A formação dos quatro evangelhos

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, para a Primeira Igreja Batista de Nova Odessa, SP

Os evangelhos inauguram um novo tipo de literatura, na Bíblia. Eles não são livros históricos, como Samuel, Reis e Crônicas, no Antigo Testamento. Nem poesia como Salmos. Nem a literatura de sabedoria, como Eclesiastes e Provérbios. Tampouco são livros como os proféticos. Nem literatura apocalíptica, como Daniel e trechos de Ezequiel, embora alguns ditos de Jesus sejam apocalípticos. Inauguram um estilo novo. Mesclam, na sua composição, história, narrativas, discursos e teologia. Seu sentido literal é “boas novas”, mas acima do sentido literal, vejamos o fenômeno literário. É uma contribuição do cristianismo à historiografia religiosa mundial. Já havia algo semelhante na historiografia filosófica, como comentamos a seguir.

Os evangelhos inauguram um novo estilo literário na Bíblia, mas não na história. O uso do diálogo, como os evangelhos nos mostram, aparece muito nos escritos dos grandes pensadores gregos, principalmente em Sócrates, cerca de 450 anos antes de Cristo. A diferença entre os evangelhos e os escritos filosóficos, óbvio, é a pretensão dos evangelhos. Eles se propõem a apresentar a vida de um personagem único, singular, Jesus de Nazaré, mostrando-o como filho de Deus e como o próprio Deus.  Eles se propõem a dar resposta não a questões filosóficas, mas à questão maior do homem, a eternidade. Os filósofos apontavam para algum aspecto da verdade fora deles. Os evangelhos apontam a Verdade encarnada em um homem.  Só isto é suficiente para mostrar sua imensa superioridade sobre qualquer escrito antes deles. E depois, também. Por isso, vamos dar uma mirada nos quatro evangelhos. Vamos ver o que se propõem a ser, e uma síntese do seu conteúdo.

DOCUMENTOS DE FÉ

Salta aos olhos que os evangelhos não pretendem ser história, no sentido de objetividade fria e imparcial. Não são crônicas históricas nem atas de reuniões, sem vida. São documentos de fé. Isto não quer dizer que não são históricos. Eles são. Não narram ficção. Narram os atos de um homem histórico, que viveu num momento histórico, num lugar histórico, e fundou um movimento histórico chamado Igreja. São históricos. Vejamos esta palavra de Lucas: “Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, segundo no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também a mim, depois de haver investido tudo cuidadosamente desde o começo, pareceu-me bem, ó excelentíssimo Teófilo, escrever-te uma narração em ordem” (Lc 1.1-3). Os evangelhos não narram alguma invencionice literária, mas falam de coisas que aconteceram. São documentos de fé,  não de uma fé conceitual, mas de uma fé enraizada na história, confirmada por fatos.

Vejamos também esta palavra de Paulo: “Porque o rei, diante de quem falo com liberdade, sabe destas coisas, pois não creio que nada disto lhe é oculto; porque isto não se fez em qualquer canto” (At 26.26). O relato do Novo Testamento, em geral, e dos evangelhos, mais restritamente, não são insignificantes. Aconteceram e não foi em qualquer canto. Tornaram-se notórios, os eventos, na época. O mundo que vivenciou os eventos narrados nos evangelhos e em Atos não pode negá-los. Hoje se tenta negá-los, mas o mundo da época teve que silenciar, espantado.

São históricos, mas são documentos de fé porque procuram levar a pessoa a ter fé. É o que João diz, no encerramento do seu evangelho, em 20.30-31 (veremos, depois, que o capítulo 21 é um apêndice que João acrescentou ao que tinha escrito): “Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”.

Definamos, então, isto: os evangelhos são livros que narram eventos que aconteceram, e procuram despertar a fé na pessoa de Cristo. Perderá muito do seu valor quem os ler buscando curiosidades ou pensando estar analisando uma obra comum. Partimos deste pressuposto: são Palavra de Deus, inspirada (soprada por Deus) e têm um propósito para nossa vida. Podemos entender as palavras, mas se não partirmos deste ponto de vista, que eles vêem do Espírito Santo de Deus, perderemos a bênção que eles trazem para nós, a vida em Cristo.

POR QUE QUATRO?

Há um profundo simbolismo no número quatro, na cultura hebraica.  Quatro são os pontos cardeais, quatro são as direções do vento, quatro são as estações do ano, e quatro eram as constelações da mitologia babilônica (Touro, Leão, Escorpião e Aquário), que marcou muito a cultura oriental antiga. Estas quatro constelações sustentavam o universo nos seus quatro cantos, na cultura da época. Por isso, o número quatro designava a totalidade da terra e do universo. Quatro evangelhos foram escolhidos de maneira a mostrar-se que a totalidade das informações sobre Jesus estão contidas neles. Uma outra maneira, mais simples, de ver isto é apenas dizer que o fato de serem quatro é apenas acidental.

Dirá alguém que já ouviu falar do evangelho de Tomé, do evangelho de Pedro, etc. De vez em quando, na falta de assunto, algum desocupado e ignorante da Bíblia declara que a Igreja adulterou os escritos bíblicos ou que escolheu apenas alguns que servissem ao seu propósito.  Só para não ficarem dúvidas, digo que o chamado Evangelho de Tomé foi composto no ano 150, quando Tomé já havia morrido há muito tempo. E o de Pedro, em 160. Um chamado Evangelho de Nicodemos foi escrito entre os anos 200 e 500. São obras de ficção, chamadas de pseudepigrafia. Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João foram aceitos pela Igreja primitiva, pela comunidade cristã que vivenciou a formação histórica do cristianismo, e são documentos que puderam ser analisados por testemunhas. Isso basta.

Ditas estas coisas, vejamos um pouco da mensagem de cada um deles. Não entraremos em detalhes de datas de produção nem de questões técnicas ou canônicas. Afinal, isto não é curso de Canôn das Escrituras. É uma abordagem de visão teológica, mas continuando uma perspectiva devocional. Em outras palavras, o que isto tem para nós de conteúdo prático.

A MENSAGEM DE MATEUS

Mateus escreveu para judeus. Sua tese é que as profecias do Antigo Testamento se cumpriram na pessoa de Jesus. Sua primeira declaração, em 1.1, esclarece isto muito bem: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi.”.  Jesus é o descendente de Davi esperado. Desde o cativeiro que os judeus, arrasados, esperavam uma reconstrução nacional. Esperavam um homem como Davi, porque no reinado de Davi Israel se tornou a maior potência do Oriente.  Eis o que lemos em Ezequiel 34.23-24: “E suscitarei sobre elas um só pastor para as apascentar, o meu servo Davi. Ele as apascentará, e lhes servirá de pastor. E eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo Davi será príncipe no meio delas; eu, o Senhor, o disse”. Davi se tornou o nome símbolo para o Messias. Esta é a linha de Mateus. Ele fará várias comparações entre Jesus e Israel e, por fim, mostrará que o tempo de Israel passou, e a Igreja o substitui: “Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos” (21.43).

Mateus parece ter mais conteúdo, em termos de massa de informação. É um evangelho que dá uma visão completa da obra de Jesus. É bem estruturado e seu autor sabia comunicar e o fez seguindo um plano de ação. É um evangelho bem preparado. Sua anotação do Sermão do Monte legou ao mundo a transcrição da mais fantástico e famoso sermão já pregado. É ele quem traz um discurso apocalíptico de Jesus, no final. São dois limites bem definidos. No início, o sermão do monte, as bases éticas do reino. No final, o sermão escatológico, a consumação do reino. Ao longo do escrito, o evangelho do reino. Início, meio e fim, numa obra bem elaborada.

A MENSAGEM DE MARCOS

Marcos mostra o ministério ativo de Jesus. No seu escrito, o evangelista sempre o mostra em atividade. Jesus é um homem cheio de energia, indo de um lugar para o outro, sempre pregando, ensinando e curando. Ele organizou o material de maneira a mostrar como os eventos vão se sucedendo até a tragédia final. Na realidade, o evangelho de Marcos termina em 16.8. O trecho de 16.9-20 foi acrescido por alguém, pois o vocabulário é, claramente, diferente. O trecho é chamado de “O grande final”. Um manuscrito atribui o texto de 16.9-20 a um “presbítero Ariston”.  Por motivos que nos escapam, a Igreja aceitou o acréscimo. E precisamos acreditar que o Espírito estava trabalhando na formação do cânon, sendo, então, esta parte acrescida também canônica. Mas Marcos quis concluir sua obra com esta mensagem: a sepultura está vazia e os discípulos devem ir para a Galiléia, onde tudo começou. Eles continuarão o que Jesus começou. A Igreja continua a tarefa de Jesus, é o que ele mostra. Uma estrutura muito bem construída, como se vê.

Mesmo sendo o mais sintético dos quatro, Marcos é respeitado como um documento sério. Pedro freqüentava a casa de Marcos, quando este, provavelmente, era um rapazinho: “Depois de assim refletir foi à casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitas pessoas estavam reunidas e oravam” (At 12.12). Tomou-o como discípulo. Ele viajou com os discípulos e foi, inclusive, o pivô de uma dissensão entre Paulo e Barnabé, tendo sido companheiro de Barnabé, depois que Paulo o recusou: “Decorridos alguns dias, disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades em que temos anunciado a palavra do Senhor, para ver como vão. Ora, Barnabé queria que levassem também a João, chamado Marcos. Mas a Paulo não parecia razoável que tomassem consigo aquele que desde a Panfília se tinha apartado deles e não os tinha acompanhado no trabalho. E houve entre eles tal desavença que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre” (At 15.36-39). Deve ter se recuperado, pois no fim da vida Paulo reconheceu como útil: “Só Lucas está comigo. Toma a Marcos e traze-o contigo, porque me é muito útil para o ministério” (2Tm 4.11). Estas atividades com Paulo e Barnabé e o bom testemunho de Paulo sobre ele o credenciaram como uma pessoa digna de confiança no seio da comunidade cristã.

A MENSAGEM DE LUCAS

Lucas escreveu para orientar um tal de Teófilo, que, sem dúvida, é uma pessoa. O “excelentíssimo”, forma de tratamento, significa, segundo alguns, que era um oficial do exército romano.  Mas é um emblema, também. Significa “amigo de Deus’. Os que querem ser amigos de Deus devem prestar atenção no que ele diz. Sua tese central está em 19.10: “O Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”. Jesus é o homem perfeito, o restaurador da humanidade, o primogênito da nova raça de Deus. Talvez Lucas,  companheiro de Paulo, tivesse em mente o texto de 2Coríntios 5.17: “Se  alguém está em Cristo, nova criação é”. Em Jesus Cristo, Deus cria um homem e um mundo novos. A influência de Paulo é muito grande em Lucas. Como vemos nos capítulos finais de Atos, em que o pronome usado na narrativa é “nós”, ele viveu algumas experiências com Paulo. Permaneceu com ele até o fim, como lemos em 2Timóteo 4.11. Paulo o amava em Cristo: “Saúda-vos Lucas, o médico amado, e Demas” (Cl 4.14). Era respeitado na Igreja, como irmão de Silas. É muito provável que “o irmão cujo louvor no evangelho está espalhado por todas as igrejas” (2Co 8.18) seja ele. Lucas dispunha de muita credibilidade na Igreja.

Mas Lucas não fica apenas na apresentação de Jesus como o homem perfeito. Ele, Jesus, é mostrado como sendo Deus, também. As palavras de Gabriel mostram isso: “Este será grande e será chamado filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai; e reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. Então Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, uma vez que não conheço varão? Respondeu-lhe o anjo: Virá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus”(1.32-35).

O evangelho de Lucas mostra a perfeita humanidade e a perfeita humanidade de Jesus. É dele o documento em que se vê mais de perto a face humana, pessoal, de Jesus. Ele não perde a vista sua divindade, mas retrata-o mais humanamente que os demais. É, também, o mais literário dos quatro evangelhos.

A MENSAGEM DE JOÃO

Este é o mais fascinante dos evangelistas. Seu evangelho difere dos demais porque ele construiu a vida de Jesus ao redor de discursos, e não de eventos. Sua tese é simples: “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”.  Jesus é o Messias das profecias do Antigo Testamento. O tempo do Antigo Testamento, de Moisés e do judaísmo passou. “A lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (1.17). Moisés foi um instrumento e Jesus é o ponto final.  O trecho de 6.31-35 é bem expressivo disto: “Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Do céu deu-lhes pão a comer. Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Não foi Moisés que vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Disseram-lhe, pois: Senhor, dá-nos sempre desse pão. Declarou-lhes Jesus. Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim, de modo algum terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede”.

João é um artista das palavras. Em toda a Bíblia, poucos souberam utilizá-las tão bem como ele. O retrato de Jesus por ele pintado tem prendido os corações e as mentes das pessoas através de séculos. Não é tão erudito como Lucas, mas é um poeta e construtor de imagens. O texto de João 3.16, por exemplo, é a passagem mais conhecida de todo o Novo Testamento. Seu relato final, mostrando Jesus e os discípulos na praia, é uma obra-prima da narrativa. A beleza e a pungência do escrito impressionam. Ali se vê como Jesus reconstrói sua comunidade, já dispersa, e recupera a autoconfiança de homens abalados pelo fracasso. É um evangelho de carinho, cheio da ternura do Salvador.

CONCLUSÃO

Mateus, Marcos, Lucas e João, os quatro evangelistas, legaram ao mundo a história mais fantástica que os ouvidos humanos já ouviram. Um dia, Deus veio a este mundo como homem. Aqui viveu, sofreu, ensinou, morreu e ressuscitou. E deixou uma comunidade, a Igreja, que deve dizer ao mundo o que ele ensinou. Estudar os evangelhos é beber na fonte mais cristalina. Por isto, aprofundemo-nos no estudo sobre a vida e os ensinos de Jesus de Nazaré, o Deus feito homem. Sem dúvida, seremos grandemente beneficiados.