Habacuque: oração e responsabilidade

Habacuque: oração e responsabilidade


Habacuque é um profeta que começa seu livro com oração. Diferentemente de Sofonias (Sf 1.1), Ageu (Ag 1.1), Zacarias (Zc 1.1) e outros a quem a palavra do Senhor veio e que começam o livro com sua vocação, em Habacuque é a palavra do homem que vai ao Senhor. Não se inicia com a chamada ao ministério profético, mas com a ida do profeta a Deus.

Ele começa com um "até quando?", expressão usada por Deus para questionar o seu povo (Nm 14.11), e pelo Senhor Jesus, para repreender os discípulos (Mt 17.17). O termo tem sempre uma conotação de interpelação. É, então, uma oração um tanto desaforada, diríamos. Ele cobra de Deus um término a um estado de coisas que lhe é inaceitável (Hc 1.2). Tamanha ousadia só será encontrada, mais tarde, na cobrança feita pelos que foram mortos por causa da palavra de Deus e do seu testemunho, os mártires de Apocalipse 6.10. Não é uma oração de entrega, portanto, mas de cobrança.

Apesar de questionadora, não é uma oração desabafo, que logo cessa. Em 2.1 ele se põe sobre a torre de vigia, em posição de espera para ver o que o Senhor lhe dirá. Ele fala, mas quer ouvir. Na realidade, faz questão de ouvir. Esta postura é ainda mais surpreendente quando procuramos entender o que o texto bíblico quer dizer com "e o que responderei no tocante à minha queixa" . A sentença não faz sentido. A melhor compreensão é "e o que responderá ele no tocante à minha queixa". Algum escriba deve ter trocado o sentido, movido pelo senso de reverência, surpreendido pelo fato de que o profeta ousou questionar a Deus e trazê-lo a um tribunal, onde o inquire. E isto não é invenção do articulista, mas observação encontrada em qualquer comentário bíblico conservador.

Habacuque é um profeta que ora. Sua oração é produto de um senso de responsabilidade. Ele vê o ímpio cercar o justo e perverter a justiça (1.4). Vê a violência, a iniqüidade e a opressão. Estas coisas o indignam e ele as leva a Deus pedindo providências. É um intercessor, preocupado com o sofrimento do povo.

Talvez um dos grandes problemas que a igreja evangélica contemporânea enfrente hoje seja o acentuado sentimento de individualidade, em que as pessoas se preocupam com seus problemas e suas necessidades, sem ver a situação do mundo. Há um egoísmo enorme no cenário evangélico contemporâneo. Muitos estão preocupados com sua prosperidade pessoal, com o livrar-se de seus problemas, com correntes (variação das novenas católicas) de libertação para obter melhora de vida, etc. Não há nenhuma visão social ou de grupo, como o profeta manifestou. Sua indignação, que o levou a uma oração exasperada, foi pelo sofrimento do seu povo. A oração de boa parte dos cristãos contemporâneos é pela sua melhora pessoal.

Mais que palavras, oração é desejo de comunhão com Deus. Este deve ser o objetivo maior. Mas a oração intercessória, além da comunhão com Deus e do amor pelos que intercedemos, envolve também indignação ou, pelo menos, inconformismo. É por não aceitar determinada situação que intercedemos. É por não aceitar que haja perdidos sem quem lhes pregue o evangelho que intercedemos por missionários e missões. É por não estarmos conformados com a tibieza da igreja que oramos por avivamento. Uma oração autêntica, que brote do fundo da alma, terá sempre um elemento de inconformismo e até mesmo de indignação. "Até quando?" não é um desaforo dito a Deus, mas a expressão de um coração aflito por ver o mal campear livre e não aceitar a situação. É um tipo de oração que deveria estar em nossos lábios com razoável assiduidade.

Na sua obra Cristo e o Sofrimento Humano, Stanley Jones faz algumas observações extraordinariamente lúcidas sobre o problema do sofrimento nas grandes religiões. Diz ele que Buda, pela pregação do alheamento, reduz a vida humana à existência do vegetal e chama a isso de vitória. Isto eqüivale, diz ele, a cortar a cabeça, quando ela doer. Sobre o Islã, que significa, literalmente, "submissão à vontade de Deus", diz ele que ensina a aquietar-se e acalmar-se diante das injustiças. Prega-se o conformismo. Cada um vive a sua vida, e pronto. Afinal , tudo é vontade de Deus. Tanto é assim no pensamento islâmico que nossa palavra "oxalá" (tomara, assim seja) é o aportuguesamento do árabe en sha allah, "se Alá quiser".

Marrou, em Teologia da História, fala do homem que se beneficia da situação histórica e se aliena do sofredor, pensando que não tem missão social para cumprir: "Deus está no seu céu: tudo vai bem na terra: cada um deve apenas cultivar com atenção o seu próprio jardinzinho". É a figura do alienado que vê seu mundinho particular como sendo a maior preocupação de Deus. Seus pequenos negócios devem ocupar tanto a Deus que este deve mover céus e terra e deslocar legiões de anjos para aplainar o caminho, abrandando o coração do gerente do banco para aquele foi tomar o empréstimo para ampliar seus negócios, como ouvido em programa televisivo. Não importa que haja guerra e fome em outros lugares. Deus está ocupado com ele, seu filho predileto e especial, que precisa de um carro novo. A pessoa, com esta ótica, cuida apenas de si. Não tem visão social nem histórica. Na realidade, é provável que nem tenha de vida cristã, nos moldes bíblicos.

Há muitos cristãos cuidando do seu jardinzinho. Seu dente de ouro (já em desuso, mas devendo ser substituído dentro de algum tempo por nova grife evangélica), sua bênção pessoal, sua prosperidade, a troca do seu calhambeque velho por um Ômega que ele "visualizou" e do qual "engravidou" em oração, por exemplo, são sua preocupação. Mas e a fome de milhões de pessoas? E o morticínio em guerras sem sentido? E Angola, Ruanda, Chechênia? E o massacre social de milhões de deserdados? Onde está o senso de responsabilidade? E o senso de historicidade, de ter um lugar na obra de Deus? E a realização por ser útil e por ajudar alguém? Há hoje muito hedonismo espiritual em nossos arraiais. Observa-se a ausência de espírito serviçal. O coração de um cristão deveria chorar diante das injustiças e se revoltar por ver a fome do trabalhador e o desperdício nababesco de um luxo sibarita do espertalhão desonesto que se beneficia da miséria alheia. Infelizmente nota-se mais orações tipo "cuida de mim" do que "até quando?". Não é errado pedir o cuidado de Deus para si. O erro é quando só se pede por si. Na oração do pai-nosso, Jesus não usou o pronome eu, mas o nós. É o "nosso pão", as "nossas faltas", "não nos deixes cair". Ele nos inseriu num contexto de socialidade, mas resvalamos sempre para a individualidade. Ele não ensinou os discípulos a dizerem "meu Pai", mas "pai-nosso". Ele veio para banir o eu e afirmar o nós, na nossa compreensão espiritual.

Voltando a Habacuque: sua oração não foi tanto por si mesmo. Foi por ver o direito torcido. Foi porque o pobre não tinha quem o defendesse. Foi por ver a injustiça triunfar. A preocupação com os outros é manifestação de maturidade. E é evidência de maturidade espiritual quando o objetivo de nossas orações não é o nosso bem-estar, mas o bem-estar do próximo.

Habacuque recebeu uma resposta dura. Em 2.20, Deus lhe disse: "Mas o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra". É uma repreensão. É como se Deus dissesse: "Habacuque, ainda estou no poder. Não perdi o lugar. Cale-se toda a terra, inclusive você". Mas a verdadeira oração implica em ser repreendido. O homem que ora deve esperar ser corrigido. E, em vez de mágoa ou depressão, a resposta de Deus, corrigindo-o, encheu o profeta de confiança, a ponto de compor o capítulo 3, um autêntico salmo de esperança. Tão destoante do resto do livro que alguns estudiosos acham que não faz parte dos escritos do profeta (e, na minha opinião, faz). Se ele começou com aflição (1.2), terminou com confiança (3.17-19). Porque abriu o coração, porque se indignou, porque interpelou. E porque, assim é o caráter de Deus, o Senhor lhe respondeu, porque responde aos aflitos.

Esta é uma grande lição de Habacuque. Mais que frases feitas tipo "orar é invadir o céu" (que coisa terrível!), o profeta nos ensina que orar é abrir o coração, confiantemente, diante de Deus. É expressar indignação. É ter visão social e senso de responsabilidade pelo que sofre. Que nossos olhos sejam abertos para entendermos a profundidade do que seja orar. E que tenhamos senso de responsabilidade, intercedendo pelos que sofrem e são espoliados. Que nunca vejamos a vida cristã do ponto de vista tão materialista como alguns têm visto: meu bem-estar, minha prosperidade e meu progresso pessoal. Que haja dor em nosso coração por um mundo que precisa de intercessores.

 

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho