PECADOS VIRTUAIS

Isaltino Gomes Coelho Filho

 

Para muitos, tudo que é moderno é bom e tudo que é antigo é ultrapassado. O fato de algo ser moderno torna seu uso sempre aceito, mesmo que o uso não seja adequado. Entre as modernidades está a Internet. Ela é muito útil, nas pesquisas e na comunicação. Mas é perigosa, se mal usada. Uma das questões debatidas, atualmente, são os problemas que ela traz. Em New addictions – as novas dependências, Cesare Guerreschi dedica um capítulo ao uso e abuso da rede, principalmente ao cybersex addiction. Dá-o como uma das patologias modernas.

Li um desabafo de uma mulher que se sentiu magoada pela traição virtual. Sua grande dor é que foi trocada por nada. Não por uma figura de carne e osso, uma mulher que competisse com ela. Ela poderia se comparar com outra mulher, mas como se comparar com uma figura abstrata? Li também a confissão de um homem que teve problemas sérios para consertar o relacionamento conjugal, após o envolvimento virtual.

Uma pessoa ser comparada ou trocada por outra é injusto, mas tem base. Mas quando se é trocado por nada, como a pessoa se sente? O fato de que não há envolvimento físico pode aplacar a consciência do culpado e lhe dá a ideia de que não fez nada errado. Mas não é assim.

 

O PROBLEMA DO RELACIONAMENTO VIRTUAL

Muitas vezes, é um relacionamento entre duas pessoas desconhecidas, que estão em cidades e até em estados diferentes, mas que desfrutam de intimidade em confidências, palavras, sentimentos e expressões de anseio. Há o distanciamento físico, mas não o emocional. Soube de uma pessoa que estava fazendo terapia porque só conseguia se relacionar virtualmente. Vedara-se para relacionamentos reais, com gente de carne e osso, face a face. Os relacionamentos virtuais são campo propício para o surgimento de patologias. Relacionamentos reais também são, mas os virtuais têm um agravante: a pessoa se oculta e falseia sua personalidade real. Algumas até falseiam dados.

Quem se relaciona virtualmente nem sempre sabe com quem o faz. Lida com uma fantasia ou uma falsidade. Vi uma charge com dois cães teclando em computadores e um dizia ao outro: “O bom da Internet é que ninguém que somos cães”. Na realidade, sabe-se pouco de real da pessoa. Muito cão moral se comunica pela Internet.

O relacionamento virtual com desconhecidos pode evidenciar dificuldade de adaptação ao mundo real e pode ser uma fuga para um mundo imaginário. Mostra imaturidade e medo de relacionamentos reais, se a pessoa depende exclusivamente deles ou depende muito deles. O que está em foco não é a Internet em si. É a busca de envolvimento emocional sem compromisso. O que vier é lucro. Busca-se aventura com desconhecidos. Um mundo de ilusão.

 

COMO OS PECADOS VIRTUAIS APARECEM

A pessoa entra em salas de bate papos. Escolhe o assunto e a faixa etária. Aí, é aquela pasmaceira de generalidades e abstrações. Mas há salas sobre sexo, nas quais se podem trocar fotos e marcar encontros. Qualquer pessoa medianamente informada sabe que é perigoso se abrir e marcar encontros com desconhecidos. Vez por outra lemos de casos de violência, até de morte, de encontros assim marcados.

O pecado virtual começa com boa dose de mentira. Ninguém diz: “Sou baixo, careca, pernas tortas, nariz adunco, e com mau hálito”. Diz-se um Rambo. Nem diz: “Sou tão feio que até minha mãe relutou em aceitar”, mas procura mostrar-se como um Adônis ou uma Vênus. Omite-se a verdade sobre si e exageram-se partes para impressionar. Um mundo irreal. Pessoas sadias aceitam-se como são e não mentem a seu respeito. Elas têm relacionamentos reais com pessoas reais.

 

A QUESTÃO DA PORNOGRAFIA

Um aspecto seríssimo é a busca de pornografia. Sites pornográficos são muito acessados e rendem fortuna aos seus donos. Com apornografia vem a pedofilia. A pedofilia floresce por causa da liberdade da pornografia. AInternet, neste sentido, é fonte de lixo. Reportagem do Estadão, 7.2.2006, trouxeuma reportagem sobre como a pedofilia era explorada no ambiente da rede. Um pedófilo se orgulhava de que nunca seria descoberto.

Por trás do avanço tecnológico está um usuário humano. Então o pecado estará presente. “De fato, tenho sido mau desde que nasci; tenho sido pecador desde o dia em que fui concebido” (Sl 51.5). O homem é um Midas às avessas. O que Midas tocava virava ouro. O que o homem toca é estragado pelo pecado. A Internet é um desses casos. A pornografia é o exemplo mais forte, sério e complexo. É uma doença moral e psicológica. É perversão de um sentimento divino, o amor sexual. É um vício muito forte por mexer com instintos primários. Quem busca pornografia já decidiu que vai se prostituir ou prevaricar ou adulterar. Ainda não decidiu com quem e não teve oportunidade. Mas já desceu ao nível instintual.

A pornografia coisifica o homem e a mulher. Ela rebaixa o sexo do nível do amor para o nível do instinto, e avilta o sexo. Numa sociedade em que o homem foi reduzido a animal, não é estranho que isto suceda. Quem vive nos instintos busca o sexo por instinto, não por afeto e ternura. Há casais que buscam a pornografia, juntos, na rede. Outros alugam filmes pornográficos. Um homem disse, certa vez, que isto apimentava seu casamento. Ele devia estar se tornando impotente, ou a mulher tornando-se frígida, ou o casamento ia muito mal. Se um casal carece de pornografia para se desejar, o casamento está mal. Não há amor e os dois precisam de estímulos. Quem precisa de estímulo sexual, se não tem problemas fisiológicos ou orgânicos, os tem emocionais ou morais. Ou não ama. Onde há amor genuíno não haverá pornografia. Ela avilta a pessoa. Uma vez vi num caminhão: “Não existe mulher feia. É você que não bebeu bastante”. A pornografia diz: “Não existe parceiro desinteressante. É você que não se ‘pornografou’ bastante”.

O casal que busca erotismo na Internet desperta instintos, mas maltrata o casamento. Seu desejo sexual foi esvaziado de amor. Sexo e amor não são a mesma coisa. Se a única maneira de desejar o cônjuge é pela pornografia, a coisa vai mal. O melhor estímulo é a manutenção do romance, da continuidade do relacionamento amoroso, gentil e respeitoso. Quem é desejado por causa de pornografia não é amado. É coisificado.

Alguém disse que usar a pornografia é tão normal como a fome. Se uma pessoa tem fome, mas a única maneira de fazê-la comer é cobrindo os pratos com véus, tocando música sensual, descobrindo os pratos devagarinho, com luzes sobre eles, ela tem problemas sérios. Se a única maneira de despertar interesse sexual é desta maneira, algo está errado.

 

POR QUE ISTO ACONTECE?

Por que as pessoas buscam pornografia e sexo pela rede? Primeiro: o homem é pecador e perverte as boas coisas. Li que a energia nuclear poderia fazer com que se plantasse num dia e se colhesse em outro. Mas ela trouxe o fantasma da destruição final. O álcool, medicinal e carburante, é usado para embriaguez. O pecador perverte os dons divinos e as boas descobertas humanas. Não é a coisa em si, mas seu uso. Lembre-se que você é pecador, mas um pecador salvo, regenerado pelo sangue de Cristo. Não se rebaixe. Evite aprisionar-se. “Cristo nos libertou para que nós sejamos realmente livres. Por isso, continuem firmes como pessoas livres e não se tornem escravos novamente.” (Gl 5.1, LH) pode se aplicar aqui, sem eisegese.

Segundo: a pessoa perdeu seus valores. Não se é cristão apenas nos cultos ou em público, mas em todas as áreas da vida. Lembremo-nos do Salmo 101.3: “Não porei coisa torpe diante dos meus olhos”. Cabe aqui o cântico infantil: “Cuidado, olhinho, com o que olha”. Se Davi tivesse se portado com classe, com educação, e desviasse os olhos quando viu Bate-Seba se banhando, teria evitado muitos problemas. Uma mulher se banhar não é torpe, mas olhá-la ocultamente é. Cuidado com o olhar indevido.

Terceiro: limitação teológica. “Ninguém está vendo”, pensa a pessoa. Deus está vendo. Nossa conduta deve ser por causa dele.

Quarto: imaturidade. A pessoa idealiza um cenário para se estimular. Mas isto exige devaneio, imaginação, fuga do real. Fantasias podem ajudar, mas quem se refugia sempre nelas é imaturo.

Mais questões podem ser aventadas, mas cito apenas mais uma: falta pensar como um cristão. Ao nos convertermos, devemos ter outra mente: “Vocês foram ressuscitados com Cristo. Portanto, ponham o seu interesse nas coisas que são do céu, onde Cristo está sentado ao lado direito de Deus. Pensem nas coisas lá do alto e não nas que são aqui da terra. Porque vocês já morreram, e a vida de vocês está escondida com Cristo, que está unido com Deus. Cristo é a verdadeira vida de vocês, e, quando ele aparecer, vocês aparecerão com ele e tomarão parte na sua glória. Portanto, matem os desejos deste mundo que agem em vocês, isto é, a imoralidade sexual, a indecência, as paixões más, os maus desejos e a cobiça, porque a cobiça é um tipo de idolatria. Pois é por causa dessas coisas que o castigo de Deus cairá sobre os que não lhe obedecem. Antigamente a vida de vocês era dominada por esses desejos, e vocês viviam de acordo com eles. Mas agora livrem-se de tudo isto: da raiva, da paixão e dos sentimentos de ódio. E que não saia da boca de vocês nenhum insulto e nenhuma conversa indecente. Não mintam uns para os outros, pois vocês já deixaram de lado a natureza velha com os seus costumes e se vestiram com uma nova natureza. Essa natureza é a nova pessoa que Deus, o seu criador, está sempre renovando para que ela se torne parecida com ele, a fim de fazer com que vocês o conheçam completamente.” (Cl 3.1-10, NTLH).

 

CONCLUSÃO

Não use a Internet para defraudar outros, mentir, insinuar-se, forjar situações. Não perca a condição de cristão nem seja dominado pelos instintos. A pornografia é uma droga emocional e livrar-se dela exigirá muito. Ao sentar-se diante de um computador você ainda é um cristão.

O computador é moderno. A Internet é moderna. A cruz é antiga. Mas a cruz deve balizar o uso do computador. Não tenha a mente do mundo. Tenha a mente da cruz