A autonomia da igreja local: o âmago da questão

A autonomia da igreja local: o âmago da questão

Escrevi um artigo intitulado "A autonomia da igreja é conveniente hoje?", no qual não discuti, propriamente, a questão da autonomia da igreja local. Emprestei o título de uma carta de outro obreiro, como gancho. Discuti o relacionamento da estrutura denominacional com a igreja local. No último parágrafo, voltei ao título dado pelo obreiro cuja carta me motivou, para encerrar as considerações. Terminei na linha em que desenvolvi o tema: o relacionamento entre estrutura e igreja. Este é, para mim, um dos três temas cruciais que temos (os outros dois são de ordem cristológica e soteriológica). Já tratei dele no artigo "A denominação dos meus sonhos", disponível no site da minha igreja (www.ibcambui.org.br), onde está, também, o artigo anterior a este. A igreja local é a pedra de toque da denominação, senhora do processo denominacional, e não apenas responsável pelo sustento da estrutura. Esta não tem poder sobre ela e deve lhe prestar contas, se quer a sua cooperação. A igreja local é a senhora e a estrutura é serva, em termos funcionais. A igreja local é autônoma, como afirma a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, no artigo VIII: "As igrejas neotestamentárias são autônomas, têm governo democrático…..", com textos bíblicos em rodapé.

Dirá alguém que não entrei no âmago da questão da autonomia da igreja local, no artigo passado. Não discuti este tema. Vejamos se hoje entro. A busca do "âmago da questão" não deverá ser feita alistando pensamento de teólogos, mas vendo o que a Bíblia diz. Strong, teólogo que muitos apreciam, por exemplo, é bem questionado em sua visão de igreja por W. Grudem, em sua Teologia Sistemática. Assim sendo, concordar com um deles é questão de opção. Mas quando a Bíblia fala, devemos nos curvar diante dela. Não é mais opção. É rendição. O âmago está aqui: o que a Bíblia diz sobre a igreja local e seus relacionamentos?

Diz que a igreja local é autônoma. Ela é autogovernável. Começo, antes de ir à Bíblia, citando Falcão Sobrinho: "A Assembléia da Igreja é o seu poder máximo, não estando sujeito a nenhuma outra instância interna ou externa. Cada Igreja é autônoma em relação a todas as demais igrejas e organismos de cooperação em termos de doutrina, administração, ministério e patrimônio" ("Capacitação Cristã", no. 3, ano 2003, p. 41). De onde meu ex-pastor tirou esta idéia? Não apenas da Declaração Doutrinária da CBB, mas da Bíblia. A leitura de 2Coríntios mostra que Paulo, em seu arrazoado à igreja, não usa sua autoridade como argumento. No capítulo 10, por exemplo, ele roga "pela mansidão e benignidade de Cristo". Ele fundara a igreja, mas não tinha autoridade sobre ela. Era o líder natural das comunidades cristãs de origem gentílica, mas não mandava nem interferia no centro decisório. Na carta aos gálatas, ele, que também esta igreja fundara, age como quem roga (Gl 4.12), orienta, como se vê em toda a carta, mas não tem poder decisório. Para não me repetir, fiquemos com isto: em todas as cartas há orientação e uma autoridade que é espiritual e intrinsecamente moral, nunca institucional. Paulo não tem autoridade gerencial sobre elas, mesmo estando elas erradas. Ninguém externo, homem ou organização, tem autoridade gerencial sobre uma igreja. Uma igreja neotestamentária não está sujeita a governo externo. Se Efésios, como presumem alguns (Orígenes, Basílio, Beare, Findlay, Goodspedd, Mackay, Williams, Truman, etc.) foi uma carta circular às igrejas da época, e sendo um documento que trata da fundamentação teológica da igreja, temos mais uma evidência disto: em lugar algum, nesta possível circular, que discute a doutrina da igreja, há a noção de um governo externo. A igreja local é autogovernável. Seu relacionamento com as demais é gerado pelo amor à obra e ao Senhor da obra, não pelo peso da via institucional. Dirão que os tempos são diferentes. Reconheço. E reconheço, também, que quanto mais instituição, mais legalismo, menos Espírito e menos consenso. Temo que nossa forte tendência à institucionalização absorva a ação espontânea do Espírito. Tínhamos (ainda temos?) até um Dia de Testemunho Batista, o 12 de outubro. Parece haver entre nós a crença de que qualquer trabalho batista só pode ser bem feito se for pela via institucional. Assim esta cresce e a igreja diminui. Temos até o Dia do Plano Cooperativo, mas não temos o Dia da Igreja. Parece-me emblemático.

Sendo autogovernável, cada igreja local é livre para efetuar sua disciplina e regular suas ações. Vemos em Mateus 18.15-17 que a disciplina é pelo relacionamento pessoal e tratada pela igreja. Em 1Coríntios 5.13 Paulo diz que o iníquo deve ser tirado da comunidade local. Em 1Tessalonicenses 3.6 é a igreja local quem testa os diáconos, e não um órgão externo à igreja. É ela quem os escolhe, como vemos em Atos 6, se entendermos este texto como escolha de diáconos. Mesmo que não se julgue assim, vemos que a igreja local administrava sua vida ("escolhei…dentre vós"). A igreja tomava suas decisões (At 15.22) e escolhia pessoas para as viagens missionárias (2Co 8.9). Isto é uma conseqüência de que Deus, ao escolher missionários, falava à igreja e não a uma junta ou a um colegiado (At 13.1-2). Hoje, as igrejas recebem relatórios de pessoas que não conhecem, que trabalham em regiões com as quais a igreja não se sensibilizou, em projetos nos quais a igreja não se engajou. No Novo Testamento, os missionários eram das igrejas e mantidos pelas igrejas. Hoje são da estrutura e mantidos pelas igrejas. O vínculo missionário-igreja é tênue e não adianta dizer que o missionário é missionário da igreja e não da estrutura. Soa-me como apelo publicitário. Uma pessoa ligada à obra missionária veio falar à minha igreja. Disse: "Não sou missionário da Junta *****. Sou missionário desta igreja" e seguir errou o nome da igreja. Nosso missionário não sabia nosso nome. Minha preocupação é estarmos a transferir para a estrutura as tarefas das igrejas e às igrejas deixarmos a tarefa de pagar a conta. Muitas igrejas assim entendem e se afastam, porque a via institucional é cada vez mais oligárquica e menos consultiva e consensual. Então, pugna-se por controlá-las. Valha-nos a palavra de MacDaniel, após alistar uma série de versículos bíblicos que mostram que as igrejas locais tomavam suas decisões: "Dessas passagens claramente se entende que uma assembléia particular governa-se a si própria. Não havia nenhuma hierarquia, mesmo onde e quando os apóstolos estavam presentes. Jesus salvaguardeou as suas igrejas contra a forma episcopal de governo, isto é, a autocracia; e contra o perigo da forma de governo presbiterial, isto é, da oligarquia, estabelecendo a forma de governo democrático, em que o governo era do povo, para o povo e pelo povo" (As Igrejas do Novo Testamento, p. 13). Os interessados nas passagens por ele citadas podem recorrer à sua obra, editada pela Juerp.

O governo da igreja é local, não episcopal ou presbiterial. As tentativas de ver um episcopado ou presbitério em Atos 14.23, 20.17 e 28 e Tito 1.5 dependem muito da concepção que tivermos da situação da época e do tipo de trabalho que Paulo fazia. Ele estava investido de autoridade institucional para estes atos ou assim agiu como organizador da igreja, dando-lhe uma feição estrutural necessária para sua funcionalidade? Isto definirá nossa leitura dos textos. Assim, fica difícil dar-lhes um caráter regulador. Boa parte do peso hermenêutico dependerá dos óculos doutrinários ou ideológicos que usarmos. Dirão que todo processo hermenêutico é assim. Não é correto. E se temos textos que permitem leitura dual ou tríplice, estabelecer a base neles é problemático. Será sábio não os usarmos como ponderáveis.

Há, hoje, uma tendência presbiterianizante na Convenção. Deveria ser refutada com a mesma firmeza com que se refutou a tendência pentecostalizante da década dos sessentas e setentas. Não o é porque interessa à estrutura. Vozes ligadas a ela a fomentam. Não devemos dar-lhes ouvidos. Os argumentos se baseiam em contribuição e patrimônio. Somos congregacionalistas. O tratado de Robert Browne, "Reforma Sem Esperar por Ninguém" (1582) fez eclodir o movimento congregacionalista, do qual os batistas fazem parte. Deve-se levar em conta, entretanto, que a primeira declaração de fé batista, elaborada por Thomas Helwys, faz distinção entre a concepção de batismo de Helwys e Browne. Congregacionalistas, sim; brownistas, não. Esta é a questão: somos congregacionalistas desde nosso surgimento. Cremos que a administração da igreja pertence à congregação local. A tentativa de exercer autoridade sobre a igreja local é incompatível com nossa herança histórica, teológica e nossa interpretação bíblica. A tendência presbiterianizante, de transferir poder da congregação local para a estrutura, é uma postura errada. Se a estrutura não consegue empolgar as igrejas locais, deve se indagar onde está errando. Foi o que procurei mostrar no artigo anterior. Se uma igreja local não consegue resolver seus problemas, muitas maneiras há de se ajudar e orientar, sem sacrificar a doutrina da autonomia da igreja local. Afinal, a estrutura denominacional existe para servir as igrejas. Citando John Landers: "As igrejas são as unidades básicas: o aparelho denominacional existe para auxiliar as igrejas no cumprimento de sua missão" (Teologia dos Princípios Batistas, p. 126).

Sou apaixonado pela igreja local. Em artigo na revista Juventude comentei: "Dado ao hábito de 'filosofar', surpreendo-me, em alguns domingos, olhando minha congregação e refletindo sobre ela. Ali está um irmão com pós-doutorado em Harvard, tendo estudado Economia com um Prêmio Nobel. Ali está uma irmã, pesquisadora da Unicamp. No mesmo banco, uma irmã que trabalha como doméstica. À frente, com um professor universitário, senta-se um irmão aposentado, que vive com um salário mínimo. O tratamento entre eles não é de mando ou subserviência. As diferenças sociais não são contadas. Um é descendente de alemães; outro, de suíços. Um descende de brasileiros até não saber onde remontar, e o outro é negro. Cantam no mesmo quarteto. As diferenças raciais não existem. Não há segregação por idade. O culto não é jovem ou da terceira idade. Contempla todas as faixas etárias. É a igreja local, a expressão visível da Igreja, o corpo místico de Cristo, o mais fantástico agrupamento de pessoas" ("O Mais Fantástico Agrupamento de Pessoas", 2T2003). Quanto mais mergulhamos no mistério que é a graça que une as pessoas ao redor da Pessoa, mais nos apaixonamos por isto. Temos dificuldades teológicas bem sérias, hoje. A solução não é submeter a igreja a algum organismo, mas uma reflexão séria sobre o fenômeno igreja, um estudo consciente sobre como viabilizá-lo e agilitá-lo, respeitando suas características. A visão batista de igreja é biblicamente correta. Não podemos abrir mão dela. Devemos, sim, analisar séria e detidamente o porquê do fosso entre as igrejas e a estrutura. Algo deve mudar. E não é a doutrina bíblica da igreja.

Isaltino Gomes Coelho Filho