A Conversão Da Globeleza

A Conversão Da Globeleza

 

            Na revista “Veja” de 5 de novembro há uma entrevista com Valéria Valenssa, que durante muitos anos fez as chamadas para a programação de carnaval da Tv Globo, sambando com apenas uma cobertura de tinta e purpurina no corpo. Valéria fala de sua conversão e de seu novo estilo de vida. É uma reportagem que merece atenção e provavelmente muitos a comentarão. Mas gostaria de observar alguns pontos que me parecem relevantes.

            Tudo começou com sua frustração porque com o nascimento do seu segundo filho, a Globo a avisou que estava à procura de uma nova Globeleza, que era como ela era chamada, “Mulata Globeleza”. Para não perder o lugar, ela fez de tudo. Engordara 10 quilos, mas fez lipoaspiração, colocou próteses e perdeu o peso extra. Mesmo assim foi substituída. Segundo ela, “caí em profunda depressão. Eu tinha o mundo a meus pés e, no dia seguinte, não tinha mais nada”. Então ela começou a freqüentar cultos de um grupo de funcionários evangélicos da Globo, e se converteu. Ela sempre se impressionou com a personalidade da cantora Aline Barros e isto a motivou para procurar o evangelho.


            Bem, não sei se ela teve o mundo a seus pés. A mim, pelo menos, não teve. Além de ser bem casado, prefiro as loiras (e nenhum pangaré venha me chamar de racista, porque estas tolices cansam!). Mas a primeira questão que quero abordar está aqui: o vazio que as pessoas têm e procuram preencher com fama ou notoriedade. Junto com isto, o culto ao corpo. Somos uma sociedade estética e obviamente temos nossas escolhas, mas se uma pessoa pensa que todo o seu valor está na estética, se frustrará profundamente. Como Valéria, que ainda é uma mulher bonita. Mas o tempo passa para todos, de maneira implacável. O sentido da vida hoje parece estar no corpo ou na valoração estética. Sem dúvida, isto evidencia grande pobreza emocional e espiritual. A ex-artista fala do grande vazio que sentiu com a situação. Quando estabelecemos para nós valores falsos e superficiais não é difícil perdê-los. E perdê-los frustra muito. Lembro-me de Mica: ele fez seu próprio sacerdote, seu altar, sua religião, enfim. Ele fez seus próprios valores religiosos e morais. Um dia, eles se foram. Valores falsos desmoronam rapidamente. Mica ficou desesperado: “Ele respondeu: “Vocês estão levando embora os deuses que fiz e o meu sacerdote. O que me sobrou? Como é que ainda podem perguntar: ‘Qual é o seu problema?’ “(Jz 18.23).

            Se o deus de uma pessoa é a beleza física, a sensualidade, a visibilidade televisiva, o apelo sexual, ela se frustrará. Sempre aparecerá alguém mais jovem e com plástica mais atraente, que a eclipsará. Não é de se estranhar o envolvimento de tantos artistas com drogas, além da frustração, do uso de bebidas, e a vida fútil, embora incensada pelos meios de comunicação, que precisam de novas figuras para vender.

            A segunda observação é que Valéria agiu acertadamente. Estava na hora de se voltar para Deus. Na hora da crise é bom fazê-lo. Teve um encontro real com Deus no primeiro culto, chorou por uma hora e meia. Segundo ela, “a partir daquele momento, nunca mais me separei Dele”. Que bom! Como disse alguém, “Deus pode consertar um coração quebrado se lhe dermos todos os pedaços”. Hoje a ex-atriz reconhece que errava com o uso do corpo. Indagada pelo repórter se ela pecava quando aparecia nas vinhetas e desfilava com o corpo coberto apenas de tinta e purpurina, respondeu: “Sim. Mas eu não estava na presença do Senhor, não tinha os conhecimentos que tenho hoje”. E foi incisiva: “O Carnaval é uma festa da carne. As pessoas lá estão pecando”.

            Uma terceira observação: ela se filiou à Universal do Reino de Deus. Indagada do porquê, respondeu sucintamente: “Porque tem cultos em diversos horários”. Nós, os tradicionais, abrimos aos domingos e em um dia no meio da semana para um culto de oração com menos de vinte por centro da membresia da igreja. Parece-me que os tradicionais não temos amor por cultos (talvez por louvor, mas por culto, não). Há excesso de reuniões secundárias, desnecessárias, chazinhos, ministração pra lá e pra cá, mas culto mesmo, não. No Carnaval, saímos em retiro. Constantemente, temos retiros de grupos disto ou daquilo. Nós mesmos esvaziamos nossos cultos com atividades que nos fazem bem e nos dão a sensação de que estamos realizando um trabalho portentoso. Confundimos movimento e agitação com serviço cristão. Nos meus tempos de seminarista me ensinaram que um bom sermão se leva oito horas preparando. Será possível que um homem que leia a Bíblia todos os dias, tenha vida com Deus, cultive a espiritualidade, tenha experiência de vida, precise preparar por oito horas uma fala de trinta minutos? Alguém dirá que os sermões neopentecostais não carecem de preparo, pelo seu estilo e conteúdo. Bem, não temos visto sermões fenomenais sendo preparados em oito horas…

            Ouvi outra: pregar um sermão equivale a um trabalho braçal de oito horas. Por isso, o pastor não pode pregar muito. Ora, corra atrás de um caminhão de lixo por oito horas, recolhendo sacos das calçadas e jogando-os no caminhão em movimento e veja o que cansa mais. Carregue tijolos numa construção e veja o que cansa mais. Sinceramente, fico muitas vezes a pensar se não temos um cristianismo muito burguês, que atende nossas conveniências, nos dá a sensação de gente fazendo algo para Deus, mas com resultados pífios.

Nós não conseguimos que os membros de nossas igrejas se animem a orar no culto de quarta-feira. Imaginem ter três cultos diários para atrair pessoas sem Cristo… Imaginem um pastor pregar três vezes no dia… Que cansaço! E como preparar num só dia três sermões de oito horas de estudo cada? Quando quebrarmos alguns paradigmas e deixarmos algumas lendas para trás, talvez seja possível.

Mas algo me incomodou na entrevista. A quem Valéria se converteu? O nome de Jesus não é mencionado uma vez sequer na entrevista, mas ela se converteu e é evangélica. Mas e Jesus? Ela está na presença do Senhor, serve ao Senhor. Maravilha! Mas e Cristo? Porque converter-se é arrepender-se dos seus pecados e crer em Jesus como Senhor. Não há conversão sem Jesus. E não é rabugice. Meu incômodo tem bases. O repórter perguntou: “Que mensagem você procura passar em seus testemunhos?”. Ela respondeu: “A primeira coisa é o amor. Em seguida vem o respeito ao próximo, à família, ao casamento”. Bonito, mas o evangelho não é isto, e testemunhar de uma conversão deve incluir mais que isto. Desconfio que estamos com um evangelho sem Jesus, apenas moralista, que fala de amor, de família, um evangelho que não é específico, que não toca em sua essência, mero sentimentalismo. Continuo incomodado com o fato de que Cristo e cruz estão sendo varridos para baixo do tapete. Falar de amor qualquer adolescente de segundo grau fala. Falar de família e respeito, qualquer um pode falar. Mas um convertido é a única pessoa que pode falar de Jesus e sua cruz com autoridade moral e espiritual. Mas onde estão Jesus e a cruz? Parece-me que o evangelho hoje é cada vez menos Jesus e cada vez mais sensações e sentimentos. Cruz, então, nem se fala!

Obviamente não duvido da conversão de Valéria Valenssa. Creio piamente que ela teve um encontro com Deus e que sua vida foi mudada. Que Deus a mantenha firme e que ela seja referencial para muitos. Mas que na sua conversão haja lugar para Jesus. E em seu testemunho também haja lugar para ele. Senão, algo de muito estranho aconteceu.