Egüinha Pocotó, Sivuca e nossa vertiginosa descida

Egüinha Pocotó, Sivuca e nossa vertiginosa descida (Pr. Neemias Lima)

Pr. Neemias Lima*

Não sou crítico musical e muito pouco entendo do assunto. Apenas uma experiência muito me alegrou: fiquei em segundo lugar num festival de música. Para que você tenha todas as informações, registro: havia dois participantes, eu e outro. Minha reflexão é de observador e não de crítico especialista.

Presenciei uns poucos minutos da apresentação da Orquestra Sinfônica da Petrobrás e Sivuca na Praia do Forte. Compromissos outros me impediram de pegar a refeição completa. Embora poucos, os minutos foram suficientes para refletir sobre muita coisa. Uma delas: como alguém pode se interessar por uma egüinha quando se tem um inumerável rebanho numa estupenda fazenda para desfrutar. Foi a sensação que tive com as músicas finais que pude ouvir da orquestra.

Interessante é que, ao mesmo tempo em que refletia assim, um companheiro ao lado, que lamento ter esquecido o nome, virou-se para mim e sentenciou: "Como pode alguém se interessar por uma egüinha pocotó quando se tem essa beleza!?". Concordei ipsa verba. Não se passaram quinze minutos e, deixando o evento, encontro o reflexivo Fernando Rangel que, acompanhado de sua esposa, me saúda: "Que beleza, hein, pastor! Ficaríamos a semana toda ouvindo e não cansaríamos!". Ao que acrescentei: "E nem presenciaríamos uma briga".

Sinceramente, nenhuma intenção tenho de machucar quem aplaude e investe tempo ouvindo ou dançando com a motivação de uma egüinha pocotó. Para quem já presenciou "tigrão" (e pasmem, até em escolas de ensino fundamental!) e outras aberrações, uma egüinha é café pequeno. Minha preocupação é, e assim vale a pena refletir, que tipo de gente estamos produzindo para o futuro? Que tipo de reflexão da vida e dos fatos nossos filhos farão daqui a dez, quinze, vinte anos? Por curiosidade, procurei a letra da referida música. Chamar isso de letra, é brincadeira! Faz remexer na sepultura autores da lavra de Drummond e tantos outros.

Precisamos, no entanto, fazer a mea culpa. Isso reflete nossa descida vertiginosa. A sociedade é cada vez mais podre e pobre por nossa própria lama. Aplaudimos os programas cuja tônica é falar mal dos outros, damos audiência a outros que revelam intimidades antes só experimentadas no recôndito do lar, incentivamos nossas crianças com atitudes que são reprovadas pelos mínimos conceitos de ética cristã. Que esperar, então? Nada. É uma egüinha pra lá, uma egüinha pra cá, um pouco de barulho produzido por arranjos eletrônicos e bota o peão ou peona pra pular e segura o resto. Quanta hipocrisia! E depois queremos uma sociedade reflexiva, cidadã e que seja capaz de lutar por dias melhores.

Devo confessar uma falha: acabei falando do que não presta e me esqueci do que é verdadeiramente relevante. Desculpe-me, Sivuca e disciplinados músicos da Orquestra Sinfônica da Petrobrás! Pelo menos um consolo: vocês ficaram um pouco livres da parceria com uma egüinha, embora ela tenha sido também ofendida.

De quem aprecia cavalos, mas detesta egüinha pocotó.

Em tempo: As pregações do Pr. Neemias Lima acontecem sempre às quintas-feiras, 20h, e domingos, 9h 30 min e 20h, na Rua Omar Fontoura, 117, Braga, Cabo Frio, RJ.

*Pastor da Igreja Batista do Braga, Presidente da Associação Batista Litorânea e 1º Secretário da OPBB-RJ.