continue lendo A SOMBRA DA CRUZ DESCE SOBRE ABRAÃO

JUSTIFICADO PELA FÉ

“Abrão creu no Deus Eterno, e por isso o Eterno o aceitou” (Gênesis 15.6)

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

A justificação pela fé não é uma invenção da Reforma. Lutero não criou a doutrina. Ele a redescobriu, no meio dos desvios doutrinários e das superstições do catolicismo de sua época. A doutrina também não surgiu com o Novo Testamento. Está no Antigo Testamento. Abraão é o primeiro de quem a Escritura diz que foi justificado pela fé. A versão de Almeida traduziu assim: “E creu Abrão no Senhor, e o Senhor imputou-lhe isto como justiça”. O Senhor o justificou porque ele creu.

Já vimos que Abraão não foi judeu, mas crente, como lemos em Gálatas 3.9: “De modo que os que são da fé são abençoados com o crente Abraão” (Versão Revisada). Por isso ele é chamado de “o pai da fé”. Sua vida inteira foi uma vida de fé: “Foi pela fé que Abraão, ao ser chamado por Deus, obedeceu e saiu para uma terra que Deus lhe prometeu dar. Ele deixou o seu próprio país, sem saber para onde ia. Pela fé ele morou como estrangeiro na terra que Deus lhe havia prometido. Viveu em barracas com Isaque e Jacó, que também receberam a mesma promessa de Deus. Porque Abraão esperava a cidade que Deus planejou e construiu, a cidade que tem alicerces que não podem ser destruídos” (Hb 11.8-10). Não confiou em suas riquezas, mas unicamente em Deus.

O homem é aceito por Deus por causa da graça de Deus. Mas é aceito quando crê. É o famoso “pela graça (…) por meio da fé”, de Efésios 2.8. A graça é Deus oferecendo. A fé é o homem recebendo. Graça é a mão de Deus que se estende para dar. Fé é a mão do homem que se estende para receber. Graça são os braços abertos de Deus. Fé é o homem lançando-se neles. Graça é Deus dizendo “Venha”. Fé é o homem dizendo “Eu vou!”. Graça é o chamado. Fé é a resposta.

Isto parece trivial?  Pode ser, mas deve ser sempre relembrado porque tem sido esquecido por um bom número de cristãos. E duas lembranças devem ser feitas, a propósitos.

A primeira é que é graça e não mérito. Repudiamos a noção de salvação pelas obras, do catolicismo, bem como a noção de salvação pelo sofrimento e prática da caridade dos espíritas. Mas aceitamos a insidiosa ressurreição das indulgências medievais, que o baixo-evangelho tem efetuado. Toleramos a idéia de que Deus abençoa quem contribui para determinada igreja e que é preciso contribuir para ser abençoado. Nesta ótica Deus é visto como um proprietário de bênçãos que estabeleceu alguns intermediários para receberem o dinheiro por ele. E alguns desses “intermediários” cobram polpudas comissões.  Devemos contribuir por amor à obra, mas não para compramos o favor de Deus. Deus não se deixa subornar. Não é dinheiro que ele quer. É fé.

A segunda é que não é fé na fé. “Eu tenho muita fé!”, bradará alguém. E daí? Isso não basta. É fé numa pessoa, Jesus Cristo. Alguém poderá perguntar: “Mas Abraão creu em Jesus? Isso é forçar a barra!”. Responderei que sim, que Abraão creu em Jesus e que isto não é forçar a barra. Citarei o próprio Jesus: “Abraão, o pai de vocês, ficou alegre ao ver o tempo da minha vinda. Ele viu esse tempo e ficou feliz” (Jo 8.56). E o autor de Hebreus corrobora isto: “Todos esses morreram cheios de fé. Não receberam as coisas que Deus tinha prometido, mas as viram de longe e ficaram contentes por causa delas. E declararam que eram estrangeiros e refugiados, de passagem por este mundo” (Hb 11.13). A grande esperança de Abraão não era aquela terra. Era algo mais, algo maior. Melhor dizendo, alguém maior. O justificado é aquele que se rende a alguém maior que ele, Jesus.

Abraão creu. Não experimentou uma vaga sensação de bem-estar ou um etéreo sentimento de confianças. Creu contra toda esperança e creu em algo maior que ele e que bens materiais. Sua fé nao consistia de palavras de ordem, mas era uma obediência irrestrita, não por medo e sim por amor. Tanto que, nesta obediência não hesitou quando seu filho Isaque foi pedido por Deus. Por isso ele foi grande. Kierkegaard disse bem a respeito de Abraão: “Pois aquele que se amou a si mesmo foi grande por sua pessoa; quem amou a outra pessoa foi grande porque se deu; porém que amou a Deus foi maior que todos” (Temor e tremor, p. 36). Na raiz da justificação está a graça de Deus, mas seu caule é o amor ao Deus da graça manifestada em Jesus.

O justificado pela fé permanece seguro. Não se queixa nem teme. Mais uma vez Kierkegaard: “Abraão não nos deixou lamentos” (p. 37). Porque quem crê é submisso, e sabe que não precisa se queixar. Tudo está nas mãos de Deus. Ele controla. Ele decide. E o que ele decidir, isso deve ser acatado. Trará grande paz ao coração.

A justificação é pela fé. O justificado anda pela fé. Fé evidente em obediência, não em gestos dramáticos ou expressões piegas, mas muitas vezes epidérmicas, superficiais mesmo. Quem crê obedece. Quem crê é submisso. Quem crê se rende. E descansa porque foi justificado e aceito por Deus. Sua vida passa a ser de Deus, que cuidará dele.

 

UM ENCONTRO HISTÓRICO

“Melquisedeque abençoou Abrão, dizendo: ‘Abrão seja abençoado pelo Altíssimo Deus, que criou o céu e a terra! Seja louvado o Altíssimo Deus, que entregou os inimigos de você nas suas mãos!’. Aí Abrão deu a Melquisedeque a décima parte de tudo o que havia trazido de volta”. (Gênesis 14.19-20)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Um encontro histórico: o pai da fé, o homem que Deus chamou de “meu amigo” (Isaías 41.8) e o primeiro rei conhecido de Jerusalém, aqui chamada apenas de Salém, provavelmente, na época, uma pequena fortificação com umas poucas casas ao redor. Séculos depois, o autor de Hebreus desenvolverá um raciocínio brilhante para provar a superioridade do cristianismo sobre o judaísmo. Este se estruturava sobre o sacerdócio levita, e o cristianismo, sobre o sacerdócio de Jesus. O sacerdócio levita vem de Abraão (Levi descendeu dele), e o de Jesus, de Melquisedeque. A ordem sacerdotal de Melquisedeque não existiu no judaísmo, mas a figura vem daqui, deste encontro. Melquisedeque abençoou Abraão e recebeu dízimos de Abraão. Quem abençoa é maior que o abençoado, e quem recebe os dízimos é maior que quem os dá. Neste sentido, Melquisedeque é maior que Abraão. Da mesma maneira, os sacerdotes derivados deles, Jesus e Levi, mantêm a mesma ordem: Jesus é maior que Levi. O sacerdócio de Jesus é superior ao sacerdócio levita.

Continue lendo UM ENCONTRO HISTÓRICO

E ELE FOI DE VEZ, MAS…

“Assim Abrão desarmou o seu acampamento e foi morar perto das árvores sagradas de Manre, na cidade de Hebrom. E ali Abrão construiu um altar para o Deus Eterno” (Gênesis 13.18)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Já vimos que Ló foi armando suas tendas aos pouquinhos, cada dia mais perto, até chegar a Sodoma. E que Abraão adotou o costume de levantar altares a Iahweh aonde chegava. Agora Abraão arma sua tendas, não aos pouquinhos, mas de vez, próximo das árvores sagradas de Manre. Provavelmente um carvalhal, onde havia o carvalho Moré, também visto anteriormente.

Se Manre não tinha a imoralidade de Sodoma, tinha o paganismo da adoração a árvores sagradas. Abraão foi de vez para lá, não como Ló, que foi aos pouquinhos para Sodoma. Mas há uma diferença fundamental entre os dois. Abraão edificou ali um altar a Iahweh. Este era um dos traços marcantes de sua personalidade. Ele chegava num ambiente pagão, reduto de sacerdotes pagãos, mas levantava ali um altar ao seu Deus. Assim, podemos estabelecer uma diferença entre dois servos de Deus. Um que assimilava os padrões do ambiente onde se estabelecia. E outro que marcava presença, afirmando sua fé em Deus. Num ambiente de feitiçaria e idolatria, Abraão se manteve firme. Ló foi para um ambiente de imoralidade sexual. Nada indica que tenha sucumbido ao ambiente. Mas ele terminou seus dias em imoralidade sexual, praticando incesto com as duas filhas (Gn 19.30-38). E geraram dois povos que se tornaram problemas monumentais para o povo de Deus! Como Ló atrapalhou! Manre não deixou marcas no caráter de Abraão. Mas Sodoma e Gomorra deixaram marcas na vida de Ló.

Continue lendo E ELE FOI DE VEZ, MAS…

AOS POUQUINHOS…

“Abrão ficou na terra de Canaã, e Ló foi morar nas cidades do vale. Ló foi acampando até chegar a Sodoma, onde vivia uma gente má, que cometia pecados horríveis contra o Deus Eterno” (Gênesis 13.12)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Abraão saiu de Ur para a terra que Iahweh lhe daria levando consigo seu sobrinho Ló. Mais tarde os dois se separaram, tendo Ló escolhido a terra que lhe pareceu melhor e mais produtiva. Abraão deu-lhe o direito de escolha, como homem educado e espiritual que era. Ló se valeu desta opção, mas deveria ter recusado, por um princípio cultural muito forte da época: Abraão era seu tio e era, presume-se, mais velho. Naquela cultura, um parente com ascendência e uma pessoa mais idosa tinham a prioridade. Por mais gentil que Abraão fosse, cabia a Ló negar a oferta. Mas parece que ele amava muito mais aos bens que a educação recebida e aos valores de sua época. Parece um homem que só tem olhos para seu bem-estar pessoal. Enquanto a destruição de Sodoma era traçada, ele se preocupava com uma cidadezinha para morar, e não com as vidas das pessoas. Nem uma vez sequer orou pelos moradores da cidade, mas preocupou-se com sua vida material.

Continue lendo AOS POUQUINHOS…

O CONSTRUTOR DE ALTARES

“Ali o Deus Eterno apareceu a Abrão e disse: – Eu vou dar esta terra aos seus descendentes. Naquele lugar Abrão construiu um altar ao Deus Eterno, pois ali o Eterno havia aparecido a ele” (Gênesis 12.7)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Este é o primeiro dos muitos altares que Abraão levantou para Iahweh, o Deus Eterno. Tornou-se sua prática de vida. Chegando em um lugar, primeiro ele levantava um altar de pedras para Deus, e depois armava suas tendas. Para Deus, uma construção de pedras, algo duradouro. Para si, suas tendas, algo perecível. Muita gente hoje quer ter as riquezas de Abraão, o que julga ser a maior bênção da vida cristã, mas primeiro constrói casas de pedra para si e depois tendas perecíveis para Deus. Para si, o melhor. Para Deus, qualquer coisa. Faz o oposto de Abraão.

Este primeiro altar é levantado, como muitos outros, num ambiente pagão. “Os cananeus viviam naquela região” (v. 7). Ele passava por onde os pagãos estavam, mas nunca se ajuntava moralmente a eles. Além disto, e isto é bastante significativo, o altar foi levantado perto da “árvore sagrada de Moré”. “Moré” significa “mestre”, em hebraico. Era o carvalho-mestre dos cananeus. Seus sacerdotes tomavam alucinógenos e deitavam-se nus debaixo dos carvalhos, para interpretar o barulho do vento nas copas das árvores como augúrios divinos. Tendo desprezado Deus, os gentios foram desprezados por ele, como Paulo diz em Romanos (Rm 1.18-19). Sem Deus, perdiam-se na tenebricidade de seus corações. Buscavam ouvir a voz de Deus na copa das árvores sacudidas pelo vento. Como é vazio e desorientado o homem sem a revelação divina! Pois bem, junto ao lugar de adoração pagã, ele erige um altar para seu Deus.

Continue lendo O CONSTRUTOR DE ALTARES

E COMEÇA A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

Certo dia o Deus Eterno disse a Abrão: -Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa do seu pai e vá para uma terra que eu lhe mostrarei. Os seus descendentes vão formar uma grande nação. Eu o abençoarei, o seu nome será famoso, e você será uma bênção para os outros” (Gênesis12. 1-2)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Neste texto começa a história da salvação. Dois componentes muito fortes da teologia da salvação já surgem aqui, e muito bem delineados: Deus fala e o homem responde. Deus falando é a graça. O homem respondendo é a fé. A salvação tem a graça do Deus que fala. E tem a fé, que é a resposta do homem. Salvação é junção de graça e fé: “Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus. A salvação não é o resultado dos esforços de vocês; portanto, ninguém pode se orgulhar de tê-la” (Ef 2.8-9).

Continue lendo E COMEÇA A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

NINRODE, O PODEROSO, PAI DA CONFUSÃO

“Cuche foi pai de Ninrode, o primeiro grande conquistador do mundo (…) No começo faziam parte do seu reino as cidades de Babilônia, Ereque e Acade, todas as três em Sinar” (Gênesis 10.8,10).

Isaltino Gomes Coelho Filho

Ninrode é um personagem enigmático. O texto de Almeida diz que ele se tornou “poderoso”, e isso por três vezes. “Poderoso caçador”, diz o versículo 9. O hebraico  é gibbor tsayidh, que pode ser traduzido por “caçador de homens”, ou “escravista”. Esta é a posição de Leupold (Leupold on the Old Testament, vol. I, p. 366). Calvino admite esta idéia, dizendo que isto “metaforicamente indica que ele era um homem furioso, mais parecido com uma fera que com um homem” (Genesis, p. 317). Wiseman alega que alguns o associam historicamente com Sargão de Adade (2.300 a.C.), guerreiro, escravizador e conquistador. A Linguagem de Hoje diz que Ninrode foi “o primeiro grande conquistador do mundo”.

Continue lendo NINRODE, O PODEROSO, PAI DA CONFUSÃO

O CORVO E A POMBA

“No fim de quarenta dias, Noé abriu a janela que havia feito na barca e soltou um corvo, que ficou voando de um lado para outro, esperando que a terra secasse. Depois Noé soltou uma pomba a fim de ver se a terra já estava seca; mas a pomba não achou lugar para pousar porque a terra ainda estava toda coberta de água. Aí Noé estendeu a mão, pegou a pomba e a pôs dentro da barca. Noé esperou mais sete dias e soltou a pomba de novo. Ela voltou à tardinha, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Assim Noé ficou sabendo que a água havia baixado” (Gênesis 8.6-11)

Isaltino Gomes Coelho Filho

O dilúvio é a antítese da criação. A criação fez do caos um cosmos. O dilúvio fez do cosmos um caos. A criação é ação de Deus. O dilúvio é reação de Deus. A criação é obra da graça. O dilúvio é obra do juízo. Findo o dilúvio, Noé envia um corvo para, por meio dele, sondar o ambiente. O corvo, sendo carnívoro, evidentemente encontrou corpos flutuando na água. Ninguém os sepultara. Neles pousava, deles se alimentava e até que terra se secasse, voava de um lado para o outro. Isto é, retornava à arca à noite para dormir. A pomba não pousa sobre cadáveres, e retornou a Noé. Depois de uma semana trouxe uma folha de oliveira. Por isso, esta é o símbolo da paz.

Continue lendo O CORVO E A POMBA

A ALIANÇA

“Mas com você eu vou fazer uma aliança. Portanto, entre na barca e leve com você a sua mulher, os seus filhos e as suas nora” (Gênesis 6.18)

Isaltino Gomes Coelho Filho

É a primeira alusão a “aliança”, na Bíblia. Surge com Deus. Ele faz uma aliança com Noé. O hebraico é berith, “pacto, aliança, concerto”. O primeiro pacto de Deus, implícito, é com a raça humana (Gn 1.28). Este é o primeiro explícito.  É um ato de Deus, originado nele, dependendo dele, de sua vontade. O hebraico é berithy, “pacto de mim” (“meu pacto”). Não é algo negociado, que se discuta. Como observo em meu comentário sobre Gênesis: “O pacto não é bilateral, no sentido de Noé ter feito alguma coisa para justificar o pacto ou de poder ditar os termos, ou mesmo negociar algum ponto do qual não gostasse. É um ato gratuito de Deus que assume seu escolhido. Mas é unilateral em seu conteúdo. Ele não diz ‘firmemos um pacto’ ou ‘nosso pacto’, mas ‘o meu pacto’” (p. 97).

Continue lendo A ALIANÇA

“O NOME – HA SHEM”

“Sete foi pai de um filho e o chamou de Enos. Foi nesse tempo que o nome O ETERNO começou a ser usado no culto de adoração a Deus” (Gênesis 4.26)

Isaltino Gomes Coelho Filho

Começa a adoração a YHWH, chamado de O ETERNO, na Linguagem de Hoje. É uma boa interpretação para EU SOU.  Mais tarde dirá Êxodo 3.14-15: “Porém Moisés disse: – Quando eu for falar com os israelitas e lhes disser: ‘O Deus dos seus antepassados me enviou a vocês’, eles vão me perguntar: ‘Qual é o nome dele?’ Aí o que é que eu digo? Deus disse: -EU SOU QUEM SOU. E disse ainda: -Você dirá o seguinte: ‘EU SOU me enviou a vocês’”.

A transliteração da resposta divina seria como ‘ehyeh asher ‘ehyeh (EU SOU O QUE SOU). Uma abreviatura ou contração da frase deu o tetragrama sagrado YHWH. A Linguagem de Hoje traduz por O ETERNO, pois a expressão pode significar EU SOU O QUE SOU, ESTOU SENDO O QUE SOU, SEREI O QUE SOU, com idéia de imutável, de eterno. YHWH apareceu a Moisés, mas começou a ser cultuado com Sete. Aos patriarcas ele apareceu como “Todo-Poderoso”, El Shadday, mas como YHWH só se revelou a Moisés: “Deus disse a Moisés: -Eu sou o Deus Eterno. Eu apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como o Deus Todo-Poderoso, porém não deixei que me conhecessem pelo meu nome de o Deus Eterno”. No tempo de Sete e Enos, era um dos nomes usados na adoração, mas só se tornou o nome por excelência no tempo de Moisés.

Continue lendo “O NOME – HA SHEM”

“O ETERNO PÔS UM SINAL EM CAIM”

“(…) Em seguida o Eterno pôs um sinal em Caim para que, se alguém o encontrasse, não o matasse” (Gênesis 4.15)

Isaltino Gomes Coelho Filho

Adolescente, crente novo, gostava de ouvir irmãos mais experientes para aprender. Logo descobri que não podia levar todos a sério. Houve um que, judiciosamente, me explicou que a raça negra era maldita, pois Deus a amaldiçoara em Caim. Deus pôs nele um sinal, que era a cor negra, e ele foi para a região da África. Por isso a África era atrasada.

É certo que a África enfrenta problemas econômicos. Que nada têm a ver com Caim. Nem ela é maldita por causa dele. Diz Gênesis 10.32: “São essas as famílias dos filhos de Noé, nação por nação, de acordo com as várias linhas de descendentes. Depois do dilúvio todas as nações da terra descenderam de Noé”. As raças descendem de Noé, e a povoação de toda a terra se dá após o dilúvio. O exotismo não é boa hermenêutica e a Bíblia não pode oferecer suporte para perspectivas estrambóticas de novidadeiros. Respeito à Bíblia, à África e à boa exegese faz bem.

Continue lendo “O ETERNO PÔS UM SINAL EM CAIM”

“FIQUEI COM MEDO…”

“Eu ouvi a tua voz, quando estavas passeando pelo jardim, e fiquei com medo porque estava nu. Por isso me escondi” (Gênesis 3.10)

Isaltino Gomes Coelho Filho

É a primeira vez que aparece a palavra “medo”, na Bíblia. É conseqüência da queda. A razão da queda foi o egoísmo: “Vocês serão como Deus…” (v. 5). O amor a si, o desejo de ser mais e maior, levou à queda. Egoísmo. Egoísmo é amor a si mesmo. O que motivou a queda do primeiro casal foi amor desfocado. Deixou de amar a Deus, de lhe dar o primeiro lugar, e colocou-se acima dele. O teólogo Manson definiu o pecado como sendo a rejeição dos dez mandamentos e a instituição do décimo primeiro: “Tu te amarás a ti mesmo sobre todas as coisas”.

Criado para amar a Deus, o homem sabe, instintivamente, que há algo errado consigo. O homem mesquinho pode se amar muito e sentir-se satisfeito consigo, mas é vazio e sabe, no fundo, que lhe falta alguma coisa. Jesus disse isso ao moço rico, que se presumia virtuoso: “Falta-te uma coisa…” (Lc 18.22). A vida egoísta produz esta sensação: falta alguma coisa. Não se alcança o almejado, como o primeiro casal descobriu.

Continue lendo “FIQUEI COM MEDO…”

“JESUS… COMOVEU-SE… E PERTURBOU-SE”

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Jesus, pois, quando a viu chorar, e chorarem também os judeus que com ela vinham, comoveu-se em espírito, e perturbou-se” (João 11.33)

Na cultura grega, havia uma diferença entre a Divindade e os semideuses do Olimpo. Como observa o teólogo alemão Joachim Jeremias, a Divindade era impassível, silenciosa e apática. Sentir era receber influência e receber influência era ser inferior a quem influenciava. O Logos grego era inacessível, sem sentimentos. O cristianismo, principalmente o evangelho de João, toma o conceito do Logos, mas não como no helenismo ou como Fílon (uma mistura de Antigo Testamento, Platão e estóicos). O Logos de João, a Razão Criadora que se fez carne, sentia. O cristianismo impactou a cultura grega dizendo que Deus não é apático, mas pático. Ele sente.

Em João 11.33, Jesus se perturba. A Almeida Século 21 traduziu por “comoveu-se profundamente”. A Linguagem de Hoje por “comovido e aflito”. Chouraqui por “estremece” e “perturba-se em si mesmo”. Uma Divindade que sente e se choca com o sofrimento humano!

Continue lendo “JESUS… COMOVEU-SE… E PERTURBOU-SE”

“É VERDADE… DEUS NOS DISSE…NÃO MORRERÃO COISA NENHUMA!”

“A cobra era o animal mais esperto que o Deus Eterno havia feito. Ela perguntou à mulher: – É verdade que Deus mandou que vocês não comessem as frutas de nenhuma árvore do jardim? A mulher respondeu: – Podemos comer as frutas de qualquer árvore,

menos a fruta da árvore que fica no meio do jardim. Deus nos disse que não devemos comer dessa fruta, nem tocar nela. Se fizermos isso, morreremos. Mas a cobra afirmou: -Vocês não morrerão coisa nenhuma! Deus disse isso porque sabe que, quando vocês comerem a fruta dessa árvore, os seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecendo o bem e o mal”. (Gênesis 3.1-5)

Isaltino Gomes Coelho Filho

Estranho diálogo. A cobra (NTLH) faz uma pergunta torcida. Má intencionada, pergunta se é verdade que Deus proibiu ao casal todas as frutas do jardim. Insinua a má vontade do Criador para com a criação. Atribui-lhe maldade. “É verdade que Deus mandou?” começa ela. O Tentador foi o primeiro exegeta da Palavra de Deus. Falar da Palavra de Deus nem sempre quer dizer que a pessoa está certa. A Bíblia já foi usada para legitimar a escravidão, o machismo, e agora alguns a usam para justificar o homossexualismo. Crentes ingênuos, que nao entendem nada, por vezes dizem: “O que importa é que a Palavra de Deus está sendo pregada, e ela não volta vazia” (outra exegese estrambótica). Isso justifica qualquer heresia e todo uso da Bíblia para fins pessoais. Devemos ter cuidado com interpretações que fogem claramente ao sentido das Escrituras. Há gente que está descobrindo agora o que nunca alguém viu em 2.000 anos de cristianismo e mais de 3.500 anos de Palavra de Deus! Todo grupo herético afirma que a Bíblia é a Palavra de Deus, e depois a analisa por Helen White, Livro do Mórmon,  revelações, reescrita da Bíblia (como testemunhas de Jeová e outros). Citar a Palavra de Deus não é garantia de correção. Pode-se deturpá-la.

Continue lendo “É VERDADE… DEUS NOS DISSE…NÃO MORRERÃO COISA NENHUMA!”

“E ASSIM ACONTECEU”

“E assim aconteceu” (Gênesis 1.7, 9, 11, 15, 24 e 30, LH)

Isaltino Gomes Coelho Filho

“E assim aconteceu”, diz, seis vezes, o capítulo inicial de Gênesis. Aconteceu o que Deus disse. O refrão pode ser estendido a toda a Bíblia, extrapolando o relato da criação. Sempre acontece o que Deus diz. A Bíblia é seu texto-prova. Seu teor comprova que aquilo que o Senhor falou realmente aconteceu. Mais tarde, o livro de Isaías registrará: “A erva seca, e as flores caem quando o sopro do Deus Eterno passa por elas. De fato, o povo é como a erva. A erva seca, a flor cai, mas a palavra do nosso Deus dura para sempre” (Is 40.7-8). No Novo Testamento, mostrando sua autoridade e o peso de sua palavra, Jesus diz: “O céu e a terra desaparecerão, mas as minhas palavras ficarão para sempre” (Mc 13.31).

A Palavra de Deus está firmada para sempre: “Ó Deus Eterno, a tua palavra dura para sempre; ela é firme como o céu” (Sl 119.89). Como isto nos exorta! A Palavra de Deus é digna de confiança. O que ele fala, isso acontece. Não é uma palavra comum, mas a Palavra Viva de um Deus Vivo. Uma Palavra que faz as coisas acontecerem!

Continue lendo “E ASSIM ACONTECEU”

“NO COMEÇO DEUS” (Gênesis 1.1-2, LH)

“No começo Deus criou o céu e a terra. A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar, e o Espírito de Deus se movia por cima da água”.

Isaltino Gomes Coelho Filho

Quanta solenidade nestas palavras! Ao mesmo tempo, quanta profundidade! Assim começa tudo. Não havia nada, tudo era um vazio. Mas Deus estava lá. O impacto de “No começo Deus” se vê em Isaías 46.10 e 48.12, palavras destinadas ao povo na Babilônia. No meio da multidão de divindades pagãs, o Judá cativo devia lembrar que seu Deus é que era o Criador, que estava no começo e estará no fim. Foi dele a primeira palavra. Será dele a última palavra.

Mesmo criada a terra, não havia ninguém. Nada vivo. Só a Vida estava presente. Só o Senhor e Autor da Vida.  A Linguagem de Hoje diz que “a terra era um vazio”. O hebraico é tohû wâ bohû. Um rico jogo sonoro! Tohû dá a idéia de algo que não se pode agarrar porque é informe. Bohû dá a idéia de vácuo, de vazio. A terra era um nada. Apenas uma massa ígnea, gases, ainda informe. Mas Deus já estava lá. Estava lá quando tudo começou. Estará quando tudo terminar.

Continue lendo “NO COMEÇO DEUS” (Gênesis 1.1-2, LH)