Sou batista, tenho uma identidade

Sou batista, tenho uma identidade

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho **

Sou batista, tenho uma identidade é a primeira palestra em nosso encontro. Seu tema foi sugerido pelo Pr. Daniel Guimarães. E foi aceito sem   relutar. É bastante oportuno começar por aqui. O conceito de identidade evangélica e batista anda muito difuso. Para a mídia secular, sempre desinformada e estabanada,  evangélico é alguém que não é católico. Nos anos setentas havia um jogador de futebol do Botafogo, ruim de bola toda vida, mas que chegou até a Seleção do Zagallo, um tal de Chiquinho Pastor. Era membro  da Cultura Racional, movimento de fundo esotérico que nem cristão é, mas logo lhe pespegaram o rótulo de pastor. Em Manaus, nos cinco anos em que lá passei, um quarteirão antes da PIB de Manaus havia a PIB da Restauração, movimento ultrapentecostal, que nada tinha de batista, mas que guardava o nosso nome. E muita gente confundia as duas igrejas.

                Vamos tratar da identidade batista. Mas surge uma questão: “que batista?”. O que este nome nos sugere?  Conheci no Amazonas os “Batistas da Fé”. Gente séria, muito trabalhadora, até mesmo bem preparada teologicamente, mas que não admitia liderança feminina nem mesmo estimulava que mulheres orassem em público. Os batistas canadenses tem práticas diferentes das nossas. A recomendação ao Seminário é feita pela Convenção e não pela igreja local. E é a Convenção que consagra ao ministério, também. Em Cuba, as mulheres pastoras são uma realidade há mais de 20 anos. Alguns batistas chineses, até mesmo por sua cultura centrada nos anciãos, são de tendência presbiteriana, sendo a congregação local chamada apenas para decidir casos especiais. Temos vários grupos batistas, cada um com particularidades que não pertencem a outros, e alguns deles, muitas vezes, não considerando os outros como batistas por causas destas particularidades. Por causa do varejo, rejeitam o atacado.

                Em Roraima, os batistas regulares iniciaram o trabalho batista no tempo em que a região ainda era Território Federal do Rio Branco.  Eles têm a Igreja Batista Central, que é a pioneira. Chegamos dez anos depois e abrimos a Primeira Igreja Batista, quando eles já tinham duas. Nós nos consideramos batistas e se há trabalho de outro grupo e não o nosso, em uma cidade, consideramos o lugar sem trabalho batista. O que caracteriza, então, a identidade batista? Aqui mesmo, entre nós, teremos muitas práticas eclesiológicas diferentes. Alguns serão a favor da ceia restrita e outros não. Alguns rebatizarão pessoas de outros grupos imersionistas e outros não. Os modelos eclesiológicos são cada vez mais numerosos.   O que é identidade batista, então?

1.       REMONTANDO À ORIGEM

Os batistas existiam antes de nós. Nós, que aqui estamos, não fundamos o movimento. Os batistas também já existiam antes da Convenção Batista Brasileira. Nossa linha deve ser esta: o que direcionou os primeiros batistas? Por que eles surgiram? Vamos examinar os pontos  principais balizadores dos batistas. Eles serão nossa linha por onde andar. E mostrarão alguma coisa de nossa identidade. Pelo que pude examinar de nossa história são oito os pontos principais, dentre vários. São eles: a autoridade da Escrituras, a liberdade de opinião, o batismo consciente de crentes, a segurança eterna dos salvos, batismo e ceia como ordenanças e não sacramentos,  o sacerdócio universal de todos os crentes, a autonomia da igreja local com governo congregacional, a separação entre Igreja e Estado.

Estas características são encontradas no início de nossa história, no início do século XVII, como vistas na insatisfação de muitos cristãos da época com a Igreja Anglicana. Nesta encontravam-se dois grupos mais numerosos, dentre outros, os puritanos e os separatistas. Foi daqui, dos separatistas, que surgiram os primeiros líderes batistas, John Smyth e Thomas Helwys. Isto é história. Tentar ajustar os batistas aos valdenses, albigenses, pretrobrussianos, cátaros, anabatistas e outros insatisfeitos com a Igreja Romana, ao longo da história, é perigoso. É mais romance que história. E uma tentativa de dourar a história para tornar nosso passado mais remoto e comovente não é honestidade intelectual. Nós não precisamos disso. A veracidadade da doutrina batista não depende de identificação com a igreja de Jerusalém. Depende de sua confrontação com o Novo Testamento. Disse-me o Pr. Irland Pereira de Azevedo que, conversando com um cônego católico que fizera seu doutorado em História Eclesiástica, em Roma, este lhe disse que tendo examinado os vários grupos evangélicos viu que os batistas eram os mais próximos ao Novo Testamento. Um belo testemunho de fora. Se bem que particularmente, acho que as duas primeiras igrejas, a de Jerusalém e a de Antioquia, eram batistas. Só haviam duas e já estavam com problemas doutrinários e brigando entre si. Só podiam ser batistas.

Alguém achará que estes pontos são genéricos. Posso responder que o ensino de Jesus e a Bíblia são genéricos, a ponto de permitir que grupos como Testemunhas de Jeová e Mórmons se digam cristãos. Nós é que particularizamos e criamos minúcias. Mas estes pontos são nossas características maiores e deles derivam algumas posturas doutrinárias. A observância ou não destes pontos é responsável por erros que aparecem com roupagem diferente em nosso tempo. Eles se ampliam em outros aspectos. Vamos considerá-los, portanto.

2.       A AUTORIDADE DAS ESCRITURAS

Todo grupo herético diz crer na Bíblia como Palavra de Deus e como única regra de fé e prática. Depois, estabelece suas normas com base nas suas tradições eclesiásticas ou visão de fundadores ou líderes mais proeminentes (ou mais falantes, com domínio de discussão).

Neste ponto seguimos o princípio de Lutero de Sola Scriptura. Lutero rejeitou que a Tradição e o Magistério da Igreja fossem elementos que regessem a teologia da Igreja. Para nós fica uma advertência. Temos muito de tradição e de magistério como formadores de nossa teologia. Isso acontece quando particularizamos e definimos o que a Bíblia não define e fechamos questão, rejeitando qualquer outra prática diferente da nossa como válida.

Temos uma Declaração Doutrinária, como Convenção Batista Brasileira que somos. Um documento que me parece muito bom e dentro do qual me situo sem problemas. Mas ele é um documento indicativo e não normativo. Ou seja, ele indica o que cremos e não é uma norma para nós.  Nossa normativa são as Escrituras e nenhum outro documento.  Se isto parece óbvio, desejo fazer três observações aqui. Uma refere-se à  pressão do sucesso.  A segunda, à  pressão do líder mais expressivo. A terceira, à nova hermenêutica. São elementos que militam contra a normatividade das Escrituras.

A pressão do sucesso é a aquela que sucede porque um determinado método está dando resultado em algum lugar e com isso se torna quase que um padrão. Um método é um caminho para se chegar a um alvo. Mas temos visto a sacralização de métodos. Alguém consegue encher a igreja com um método e logo começa ter seguidores, e passa a realizar congressos para exportar seu método. Há métodos que funcionam num lugar e em outros, não. Fui pastor, por 7 anos e meio, de uma igreja, no Distrito Federal, da qual fui o organizador. Era um grupo, tranformamos em congregação e depois em igreja. Quando fui para Manaus, os métodos usados na Quadra 02 de Sobradinho não serviam para a PIB de Manaus, que tinha, na época 92 anos. Muitos métodos não interferem em doutrina. São apenas um jeito de fazer as coisas funcionarem. Mas há métodos que implicam em doutrina:  a adoção de uma pregação da teologia da prosperidade,  a centralização de poder nas mãos dos clérigos da igreja,  o uso da cura divina e de instrumentos sagrados como chamariz, por exemplo. Muitas vezes se abandona a posição histórica dos batistas quanto às Escrituras porque se adotam métodos para funcionar e alguns desse métodos são importados de outros contextos doutrinários e exigem aqueles postulados doutrinários, de onde vieram, para se viabilizarem. Todo método e qualquer sistema que sacrifique a soberania das Escrituras como padrão aferidor de nossa conduta é uma quebra de nossa identidade. Isto aparece até mesmo em questões bem simples. Pela nossa visão das Escrituras, o ensino da Bíblia sempre foi central em nosso meio.  Muitas igrejas tinham versículos bíblicos pintados nas paredes e uma Bíblia insculpida na sua frente. Hoje o símbolo distintivo de muitas igrejas não é a Bíblia, mas a caixa de som.  Quem dirige o culto não é o pastor, é a equipe de louvor. Nada aqui contra o louvor, mas uma advertência: quando o ensino da Bíblia se torna secundário a ponto de muitas vezes ter que se encurtar o sermão porque o programa foi muito extenso, estamos diante de uma dificuldade. Os batistas sempre foram o povo da Bíblia. Não sei se ainda são. Mas sei que o que produz crescimento espiritual e santidade numa igreja é a Bíblia, ensinada de forma clara e com autoridade, aplicada pelo Espírito Santo à vida dos ouvintes. De passagem, diria que não somos chamados para o sucesso, mas para a fidelidade. O bom sucesso, os frutos,  de nosso trabalho depende de Deus. É o Espírio quem faz a obra crescer. Técnicas e métodos são instrumentos, apenas.

                A pressão do líder é algo que se observa quando líderes que são mais expressivos, ou mais falantes ou que melhor se articulam em bastidores, acabam se impondo como o padrão para os demais. Os batistas sempre se caracterizaram por divergências. Desde o início, com os chamados batistas gerais e os batistas particulares.  A Aliança Batista Mundial reúne grupos com práticas diferentes, dentro de seu bojo. A tendência à uniformização, muitas vezes de acordo com a cabeça de uma minoria, em busca um procedimento padrão, coloca-nos na situação de termos dominantes entre nós, e assim, de chegarmos a outra regra de fé e de prática, a obediência a algumas pessoas e à prática dessas pessoas.  O Novo Testamento é genérico em muito da eclesiologia que nele aparece. Alguns querem particularizar e impor seu estilo. Isto me parece problemático. A falta de aceitação de pensamento diferentes traz mais “rachas” do que a diversidade de opinião. Nenhum líder nosso, por maior que seja sua igreja, por mais capacitado intelectualmente que seja, e por maior que seja seu cargo na estrutura denominacional, está apto para determinar o que cremos. O  que cremos foi razoavelmente solidificado em quase 400 anos de história batista no mundo.

                A nova hermenêutica é o aspecto mais preocupante no uso das Escrituras. Com a Igreja Católica, a fonte de autoridade era a Igreja, subsidiada pela Tradição e pelo Magistério. Lutero tirou a fonte de autoridade da Igreja e a colocou na Bíblia. O movimento pentecostal a tirou da Bíblia e colocou na experiência. O movimento neopentecostal está construindo outro eixo hermenêutico: a de gurus, de pessoas com mais experiência com Deus. É o início de um retorno ao eixo católico. Isto vai trazer conseqüências danosas para o evangelho, mais à frente, embora já esteja trazendo agora. É que nesta postura, a Bíblia fica subordinada às declarações humanas. Em vez de reger a teologia da igreja, ela passa a ser explicada pela teologia da igreja. Esta nova hermenêutica é muito perigosa porque além de mudança de eixo mudou também o critério de interpretação. No protestantismo histórico  e entre os evangélicos históricos, o critério de interpretação da Bíblia sempre foi a pessoa de Cristo, com base no conceito de na revelação progressiva, que depreendemos bem de Hebreus 1.1-2. É o Novo Testamento que interpreta o Antigo e este não pode se sobrepor ao Novo. Hoje o critério de interpretação é o Espírito Santo. Um pastor neopentecostal dizia pela televisão  que “Jesus é o canal para nos trazer o Espírito Santo”.  Antes era o Espírito Santo quem nos levava a Cristo. Agora Cristo nos traz o Espírito. Cristo é o meio para se chegar ao Espírito, que é o final. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, não tem a cruz como seu símbolo, mas uma pomba, significando o Espírito Santo. É a chamada “onda do Espírito”, que é, na realidade, uma pretensão à nova revelação. É aqui que reside o perigo maior:  o Espírito Santo é um eufemismo para as impressões pessoais do intérprete, que se tornam uma palavra inspirada. O que ele acha é revelação do Espírito.  Assim, a Bíblia deixa de ser normativa e passa a ser indicativa. A normativa é a palavra do líder. O uso que as campanhas da Universal fazem das Escrituras, particularmente o uso do Antigo Testamento, mostra isso. A Bíblia apenas legitima as práticas do grupo, em vez de regê-las. E o Espírito Santo se tornou propriedade dos iluminados da seita. O Espírito Santo fala quando alguém, líder,  “sentiu” uma nova verdade. Na nova hermenêutica, o sentir vale mais que o que é, o que está escrito. Jesus é uma pessoa histórica, objetiva, e seu ensino está na Bíblia. O Espírito Santo não é uma pessoa histórica, embora seja uma pessoa,  e seu ensino passa a ser o que as pessoas sentem. Isto cria um clero, pessoas especiais, com revelações do Espírito. Há, então,  um clero que determina o credo e a prática para o povo. Tanto que muitos desses grupos não ligam a mínima para educação religiosa, EBD, etc. . Basta-lhes um salão para realizar seus cultos, carregados de emoção e muitos deles manipuladores das pessoas.

                Esta nova hermenêutica tem privilegiado o domínio de revelações, visões e sonhos sobre a Bíblia. Uma pastora neopentecostal dizia, pela televisão, ter um mapeamento das potestades demoníacas. Quem era o demônio regente de cada território, os chamados demônios territoriais. Quando perguntada sobre onde conseguiu isto, disse com toda simplicidade que foi de demônios postos sob juramento.  Não sei um demônio mesmo jurando estará dizendo a verdade. Mas me impressiona que uma pessoa diga com todas as letras que está ensinando uma revelação de demônios e as pessoas que a ouvem ainda exultem com isso.

                Nossa identidade batista parte daqui: zelo pelas Escrituras. Nada de mais nada de menos. Quando ela fala, nós falamos. Quando ela cala, nós calamos. Todo material que produzimos, toda e qualquer postura eclesiológica, devem ser avaliados por ela. Não é se deu certo em algum lugar ou se está enchendo alguma igreja em algum lugar, ou se foi proferida por algum teólogo ou pastor muito consagrado e zeloso pela doutrina, mas se não colide com a Bíblia. Aliás, todas as heresias nasceram de pessoas muito espirituais e zelosas. Não de mundanos. É o que Paulo disse dos judeus: “têm zelo por Deus, mas não com entendimento”. O entendimento das Escrituras é fundamental para uma denominação sadia.

3.       A LIBERDADE DE OPINIÃO

Liberdade de opinião ou liberdade de expressão é um outro apanágio dos batistas. É um legado nosso aos demais grupos evangélicos.  A monarquia católica ou a teocracia protestante nunca poderiam predominar em meio à consciência batista.  A tentativa de se formar uma Genebra calvinista nunca vingaria entre nós.  Devemos isto, em termos de ação, a um jovem pastor de 24 anos, Roger Williams. Ele começou seu pastorado em Boston, em 1631.  Não demorou para desagradar as autoridades locais.  Ele recusava o direito dos magistrados em decretarem penalidades jurídicas por infrações religiosas. Williams achava que a Igreja e o Estado deviam ser absolutamente distintos, o que aliás, os separatistas ingleses que originaram a primeira igreja batista, com este nome, em 1609, na Holanda, já defendiam. Ele não criou o princípio, mas levou-o às últimas conseqüências. Sobre separação entre Igreja  e Estado falaremos mais à frente. Mas Roger Williams defendia bem mais que isso. Defendia  a absoluta liberdade religiosa. O Estado não tem direito de impor sua fé aos seus súditos. E as pessoas têm o direito de escolher a sua fé e até mesmo não professar fé alguma. Cada pessoa é responsável por sua vida e por suas decisões. O homem não pode ser tutelado nem pela Igreja pelo Estado. Por isso também que nunca podemos apoiar ditadura alguma. E toda e qualquer intolerância, seja racial, social, religiosa, ideológica ou política deve ser veementemente rejeitada por nós.

Tendo sido expulso de Boston, num inverno rigoroso, mas tendo sido salvo pelos índios, Roger Williams fundou uma pequena colônia, na Baía de Narragansett, com algumas de suas ex-ovelhas da Igreja Episcopal, que o acompanharam. No documento de fundação da colônia ficaram definidas como postulados a tolerância religiosa e a liberdade de opinião. Isto é motivo de satisfação para nós, ao mesmo que se torna um lembrete sobre como devemos proceder. A primeira comunidade que estabeleceu como princípio a liberdade religiosa absoluta foi fundada por um homem que veio a se tornar batista e que, em 1639, fundou a primeira igreja batista em solo americano. A liberdade de expressão é um fundamento muito caro aos batistas. Por isso me assusto muito, e até mesmo tenho me retraído em envolvimento com estrutura denominacional por causa disto, quando vejo pessoas julgando que somente seu grupo possui o verdadeiro espírito batista e age para impor o que julga ortodoxia aos demais. A busca de clones não é compatível com o caráter batista. Aliás, a riqueza da Igreja de Cristo está na sua diversidade. Isto se verifica até mesmo na chamada dos doze, feita por Jesus. Eles eram pessoas diferentes. Pescadores, cobradores de impostos, um possível guerrilheiro (se aceitarmos a tese de Oscar Cullman de que Judas Iscariotes quer dizer “Judas, o homem do punhal”). Um colaboracionista com Roma, o poder dominante,  e um revolucionário, contra o poder dominante, portanto. Mas ambos chamados e ambos dentro da perspectiva de Jesus.

Esta liberdade de opinião permite que a CBB, por exemplo, abrigue em seu meio amilenistas, pré-milenistas, pré-milenistas dispensacionalistas e pós-milenistas. Neste aspecto, ela guardou o princípio batista. Há outros grupos batistas que exigem uma postura específica. Não é o nosso caso. Abrigamos diversas tendências porque este ponto não é fundamental, mas secundário.

É preciso também deixar algo claro aqui. Liberdade de expressão não significa uma babel teológica, mas sim que onde há pontos inegociáveis não há nada para se negociar. E que onde há pontos não definidos, mantém-se uma postura de respeito. Mas ela é uma conseqüencia inevitável do fato de que não temos um papa ou alguém “infalível”, que todos temos o Espírito Santo, que somos todos falíveis, também. É um desdobramento do sacerdócio universal de todos os salvos. Se todos temos acesso a Deus e se todos temos o Espírito Santo, nenhum de nós é mais conectado a Deus do que os demais, para falar em seu nome aos demais. Não temos gurus entre nós. Nem papas. O autoritarismo teológico é uma agressão em si, pelo que significa, e é, também, uma agressão à nossa história.

                É óbvio que isto faz com que surjam  muitas divergências. Aliás, o capítulo X do livro de Faircloth e Torbert,  Esboço da História dos Baptistas, se intitula “Livres Para Divergir”. É um capítulo dedicado às divergências históricas entre os batistas, em seus vários grupos. Mas como alguém já disse, um bom princípio a se observar aqui é: “Nas pequenas coisas, diversidade; nas questões capitais, unidade; em todas as coisas, caridade”.  Divergências no cristianismo aparecem cedo, como vemos em Atos 15, e nas cartas de Paulo, todas elas escritas para resolver problemas na vida das igrejas (talvez as exceções sejam Efésios e Filipenses). Mas é uma atitude cristã saber viver com divergências. E é, também, uma marca do espírito batista.

4.       O BATISMO CONSCIENTE DE CRENTES

A idéia de que o batismo tinha poder salvífico se arraigou na Igreja cristã muito lentamente.  Parece que pelo quarto século, o sacramentalismo acabou impondo a ceia e o batismo como sacramentos e como elementos obrigatórios, a serem ministrados para trazerem graça espiritual. O batismo passou a ser algo praticado para se alcançar a salvação.  Mas já desde o segundo século que a prática de batizar crianças se institucionalizara na Igreja. Segundo O Didaquê, obra ainda do primeiro século, a igreja primitiva usava a imersão e a afusão como métodos de batismo. Tudo leva a crer que as crianças (não no Novo Testamento, pois não temos notícia de batismo infantil neste período)  eram submetidas à afusão e, mais tarde, à aspersão.

O entendimento do batismo como elemento transmissor de graça (sacramento) deve nos alertar. Com muita facilidade as pessoas transferem para objetos, gestos e ritos, alguns  poderes especiais (no seu entendimento). Muitas vezes sacramentamos formas e ritos. Já ouvi gente dizer que o Cantor Cristão é inspirado e que nunca deveríamos ter um novo hinário, que não é inspirado. Inspirado, para nós, é só a Bíblia. E nenhum material pode ser visto como algo sagrado. Isto traz problemas, pelos desdobramentos posteriores.

A grande luta dos separatistas se deu nesta área: o esforço para se ter uma igreja composta apenas  de crentes regenerados. A pessoa só podia ser membro da igreja pelo batismo e este só podia ser aplicado a pessoas conscientes do que estavam fazendo. Ninguém podia impor o batismo a outro. E a única motivação é a conversão a Jesus. Batizei uma pessoa que fora batizada na Universal. Antes de fazê-lo, quando questionei o porquê de seu batismo, a resposta veio mais ou menos nestes termos: “Eu recebi uma bênção lá na Igreja. Aí me disseram que se eu quisesse continuar sendo abençoada eu deveria ser da Igreja e para isso teria que me batizar. Então fui batizada para continuar sendo abençoada”. Não é esta a motivação para o batismo. A motivação é a fé em Jesus. Os textos bíblicos são claros: “quem crer e for batizado” (Mc 16.16)  e “Que impede que eu seja batizado? É lícito se crês..” (At 8.36-37).

A adoção de uma determinada Igreja pelo poder civil levou  a um ingresso na Igreja, pelo batismo,  de uma quantidade enorme de pessoas sem nenhuma convicção religiosa. Desde que Constantino adotou o cristianismo isto começou a acontecer.  A Igreja se tornou morada de incrédulos e não de regenerados. Mas devidamente submetidos a um ritual chamado batismo. Este é um problema quando as linhas entre o poder civil e a Igreja são tênues ou são apagadas.

A concepção mágica do batismo também produziu muitos membros da Igreja incrédulos. Temos  informes da crise teológica de alguns jesuítas que vieram como missionários para o Brasil. Acreditavam que batizando o índio, este se converteria, pois o batismo tinha um poder sacramental, mágico-mítico. Mas batizava-se o índio e este continuava antropófago e idólatra. O batismo não regenera. Apenas testemunha de uma regeneração que deve ter sucedido. O batismo consciente de adultos impede isto e faz com que a Igreja seja composta de convertidos. Se hoje, batizando apenas adultos, temos uma quantidade enorme de  gente encostada  em nosso meio, imagine-se batizando-se bebês recém-nascidos e considerando-os membros da Igreja!

Esta insistência no batismo somente de crentes fez  com que o rótulo de “anabatistas” fosse aplicado a muita gente que nada em comum tinha com os anabatistas. E algumas pessoas o aplicam aos primeiros batistas. Mas este era um termo genérico, como é hoje o termo “evangélico” que para o nossa “bem informada”  mídia engloba todo mundo que não seja católico. Mas os anabatistas remontam a 1490, com Conrado Grebel tido como seu fundador, sendo ele um ex-cooperador de Zuínglio. Discordou de Zuínglio por não aceitar o batismo infantil.  E com eles, os anabatistas, os batistas tinham em comum o batismo apenas de regenerados, uma Igreja composta apenas de regenerados, a supremacia das Escrituras e a liberdade civil e religiosa. Mas discordavam deles no seu pacifismo radical, sua omissão como cidadãos (alguns anabatistas viam o Estado como demoníaco) e sua proibição de juramentos, inclusive em tribunais, pontos de vista teológicos sobre encarnação e hipnose da alma e a necessidade da sucessão apostólica para o batismo. Mas voltemos à visão sobre o batismo consciente de crentes.

Preocupa-me o fato de que o batismo tem se tornado em alguns segmentos nossos um ato social. Muita gente se batiza porque está freqüentando a igreja há muito tempo, porque a família toda é batizada, porque é o único quesito que lhe falta para ser crente, pois é freqüentador assíduo, etc. A única razão válida para o batismo é a fé em Jesus Cristo como Salvador e o desejo de testemunhar deste fato. Se não isto não aconteceu, houve um banho, mas não batismo. Nossa identidade batista deve preservar isto com vigor: a porta de entrada na Igreja é o batismo e este é ministrado para quem crê no Senhor Jesus. A Igreja existe em função de Jesus Cristo.

Neste aspecto do batismo, os batistas devem algo aos menonitas. De 1609 até 1638, os batistas praticavam apenas a afusão.  Foi no contato com os menonitas que aprenderam a praticar o batismo por imersão. Em 1638, a Igreja de Spilsbury declarou que só aceitaria o batismo por imersão. Em 1644, sete igrejas batistas assumiram uma declaração doutrinária, chamada de “Confissão de Londres”, em que a forma de batismo era por imersão, aceitando a declaração da Igreja de Spilsbury.  Desde então, esta vem sendo a prática dominante em nosso meio.

5.        A SEGURANÇA ETERNA DOS SALVOS

Esta é outra herança teológica preciosa dos batistas. A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, ao falar sobre a doutrina da salvação, traz esta afirmação: “O preço da redenção eterna do crente foi pago de uma vez por Jesus Cristo, pelo derramamento do seu sangue na cruz”.  Chamo a sua atenção para as expressões “redenção eterna”, “pago de uma vez” e “pelo derramamento de seu sangue na cruz”. A salvação é eterna. Não é  temporária nem parcial. O assunto foi resolvido de uma vez por todas na cruz. Cristo não pagou cotas e deixou outras para nós. Pagou tudo, de uma vez. Não foi parcialmente. O autor de hebreus mostra que seu sacrifício foi único, irrepetível e perfeito. E o preço pago por ele foi seu próprio sangue. É importante ressaltar uma coisa: no processo da salvação, não somos o agente, mas Jesus Cristo o é. E sua obra é perfeita. A salvação não depende de nós, mas dele. Ele não rejeita o pecador que vem a ele, nem se arrepende de nos ter salvado.

                “Mas conheci muita gente que esteve na igreja e hoje está excluída!”, e o argumento sempre ouvido nestes casos. A antiga Confissão de Fé, substituída pela Declaração Doutrinária, trazia o item XI, “Da Perseverança dos Santos”. Nele se diz: “Cremos que só são crentes verdadeiros aqueles que perseveram até o fim; que a sua ligação perseverante com Cristo é o grande sinal que os distingue dos que professam superficialmente”. A característica marcante de um verdadeiro salvo é que ele persevera na fé. Cabem aqui as palavras de 1João 2.19: “Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos”.

                Isto é realmente tão relevante assim? Sem pestanejar, respondo que sim. Porque o evangelho fala de salvação. Ela é obra exclusiva de Jesus Cristo. Nós não a produzimos. Nós a aceitamos.   A qualidade da nossa salvação está relacionada com o caráter do nosso Salvador. Ela não depende de nossos esforços. Quando se pensa na possibilidade da perda da salvação, assume-se que há esforços humanos que podem derrubar o que Cristo fez. E coloca-se a salvação como algo que podemos ter ou deixar de ter com base no que fizemos ou deixamos de fazer. Ela não é mais obra da graça. Nem sua eficácia e sua durabilidade. E esta concepção batista torna a Igreja uma instituição que, espiritualmente, está segura para sempre, pela sua fé em Cristo. Ela não é clube onde a pessoa entra e  sai. Ela é face visível do reino invisível, a ponta do iceberg. Envolver-se com a igreja local, sendo-se regenerado, é estar na Igreja Militante, a Universal.

                E há muita coerência batista quando se analisa esta doutrina junto com a do batismo apenas para regenerados. Não há como alguém realmente batizado vir a se desviar. Se a pessoa foi regenerada pelo poder do Espírito Santo e foi batizada, então está segura. Isto nos recorda que o batismo não é para simpatizantes do evangelho, mas para regenerados pelo evangelho. Temos batizado muita gente que é apenas simpatizante do evangelho e esses, um dia, não sendo convertidos, correm o risco de ir embora. Mas quando se tem certeza de que o batizado, que se torna membro da igreja, é um regenerado, este permanecerá na fé. Se a pessoa morreu para vida anterior, como pode voltar a viver nela? E é também, para nós, a garantia de que a verdadeira igreja estará preservada, pois será sempre de regenerados. Ao mesmo tempo, é uma advertência para quem se chega a uma igreja batista: está assumindo um compromisso para sempre. Ser membro de uma igreja batista é um sinal, uma declaração,  de conversão a Jesus Cristo e a expressão do desejo de se unir ao seu povo. Ao mesmo tempo é uma declaração de que se está assumindo um compromisso com Cristo e o seu evangelho para sempre. A identidade de um batista é forte, aqui: ele é um salvo  e salvo para sempre e por completo.

6.       BATISMO E CEIA COMO ORDENANÇAS E NÃO COMO SACRAMENTOS

Sacramento é o ato religioso que santifica ou confere graça a quem o recebe. Ordenança é o reconhecimento de quem uma determinada ordem foi atribuída a alguém. Há uma diferença muito grande entre os dois. Parece que a idéia do batismo e da ceia do Senhor como sacramentos se deu por volta do quarto século.  Eles necessitam, por serem ritos mágicos, uma classe especial de pessoas. Por isso, com o sacramento veio logo o surgimento de um clero. Para a Igreja Católica, os sacramentos são sete: batismo, confirmação, eucaristia, penitência, extrema-unção, ordem e matrimônio. São elementos que conferem graças.

Os batistas entendemos que Jesus deixou duas celebrações para sua Igreja e que as igrejas devem observar: o batismo e a ceia. Nunca os vimos como veículos transmissores de graça, mas como atos de celebração da fé. O batismo celebra e testemunha nossa conversão a Cristo e proclama a nossa disposição de uma vida com ele. A ceia celebra a morte vicária de Cristo e anuncia sua volta.  Alguns outros pequenos grupos batistas adotam, ainda o lava-pés. Mas dispenso-me de abordar isto por ser algo pouco expressivo.

Sobre o batismo já se falou um pouco, anteriormente. Abordamo-lo aqui apenas pelo ângulo de não ser um sacramento. Detenhamo-nos, então, um pouco,  na ceia. A postura católica é a da transubstanciação, evento em que o pão e o vinho se transformam  no corpo e no sangue de Cristo. Isso se dá quando do ofertório, na missa, quando o padre oferece os elementos a Deus. Eles são transformados. Aliás, por favor, não chame o momento de dízimos e ofertas na sua igreja de “ofertório”. A não ser que haja lá algum padre que esteja transformando os elementos no corpo e sangue de Cristo.  Os batistas não temos “ofertório”. Temos “devolução dos dízimos”. Uso o termo “devolução” porque dízimo não se paga nem mesmo se dá. Devolve-se. Não é nosso, é de Deus e veio à nossa mão por algum momento. Lutero adotou a prática da consubstanciação. Segundo ele, o pão e o vinho não se transformam no corpo e sangue de Cristo, mas Cristo está com a substância.  Zuínglio defendia a presença espiritual de Cristo quando da celebração da ceia. Os batistas não aceitamos nenhuma destas posições. Entendemos ser um memorial. Baseamo-nos nas palavras de Jesus: “fazei isto em memória de mim”. Batismo e ceia não conferem graças, mas testemunham de nossa fé. Por isso que não chamamos a ceia de “santa ceia”. Não chamamos o batismo de “santo batismo”. É que o valor da cerimônia não está na sua possível santidade, mas na sua significação.

Dirá alguém que está farto de saber isto. Mas é preciso que reafirmemos nossa posição anti-sacramentalista, porque vemos hoje o regresso desta prática, devidamente metamorfoseada pelo neopentecostalismo, no meio das igrejas evangélicas.  O cenário evangélico atual apresenta um cenário onde elementos mágicos e sagrados se fazem presentes. Tenho visto igrejas distribuindo sal do mar Morto para “abrir caminho” (igreja, sim senhor!), azeite declarado como vindo do monte das Oliveiras sendo usado para ungir as pessoas (há alguma usina de beneficiamento de azeitonas lá?) e até crucifixos feitos da cruz de Jesus (pastores evangélicos, sim!). Vai se generalizando a prática de beber água de um copo devidamente benzido pela oração do pastor. Algo tão supersticioso como a água benta do padre. A alegação que ouvi, de um crente batista, é que ele se sentiu bem depois de beber daquela água. É a figura sacramental: o sentimentalismo e a sensação ocupam o lugar do ensino bíblico.   Há um fetichismo em nosso meio com terra santa, areia santa, água santa, sal santo, folha de oliveira santa, etc. No cristianismo as pessoas são santas, mas as coisas não. No cristianismo não há lugares e objetos santos.  Nem mesmo o prédio onde a igreja se reúne é santuário, no rigor do termo. O prédio onde a Igreja se reúne e que alguns chamam, na linguagem do Antigo Testamento,  de “santuário”, não é santuário nem  morada de Deus. É salão de cultos. O Eterno não mora em prédios, mas em pessoas. Elas é que  são o santuário (At 17.24, 1Co 3.16, 6.19 e Hb 3.6). Isto não é dessacralizar o evangelho, mas dar-lhe uma dimensão muito mais profunda. Colocando em palavras mais simples, esta compreensão faz surgir aquilo que Tillich declara ser o reconhecimento do universo como templo de adoração. Aonde quer que vamos, aí estará o lugar de culto. Esta visão sacramental tem reduzido o evangelho a algo que acontece num determinado dia, num determinado local, com determinados símbolos, sob o comando de determinadas pessoas. Sobre este último aspecto falarei mais à frente quando abordar a questão do sacerdócio universal de todos os salvos, que se opõe ao crescente sacerdotalismo que se verifica em nosso tempo.

A consideração de objetos como se fossem sagrados leva à santificação deles. Daí para a idolatria e sua irmã gêmea, a superstição, o passo a ser dado é pequeno. Por isso precisamos reafirmar: não temos sacramentos e repudiamos a espiritualização de símbolos e de gestos. O transmissor de graça é o Espírito Santo. Ele habita em nós, se somos convertidos.  Se alguém não é, pode se afogar nas águas do Jordão, ficar com barriga d’água de tanto beber água ungida pela oração do pastor, que isso não adiantará nada. A fé deve ser posta em Deus e não em coisas nem em gestos nem em ritos. Um batista que preze sua identidade nunca se envolverá com  fetichismo do neo-sacramentalismo pentecostal.

7.       O SACERDÓCIO UNIVERSAL DE TODOS OS SALVOS

Desde o início, os batistas partilharam com os vários grupos insatisfeitos com o protestantismo e com os separatistas, que eram os insatisfeitos da Igreja da Inglaterra, a rejeição de um clero. Isto é o que se chama “a doutrina do sacerdócio universal de todos os salvos”. Num certo sentido, não temos sacerdotes entre nós. Isto no sentido de alguém com mais acesso a Deus do que os demais. Em outro sentido, todos nós somos sacerdotes porque todos nós temos acesso a Deus, sem necessidade um mediador humano.

O pastor não é um sacerdote. Sua oração tem tanto valor, aos olhos de Deus, como a oração do zelador da igreja, desde que este seja crente. A oração do crente é ouvida por causa da graça de Deus, da mediação de Jesus e da intercessão que o Espírito faz por nós, junto à Trindade. A identidade batista é fortemente marcada por esta concepção teológica: o sacerdócio universal de todos os salvos, em conseqüência do livre acesso que todos nós temos à presença divina. Não precisamos da corrente de 318 homens e mulheres de Deus para sermos abençoados. Podemos ser abençoados porque Deus tem prazer em dar coisas boas a seus filhos e as dará aos que lhe pedirem. Há critérios para isso e o Novo Testamento os explicita. Mas a responsabilidade não é de um clero. É da igreja como um todo.

No entanto, esta doutrina tão valiosa está sendo diluída em nosso meio. Isto está sucedendo por causa do entendimento cada vez mais forte, de que temos um clero e um laicato. Preocupa-me ver, cada vez mais,  as igrejas terem ministros formados e assalariados para tudo, como se fosse esta a única maneira de prover liderança para as comunidades eclesiásticas. Acho correto termos ministros de música, de educação religiosa, de juventude, de missões, etc., em nossas igrejas. Milito na educação ministerial,  fui presidente da ABIBET por seis anos, e não poderia pensar doutra maneira. Mas me receio que com isso se diga ao nosso povo que só as pessoas que são formadas em seminários e que sejam devidamente remuneradas podem fazer a obra de Deus. Isto pode trazer uma mentalidade daninha: os ministros fazem o trabalho e os crentes pagam a conta. A incidência do uso do termo  “leigo” para os não consagrados aos ministérios é reveladora disto.  É um uso inexato. Todos nós somos ministros, pois todos somos servos. E todos somos leigos, porque todos somos povo (é este o sentido da palavra “leigo”,  alguém do povo). Não temos  clero nem laicato, como batistas.   Somos todos ministros e somos todos povo. Mas  isto tem sido esquecido, porque, cada vez mais, as bases ministeriais são buscadas no Antigo Testamento e não no Novo.  Usamos os termos do Novo com a conotação do Antigo. Aliás, muita gente anda pregando o Antigo Testamento sem analisá-lo pelo Novo Testamento. Mas com esta visão, o pastor do Novo Testamento passa a ter a conotação do sacerdote do Antigo Testamento.  É o  “ungido”,  o detentor de uma relação especial com Deus que os outros não têm. Só ele pode realizar certos atos litúrgicos, como se fosse o sacerdote do Antigo Testamento. Por exemplo, batismo e ceia só podem ser celebrados por ele. Assumimos isto como postura, mas não é uma exigência bíblica.  Convencionamos isto. No meio carismático isto é mais forte. Os pastores tornam a igreja dependente  deles. Só eles têm a oração poderosa, a corrente de libertação só pode ser feita por eles e na igreja, só eles quebram as maldições, etc.  O sentido teológico do sacerdote hebreu parece permear fortemente o sentido teológico do pastor neotestamentário.  Este conceito convém ao pastor neopentecostal. Ele se torna um homem acima dos outros, incontestável, líder que deve ser acatado. Tem uma autoridade espiritual que os outros não têm. Ele tem uma linha vermelha com Deus.  Ora, se há algo que aprendemos sobre a liderança nos dois Testamentos, é que o Antigo elitiza a liderança e o   Novo  a democratiza. Para o neopentecostal, o Novo Testamento, a mensagem da graça e a eclesiologia simples, despida de objetos, palavras e gestual sagrados não são interessantes. Assim, ele se refugia no Antigo  Testamento.  Por isso há igrejas  evangélicas com castiçais de sete braços e estrelas de Davi no lugar da cruz, outras desfraldando a bandeira de Israel (e envergonhando-se da brasileira), guardando  festas judaicas, e até  mesmo tendo incensários em seus salões de cultos. Há evangélicos que parecem frustrados  por não serem judeus. A liturgia  pomposa do judaísmo é mais atraente e permite mais manobra ao líder que se põe acima dos outros. E com isso, os membros da igreja são os ajudantes do obreiro.

Em Portugal, um diácono, conversando comigo, queixou-se da mentalidade católica infiltrada nas igrejas batistas. O pastor era um sacerdote e os diáconos, seus coroinhas. No meio neopentecstal, parece que o pastor é um executivo espiritual e os membros, os pagadores de contas. Lutero tentou apagar  o conceito católico de que a Igreja era a liderança, o clero. Para ele, igreja  era o povo e não a instituição, representado por seu clero. Ele não gostava da palavra kirche para igreja, porque enfatizava a instituição. Preferia  gemeinde, que dá a idéia de comunidade. Ele queria a ênfase no povo. O povo é a  Igreja e o povo é sacerdote.

Isto significa que a obra é de todos e que não podemos ter gurus iluminados em nosso meio. Não há pessoas credenciadas para terem mais acesso a Deus, em detrimento de outras. Não há sangue azul espiritual nem uma plebe espiritual. Deus trata seus filhos por igual, por causa da pessoa de Jesus Cristo. Deus chamou Abraão de “meu amigo”.  Mas Jesus disse que seremos seus amigos se fizermos o que ele nos manda. Não restringiu, mas ampliou.

Não temos entre nós uma pessoa que tem revelações especiais de Deus. A revelação de Deus está na sua Palavra, a Bíblia. Qualquer crente sincero, iluminado pelo Espírito Santo, pode compreender seus ensinos. Pode não penetrar nas sutilezas teológicas ou textuais originais, mas compreende a essência.

O que quero dizer pode ser resumido no expediente de um boletim de uma igreja batista conservadora dos Estados Unidos. Lá constava: “Ministros da Igreja: todos os crentes. Auxiliar dos ministros: o Pastor da Igreja”. Deus não deu a tarefa de fazer a obra aos pastores, a não ser a tarefa de serem pastores. A tarefa de fazer a obra foi dada à Igreja como um todo. E o Espírito foi dado a todos e não apenas aos pastores.

8.       A AUTONOMIA DA IGREJA LOCAL

Este é outro princípio batista inegociável. E é onde devo contextualizar um pouco mais porque temos problemas sérios nesta área. Surpreende-me, hoje, ler em jornais de procedência de instituições batistas artigos contra a autonomia das igrejas locais e até mesmo alguns lamentos de muitos por termos esta doutrina. Entendo que vivemos um tempo bem diferente do vivido há 20 anos. As estruturas denominacionais passam por um processo de desgaste junto às igrejas. Sua imagem está afetada. Isto é conseqüência até mesmo de um dado cultural, a pós-modernidade, momento social em que vivemos e em que as estruturas são questionadas e deixadas de lado, e o individualismo é cada vez mais acentuado.  Para piorar, em algumas de nossas instituições denominacionais houve má gerência, e a repercussão disto atingiu as demais. Em outras, aconteceu certo açodamento de pessoas que confundiram as coisas e conseguiram, com suas atitudes, criar uma postura refratária por parte das igrejas. Zelosas pelo seu trabalho, algumas  pessoas começaram a pressionar as igrejas e a reclamar das não coloboradoras, muitas vezes insinuando não serem batistas ou serem desengajadas da doutrina batista por não contribuírem financeiramente para a instituição. Em outras vezes, a luta por poder, nos bastidores, em nada difere da luta que se vê no mundo.  Esta confusão, para mim, se deu  porque se ignorou o fato de que a estrutura é serva das igrejas e existe em função delas e não o oposto. Nem mesmo chamo nossas instituições de denominação porque denominação, no meu entendimento, são as igrejas e as doutrinas que elas sustentam. Chamo de estrutura e as vejo como pára-eclesiásticas, ou seja, elas existem para caminharem ao lado das igrejas. Por isso, entendo que as estruturas precisam rever seus métodos e seu discurso. Não devem cobrar das igrejas, mas mostrar sua competência, sua administração com lisura, e como estão levando a obra das igrejas à frente. Parece-me surrealista que alguns vejam as igrejas como adversárias da denominação. Elas são a denominação!

Não é segredo que as igrejas têm diminuído sua colaboração para a estrutura, tanto em finanças como em envolvimento.  Os alvos missionários não têm sido alcançados. Isto cria uma ansiedade por parte de quem gerencia um programa, pois precisa de recursos. Por isso, vez por outra se lêem artigos em que alguém reclama da autonomia da igreja local e critica as que não estão cerrando fileiras com a estrutura. Seria bom fazer com que as igrejas todas assumissem o programa da estrutura e bem como os ônus decorrentes da funcionalização do programa.

Aliás, mais que surpreender-me, choca-me ver tais artigos defendendo restrição à autonomia das igrejas. Creio que isto não melhorará as coisas, mas que as piorará. Afastará mais igrejas, ainda. Tentar enquadrar as igrejas é militar contra toda uma história quase quatrocentã. E não existe autonomia relativa. Ou há ou não há.  Elas são autônomas, cem por cento autônomas. Quero citar um trecho de um líder batista insuspeito, José dos Reis Pereira.  Poucos batistas foram tão engajados  na obra como ele. Certa vez, em uma carta, ele me disse que estava com 24 atribuições denominacionais.  Reis Pereira foi uma vela que se gastou dos dois lados. Eis seu texto: “Os Batistas Gerais decaíram à proporção em que uma forte tendência centralizadora triunfava entre eles. Vitoriosa essa tendência a autonomia das igrejas locais foi sacrificada. E é um outro princípio batista, esse da autonomia da igreja local” (Breve História dos Batistas, p. 81). Centralizar o poder ou as decisões e fortalecer o centro não melhorará a situação. Reis mostra que a história já provou isso. Deve-se fortalecer e melhorar a base, que são as igrejas. Se estas forem fortes e sadias, a denominação será forte e sadia.

Associações, convenções, juntas e  assemelhados existem para servir à igreja local. Estas não são apenas pagadoras das contas, mas devem ser senhoras do processo denominacional. Isto deve ser reafirmado porque, se anos sessentas e setentas o modelo pentecostal foi nosso grande problema, nos anos noventas e nesta primeira década, nosso problema parece ser o modelo presbiteriano.

Não se deve nem se pode negar a autonomia da igreja local, até mesmo porque o Novo Testamento só mostra uma instituição, que é ela, e desconhece todas as que criamos. O que criamos não é antibíblico, mas é abíblico. Não é errado, mas existe para funcionalizar e vitalizar a igreja local. O que devemos fazer é mostrar que as igrejas do Novo Testamento viviam em mutualidade, que se ajudavam, como Paulo mostra em suas cartas. Autonomia e mutualidade não são antônimos. Mostremos que as igrejas se engajavam em projetos comuns, mas tudo partia delas. Até mesmo o envio de missionários. Os missionários eram enviados pelas igrejas e eram missionários das igrejas e nunca enviados por uma instituição. Sei que os tempos são outros, as circunstâncias culturais são outras, mas me parece que muitas vezes olhamos pelo lado errado do binóculo. A pedra de toque do processo batista é a igreja local. Neste sentido, somos congregacionais desde nossa origem: o governo pertence à congregação local e ela não está sujeita a nenhum outra instância. E cooperação, sim. Mas sacrifício ou abandono da autonomia da igreja local, nunca!

A grandeza desta doutrina nos permite declarar que a maior e mais rica igreja batista vale tanto quanto a menor e mais pobre. E o que se faz em nome dos batistas precisa do aval moral das igrejas para  ter credibilidade entre elas. Não se trata apenas de autonomia da igreja local, mas de sua soberania. As estruturas precisam compatibilizar-se com as igrejas. Até mesmo por um fator muito simples: precisam delas para sobreviver.

9.       A SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA E ESTADO

Este item amplia a liberdade da Igreja. Não é apenas a questão de que ela não está subordinada ao Estado, mas que ela e o Estado têm esferas diferentes. A Igreja é cidadã deste mundo  e sujeita-se a leis de justiça e de bom senso. Mas deve exclamar como os apóstolos, em Atos 4.19: “Mas Pedro e João, respondendo, lhes disseram: Julgai vós se é justo diante de Deus ouvir-nos antes a vós do que a Deus”. A lealdade última da Igreja é para com Deus e sua Palavra. Sua pátria mais amada é a celestial. O Estado também está sob a lei da justiça divina. No Antigo Testamento, Iahweh escolheu Israel, mas é Senhor de todas as nações e toda a terra. Devemos nos lembrar disto.

Na Escandinávia, os pastores luteranos são pagos pelo Estado. No Brasil, constantemente, verbas públicas são usadas para recuperar igrejas católicas, consideradas como patrimônio arquitetônico ou cultural. Mas são lugares de cultos. Isto é contra nosso princípio de um Estado leigo, que não deve investir em nenhuma religião nem beneficiar nenhum culto.

Diferentemente de grupos anabatistas e outros radicais do século XVI, os batistas nunca questionaram o Estado por ser Estado. Mas também não podemos divinizá-lo. Lembremos que a luta do Apocalipse mostra o Cordeiro contra um Estado que deseja ser Deus.  Nosso compromisso é com a justiça, com a honestidade e com a dignidade humana. Podemos nos rejubilar de termos em nossa história um Prêmio Nobel da Paz, o Pr. Martin Luther King Jr, assim agraciado pela sua luta pelos direitos dos negros norte-americanos. Mas, quando a turma de formandos do Seminário do Sul, em 1968, o tomou como seu paraninfo, alguns dos missionários americanos que lecionavam no Seminário, bem como parte da cúpula batista brasileira, ficaram indignados com os alunos.  Estavam muito sintonizados com o regime militar e achavam que King era um comunista, um agitador. Que miopia! Que perda de senso de história!

Uma igreja batista não é da direita nem da esquerda nem mesmo do centro. É de cima. Seus valores são espirituais e celestiais. Uma igreja batista faz parte da Igreja de Cristo, que é multi-racial, multi-étnica, multigeográfica. Sou brasileiro e não me envergonho disto. Posso, também, dizer como Fernando Pessoa: “minha pátria é a língua portuguesa”, ou seja, tenho uma identidade lingüística. Amo meu idioma, dizendo como Olavo Bilac: “em que da voz materna ouvi: ‘meu filho’”. Foi na língua  portuguesa, no Brasil, que ouvi minha mãe, Nelya Werdan, uma filha de suíços, me chamar de “filho”.  Foi neste país, o Brasil,  que duas famílias estrangeiras, os portugueses Gomes Coelho e os suíços Werdan Suhett me deram origem. Mas, mais que brasileiro e descendente de portugueses e suíços, sou cidadão do reino do céu. E os princípios do reino celestial são os que devem subordinar minha vida.

Deus não é brasileiro (se fosse, teria pedido asilo em alguma embaixada estrangeira há muito tempo) nem tem nacionalidade alguma. Devemos ser patriotas, mas devemos discordar do Estado quando este invade área que não é sua. Por incrível que pareça, duas semanas atrás, um vereador de Campinas apresentou projeto para criar um órgão público para “deliberar, normatizar, fiscalizar e executar políticas relativas aos direitos e interesses do segmnto religioso evangélico”. Fizemos uma grande grita: não compete ao estado criar órgãos para as igrejas. Aonde isto nos levaria? O vereador retirou seu projeto.

Isto também nos é uma advertência: somos cidadãos como todos os demais e não devemos esperar tratamento especial. Inquieta-me ver igrejas batistas pedindo ônibus à prefeituras e órgãos públicos para fazerem piqueniques. Se não têm dinheiro para alugar um ônibus, que não andem de ônibus! Vão a pé ou não façam piquenique! Se nos incomoda ver dinheiro público sendo usado para levantar estátuas a Iemanjá em cidades da orla marítima, deveria nos incomodar também o uso de dinheiro público para monumentos à Bíblia. O poder civil não pode patrocinar nenhuma religião! Nem a nossa!

Nunca fomos subversivos. Mas não podemos ser coniventes com um Estado desumano, corrupto, desvalorizador do homem. Nosso norte são os valores da Palavra de Deus. Olhamos para eles e seguimos nossa jornada. O que se desvia deles, isso recriminamos. Não é se nos beneficia, mas se  é um princípio bíblico.

Pagamos impostos, servimos ao exército, damos nossa parcela para este país. Mas não o sacralizamos nem o deificamos. O culto ao Estado produziu a aberração chamada “Cristãos Alemães”, que queria uma igreja germânica, de raça pura.  Mas não admitimos a ingerência do Estado em nossa vida. Nem transigimos nossos padrões por causa do Estado. As casas de prostituição pagam taxas e são estabelecidas legalmente, mas a prostituição é pecado. O que é legal nem sempre é moral. O casamento de homossexuais pode ser tolerado civilmente, mas é pecado. Uma igreja batista deve dizer como Lutero: que sua consciência é cativa da Palavra de Deus.

A identidade batista parte daqui: nossas igrejas não se cevam às custas do Estado, não lhe pedem dinheiro nem benesses, não o apóiam em busca de favores. Eventualmente, podemos ter a mesma linha de um determinado político ou de um partido. Será o que Francis Schaeffer chama de “co-beligerância”. Mas nunca seremos subordinados nem sustentadores do poder civil. 

CONCLUSÃO

                Terminei a listagem e comentários dos princípios batistas que me parecem os pilares de nossa postura.  Podem ser óbvios, mas assumi-los ou negá-los trazem desdobramentos, que também procurei aqui mostrar. A questão mais importante me parece ser esta: temos um passado nobre. Não surgimos de um racha por causa de liderança, de voracidade por dinheiro ou por esquisitice. Surgimos aos redor de princípios. Que nossos ancestrais sustentaram por séculos. Muitos deram suas vidas por eles. Hoje, observá-los parece fácil. Mas nem sempre o fazemos. Por conveniência, porque nos atrapalham, porque impedem alguns planos nossos. Mas são princípios batistas que formam nossa identidade. Que nunca os abandonemos e que nunca percamos essa identidade.


* Preparado para o Congresso de Identidade Denominacional, promovido pela Associação Batista do Litoral, na PIB de S. Vicente, em 27 de abril de 2001.

** O autor é o pastor-titular da Igreja Batista do Cambuí, Campinas, e professor da Faculdade Teológica Batista de Campinas e do Seminário Batista Bíblico de Campinas.