A DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

INTRODUÇÃO

O ponto de partida é Romanos 8.29-30. “Pois aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou”. Eis a ordem no argumento paulino: o pré-conhecimento divino, a predestinação, a chamada, a justificação e a glorificação. Todos estes elementos são mostrados como atos de Deus. E a santificação? É também um ato de Deus, mas depende de nós, também. Na raiz de tudo: o querer de Deus. Ele é o justificador.

  1. UMA DEFINIÇÃO SEMÂNTICA

“Justificar” tem sua raiz no hebraico tsadaq, que significa “tornar reto”. No grego o termo é dikaioô, que tem o sentido mais jurídico de “absolver”, “declarar inocente”, o oposto exato de condenar. A doutrina da justificação trata desta questão: como um pecador culpado diante de Deus e condenado por seus pecados pode ser declarado inocente? Esta doutrina é o coração do protestantismo. Vale a pena ponderá-la.

  1. QUE É JUSTIFICAÇÃO?

Uma definição teológica: É o ato de Deus que redime os pecados de homens culpados e que os reputa retos, gratuitamente, por Sua graça, mediante a fé em Cristo, à base, não de suas próprias obras, mas do representante obediente à  lei, que derramou seu sangue a favor dos mesmos, o Senhor Jesus.

Para subsidiar as partes desta definição, vejamos Romanos 3.23-26, 4.5-8 e 5.18.

Justificação é o termo que mais caracteriza a pregação de Paulo. Pode ser resumida a uma frase: Deus perdoa os pecados de quem crê em Jesus Cristo. A idéia é de um pecador condenado diante de um tribunal, e é realmente pecador, mas é declarado inocente. Principalmente em Romanos 4.5-8 vemos que “justificar” significa perdoar, cobrir os pecados e não imputar os pecados. Como pode ser isto? É o que buscaremos ver neste estudo.

  1. UM JUIZ, UM TRIBUNAL E UM RÉU

A linguagem é mesmo de tribunal.

(1)   Há um juiz: Gênesis 18.25, Salmo 7.11. Ele julga mesmo; Isaías 5.16 e 10.22. A vinda de Cristo, expressão máxima de sua graça, não significa que ele deixou de julgar. Pelo contrário, Cristo é o padrão pelo qual Deus julgará o mundo: Atos 17.31.

(2)   Há um tribunal diante do qual todos compareceremos: Romanos 14.10-12, 2Coríntios 5.10, Hebreus 10.30-31 e 12.22-23.

(3)   Há um réu: nós, como pecadores que somos. Vejamos 1Reis 8.46, Romanos 3.23 e 6.23.

Este é o quadro: somos pecadores, estamos condenados por um justo Juiz e um dia prestaremos contas a ele. Precisamos ser absolvidos. Como?

  1. A RESPOSTA: O CORAÇÃO DA BÍBLIA

A resposta a esta pergunta é o coração da Bíblia. Sua síntese se encontra em Romanos 1.16-17. Foi a grandes descoberta de Lutero e descobri-la levou-o a uma mudança de vida que modificou o cristianismo para sempre. É a bela doutrina da justificação pela fé, que sustem toda a mensagem do evangelho. A expressão chave é o justo viverá da fé.

A partir daqui transcrevo um trecho de uma palestra que apresentei nas conferências teológicas ao campus do Seminário do Sul, em Cabo Frio, sobre Habacuque:

Justiça e justificação caminham juntas nas páginas das Escrituras. O Deus justo justifica o pecador. E, quando há juízo, sempre há oferecimento de salvação. É assim com nosso profeta. Haverá juízo sobre Judá. Haverá juízo sobre os caldeus. Mas há salvação. É a Habacuque que devemos o profundo versículo “o justo viverá da fé”. Este foi o lema da Reforma e deve ser uma lembrança viva em nossa mente: o homem é salvo pela fé. Foi o brado de Lutero: Sola fidei. E, constantemente, nos meus estudos dou graças a Deus por Lutero e seu entendimento.

“Eis o soberbo! A sua alma não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá”. Esta expressão final se encontra também em Romanos 1.17, Gálatas 3.11 e Hebreus 10.38. O “soberbo”, em Habacuque, é o caldeu. Ele não tem a sua alma reta. O termo hebraico dá a idéia de “inchado”. Parece que traduzir “alma”, o hebraico nephesh, por “garganta”, tem sentido: seu pescoço está inchado. Ele está inchado de sua arrogância. E é um tipo do pecador impenitente que confia em sua capacidade, e está inchado de orgulho por causa disso. “Justo”, em Habacuque, é Judá. Não tem a força militar dos caldeus, mas viverá pela fé em Iahweh.  São dois tipos bem retratados: o inchado, que confia em si, e o justo, que confia em Deus. Este vive pela fé. Não deposita sua confiança em nada que não seja o seu Deus.

Paulo tomou o texto de Habacuque na versão grega da LXX, como era seu costume. O termo grego é dikáios, que tem sido definido como “o estado aceitável a Deus que o pecador adquire mediante a fé pela qual abraça a graça de Deus, que lhe é outorgada na morte expiatória de Jesus Cristo” [1]. Parece haver uma grande mudança, porque Habacuque não fala de Jesus. Mas foi o termos que os tradutores da Septuaginta usaram. Foi aqui que Paulo compreendeu o que Habacuque queria dizer e transportou o conceito para dentro de sua teologia: “justo” é o que crê na obra de Cristo, confia nela, e não em seus méritos. É esta atitude que evita o juízo.

“Fé”, em Habacuque, é o hebraico emunah, que significa “firmeza”. Vem de aman¸ que significa “firme até o fim”. Como bem lembra Sayão, “o termo hebraico emunah tem a idéia de se estar vivendo de modo fiel, firmado na rocha, YHWH. O termo tem a ver com a ordem justa no mundo que depende de Deus para manter-se em equilíbrio…” [2]. Aplica-se, portanto, ao inteiramente dependente de Deus. O justo, aquele que é salvo, é quem crê, firmemente, sem se abalar crê até o fim. Isso nos ajuda a entender porque tantos aparentemente “salvos pela fé”  se desviam e acabam se perdendo, enquanto nós, batistas, apregoamos com tanta ênfase a doutrina da justificação pela fé e para sempre. A verdadeira fé é a que permanece. Por isso lemos em 1João 2.19: “Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos”. O justificado é justificado para sempre, porque firme até o fim.

  1. OS EFEITOS DA JUSTIFICAÇÃO

Quais são os efeitos da justificação?

(1)   O primeiro de todos é livrar-nos da condenação. Ela responde à questão: como me salvar? Vejamos o texto de Romanos 8.31-39. Somos justificados, perdoados, pela fé em Cristo. Israel tentou a justificação pela lei e não conseguiu: Romanos 9.31-33. Nós, gentios, recebemos a justificação porque não dependemos da lei: Romanos 9.30. Cristo justifica o pecador: Romanos 10.4. É fácil ser justificado: Romanos 10.8-11.

(2)   O segundo é dar-nos paz: Romanos 5.1. Saber-se perdoado por Deus traz paz infinita. Deus nos perdoou os pecados!  Quando cremos em Cristo Deus nos trata como se nunca tivéssemos pecado. Esta paz é mais que tranqüilidade emocional. É certeza de uma vida nova, de ser tratado de maneira diferente por Deus: Romanos 5.1-11.

(3)   O terceiro é produzir em nós o desejo de santificação, de abandonar o pecado. Alguém poderia perguntar: Então, se fui perdoado, se Deus usa de graça para comigo, posso pecar à vontade? A resposta é NÃO. A justificação faz de nós novas pessoas: Romanos 5.1-7. Aquela pessoa que amava o pecado foi crucificada na cruz de Cristo. Na realidade, Deus não perdoa nossos pecados. Deus os faz cair sobre Cristo. Isaías 53.4-11 mostra isso. Um justificado sabe quanto o pecado custa. Para ele, nada. Mas para Deus, muito. Custou a vida de seu único Filho, Jesus: João 3.16.

Cabem aqui as palavras que empreguei na apostila de Teologia Sistemática II, sobre “Justificação”, citando O Novo Dicionário da Bíblia:

O indivíduo justificado, por conseguinte, pode ficar certo que nada será capaz de separá-lo do amor de seu Deus (Rm 8.33-39, cf. 5.9). Sua glorificação é certa (Rm 8.30). A inquisição futura, perante o tribunal de Cristo (Rm 14.10 e segs.; 2Co 5.10) poderá privá-lo de certos galardões específicos (1Co 3.15), mas jamais de sua posição de justificado [3].

  1. A QUESTÃO DA DIFERENÇA

O surgimento da Reforma Protestante, sob liderança de Lutero, se alicerçou na questão da doutrina da justificação. Para a Igreja Católica, a justificação vem pelas obras ministradas e administradas pela Igreja. Para Lutero, vem pela fé, somente. A Igreja se opôs a Lutero porque tal postura esvaziaria seu poder, desprovendo-a de uma poderosa arma, a capacidade de perdoar pecados. Lutero centrou-se em Romanos 1.17.

Volto à apostila citada, comentando um aspecto da pendência entre Lutero e a Igreja Católica:

Embora pareça fugir um pouco ao nosso propósito, mas já que mencionamos a diferença entre o catolicismo e a Reforma sobre a doutrina da justificação, vale a pena transcrever a seguinte nota divulgada pela Agência Estado:

“Terminando com uma disputa que durou mais de quatro séculos, oficiais católicos romanos e luteranos anunciaram hoje um acordo sobre o significado da salvação. Através do acordo, os dois lados concordaram com “as verdades básicas” do que os teólogos chamam de “justificação”, que é o modo através do qual os humanos alcançam a salvação. Para os luteranos, ela depende da graça de Deus, enquanto os católicos defendem que as boas ações também estão envolvidas. Com a declaração, católicos e luteranos concordaram que o perdão divino e a salvação vêm “exclusivamente da graça de Deus” e  que as boas ações fluem disso”. [4]

Tendo feito esta citação, comentei da seguinte maneira, na mesma apostila:

A nota é profundamente significativa. Resta saber se realmente a Igreja Católica abandonará todo o seu “arsenal” de bugigangas espirituais e religiosas que ela ajuntou, durante séculos de heresias, antes desta declaração, ao seu conceito de salvação. Se este procedimento for adotado, então se poderá pensar que mudanças acontecerão dentro do catolicismo.

  1. A DECLARAÇÃO DOUTRINÁRIA DA CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA

Na Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, documento tido por cerca de 7.000 igrejas batistas brasileiras como indicador de sua fé, o tópico “Justificação” surge dentro do capítulo sobre “Salvação”, do qual ela realmente faz parte. Diz assim:

A justificação, que ocorre simultaneamente com a regeneração, é o ato pelo qual Deus, considerando os méritos do sacrifício de Cristo, absolve, no perdão, o homem de seus pecados, e o declara justo, capacitando-o para uma vida de retidão diante de Deus e de correção diante dos homens (1).  Essa graça é concedida não por quaisquer obras meritórias praticadas pelo homem, mas por meio de sua fé em Cristo (2).

(1)   Is 53.11, Rm 8.33 e 3.24

(2) Rm 5.1, At 13.39, Mt 9.6, 2Co 5.31 e 1Co 1.30

CONCLUSÃO

Para concluir, retorno à apostila de Teologia Sistemática já mencionada:

Em excelente obra sobre a justificação pela fé, o teólogo alemão Hans Iwand [5] nos alerta que o que mais impressionou Lutero na sua leitura de Romanos 1.17 (“Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé”) foi a palavra “justiça”.  Paulo não diz que o evangelho revela a misericórdia ou graça de Deus, mas a sua justiça. A doutrina da salvação pela fé é um ato de justiça de Deus, porque ninguém poderia ser salvo de outra maneira. Ao nos oferecer a justificação pela fé em Cristo, Deus não está exibindo sua misericórdia, embora o oferecimento seja um ato de misericórdia, mas está exibindo sua justiça. Lembremos de Isaías 64.6 que diz que “todas as nossas justiças são como trapos de imundícia”. A expressão  “trapos de imundícia” significa  os panos usadas pelas senhoras da época como absorventes íntimos [6].  Nada nosso poderia agradá-lo. Nossas virtudes seriam panos sujos para jogar fora.  O mais fantástico nesta observação de Lutero é que esta descoberta só pode ser feita individualmente, pessoa por pessoa. E quando alguém descobre isto, que foi justificado porque creu, um mundo novo se abre diante de si.

Ser justificado é uma bênção inaudita, mas ninguém pode ser justificado por ninguém bem como ninguém pode dar justificação a outra pessoa. É uma experiência pessoal, que cada um deve fazer diante de Deus, com contrição, consciente do valor da obra salvífica de Jesus Cristo. Ele morreu pelos nossos pecados e por sua morte temos salvação. Em Cristo somos perdoados. Em Cristo Deus nos declara limpos. O texto de Romanos 8.1 deveria estar sempre presente em nossa mente, não como um mantra, mas como recordação da graça de Deus em Cristo: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. Lembrando disto, nossa palavra deve ser a de Romanos 7.25a: “Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor!”.


[1] Assim o define Thayer, um dos maiores gramáticos do Grego do Novo Testamento.

[2] Ver, sobre isso,  o artigo “Habacuque e o Problema do Mal”, de  Luiz Alberto Teixeira Sayão, in “Vox Scripturae, vol. III, no.  1, março de 1993.

[3] DOUGLAS, J. D. (org.). O Novo Dicionário da Bíblia. S. Paulo: Edições Vida Nova, s/d., 3º volume, p.  897.

[4] Extraído da Agência Estado, pela Internet, do jornal “O Estado de S. Paulo”,  em 11 de junho de 1999, às 9h12min, sob o título “Vaticano e luteranos encerram disputa”

[5] IWAN, Hans Joachim. A Justiça da Fé. S. Leopoldo: Editora Sinodal,  1977. Verificar, principalmente, a discussão a partir da página 61, onde ele aborda o tema da essência da justificação pela fé, doutrina básica da Reforma.

[6] Veja, principalmente, MOTYER, Alec J. The Prophecy of Isaiah. Downers Grove: InterVarsity Press, 1993, p.  520