A autonomia da igreja é conveniente hoje?

A autonomia da igreja é conveniente hoje?

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Este é o título da carta do Pr. Josias Soares Ribeiro, no O Jornal Batista de 19 de janeiro deste ano. Bem intencionada, ela reflete a preocupação de um batista sério com sua denominação. Mas abre uma porta perigosa ao advogar a ingerência da instituição denominacional na igreja local, mesmo com bom propósito. Não chamo a instituição de "denominação" porque, para mim, denominação são as doutrinas e as igrejas que as sustentam. Convenções, associações, juntas, conselhos, sejam o que forem, são instituições criadas para viabilizar o trabalho das igrejas locais, fazendo o que elas, sozinhas, não conseguem. A Convenção Batista Brasileira não criou a denominação batista no Brasil. A denominação a criou em 1907. A Convenção deve ter a consciência de que existe, primeiro, para a glória de Deus e a promoção do seu reino. Depois, para viabilizar o trabalho das igrejas.

Respeito muito o Pr. Josias. Adolescente de dezesseis anos, recém-convertido, em minha cidade natal, Rio de Janeiro, conheci a Cruzada Mundial de Literatura, da qual ele era o Diretor. Encantei-me com o ministério da CML. Foi a primeira vez que assumi o compromisso de orar sistematicamente por alguém, ele. Desta maneira, fique claro que não desejo pessoalizar a questão. Meu escrito nada tem a ver com a dignidade e o brilho do ministério do Pr. Josias. Mas apresento outros dados e ângulos, para pensarmos. Talvez o que digo desagrade parte da instituição, até porque o OJB é institucional e seu maior número de leitores tem uma visão institucional, mas uma leitura atenta mostrará que meu propósito também é sadio.

Há dois aspectos na carta do Pr. Josias. Um, os deveres das igrejas para com a instituição. Outro, a segurança das igrejas. A autonomia da igreja local não é questão de conveniência. É questão de doutrina. Não é circunstancial. Não podemos sacrificar uma doutrina para atender conveniências de instituições incapazes de motivar as igrejas à cooperação. Nem para nos precavermos de obreiros desleais para com a igreja local. Nossas características latinas, aludidas pelo autor, não podem se sobrepor a uma doutrina. A questão levantada na carta parte de um ponto notório: há um fosso, que está se ampliando, entre as instituições denominacionais e as igrejas locais. Sabemos disto. Muitas igrejas não se mostram empolgadas em colaborar com a estrutura denominacional, inclusive financeiramente. O Pr. Josias diz que são 60% das igrejas. Não sei se o percentual é real ou ilustrativo. Se for real, é mais grave do que eu pensava. Tomara que seja retórica. Na mesma edição do jornal, Hans Behrsin, em artigo sobre missões, diz: "O lado triste é quando vejo muitas igrejas, talvez quase a metade, absolutamente sem nenhuma contribuição". Queremos alertas maiores que estes, de que há algo errado?

Muitos pastores e igrejas se distanciaram da estrutura denominacional. A última assembléia convencional, em Vitória, no Sudeste, onde o trabalho batista é mais forte, não conseguiu 2.500 mensageiros, se li bem no Portal Batista. A CBB tem mais de 6.000 igrejas arroladas. Algumas enviam dois, três ou mais mensageiros. Quantas igrejas estiveram presentes na assembléia? O número chegou a mil?

A estrutura e as pessoas ligadas a ela culpam pastores e igrejas reticentes. Nunca fizeram um mea culpa. Segundo o respeitável Pr. Josias, "o pecado não é deixar de cooperar, é assumir compromisso e não cumpri-lo, faltando com a palavra". Não sei se chamaria isto de pecado, mas para evitar problemas, assumo que seja. Mas será que este pecado não é conseqüência de outros pecados, praticados no seio da instituição, e aos quais as igrejas reagem? Não terá havido pouca transparência em alguns segmentos? Na minha igreja, todos sabem qual é o meu salário. Ele vem expresso no balancete mensal impresso e entregue aos participantes do culto administrativo. Sabe-se qual é meu salário, quanto recebo de verba de gasolina e de telefone, quanto se recolhe de Fundo de Garantia, etc. Isto não me constrange. É a igreja que vota os valores. As igrejas sabem quanto ganham os funcionários institucionais? Reformulo a pergunta: os membros das juntas sabem? Será que não há algumas "caixas pretas" que não se tornam públicas? Não houve, em algum momento, incompetência gerencial em alguns segmentos? Será que não se levantaram cercas para proteger funcionários pouco competentes? Não será que alguns "executivos denominacionais" (o termo é tão pomposo!) e alguns presidentes se portaram de maneira imperial com muitos pastores, hoje reticentes porque perderam a confiança na instituição ou o ânimo para cooperar com ela?

As estruturas são funcionais? Têm credibilidade junto ao membro comum, de nossas igrejas? Fizemos dezenas de reuniões para mudarmos a estrutura de educação religiosa. Quando se falava em acabar com organizações, os líderes se portavam como se estivessem atacando seu bebê. A questão deveria ter sido olhada deste ângulo: o que as igrejas querem? Olhou-se de outro: e o nosso ministério? As pessoas "sabiam" o que era bom para as igrejas, mesmo com estas não querendo! Tornamo-nos especialistas em fazer omelete sem quebrar os ovos. Mudávamos os nomes das organizações. Fui para o seminário com 19 anos. Na época discutíamos reestruturação denominacional. Tenho 31 anos de ministério. Continuamos discutindo reestruturação denominacional. Não será que muitos pastores e igrejas perderam a esperança de ver mudanças substanciais, inclusive de mentalidade, e não apenas cosméticas? Mudaremos alguma coisa, algum dia?

Um GT preparou a reformulação da CBB. Excelente equipe, de gente competente, a começar pelo relator, Dr. Vanias, minha ex-ovelha em Manaus, e amigo pessoal. Ele me honrou, vindo a Campinas pregar no culto de bodas de pérola de meu casamento, que minha igreja patrocinou. Mas as igrejas ainda não se convenceram de sua validade. Um pastor comentou da seguinte maneira: "Mudaram as panelas, mas continuam com a mesma receita, os mesmos ingredientes e os mesmos cozinheiros". Ironia à parte, a palavra mostra que a reticência continua. Superá-la demandará tempo.

O conceito de "liberdade vigiada", de que o Pr. Josias fala, me parece inviável. Ele, zeloso, o defende para proteger as igrejas. No entanto, estas devem criar seus mecanismos para administrar sua vida. A CBB pode assessorá-las. Se tal tipo de liberdade for para coagi-las à contribuição e assim serem legitimadas, lembremos que uma igreja não precisa da aprovação da CBB para existir. Esta, sim, precisa das igrejas. E, reconheçamos (não estou feliz ao dizer isto; tal reconhecimento me entristece), a Convenção não tem tanto prestígio assim junto às igrejas. Com todo respeito aos irmãos mineiros, é provável que a próxima assembléia tenha um número de mensageiros menor que a deste ano. Vitória tem mais atração turística, e isto pesa na freqüência. Muitos pastores e igrejas permanecem nominalmente na CBB para não terem problemas. A criação de um "órgão executivo, pelas igrejas constituído através do voto dos mensageiros, com autoridade para intervir nas congregações locais em casos especiais…" (a intenção do Pr. Josias é a melhor e mais honesta possível – o texto dele continua e mostra que é para proteger o patrimônio de igrejas com problemas doutrinários) pode ser um tiro no pé. Igrejas e pastores reticentes poderão se afastar de vez. E "casos especiais", mesmo especificados, podem se ampliar.

Não gosto da idéia, mas reconheço-a válida pelos sinais que vejo. Não a criei. Ouvi-a e vejo-a real: caminhamos para uma época pós-denominacional. O movimento denominacionalista, que teve seu boom com o revival norte-americano, questão de três séculos atrás, está entrando em ocaso. Os crentes transitam de uma igreja para outra com facilidade. Há denominações que aceitam pastores de outros grupos. Minimizam-se as diferenças doutrinárias. Há um novo paradigma: pastores e igrejas não estão se agrupando ao redor de doutrinas, mas de propósitos, a palavra da moda. O eixo é mais programático e menos doutrinário. Não aplaudo o fato. Reconheço-o. É um elemento complicador para nós. Precisamos nos debruçar sobre isto com seriedade, sem passionalismo, sem acusar quem vê isto de liberal ou de ecumenista, e ver como contornar. A tendência é que laços institucionais se enfraqueçam mais, ainda. O fosso crescerá.

A questão financeira preocupa. As igrejas atribuíram às instituições algumas atividades, e agora privam-nas de recursos. Não é justo. Mas a questão maior é de credibilidade. As igrejas se mostram arredias porque têm perdido a confiança. Cooperação não se faz com coação. Faz-se com credibilidade. Isto é caso para se pensar objetivamente, sem culpar outros. Igrejas e pastores mais afastados precisam ser trazidos de volta. Isto não sucederá com puxões de orelhas. Sucederá quando houver uma postura mais submissa das instituições para com as igrejas. Elas é que estão mantendo a instituição denominacional sob liberdade vigiada. Insatisfeitas, retêm recursos. É errado, mas é assim que agem. Como o crente insatisfeito que retém o dízimo. Errado, mas faz. A coação, em ambos os casos, não resolve o problema. Amplia-o. O que resolve é o entendimento.

A autonomia da igreja local é conveniente hoje. Será sempre. Que as igrejas reflitam e orem mais na escolha de um obreiro. Que os seminários sejam mais bem usados para formar uma consciência de responsabilidade e do dever do obreiro para com o grupo. E que as instituições se vejam como propriedade das igrejas locais e não das juntas, ou reféns de algumas pessoas. A questão é mais séria do que alguns admitem. Fechados na visão de que igrejas e pastores estão errados, obreiros ligados à instituição não têm noção da insatisfação crescente. Ouvem os da mesma opinião e assim, num círculo fechado, robustecem sua impressão. Ouvir dos reticentes o porquê do afastamento e, em vez de desancá-los, refletir sobre o que deve mudar na instituição, é um passo muito necessário. E deve ser dado. A CBB precisa de apoio, oração e de humildade no trato com as igrejas. O fosso existe e tende a se ampliar.