A arte de discordar como crentes

A arte de discordar como crentes

Há pouco tempo atrás, "O Jornal Batista" publicou artigo de minha autoria com o título "Ïgrejismo ou Cristianismo?". Era uma reflexão sobre o culto em nossas igrejas. Reflexão de um batista há 31 anos, desde a adolescência, e pastor há 23 anos. Não foram considerações levianas nem de um iconoclasta furioso. Foram de alguém que ama sua denominação. De alguém que já teve desgostos suficientes para deixá-la, mas ficou porque seu compromisso é com Cristo e dentro do grupo a que ama e serve, o grupo batista.

O artigo foi motivado por julgar eu ser surrealista que se brigue por formas de culto. Brigar por causa de adoração a Deus é algo estranho, realmente estranho. Por ferir assunto tão discutido e até mesmo melindroso, esperava reações. Mas, quem o leia sem preconcebimento, verá que o artigo é uma chamada à reflexão. Até termina com o pedido de mais abordagem, por outros, mas de forma cordial.

Meu amigo Pr. Dylmo Pereira de Castro, de Vitória, me telefonou parabenizando pelo artigo. O ministro de música de minha Igreja, Anderson Motta, também gostou. O Pr. Clóvis Martinoff, da 2a. de S. J. do Rio Preto, SP, e que foi minha ovelha em Edu Chaves, S. Paulo,  informou-me que pediu aos diáconos de sua Igreja que lessem e discutissem o artigo. O Pr. David Oliveira, do Mato Grosso, em carta, disse ter gostado. O Dr. Hosanah Florêncio de Menezes, Juiz de Direito em Manaus, membro do Conselho de Planejamento e Coordenação da Convenção do Amazonas, propôs e o Conselho aceitou que o artigo fosse publicado no "O Batista Amazônico".

É evidente que nem todos gostaram. É óbvio, pois é um assunto muito debatido. E eu não sou a última palavra em nada. Mas creio que "O Jornal Batista" deve abordar estas questões, sendo um fórum de debates, acolhendo opiniões diversas. Não temos um pensamento monolítico entre nós. Somos uma denominação com diversidade cultural, num país com muitas culturas entrelaçadas, numa Convenção que recebe colaboração de missões estrangeiras diferentes. A diversidade de opiniões pode ser uma riqueza e oportunidade de crescimento e a visão unilateral não será boa. Um dos pontos altos de nosso jornal, há anos atrás, foi um debate muito cordial entre Jáder Malafaia, defendendo o pré-milenismo, e Werner Kaschel, defendendo o amilenismo. O Pr. Jáder, com a elegância e cavalheirismo que sempre teve. O Dr. Werner, com a classe que Deus lhe deu e que ele soube desenvolver. Aprender dos outros enriquece. Quando não muito, pelo menos ouvir outros pontos de vista já acrescenta alguma coisa.

Recebi três cartas discordantes que preciso tratar pelas páginas do nosso jornal. Não há outro jeito. A abordagem do assunto talvez nos ajude a vivermos melhor com os que pensam de maneira diferente. Coincidentemente, as três vieram de Niterói. A primeira que chegou foi anônima. Escrita em termos baixos, bem vulgares. O adjetivo mais publicável (pasmem!) foi "filho do Diabo". Seu destino foi a cesta de lixo. Não creio que o autor aprendeu na Escola Dominical os termos que utilizou. Eu, pelo menos, os aprendi no botequim de meu pai, quando não éramos convertidos. Tenho pena de seu pastor se ele os usa em reuniões administrativas.

As outras duas vieram de Lauro Menezes e Mauro Menezes. Ambas sem endereço. Devem ser irmãos, pois o tipo de envelope é o mesmo, a máquina é a mesma, o estilo de datilografia é o mesmo e a agência postal é a mesma. A de Lauro Menezes segue uma prática muito comum entre os crentes: por na boca dos outros palavras que eles não disseram. Ele me acusa de defender o estilo de roque na música evangélica. Basta ler o artigo e ver que não fiz isso. Acusa-me de defender a bateria em alto som nos cultos, o que não fiz também. Eu disse até que já me retirei de cultos por causa da música muito alta. Depois de torcer minha palavra, envia-me algumas "ofensas cristãs". A de Mauro Menezes segue um sarcasmo baixo. Quase no estilo da anônima. Cheguei a pensar: seriam os mesmos autores? Desafia-me a escrever-lhe, mas não dá endereço.

Depois de 23 anos de ministério, já me acostumei com as pancadas. Acaba se desenvolvendo um couro de rinoceronte. E já me acostumei com os crentes. Neste tempo de ministério, nunca um incrédulo me faltou com o respeito por eu ser pastor ou por expender minhas idéias. Quanto aos crentes, já perdi as contas das vezes em que o fizeram. É triste, mas real: muitos pastores sofrem mais nas mãos dos crentes do que nas mãos dos incrédulos.

Mesmo assim me impressiono com isso. Como pessoas que se dizem controladas pelo Espírito Santo podem usar desses expedientes? Como, em nome de Cristo, se ofende, se calunia, se difama? Choca-me ver que a defesa de pontos de vista é feita, por alguns, numa atitude de jaguncismo intelectual. Um crente não pode ser um jagunço.

Escrevi um artigo sobre apresentação de crianças, que a "Administração Eclesiástica" publicou. Um diácono de S. Paulo escreveu à redação, discordando e levantando alguns pontos. Escrevi ao diácono que teve a gentileza de me telefonar e enviar uma carta se desculpando. Foi muito bom para nós dois. Ambos crescemos, eu mais que ele. Fiquei feliz em saber que há um diácono maduro assim. Feliz é o seu pastor. Como sou feliz com os meus diáconos, muito equilibrados e preocupados com o pastor. Espero, quando for a S. Paulo, conhecer este irmão e orar com ele. Também gostaria, se um dia for a Niterói, de conhecer os Menezes. Poderemos orar juntos, uns pelos outros e crescer juntos. Poderemos nos ver como irmãos em Cristo e não como inimigos. Gostaria de receber carta do irmão que não assinou os termos pouco cristãos. Sem repreensões, poderíamos conversar e orar um pelo outro. Não há necessidade de difamação nem de expedientes escusos.

Deixo, respeitosamente, algumas sugestões para os que querem emitir sua discordância dos outros crentes. Talvez nos ajude a viver bem. Tenho procurado segui-las. Invoco "Igrejismo ou Cristianismo?" para ser examinado e verificar se não tentei fazer assim. Posso falhar, mas me esforço para cumprir isso.

1o) Respeite a pessoa de quem você discorda. É um crente no Senhor Jesus, filho do mesmo Pai, seu irmão na fé. Não é menos salvo que você. Mesmo que fosse um perdido, mereceria respeito.

2o) Cuide bem de suas palavras."Toda palavra fútil que os homens disserem, hão de dar contas no dia do juízo" (Mt 12.36).

3o) Seja honesto. Não torça as palavras do outro. Não lhe atribua declarações que ele não fez.

4o) Não seja desleal. Cartas anônimas ou sem endereços não são expedientes elogiáveis. Crentes não agem assim. São transparentes.

5o) Procure edificar. Não aja mundamente buscando destruir a reputação dos outros. Não tente aniquilar o próximo. Tiago 3 é uma advertência muito séria sobre a língua.

6o) Tendo convicção de que você está certo e outro, errado, exponha seus argumentos. Busque convencê-lo. Ofendê-lo não é prática correta. Uma boa causa pode ser perdida por um mau defensor.

7o) Ore e pergunte a Deus se o que você está escrevendo é agradável aos olhos dele. "A boca do justo profere sabedoria" (Sl 37.30).

Quanto ao mais, sem ironia e sem querer parecer magnânimo ou um supercrente, peço a Deus que abençoe o irmão anônimo e os Menezes. Que juntos sirvamos a Deus com inteireza de coração. E espero que Niterói me seja mais condescendente no futuro.

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho