Arquivos da categoria: Meditações em João

A BÊNÇÃO DA AFLIÇÃO

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

“Eu vos preveni sobre esses acontecimentos para que em mim tenhais paz. Neste mundo sofrereis tribulações, mas tende fé e coragem! Eu venci o mundo” (João 16.33, King James).

Poucas coisas são tão equivocadas como o triunfalismo da pregação neopentecostal. O evangelho se torna mensagem de auto-ajuda, a cruz é substituída pelo trono e Jesus, por Lair Ribeiro. Tal pregação ignora a tensão entre o e o ainda não. Jesus Cristo inaugurou o reino de Deus, mas este ainda não se consumou. O mundo por vir, com sua transformação escatológica, teve suas bases lançadas, mas ainda não chegou. somos filhos de Deus, temos bênçãos indescritíveis para nós reservadas, mas elas ainda não se manifestaram em sua totalidade porque ainda não entramos na plena liberdade dos filhos de Deus. Satanás foi vencido, porque Jesus entrou em seus domínios e o amarrou, libertando-nos do seu poder e domínio, mas ainda não foi subjugado por completo.

Esta tensão tem sido ignorada em muitas análises da vida e teologia cristãs. E esta ignorância tem permitido o surgimento de muito exotismo doutrinário. Ainda não chegamos ao céu, vivemos num mundo que “jaz no Maligno” (1Jo 5.19), e somos a igreja militante, e não a triunfante. Como disse Kierkegaard, em uma oração: “Aqui no mundo não é lugar da tua Igreja triunfante, mas somente da Igreja militante… Se ela cisma dever triunfar neste mundo… ela desaparece, pois que se confundiu com o mundo… Estejas tu, então, com a tua Igreja militante, de modo que jamais venha a acontecer (e esta é a única maneira possível) que ela seja cancelada da face da terra por ter-se tornado Igreja triunfante” (Das profundezas, p. 84.). Continue lendo A BÊNÇÃO DA AFLIÇÃO

A BÊNÇÃO DA SOLIDÃO

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

“Pois chegará o momento, e realmente, a hora é esta, quando sereis espalhados cada um para sua família. Vós me deixareis sozinho. Mas Eu não estou desamparado, pois meu Pai está comigo” (João 16.32, King James).

 

Poucas coisas são tão desestruturadoras como a solidão. No filme A última esperança da Terra, Charlton Heston faz um personagem que, sem contato com outros humanos (os demais estão contaminados e ele os evita), joga xadrez consigo mesmo. E conversa com uma estátua. Para não enlouquecer. Como no filme o náufrago, em que o personagem principal conversa com um côco, a quem chama de Mr. Wilson. Continue lendo A BÊNÇÃO DA SOLIDÃO

A BUSCA DE APLAUSOS DO MUNDO

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

“Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós odiou a mim. Se fôsseis do mundo, ele vos amaria como se pertencêsseis a ele. Entretanto, não sois propriedade do mundo; mas Eu vos escolhi e vos libertei do mundo; por essa razão o mundo vos odeia” (João 15.18-19, King James).

 

Para evitar distorções de meu escrito, que fique bem claro que não digo que a igreja deve ser gratuitamente beligerante. Agressividade iracunda não é o mesmo que ardor evangelístico. E mau humor não significa espiritualidade ou ortodoxia. Eis o ponto: vemos hoje alguns segmentos da igreja buscando aplausos do mundo. É um tal de  igrejas amigáveis, de igrejas querendo ser relevantes (ora, se ela prega Jesus como Salvador é a instituição mais relevante do mundo) e de busca de honrarias humanas que me desnorteia. Entendo a perspectiva de muitos, de quererem respeito e reconhecimento. Assim vemos igrejas abordando temas mais sociais que espirituais, na esteira de temas da moda, querendo ser vistas pelo mundo como “relevantes”. Para o mundo, igreja é algo ocioso, que trata de uma vida que não interessa. Assim, ocupemo-nos do que interessa e dá ibope: cuidar dos pobres, falar de ecologia, ser um espaço alternativo, etc. Ao invés de salvar os pecadores, muitos querem salvar as baleias. Nada contra as baleias, por favor. Mas precisamos de cautela para não transformamos a igreja numa ONG. Muitos desses temas podem ser encampados por ONGs até dirigidas por cristãos, mas pregar o evangelho, anunciar o reino de Deus, o perdão dos pecados em Jesus, só a igreja pode fazer. E é a missão mais relevante do mundo, anunciar o reino de Deus chegado em Jesus. Isto é, se a igreja crê mesmo no reino de Deus mostrado nas Escrituras. Continue lendo A BUSCA DE APLAUSOS DO MUNDO

AMOR, O QUE É ISTO?

Não existe maior amor do que este: de alguém dar a própria vida por causa dos seus amigos” (João 15.13, King James, em português).

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

A maior característica do amor é sua dadivosidade. Quem ama dá. João 3.16 deixa isso claro: Deus amou e deu o que tinha de mais importante. No texto de João 15.13 Jesus dimensiona a grandeza de seu amor em dar sua vida pelos seus amigos.

Um cínico definiu amor como “a capacidade de gostarmos de nós mesmos e elegermos pessoas para nos satisfazerem”. Talvez tal pessoa ame assim. Mas o verdadeiro amor é dadivoso. É pródigo em dar-se.

Para os gregos, o amor estava associado à estética, à beleza e à contemplação. Conseqüentemente, o amor lhes era sentimento. Culturalmente somos filhos dos gregos, por isso muitos de nós associamos amor a devaneios, suspiros e sensações. Amar é sentir algo por alguém. Muito do que se chama de amor, em nosso meio, são apenas sentimentos. Inclusive há um livro com este título: “Amor, sentimento a ser aprendido”. Até mesmo em nossa espiritualidade associamos nosso amor a Deus pelo que sentimos. Se temos boas emoções, estamos amando a Deus. Isso é problemático. Porque, para alguns, basta sentir emoções no culto. Continue lendo AMOR, O QUE É ISTO?

ORAÇÕES DA BÍBLIA – “A maior de todas as orações” – João 17 – 3ª. parte (vv. 20-26)

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

INTRODUÇÃO

É bom quando oram por nós! É bom saber que na nossa dificuldade alguém intercedeu por nós. Um dia Jesus orou por nós: João 17.20. Somos produto do trabalho lançado pelos apóstolos. Cremos na sua palavra e na história que deixaram para a posteridade, a mais bela de todas as histórias, a de Jesus. Mas ele orou por nós. Por mim e por você.  Que pediu?

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NÃO SOMOS ÓRFÃOS

Isaltino Gomes Coelho Filho

 

 

“Não vos deixarei órfãos; voltarei a vós” (João 14.18).

 

Platão disse, sobre Sócrates, que ao morrer deixou ele os discípulos órfãos. Jesus vai para a morte, mas faz questão de dizer que não deixará os seus nesta condição. Não se trata da parousia, sua segunda vinda. Ele voltaria para aqueles discípulos, e não em um futuro remoto. Trata-se, como alguém definiu, de uma enfania, sua manifestação nos discípulos, vindo para morar neles. Seria sua volta pelo Espírito Santo. No dia de Pentecostes, Jesus voltou para sua igreja, na pessoa do Espírito Santo. É confortador para a igreja saber que Jesus não é um vulto distante na história, tanto na passada como na por vir. É um vulto presente. O Senhor da igreja está com a igreja: “e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28.20).

 

Alguns “teólogos” que perderam a fé ou que se perderam em seu raciocínio, gostam muito do jogo de palavras, de brincar com elas. Parece que trocaram a teologia pela poesia, que é agradável (quando é boa), mas é distinta. No jogo de palavras, um deles disse que quando a igreja se reúne é para celebrar a ausência de Deus. O culto é apenas para evocar saudades. O Pai está distante, e o Filho se foi. Morreu e acabou. Cristãos que têm uma experiência profunda com Deus sabem que o culto celebra uma presença, a de Jesus. Ele está com a igreja todos os dias, até o fim do mundo. Sabem que o Espírito não é uma evocação saudosa ou o sentimento comunitário da igreja, mas uma pessoa viva e real.

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E AGORA, MALCO? O QUE FAZER?

Isaltino Gomes Coelho Filho

 

“Então Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco” (João 18.10).

Homem curioso. Famoso não por si, mas pela orelha. Não fosse ela, ninguém saberia que ele existiu.  Nada sabemos dele, além de que era servo do sumo sacerdote, e seu nome. Malco é a forma helênica do hebraico Meleque, “rei”. A tradução de Chouraqui diz que sua orelha foi “decepada”. Parece ter havido uma pequena luta entre o grupo que veio prender Jesus, do qual ele fazia parte, e alguns discípulos. E eis sua história: na luta ele perde a orelha, Jesus a recompõe (conforme Lucas), e pronto. Só isso. Nada mais se fala dele.

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UMA ORAÇÃO SEM SENTIDO

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Disse-lhe Felipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta. Respondeu-lhe Jesus: Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheces, Felipe? Quem me viu a mim, viu o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (João 14.8-9).

 

Um corinho muito cantado em algumas igrejas diz: “Quero te ver, quero te tocar… revela-te a mim… conhecer-te eu quero mais”. Sua música é envolvente e sua letra expressa um desejo de mais profundidade espiritual. Seu conteúdo se assemelha muito com o pedido de Felipe. “Mostra-nos o Pai”, disse ele. O pedido deste discípulo manifestava um desejo sincero, como o de muitos crentes, o desejo de ter um relacionamento mais profundo com Deus. Isto é saudável. Mas o pedido não faz sentido. Ninguém pode ver o Pai, como ele disse a Moisés: “E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver” (Êx 33.20). No Novo Testamento lemos: “Ninguém jamais viu a Deus” (1Jo 4.20-a). O pedido pode ser sincero, mas não faz sentido.

 

Quem queira ver a Deus deve olhar para Jesus. É nele que vemos Deus. Recebi um e-mail falando sobre as manifestações da presença de Deus. Uma mensagem bem elaborada, dizendo que Deus está na natureza, no sorriso de uma criança, num gesto de amor. Isso é panteísmo. Deus não está nas coisas. Não está na natureza, nem no sorriso de uma criança, nem num pôr-do-sol, embora estas coisas sejam bonitas. Evitemos teologizar com base no sentimentalismo. Deus está em Cristo: “Deus estava em Cristo…” (2Co 5.19). É em Cristo que vemos Deus. Dele, com muita propriedade, Paulo disse: “o qual é imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). “Imagem” é o grego eikon, que tinha também o sentido de “espelho”. É uma figura muito preciosa. Quando Deus olha no espelho há um rosto nele, o de Jesus. Quando Jesus olha no espelho, há um rosto nele, o de Deus. Jesus é Deus.

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BUZINAR OU OBEDECER?

Isaltino Gomes Coelho Filho

 

“Se me amardes, guardareis os meus mandamentos (…) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama…” (João 14.15, 21).

 

Em Igreja, corpo vivo de Cristo, Stedman, ao narrar um momento na Peninsula Bible Church, diz: “Um jovem soldado, de farda, entra com o seu jipe no espaço ao lado do Volkswagen. No pára-choque está escrito: ‘Se você ama a Jesus – buzine!’. Ouvem-se várias buzinas. Ele salta do carro e acena enquanto anda em direção à igreja” (p. 5). Parece que Stedman acha isso muito bonito. Entendo que deve haver algum significado nisso. Alguém que ama ao Senhor Jesus se identifica ao motorista, que também ama a Jesus. E mostra o amor buzinando. Deve ser isso.

 

O livro está defasado nas ilustrações (a primeira edição em português é de 1974). O que era alternativo hoje é padrão. Naquela época era inusitado mostrar sua fé através de buzina. Ou de outra maneira exótica. O inusitado de 1974 é rotina em 2011. As pessoas querem mostrar sua fé por atos que não envolvem, necessariamente, compromisso ou entrega da vida. Antigamente se cria que a evangelização era a maneira de levar as pessoas a serem de Jesus. Hoje se coloca uma placa na entrada da cidade: “Coxipó de Poconé de Conceição do Mato Dentro é do Senhor Jesus”. Pronto, Coxipó é de Jesus. Ou pior, ainda: aluga-se um helicóptero e joga-se óleo lá de cima, para “ungir Coxipó de Poconé de Conceição do Mato Dentro”. Agora, a cidade ficou “ungida”. Mas nada mudou. A violência continua, a prostituição não recua, o uso de drogas avança, mas declarou-se Coxipó como sendo de Jesus. Ou “ungida” para ser de Jesus. Recordo-me de uma cidade do interior de São Paulo que ostenta uma placa, em sua entrada, dizendo que ela pertence ao Senhor Jesus. E recordo-me de ter lido um relatório da Secretária de Segurança do Estado de S. Paulo em que tal cidade era a mais violenta do estado. E me recordo de 1João 5.19: “… o mundo inteiro jaz no Maligno”.

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JESUS AINDA É O CAMINHO?

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” – João 14.6

Um dos mais graves problemas para a igreja de Cristo é a perda da visão da exclusividade da salvação pela graça por meio da fé em Jesus. Teoricamente, cremos que só Jesus Cristo salva, mas na prática, essa declaração não permeia a vida de muitas igrejas. A crença na salvação exclusivamente por meio de Jesus deveria produzir uma ardorosa visão evangelística e missionária. Cristo seria o carro-chefe da igreja e a mensagem do Cristo crucificado, poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, seria a tônica da pregação. Estranhamente, porém, boa parte das igrejas tem se escondido no Antigo Testamento, trazendo para o culto arca, shophar (esta é a nova grife!), quipá, estrela de Davi, etc. São igrejas evangélicas que baniram o evangelho e recuperaram o sistema veterotestamentário. Sua leitura da Transfiguração deve ser que o Pai retirou Jesus de cena, deixando Moisés e Elias, e declarou: “Estes são os meus Filhos amados em que me comprazo; a eles ouvi”.

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“NA CASA DE MEU PAI HÁ MUITAS MORADAS”

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar” (João 14.2).

Recordo-me que, criança de dez anos, saído da missa, na Igreja de São Tiago, na Praça 24 de Outubro, em Inhaúma, meu bairro de criação no Rio, ter me perguntado: “Se eu morrer será que vou para o céu?”. Em casa, comentei isso com minha mãe. Já envolvida com o espiritismo, ela apenas me disse: “Deixa de bobagem, menino!”.

Aos catorze anos conheci o evangelho, e fui batizado no dia em que completei quinze anos. A questão ficou me suficientemente clara. Eu iria para o céu. Não por ter abraçado uma nova fé ou por ser bom. Por causa de Jesus Cristo. Ficou muito claro para mim que Jesus salva o pecador que se arrepende e crê. Quando o Pr. Falcão Sobrinho pregava, o Espírito me mostrou isto. Assim, estas palavras de Jesus me acalentam o coração: ele foi preparar lugar. Quando morrer, irei ter com ele. Esta certeza não tem a ver com ser batista, mas com Jesus. Ele é o Salvador. Como bem diz um hino que, infelizmente, deixamos de cantar: “Para o céu por Jesus irei, para o céu por Jesus irei. Grande é meu prazer de certeza ter: Para o céu por Jesus irei”.

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“DEPOIS ENTENDERÁS”

Isaltino Gomes Coelho Filho

Respondeu-lhe Jesus: O que eu faço, tu não o sabes agora; mas depois o entenderás” (João 13.7).

Para Pedro era absurdo Jesus lavar-lhe os pés. Isto era tarefa de escravos, ou de alguém que fosse inferior ao que tinha os pés lavados. Jesus era o líder, o mestre deles, como poderia lhe lavar os pés, a ele, Pedro? Ele deveria lavar os pés de Jesus! Jesus insiste; quer lhe lavar os pés.

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“QUERÍAMOS VER A JESUS”

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Estes, pois, dirigiram-se a Felipe, que era de Betsaida da Galiléia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus” (João 12.21).

Quando eu era adolescente, meu pastor, João Falcão Sobrinho, agraciou-me com um livro de Roy Hession: “Queríamos ver a Jesus”. Li-o com atenção e aprendi muito. Já pastor, tive o privilégio de ouvir Hession, num retiro da Ordem dos Pastores de S. Paulo. Uma das coisas que aprendi, do livro e das mensagens ao vivo, é que a vida cristã é Jesus. Neste sentido, o título da obra, extraído da palavra dos gregos em João 12.21, é significativo: ver a Jesus.

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“TIRAI A PEDRA”

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Disse Jesus: Tirai a pedra. Marta, irmã do defunto, disse-lhe: Senhor, já cheira mal, porque está morto há quase quatro dias”(João 11.39)

Um livro de Enéas Tognini, que li no início de meu ministério, tinha este título: “Tirai a pedra”. Sua linha, que muitos têm seguido, é que há pedras por tirar em nossa vida para que o poder de Jesus se manifeste. Apesar da simplicidade, não foi um escrito banal. Com habilidade, Tognini expôs seu argumento, evitando a banalidade. Sem o brilho dele, gostaria de mostrar dois aspectos, apenas, que também me parecem relevantes.

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“TEU IRMÃO HÁ DE RESSURGIR”

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Respondeu-lhe Jesus: Teu irmão há de ressurgir” (João 11.23)

Diante da palavra de Marta de que Deus poderia lhe conceder tudo quanto ele pedisse (inclusive a ressurreição de Lázaro), Jesus diz que ele há de ressurgir. E Marta crê. Ela crê numa ressurreição geral, no último dia (v. 24). Jesus continua sua argumentação, seguindo o raciocínio de Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês isto?” (vv. 25-26). Haverá, sim, uma ressurreição no último dia. Por causa de Jesus, que é ressurreição e vida. Ele pergunta a Marta se ela crê nisto, e ao invés de apenas dizer “sim”, ela vai além: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (v. 27).

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A MANIFESTAÇÃO DA VERDADEIRA FÉ

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Disse, pois, Tomé, chamado Dídimo, aos seus condiscípulos: Vamos nós também, para morrermos com ele” (João 11.16).

Poucas palavras expressam um compromisso tão grande como estas de Tomé. Jesus insiste em retornar a Judéia (11.7). Seus discípulos tentam dissuadi-lo (11.8), mas ele se mantém irredutível. É quando Tomé concita os demais a irem, mesmo que seja para morrer com ele.  Verdade é que, como os demais, acabou fugindo (Mt 26.56). Mas recuperou-se, gastou sua vida na obra missionária, e morreu como mártir. Desta maneira, sua fala não foi retórica. Ele foi para morrer por Cristo. Cumpriu o que disse.

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QUANDO JESUS SE ATRASA…

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Quando, pois, ouviu que estava enfermo, ficou ainda dois dias no lugar onde se achava” (João 11.6).

Fugindo dos que queriam prendê-lo, Jesus “retirou-se de novo para além do Jordão, para o lugar onde João batizava no princípio; e ali ficou” (Jo 10.40). Este lugar era Betânia (“Estas coisas aconteceram em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando” – Jo 1.28). Estamos agora no ciclo de atividades de Jesus em Betânia. Talvez estivesse um pouco distante da cidade ao ser informado que Lázaro, que morava em Betânia (11.1), estava doente. Ele se demorou mais dois dias para visitá-lo (11.6). Quando chegou ele havia sido sepultado há quatro dias (11.17). Sua caminhada demorou dois dias.

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AS OVELHAS DE JESUS

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem;

eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha mão”- João 10.27-28.

Após dizer que os judeus não eram suas ovelhas, Jesus caracteriza quem são elas. “As minhas ovelhas”, ele começa a dizer, e faz uma das mais lindas declarações de toda a Bíblia. Não pertencem a uma denominação nem se caracterizam por uma determinada liturgia. São conhecidas por seis marcas, todas de relacionamento com ele.

A primeira: “ouvem a minha voz”. Elas ouvem a Jesus, não a estranhos. A Jesus, não a Moisés ou a Elias (Mt 17.5), símbolos do Antigo Testamento. Ouvir Moisés e Elias produz situações tristes, como a noticiada pela Internet de sete igrejas evangélicas colombianas que se tornaram sinagogas. Há muita igreja “sinagogada” por aí. Não se compõem de ovelhas de Jesus. Não o ouvem direito.

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O PESO DA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Respondeu ele: Se é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era cego, e agora vejo” – João 9.25

A conversa era tensa. E piorou quando o sinédrio disse: “Dá glória a Deus”, iniciando o diálogo com ex-cego de nascença. Esta frase iniciava o processo por heresia. Normalmente degenerava em condenação. A resposta do inquirido foi desconcertante. Desconhece teologia, mas tem certeza de uma coisa: era cego e agora via. Contra os discursos, exibiu a sua experiência. Mais à frente, o ex-cego fulminou a falação dos teólogos: “Desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer” (vv. 32-33).

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O ERRO DO POLITICAMENTE CORRETO

Isaltino Gomes Coelho Filho

” disse-lhe Jesus: Nem eu te condeno; vai-te, e não peques mais” – João 8.11

O “politicamente correto” tem pontos positivos, como evitar o desrespeito a pessoas e instituições, mas tem sido usado como cerca contra críticas e discordâncias de comportamentos. Discordar é ser mal visto. Ou, o que parece ser o pior rótulo hoje em dia, “preconceituoso”. Esta parece ser a grande nódoa de qualquer pessoa ou o novo pecado imperdoável: ser preconceituoso. Geralmente se pespega o rótulo a quem não aceita certo tipo de conduta. Quando alguém não concorda com o homossexualismo, logo é taxado de preconceituoso. Mas se alguém não concorda com minha fé, não é preconceituoso. Tem convicções. Isto se parece com a postura daquela moribunda ideologia política que clama por liberdade e, ao chegar ao poder, nega-a aos discordantes. Os não preconceituosos são preconceituosos com seus discordantes.

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A PRIMEIRA CARTA DE JOÃO

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para núcleos de estudo bíblico

INTRODUÇÃO

Quase chegando ao fim da Bíblia, encontramos as três cartas de João. A segunda e a terceira são os menores livros da Bíblia. A primeira é uma dessas jóias semi-ocultas, quase nunca estudadas em nossas igrejas. Mas tem um valor enorme por nos mostrar o cenário teológico da igreja no primeiro século, bem como nos trazer lições preciosas do último discípulo de Jesus a morrer. João foi o discípulo que mais viveu. Tinha consciência de que sua vida estava se acabando e, sendo a última pessoa que viu Jesus vivo, precisava doutrinar bem a igreja. Neste sentido, sua carta, que hoje começamos a estudar é riquíssima.

AUTORIA

As três epístolas atribuídas a João omitem o nome do autor. Mas universalmente tem sido creditada a autoria a João, o apóstolo. Isto foi afirmado desde cedo, na história da Igreja, por homens como Policarpo, Papias, Eusébio, Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano. Estes homens foram chamados de “pais da Igreja”, porque durante o ministério deles a Igreja se consolidou e firmou sua doutrina. O ensino deles é chamado de “patrística”, derivado de pater, “pai”. Pois bem, a teologia patrística sempre reconheceu o apóstolo João como sendo o autor das três epístolas que levam seu nome. No ano 170 de nossa era, isto já estava aceito pela igreja.

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DOIS TIPOS DE DISCÍPULOS

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Respondeu-lhe Felipe: Duzentos denários de pão não lhes bastam, para que cada um receba um pouco. Ao que lhe disse um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro: Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isto para tantos?” – João 6.7-9

Filipe e André são discípulos de Jesus com nomes gregos significativos: “amigo dos cavalos” e “homem”. Um voltado para animais e outro para pessoas. Ambos são mais de bastidores que da linha de frente. São mencionados sempre em papéis secundários, e nunca propriamente de comando.

André é uma figura fantástica. Viveu nos bastidores e à sombra do irmão, Pedro, que ele levou a Jesus. Sempre com uma palavra positiva e colaborando para decisões. No episódio em tela, Jesus levanta a questão: onde arranjar comida para tanta gente? Já decidiu o que fará, mas experimenta os discípulos. Se foi um teste, do ponto de vista de Recursos Humanos, Filipe foi reprovado e André foi aprovado.

Quando Jesus traz o problema a Filipe, este o agrava: sete meses de salário de um trabalhador não bastariam. Filipe dramatiza o problema. André aponta numa direção. Não chega a dar uma resposta, mas devolve o problema para o Senhor, após mostrar alguma coisa. E a pista de André é assumida imediatamente por Jesus, que age a partir de sua sugestão. Se fosse se lastrear na palavra de Filipe, Jesus apenas teria o problema com cores mais vívidas.

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LUZ TEMPORÁRIA, SIM; DEFINITIVA, NÃO

“Ele era a lâmpada que ardia e alumiava; e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz.” – João 5.35

Isaltino Gomes Coelho Filho

“Luz” é uma das metáforas usadas por João, como verdade, vida, caminho, água, etc. Ele se ligou muito neste estilo de Jesus ensinar. Esta palavra do Mestre que ele registrou em 5.35 é significativa. Jesus falava de João Batista (v. 33). Os homens se alegraram com sua luz, que era temporária. Mas quando veio a luz verdadeira, que João não era (“Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava chegando ao mundo” – Jo 1.8-9), eles não quiseram.

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À BEIRA DO TANQUE…

“Achava-se ali um homem que, havia trinta e oito anos, estava enfermo” – João 5.5

Por que a precisão de João em dizer que o homem estava enfermo há trinta e oito anos, ainda mais quando os judeus apreciavam números redondos, e quarenta era um número com idéia de algo completo? Porque este foi o tempo que Israel passou no deserto: exatamente trinta e oito anos. O homem é um símbolo de Israel.

A multidão ao redor do tanque se compunha de “enfermos, cegos, mancos e paralíticos” (v. 3, Almeida Século 21). Quando o messias viesse, diziam os judeus, os cegos veriam, os surdos ouviriam, os paralíticos saltariam e os mudos falariam. Baseavam-se em Isaías 35.5-6, um texto que fala de águas e ribeiros. Na teologia dos hebreus, a vinda do messias se ligava a curas de cegos, surdos, mudos e paralíticos. Então, Jesus cura um paralítico, anunciando que o messias chegou.

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O CÂNTARO ESQUECIDO

“Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens…” – João 4.28

Que relato! Que desfecho extraordinário! Como conhecemos bem a história da mulher samaritana, é desnecessário recontá-la. Nosso foco é este: ela foi ao poço com seu cântaro, buscar água. Descobriu a água da vida. Deixou o cântaro junto ao poço e foi à cidade testemunhar de Jesus.

Parece que ela não tinha boa reputação. Seria mesmo uma pessoa indicada para testemunhar de Jesus? Era. Exatamente por isso. Logo ela, falando de assuntos espirituais? Seu testemunho teve um impacto tão grande que muitos creram em Jesus. O testemunho baseado numa profunda experiência de encontro com Jesus causa impacto no mundo. Mais que técnicas e macetes de como testemunhar (a mulher não tinha nenhuma orientação sobre isso), as pessoas precisam de uma experiência com Cristo.

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QUE ELE CRESÇA E EU DIMINUA

“É necessário que ele cresça e que eu diminua” – João 3.30

Eu estava na Igreja Memorial Batista de Brasília quando o Pr. Éber Vasconcelos, até então pastor da igreja, deu posse ao seu sucessor, o Pr. Norton Lages. O “Príncipe do Púlpito” entregava seu púlpito a um colega. É difícil esquecer Éber Vasconcelos. Quem o ouviu, nunca o esquecerá. O melhor pregador que já ouvi. Mas queria diminuir e que seu ex-rebanho seguisse agora outra orientação. Leu este texto e saiu pela porta lateral.

Um verdadeiro homem de Deus age assim. Não anseia por spotlight, mas sabe sair de cena. E sabe ocupar lugar inferior. Lembro-me de uma antiga oração dos crentes, que, ao intercederem pelo pregador, diziam: “Esconde teu servo atrás da cruz de Cristo”. Bonita oração! Hoje o culto à personalidade em nosso meio chega a ser asqueroso. Parece que a oração é “Esconde a cruz de Cristo atrás do teu servo”.

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O VENTO SOPRA ONDE QUER

“O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” – João 3.8

“Vento” e “espírito” são a mesma palavra hebraica, ruah. Ninguém diz ao Espírito onde soprar. Ele sopra onde quer. Mas muita gente quer lhe dizer onde soprar. Povo curioso, o povo crente!

Dizemos ao Espírito onde ele deve soprar quando sacralizamos formas e métodos como suas linhas de ação. Sou conservador em teologia e tradicional em liturgia. Mas minha opção não move Deus. Sou batista por conversão (converti-me numa igreja batista) e depois por opção (examinei e freqüentei outros grupos, e permaneci batista). Exulto com minhas opções e as julgo corretas, não porque sejam minhas; são minhas porque as julgo corretas. Mas não penso ter o copyright de Deus. Sou expressivo no que abraço e defendo, mas não sou parvo.

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O VINHO NOVO É MELHOR!

“E lhe disse: Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os convidados já beberam bastante, servem o inferior; mas tu guardaste até agora o melhor vinho” – João 2.51

Este não é o primeiro milagre de Jesus, como costumeiramente dizemos. Os sinóticos o ignoram. Mateus relata curas de enfermidades e doenças, em geral (Mt 5.23). Para Marcos e Lucas foi a expulsão de um demônio (Mc 1.23ss, Lc 4.31).

João não usa a palavra milagre em seu evangelho. Usa “sinais”, o grego sêmeion, com a idéia de uma indicação. Os sinais são eventos que sinalizam uma lição teológica a seguir. João não faz história nem cronologia, mas um tratado teológico, com uma tese a ser provada (e que está em 20.30-31).

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A escada de Jacó – O sonho se fez realidade

“E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (Jo 1.51)

É o primeiro “em verdade, em verdade” de Jesus, segundo o evangelho de João, um evangelho que não é cronológico e sim teológico, com uma construção estrutural para provar uma tese e não para narrar uma vida. “Em verdade, em verdade” é um idiomatismo aramaico e hebraico, que o autor registrou em grego, e designa a solenidade e a convicção do que está se dizendo. É o primeiro em João, e é usado por Jesus, aplicando-se a si uma estranha figura.

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Debaixo da figueira

“Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes que Felipe te chamasse, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira. Respondeu-lhe Natanael: Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és rei de Israel” (Jo 1.48-49).

Que confissão de fé estranha! Porque Jesus disse que o vira antes, debaixo da figueira, Natanael se rende a ele, com três declarações: “Rabi, filho de Deus e rei de Israel”. Tanta coisa por uma alegação de que fora visto debaixo de uma figueira? O que há de tão inusitado nisto?

Tudo começa com o fato de que ao ser apresentado a Jesus, Natanael ouve dele um elogio. Ele, Natanael, é um israelita em que não há “fingimento” (Almeida Século 21). Natanael nunca se encontrou com Jesus. Como Jesus pode afirmar isto dele? Jesus o viu debaixo da figueira, antes que Felipe o chamasse. Natanael fica tão estupefato que se rende, com três declarações de fé em Jesus. O que há por trás disso?

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