A adoração, a edificação e a Igreja

A adoração, a edificação e a Igreja

Palestra apresentada à Associação Batista dos Músicos do Brasil

INTRODUÇÃO
Deixei ressaltado um ponto, nas palestras anteriores, que é de uma obviedade enorme e, por isso, desconsiderada por alguns. A música no culto não é um adorno, um acessório, mas é parte integrante. Não é para variar o culto ou para amolecer corações, mas tem função de proclamar e de ensinar. A música evangélica tem função pedagógica e não recreativa. Não é para passar o tempo, mas para ensinar as grandes verdades da fé cristã. É pregação e não entretenimento. Este ponto, óbvio, parece olvidado em alguns cultos de que temos participado.
No livro O Celeste Porvir – A Inserção do Protestantismo no Brasil, Gouvêa Mendonça faz uma citação de David Martin, que transcrevo aqui: "…não há dúvidas de que o hino proporciona a mais ressonante evocação do sentimento religioso na Bretanha: maior mesmo do que a liturgia. A própria Bíblia dificilmente se rivaliza com os hinos, mesmo entre os mais biblicistas dos crentes" (p. 234). E faz Mendonça a sua observação: "o que David Martin diz da Bretanha pode-se dizer de todos os protestantes quanto ao lugar do cântico no culto". E ele tem razão ao fazer esta afirmação.
Já ouvi de professores, tanto de História Eclesiástica quanto de Música, a afirmação de que os cânticos de Lutero tiveram igual ou maior valor na disseminação da doutrina da Reforma que os seus escritos teológicos. Sendo assim, precisamos refletir seriamente sobre o que a música ensina em nossas igrejas e que doutrina propaga em nosso meio. Há uma vasta produção musical que nada ensina, apenas faz passar o tempo de maneira agradavelmente emotiva. E isso é mau. Apesar do "agradavelmente".

1. A função pedagógica da música
Embora tenha senso de estética musical, nada conheço de música. Estou falando a músicos como pastor que sou. Como alguém que prega, que deseja ensinar a mensagem de Cristo nos cultos e tem compreendido o grande auxílio que pode ter, como pregador, na música. Não tenho o rigor técnico, portanto. Mas sou um bom observador. E procuro não ser ignorante na minha área. Analisei três livrinhos de cânticos espirituais e uma coletânea de corinhos, feita por um amigo. Não achei um cântico (que chamamos de "corinhos") sequer falando sobre o batismo, sobre a ceia do Senhor, e, por incrível que pareça, nem um sobre a Igreja como um todo (não estou falando de vida na igreja, mas da Igreja). O conteúdo de quase todos os cânticos é intimista e a linha que seguem é de louvor, bem associado com contemplação. Assim mesmo, alguns com problemas teológicos sérios. Um deles dizia que "Jesus é o Pai Eterno". Quando foi cantado na FTBB, chamei o seu autor (foi cantado num culto do Grêmio Estudantil) e lhe disse que havia um erro teológico. Jesus não é o Pai Eterno. É o Filho Eterno. Ele ouviu com boa vontade. Disse alguém, que ouvia a conversa, que era a mesma coisa. Respondi que mesma coisa é um ônibus cheio de japoneses, mesmo correndo o risco de ser chamado de racista ou de piadista de mau gosto. É um ensino doutrinário errado. Pai e Filho são pessoas distintas, na Trindade. Não se pode ensinar o oposto.
Noutro cântico alguém queria subir acima dos querubins, para entronizar a Cristo. Se quiser entronizá-lo na sua vida, faça-o. Mas subir acima dos querubins é problemático. Em Isaías 14.13, alguém quis subir acima das estrelas (sinônimo para anjos) e se deu mal. É melhor não tentar fazê-lo.
A confusão doutrinária em nosso cenário deve nos chamar a atenção. Ela coincide com a falta de conteúdo doutrinário dos cânticos, que passaram a ter uma linha de pensamento totalmente subjetiva, intimista, personalista, sem visão de uma realidade objetiva. Na maior parte das vezes, sem base escriturística. Quando tem, esta é precária ou discutível. Não me parece mera coincidência. A confusão doutrinária é causa e, ao mesmo tempo, é conseqüência da ausência de cânticos com um ensino cristão mais consistente. Estão entrelaçados.
Se a música é doutrinariamente fraca, dificilmente as igrejas terão conteúdo. Não se pode esperar consistência teológica e doutrinária de uma comunidade que canta subjetivismo e experiencialismo cristão, somente. A música evangélica não tem por finalidade produzir emoções nas pessoas nem fazê-las sentir-se bem. Isso pode suceder e é até bom que suceda, mas não me parece a finalidade principal da música a ser cantada em nossas igrejas. Do ponto de vista vertical, a finalidade dos cânticos é a glória de Deus. Do ponto de vista horizontal, é ensinar. O cântico evangélico deve ser também uma recitação teológica. Quanta esperança foi produzida nos corações dos primeiros batistas brasileiros pelos hinos do Cantor Cristão que falavam de vida futura, o que Mendonça chama de protestantismo peregrino! Na realidade, muito da esperança pós-túmulo que a maioria dos membros de nossas igrejas têm, não vem dos sermões pregados sobre o assunto, raros, por sinal. Brota do cânticos de hinos deste teor, hinos sobre a vida futura. Os cânticos em nossas igrejas devem trazer uma fé explícita e devem cantar uma doutrina correta. Devem expressar não apenas o que o autor sente, mas o que o autor e a comunidade em que ele se insere crêem. Um pastor que tenha bom senso nunca empregará música como entretenimento, mas como comunicação, como pregação, como ensino. E um ministro de música de bom senso sempre terá esta compreensão de seu trabalho: não está colocando pedaços espirituais numa parte chamada "ordem do culto". Estará compondo um todo que prega, por mensagem, orações, cânticos, e até prelúdios e poslúdios. Estes podem um criar clima propício para oração e reflexão.

2. A música como elemento de ensino
O Hinário Para o Culto Cristão, ora citado não como hinário imbatível e perfeito, serve de base para o que pretendo dizer. Traz hinos sobre batismo. O número 510, por exemplo, mostra Jesus como modelo, mostra a ruptura com o passado que o batismo testemunha, e os caminhos novos por onde andar. O 511 testemunha da transformação, do perdão, do compromisso. São hinos que, cantados em momentos de batismo, ampliam o ensino sobre esta ordenança. Foge-se do tradicional "ó que belos hinos…", que se relaciona mais com decisão por Cristo do que com batismo. Hinos como estes, cantados em momentos de batismo, sem dúvida que reforçarão, junto com o visual e com a pregação, a doutrina do batismo na mente das pessoas. Não raro me tem acontecido que pessoas, decididas, que assistem aos cultos de batismo, se sentem tão impressionadas que vêm falar comigo, depois, para saber quando será o seu. Mas elaboramos uma mensagem que é um todo e não uma colcha de retalhos. A mensagem se constitui da pregação, das palavras, do visual e do cantado.
Até mesmo um ato muito bonito em nossas igrejas, como apresentação de crianças, que alguns criticam por julgar parecido com batismo infantil, torna-se bem explícito no HCC que tem mensagem musical para o momento. Um pastor que saiba manusear bem o Hinário estará ensinando sua igreja com os hinos apropriados. Ainda não consegui convencer os membros da Igreja a marcarem antecipadamente, para inserção na ordem de culto e as providências litúrgicas. Sempre me chegam um pouco antes do ofício religioso, no gabinete, e avisam.
Isso implica em duas coisas, que me parecem necessárias. A primeira é que o pastor conheça bem seu hinário, que o estude, que o analise, e veja sua funcionalidade. A segunda, falo com sinceridade de coração, é que busque assessoria com o diretor do Depto. de Música ou com seu ministro de música. O ciúme ou receio de dividir liderança pode levar um pastor a querer fazer as coisas sozinho. Mas é forçoso reconhecer o músico tem um cabedal maior, mais material, uma visão mais específica. Um pastor que saiba trabalhar, dividir liderança e acatar sugestão de alguém mais competente que ele (por incrível que pareça aos pastores, há pessoas mais competentes que eles!) terá grandes recursos em suas mãos.

3. Algumas práticas e sugestões
Como compatibilizar a música com o ensino na Igreja? Como pastor e ministro e música podem, em harmonia, trabalhar para empregar a música como elemento de ensino?
A primeira sugestão é que a ordem de cultos seja produto de uma cabeça. Em minha Igreja, é do ministro de música. Não tenho ciúmes nem sou preguiçoso. Andamos no mesmo rumo, temos o mesmo estilo e a mesma visão de ministério. E não por coincidência. É que trocamos idéias e conversamos sobre culto e teologia. Mais que colegas de trabalho, somos amigos pessoais. Isso ajuda muito. Se duas pessoas vão trabalhar juntas, necessitam de amizade e de confiança. Sei que para alguns será difícil agir assim, seja por temperamento ou por quais circunstâncias forem. Mas deve haver uma harmonia na confecção de uma ordem de culto. Recordo-me quando o Prof. Jerry Key, nosso professor de Homilética, em 1968, ensinou sobre os tipos de sermões quanto ao objetivo geral. Disse que deveríamos pregar apenas um objetivo de vez. Há sermões evangelísticos, doutrinários, éticos, de alento, de consagração e devocionais. Segundo o professor Key, deveríamos pregar num rumo só. Perguntou um colega: "Mas suponha que eu prepare um sermão doutrinário e haja visitantes, não dá para dar um jeitinho e pregar também um sermão evangelístico?". Com um bondoso sorriso, o Dr. Key disse: "O problema de seminarista é que ele quer pregar tudo de uma vez". Mutatis mutandis…
Não apenas um sermão, mas uma ordem de culto também se prepara com oração. Se é o que Deus mostrou, faça-se o que Deus mostrou. Tenho dificuldades com o conceito de um Deus que só se revela no púlpito, em cima da hora, e sempre para modificar o que foi feito, antes, em oração. Deus não orienta no gabinete? Não ouve as orações feitas lá? Uma ordem de culto harmoniosa, caminhando numa direção, comunica muito mais que uma ordem fragmentada. Por isso, é bom que seja de um só. Mas respeito a interpretação de outros, porque conheço um pouco das pessoas e dos pastores, também.
A segunda sugestão é que o pregador comunique com antecedência ao ministro de música sobre o que vai pregar, título e um pouco do conteúdo. Isto é palavra do Conselheiro Acácio, de Machado de Assis. Então, falo pouco aqui. É desnecessário.
Uma outra sugestão, a terceira, é que o pregador tenha um programa de pregação. Se ele vai pregar sobre um livro da Bíblia ou sobre um determinado assunto por algum tempo, a facilidade de comunicar harmoniosamente é maior. Fiz uma série de sermões em Efésios. Então, o ministro de música sabia que tema seria pregado nos domingos vindouros. Pudemos até compor um corinho em parceria. Uma outra série foi sobre o pai-nosso, num total de oito sermões. Fica mais fácil ensinar ao povo, que sabe que vai receber informações numa direção, por algum tempo, como também facilita o trabalho de prover música sobre o assunto.
Uma sugestão, a quarta, é o uso de um hino como o hino do mês. Fora dos hinários usados pela congregação, para ampliar o conhecimento do povo sobre os hinos como também para apoiar uma ênfase do mês, seja denominacional, eclesiástica, seja do púlpito. Em nossa experiência, o uso do Queres Ajudar? da cantata Boas Novas, se tornou tão querido ao povo, que nos meses que precedem as campanhas para missões, já tenho pessoas perguntando se vamos cantá-lo naquele mês. Isso foge da rotina e permite trazer hinos novos, produtos recentes (embora eu opte, quando é a minha vez, por muitas "velharias" – no sentido carinhoso). Mas amplia o conhecimento do povo sobre hinos.
É necessário ensinar ao povo, por palestras, por palavras em momentos propícios, em ocasiões especiais, sobre o valor da música no culto. Ainda há muito equívoco e muita confusão em nossos arraiais por causa disso. O povo não sabe o que é música no culto. Sem um ensino claro, a possibilidade de ensinar será sempre mais truncada.

4. A música e a edificação na igreja
Falei algo, não exaustivamente, sobre o ensino. Gostaria de dar uma palavra sobre a edificação. Ao longo da Bíblia e da história da Igreja, observamos que os grandes avivamentos se basearam num ensino enfático das Escrituras. O episódio de Neemias 8, quando Esdras lê a lei ao povo, marca o início do judaísmo (não se o confunda com o hebraísmo): uma religião normatizada por um livro. Foi um grande avivamento. Produzido pelo ensino da Palavra. O avivamento de Ezequias (2Cr 29.20-36) enfatiza o culto, mas mostra a presença do ensino da Palavra. No v. 30, os levitas recebem ordens para louvar ao Senhor com "as palavras de Davi, e de Asafe, o vidente". A referência remete aos cânticos devidamente inseridos nos Salmos, como Palavra de Deus que os temos. O avivamento de Josias tem como marca muito forte o ensino do livro achado nos escombros do templo (2Cr 34.8-21). É a Palavra de Deus que norteia os avivamentos.
A Reforma de Lutero foi a redescoberta da Bíblia e teve a pregação como elemento central. O suporte veio dos cânticos. Com os irmãos Wesley, a Bíblia voltou a luzir e, mais uma vez, como com Ezequias e Lutero, numa parceria com os hinos. A Bíblia como centro. A música, inclusive, como nos cânticos de Davi e Asafe e em hinos de Lutero, apoiada na Bíblia. A edificação da Igreja como um todo e em nível particular, vem pela aplicação da Palavra. Examinem-se os textos de Salmos 119.9 e 11 e João 17.17. Mas hoje em dia tenta-se edificar a Igreja pela emoção, pelos cânticos vazios de letra, mas ricos de ritmo e de estridência. A edificação deixa de vir pelo conteúdo e tenta fazê-la surgir pela forma.
Não estou dizendo que seja errado ter emoções. Deus nos fez seres emotivos. Estou dizendo que as emoções não podem ser o carro chefe, e sim a Palavra. A Palavra aplicada pelo Espírito produz boas emoções. Mas a manipulação de emoções pode produzir histeria. O caso de Jim Jones é um exemplo.
E o que tem a ver nosso assunto com isto? É que creio que precisamos de biblicidade em nosso culto. Nada a ver com a pregação. Com a música. Não é a música, em si, que edifica, mas seu conteúdo. Num congresso de mocidade, em 1975, critiquei um determinado corinho que me pareceu vazio de conteúdo. Um rapaz me contestou, alegando que o corinho o fazia sentir-se bem. Isso lhe bastava. Contei-lhe que quando tinha 19 anos estava numa crise existencial muito grande. Num sábado, sozinho, bastante deprimido, assistia televisão em casa. Apareceu o cantor Moacir Franco e ensinou um corinho secular: "A vida é boa, é bela, é para sorrir, nunca chorar, sempre cantar". E cantou aquilo umas dez vezes. Meu ânimo melhorou. Mas este é um conteúdo que um espírita, um hindu, um ateu, poderiam cantar tranqüilamente, sem problemas. Produziu-me emoção. Mas não se deu um ensino bíblico, que tem raízes e que solidifica a pessoa. A música produz emoções, mas deve, em nosso caso, ser usada para edificar através de um ensino bíblico correto. Para efeitos duradouros e não efêmeros.
Eis o que quero dizer: a edificação não pode vir por emoções ou sensações, que sempre são passageiras. E, por vezes, ilusórias. Deve vir pelo ensino do conteúdo bíblico. Hinos e cânticos necessitam de teologia correta também para edificar. Necessitam de conteúdo bíblico para dar consistência ao ensino. Temos tido muito oba-oba, com a consistência de uma goma de mascar, que produz uma sensação agradável, excitante, mas que não dá profundidade. Um de nossos problemas é exatamente a superficialidade. Conteúdo se torna necessário para se ter uma igreja edificada sobre a Palavra de Deus. E isto é um desafio para pastores e músicos.

Conclusão
Termino por aqui. Não apenas esta palestra, mas a série. Posso sintetizar tudo em poucas palavras. Necessitamos de uma hinologia bíblica, correta teologicamente, e de qualidade. Necessitamos de compreensão (os membros de nossas igrejas, porque os músicos a têm) do que seja a música no culto. Necessitamos de trabalho em harmonia entre os levitas e os profetas contemporâneos. Necessitamos recordar que nosso trabalho não deve ter marcas de personalismo e exclusivismo, mas de cooperação. Um pastor precisa de músicos competentes. Compositores podem pedir ajuda a pastores versados em Teologia para se evitar a veiculação de heresias. Pedir ajuda a quem entenda de português também é razoável. Não se deve espancar a "última flor do Lácio, inculta e bela", no dizer de Bilac.
E o que fizermos, seja sempre de boa qualidade, com dedicação, para glória de Deus.

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho