A Identidade da Igreja

Identidade da Igreja

Estudo preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a Mocidade da Igreja Batista do Cambuí, 22.4.00

 

Agradeço a Deus porque fui  para o seminário no fim dos anos sessenta,  ainda adolescente.  Os evangélicos éramos  insignificantes e a época era de grande contestação.  A corrente de pensamento era o existencialismo, que trazia um aspecto secularizante à vida. Um seminarista de 19 anos devia possuir uma consciência muito forte de vocação naqueles dias. Após duas décadas de estabilização e institucionalização, pós-Segunda Guerra, havia a contestação de todas as estruturas existentes. O movimento estudantil de 68, o movimento  hippie, o lema “é proibido proibir”  tudo contribuía para uma contestação da ordem vigente.

Há um fenômeno chamado  infiltração cultural nas relações sociais. As estruturas intercambiam atitudes e se influenciam mutuamente, mesmo sem querer e sem saber disto. A Igreja, como sub-cultura (no sentido de ser uma cultura menor dentro de uma maior),  recebe influência do pensamento da sociedade. Assim é que os anos setentas foram anos de repressão na sociedade, por causa das tensões entre o regime militar e a guerrilha de esquerda. Houve uma infiltração cultural na Igreja, que impedia qualquer discordância do discurso oficial.

Os anos sessentas foram  de questionamentos e de queda de conceitos. Tudo era submetido a revisão e contestação. Foram anos de análise, de crítica e de refazimento, expressão  à gosto de Darci Ribeiro.  Minha formação teológica se deu nesta época. Graças a Deus por isto. Até hoje, questiono, faço perguntas, quero saber o porquê.  Sou  filho de uma época.

Os anos atuais  são de acomodação. A preocupação é com riqueza, estabilidade, grife, moda e shopping. O desmantelamento do bloco soviético e a emersão dos EUA e seu estilo de vida esbanjador como vencedor causaram uma situação delicada. Há uma idéia de globalização, de massificação, de homogeneização, no mundo. Os meios de comunicação fazem isso muito bem.  Eu e a maioria esmagadora da população brasileira não ligamos muito para Madonna. Mas todos os jornais televisivos anunciaram, em fevereiro, sua segunda gravidez, com estardalhaço por parte dos locutores. Há um acúmulo de informações desnecessárias, alienantes e massificadoras, generalizando, por baixo,  o pensamento mundial.  Não há muita preocupação social.  É típico da mentalidade capitalista/empresarial,  que vende produtos, idéias e estilos de vida e se infiltra na Igreja, com um estilo de banalidade. Cultos banais, mensagens banais, publicações banais, criando um cristianismo superficial, um evangelho sintético, de consumo, sem exigências e só oferecimentos. 

Esta mentalidade surge até na teologia. O pietismo, onde estão nossas mais sólidas raízes teológicas,  está fora de moda. Prevalece  a teologia da prosperidade. A Igreja Católica apostou suas fichas na teologia da libertação e os neopentecostais, na da prosperidade. Como ninguém está ligando a mínima para os que sofrem e para as injustiças,  os pregoeiros da riqueza como sinal de fé estão com melhor audiência. Com isso, precisamos pensar seriamente. A Igreja corre o sério risco de descaracterizar-se, de perder sua identidade, tão peculiar e distinta das demais organizações deste mundo. Está sendo massificada por esta mentalidade de informações superficiais que alienam, que desinformam, na realidade,  pela idéia de que os bens materiais são o supremo valor. Nada de sério deve ser passado. Uma sociedade irrelevante deseja uma igreja irrelevante. Nosso risco é fazer o jogo da mídia. Devemos pensar seriamente sobre nós mesmos. Não podemos ser uma Igreja fútil, preocupada com bens, com patrimônio, mais que com missão. É preciso não perder a identidade. Nem assumir um discurso banal, irrelevante, em resposta à pesquisa de mercado. Há muitas igrejas que têm feito isto: pesquisam o ambiente para saber o que as pessoas estão querendo. Então adaptam sua mensagem às necessidades do ouvinte. É um evangelho vendido como um novo refrigerante. Sintético, artificial, descartável.

1. O LEVANTAMENTO DO PROBLEMA 

Frank Byrnes, um canadense, me perguntou: “Na sua opinião, qual é o maior problema da igreja evangélica no Brasil?”. Respondi sem pestanejar: “crise de identidade”.  E explico.
 Que é a Igreja? Emprego para especialistas ociosos? Diversão para a classe média e muletas para os pobre?  Um jeito de manter as pessoas sob controle? Um grupo conservador, pregando seus valores? Uma sociedade de moralistas de fachada? Burgueses espirituais que se julgam superiores à plebe, num tipo de arianismo espiritual? Que é a Igreja? Qual a sua identidade, numa época de tantas desfigurações?

2. DEFININDO E CARACTERIZANDO

Antes de responder, levanto outra pergunta: para que serve uma igreja local? E explico o porquê de responder uma pergunta com outra. Nossa consciência de função definirá nossa identidade. Nosso porque responderá ao quem somos.  Temos problemas extremamente sérios no mundo em que vivemos. Que mundo legaremos a nossos netos? Teremos água e comida para todos? A quantidade de comida produzida no mundo é suficiente para dez bilhões de pessoas, o dobro da população mundial. A fome é questão política. Rios poluídos, fontes contaminadas, campos dizimados por guerra e comida estragada para se manter preço  no mercado. Sempre houve problemas no mundo, mas pela primeira vez na história temos o poder de destruir todo o mundo, em questão de segundos. O que o futuro nos reserva? Como olhamos isto tudo?

A Igreja evangélica no Brasil experimenta um crescimento ímpar. Isto nos traz um quadro de otimismo. Há estudos que prevêem que no ano 2010 seremos mais de 51% da população, no Brasil. Seremos o segundo país maioritariamente evangélico na América Latina (o Chile o será  antes de nós). Mas pergunto, como filho dos anos sessenta: que evangelho é este?  Que igrejas são  estas? Que está sendo pregado? Quem seremos nós? Marcamos a sociedade? Afetamos o momento? Disse alguém que a igreja dos anos noventa será mais lembrada pelos escândalos  cometidos pelos tele-evangelistas do que por qualquer outra coisa. Que imagem será a nossa?

3. O MOMENTO PRESENTE DA IGREJA

Mas a Igreja está bem definida”, poderá dizer alguém. “Basta olhar para uma e saber o que é”. Mas muito do que se ouve como evangelho, hoje, não tem o menor sentido para o homem que pensa e não está muito distante da irrealidade.  Vemos hoje dois blocos bem diferenciados na igreja evangélica do Brasil. Um, o bloco chamado pejorativamente de tradicional, enfatiza  o conhecimento. Outro, o bloco que parece mais poderoso espiritualmente falando, privilegia o misticismo. A simplificação é grosseira, mas é difícil encontrar equilíbrio nestes segmentos. Alguns identificam o evangelho com matéria de conhecimento intelectual. O bom membro de igreja é aquele que conhece as doutrinas, é aluno da escola dominical, é versado em apologética, lê livros evangélicos, faz cursinhos e participa de encontros e congressos.  Do outro lado, pegando carona no misticismo que assola o mundo após décadas de secularismo, cientificismo e materialismo, estão os que enfatizam o sobrenatural, o experiencialismo, feitos portentosos, sinais espetaculares como evidência da presença de Deus.  São os carnais e os espirituais, ou os lúcidos e os fanáticos, dependendo da ótica de cada um. Temos problemas sérios com isto. De um lado podemos ter a transformação do evangelho num racionalismo cristão. De outro, esta tendência de ver um demônio atrás de cada poste. E o que pior: parece que vozes se levantam de um e de outro segmento e tecem loas ao seu grupo e denigrem o outro. Cada um é o portador da verdade.

A generalização pode prejudicar o pensamento, mas vemos o seguinte: um lado criou toda uma estrutura de ensino, com institutos, congressos, conferências, seminários, encontros e escolas teológicas. Mas continua com deficiências bem sérias em seu meio. Outro lado enfatiza um sobrenaturalismo que irrita os pensantes. Mas têm deficiências bem sérias, também.  Um casal de uma igreja carismática me procurou, pedindo que exorcizasse o demônio da incompreensão conjugal que pairava sobre eles. Enfrentavam dificuldades no seu casamento.   Perguntei-lhe: “vocês já se sentaram para conversar sobre porque seu casamento vai mal?”. Disseram que não. Disse-lhe: “parem de por a culpa no demônio e pensem se vocês não são os culpados”. Ficaram zangados: como podiam ter culpa, se eram crentes? O culpado era o demônio. E  também o incrédulo do pastor tradicional que não via isto. Vai alguém à igreja, fura o pneu do carro:  foi obra do demônio.  Vemos, então, a situações que não resistem ao bom senso. “Igreja Universal, onde o milagre é uma coisa natural”.  A frase é tão desconexa como água seca e fumaça concreta. Se o milagre é natural não é milagre.

Temos programas de rádio e televisão, emissoras e redes inteiras. Políticos evangélicos. Fazemos promoção para vender o evangelho como se fosse panetone, seguindo  as normas de publicidade. Mas as estruturas do mal permanecem intocadas. A corrupção parece mais forte do que nunca. Pesquisa vinda à luz há poucos meses atrás mostrou que o Brasil é o 14º país mais corrupto do mundo. A troca de favores é a moeda corrente na política brasileira. E justificada com um cinismo revoltante. A violência e a imoralidade batem recordes de ousadia. Onde está a Igreja? Que faz ela?

O pensamento humano é como um pêndulo. Oscila de um ponto a outro. Saímos de décadas de secularismo e entramos num tempo de espiritualidade. Talvez este  dure ainda uns vinte anos, salvo algum grande evento que tudo transtorne. Quando o pêndulo voltar e ingressarmos numa fase de materialismo e de rejeição do espiritual, a Igreja de hoje sobreviverá?  Temos uma Igreja ou somos um grupo religioso e cultural com roupagem cristã? Está se pregando o evangelho? O que se prega têm consistência? Numa madrugada, acordado em um hotel em S. Paulo, ouvi o bispo Edir Macedo dialogar com um dos pastores do seu grupo. Analisei o conteúdo da conversa. Disse para mim mesmo: “isto não é Jesus Cristo, isto é Lair Ribeiro!. É auto-ajuda,  variação de Norman Vicent Peale”. O que se dizia era:  “há poder em você, você pode ser vitorioso, pode ser rico, basta que você queira, porque Deus já liberou a riqueza para você. Você só precisa de você”. Tirando-se os termos religiosos, eis Lair Ribeiro.

Há uma diferença enorme entre o que foi pregado pela igreja primitiva, no livro de Atos, e o que se vê, hoje, na maioria dos círculos evangélicos.  Pode-se ouvir durante semanas a fio os pregadores tele-evangélicos sem  se ouvir uma palavra-chave no evangelho: arrependimento. Pregação cristã que não exorte à mudança de vida e ao abandono do pecado traz algo errado em si. Muito do que temos como pregação não é pregação e muito do que temos como igreja não é igreja. O conceito de riquezas materiais como valor maior infiltrou-se na Igreja. Da mesma forma, o misticismo de um mundo sem o evangelho. Temos, então,  espiritualidade sem Bíblia. Temos espiritualidade sem teologia correta. Temos igrejas com um evangelho falsificado, mesmo que sem querer. Temos um pensamento secular ensinado como pensamento divino. Isto descaracteriza a Igreja. 

4. UMA DEFINIÇÃO DE IGREJA

Vamos definir o que entendo por Igreja. É um grupo de pessoas que experimentou a graça de Deus na pessoa de Jesus Cristo, creu nele, e se comprometeu com ele na transformação deste mundo.  São pessoas que conheceram Jesus Cristo, tiveram uma experiência de salvação com ele e assumiram um compromisso. Uma comunidade de salvos engajados. Não de oportunistas  ou de gente imatura que quer sempre benefícios, mas nunca quer se dar. Quando falo de Igreja é isto que tenho em mente. Uma comunidade de regenerados e com consciência de missão a cumprir neste mundo. Uma comunidade que rejeita ser massificada, que entende que  “o mundo jaz no maligno”  e que procura ter “a mente de Cristo”.  Isto é Igreja: conhecer o propósito de Deus e não cumprir o propósito do mundo.

5. A IGREJA COMO COMUNIDADE

Neste definição caracterizo Igreja como povo, como gente. Povo não é massa. Massa é amorfa. Povo tem identidade e consciência.  A Igreja são pessoas chamadas a viver em comunidade, em companhia umas das outras. É incompreensível um cristão isolado dos demais. Da mesma maneira é incompreensível uma igreja local isolada, sem companhia das demais. No Novo Testamento as igrejas são autônomas e independentes, mas são, ao mesmo tempo, interdependentes. Uma igreja local sempre deve se ver como parte de um todo. Há igrejas tradicionais fechadas, com medo da liturgia carismática. E  há igrejas carismáticas e novas isoladas, com medo do ensino e da visão global das tradicionais. Muitas destas igrejas novas se isolam e depreciam as demais como mecanismo de defesa. Não são Igreja, mas guetos religiosos.

Isto cria uma mentalidade de igrejas olhando o seu próprio umbigo, sem visão do conjunto, do todo, do reino. E, muitas vezes, vendo uma parte do evangelho como sendo o evangelho todo. Uma parte, a expulsão de demônios é vista como a essência do evangelho. Uma parte, a preocupação social, é vista como o evangelho todo.  A visão missionária de alcançar hindus, islamistas e animistas não lhes vêm à mente. Não podem organizar novas igrejas porque vão perder membros. Precisam engordar. O conceito de crescimento  de alguns é de ter mais gente dentro de um prédio, ter mais dinheiro, um rebanho maior, quantitativamente falando. Um conceito empresarial: a igreja-empresa precisa crescer, ter mais acionistas, para ter mais capital. Grande parte da atividade eclesiástica que se vê hoje em dia é esta: tira-se alguém de uma igreja, perde-se um para outra, e assim se vai. A maior parte dos esforços, muitas vezes, é para predar outras denominações, em vez de alcançar o mundo pagão. Há um grupo enorme de não alcançados, inclusive em nosso próprio contexto cultural: os secularizados, os céticos, os agnósticos. Mas estes dão trabalho. Tenta-se mudar a doutrina das pessoas. Prega-se para quem já conhece o evangelho.

A Igreja é uma comunidade. Numa comunidade as pessoas têm propósitos comuns, um programa comum, uma visão comum, a do todo. Há solidariedade, há força de conjunto e busca de fortalecimento do grupo. A ênfase correta, com esta perspectiva, deve ser em pessoas e não em prédios, programas e instituições. A preocupação é em formar pessoas melhores, dia a dia, transformadas à imagem de Cristo, reinseridas na sociedade (às vezes retiramos as pessoas da sociedade e as guetizamos) para transformar o ambiente. Isto é uma Igreja. Uma comunidade de transformados, dia a dia, transformando o ambiente em que vivem. Como Paulo bem fez o cabeçalho de sua carta aos colossenses:  “Em Cristo…em Colossos”. Duas dimensões: viver em Cristo e viver na nossa cidade.

CONCLUSÃO

Sintetizo o que pretendo dizer nesta noite. Nem sempre sou muito claro, mas quando fico confuso demais, busco clarificar.:

  1. Há uma grave perda de identidade teológica em muitos setores da Igreja. Isto a descaracteriza.

  2.  Esta perda de identidade se verifica porque temos assimilado muito do estilo do mundo, de quantificar, de passar rapidamente pelos problemas sérios, de procurar ter mais em vez de buscar ser mais. Um mundo banal se infiltra na Igreja e a torna banal.

  3. Esta perda de identidade se verifica muito em pregações e posturas nitidamente seculares, que a Igreja sacraliza e adota. Ela tem santificado o pensamento secular, adotando-o e mudando sua roupagem.

  4. Há necessidade de uma reflexão séria sobre o que seja a Igreja. Um prédio com gente cantando louvores a Jesus pode estar hospedando pessoas bem distantes do conceito bíblico de Igreja.

  5. Precisamos redescobrir o sentido da Igreja como comunidade espiritual, de fé, transformada e buscando transformar a sociedade. Se recebe infiltração, ela age transformando as estruturas da sociedade onde se insere.

  6. A transformação da sociedade e seus valores pervertidos é missão para a Igreja. Não é buscar somar pessoas num prédio, mas aperfeiçoá-las para desempenho de sua tarefa.

  7. Não podemos trabalhar pensando apenas em quantidade, mas em termos de futuro: que transformações estamos exercendo e para onde estamos direcionando o mundo? Para isto precisamos saber muito bem qual é a nossa missão.

  8. Normalmente, a Igreja vai à reboque das transformações, sendo infiltrada, assimilando. Ela deve exercer influência e, em vez de sofrer, fazer as conseqüências.  Ela  deve ser cabeça e não cauda. E isto é um desafio para todos nós.