A DOUTRINA DA PROPICIAÇÃO

INTRODUÇÃO

“Propiciação”. O que é isto, exatamente? O termo é enigmático, e muitos nunca ouviram falar dele, a não ser em algum versículo bíblico em que a palavra aparece. E talvez não tenham se apercebido dele. A melhor explicação para o termo é que nos diz que “propiciação significa a remoção da ira mediante a oferta de algum presente”. Era um ato presente na política internacional no Oriente antigo, quando um rei de alguma nação, para se manter seguro, enviava presente a outro rei, de uma nação mais forte. Era um gesto destinado a cultivar boas relações.

O verbo hebraico que traz a idéia de propiciação é kipper, com a idéia de fazer amizade, de juntar partes opostas e até mesmo em conflito. No Novo Testamento, a idéia mais próxima é “reconciliação”. A idéia do Novo Testamento se entende bem em 2Coríntios 5.21. O sentido do texto é que Deus ofereceu Cristo como presente ao mundo para fazer as pazes com o mundo. É um conceito que nos parece estranho, mas mostra que, no Novo Testamento, Deus toma a iniciativa, em Jesus, de propor as pazes ao homem.

ALGUMAS OBJEÇÕES

Como “propiciar” tem a idéia de fazer as pazes, de aceitar um presente para fazer amizade, muita gente se escandaliza. Parece que está se subornando Deus. Mas, como veremos, é ele quem a oferece e não quem a recebe. Outros alegam que a ira de Deus é superdimensionada neste aspecto. Mas a Bíblia fala de um Deus que se ira e que sente indignação: Salmo 7.11-12. É verdade que Deus é tardio em irar-se (Ne 9.17), mas é certo que se ira. A Bíblia mostra que nele misericórdia e ira se completam: Números 14.18.

A propiciação surge exatamente aqui: como temperar ira e misericórdia? Em vez de objeção, a ira de Deus torna necessária a propiciação. Esta ira divina não é um descontrole emocional, mas é parte integrante da moralidade de Deus. Se ele não se indignasse contra o erro e contra o pecado, não seria Absolutamente Santo. Exatamente por ser santo Deus sente ira contra o pecado. Exatamente por ser santo é que tem misericórdia. Aqui surge a propiciação.

O PONTO CENTRAL DA PROPICIAÇÃO

O ponto central da propiciação é este: como remover a ira de Deus? No Antigo Testamento a resposta é clara: a ira não se remove. Ela se desvia. Veja-se o Salmo 78.38. O pecado tem um preço (Ez 18.20 e  Rm 6.23). O pecado é tão sério aos olhos de Deus que exige a morte do pecador.  A única maneira de se aniquilar o peso do pecado é com a morte. Deus instituiu o sacrifício no culto do Antigo Testamento para ensinar este aspecto. É a morte, através do derramamento do sangue, que faz a propiciação ou expiação dos nossos pecados. A resposta ao ponto central é esta: o sangue faz a expiação (que significa de dois fazer um ou reaproximar dois que estão distantes e em inimizade), idéia parecida com a propiciação. Esta última avança por incluir a idéia de um presente para de dois fazer um.

A IDÉIA NO TABERNÁCULO

O tabernáculo foi o templo móvel de Israel, construído durante a peregrinação pelo deserto. Era um lugar provisório, a morada de Deus, lugar de encontro pessoal com Deus (Êx 33.7-11). O tabernáculo tinha o lugar santo, onde ficava o povo, e o santíssimo ou santo dos santos, onde o sumo sacerdote entrava uma vez por ano, para fazer a expiação do pecado do povo. No santíssimo ficava a arca da aliança. O nome da tampa da arca era kaporeth, que vem de um verbo da família kpr, que significa “propiciar”. Veja-se Êxodo 25.17-22.  Como disse Hoof: “aí o mais perfeito ato de expiação era realizado uma vez por ano pelo sumo sacerdote” (O Pentateuco, p. 145).  Devemos ter isto em mente: o lugar mais importante e solene do tabernáculo era onde acontecia a propiciação. Sangue se oferecia a Deus para sua ira se afastar do povo. O sangue era derramado exatamente sobre a tampa da arca, chamada “propiciatório”. “Propiciação”  e libertação do poder do pecado se juntam desde cedo, na revelação bíblica. Se a Bíblia não se detém em explicitar a doutrina, a figura está bem presente em suas páginas.

Neste sentido, o propiciatório simbolizava a cruz de Cristo, onde se efetuou o perdão dos pecados, mas com uma diferença: a obra de Cristo não tem prazo de validade. O perdão alcançado no tabernáculo e mais tarde no templo tinha um ano de duração.  A cruz é o propiciatório do Novo Testamento, mas com um perdão eterno, sem necessidade de repetição (Hb 9.11-14). A cruz resolveu o problema do pecado para sempre. Cristo é o Cordeiro que remove o pecado do mundo (Jo 1.36). A propiciação, no Antigo Testamento, era um símbolo da obra perfeita de Cristo, em remover nossos pecados e nos reconciliar com Deus (2Co 5.18-19).

Mais uma questão, que não é curiosidade. O dia em que o sumo sacerdote entrava no santíssimo (yom kippur, o dia do perdão), “em tempos posteriores era essa também a única ocasião em que o nome de Deus, portador de sua promessa de ajuda e aliança, era perceptivelmente proferido” (Sacrifício e Culto no Israel do Antigo Testamento, p. 102). O nome sagrado de Deus, que não se pronunciava mais nos tempos de Jesus, era a mais exata expressão do caráter do Pai. Pois bem, o caráter do Pai está ligado à propiciação. É seu caráter que nos garante o perdão dos pecados. Não é o nosso caráter, mas o dele.

A OBRA DE CRISTO

A propiciação é um ato de misericórdia de Deus, quando esta triunfa sobre sua ira. A oração do publicano, na parábola contada por Jesus ilustra isto. Em Lucas 18.13, o que o publicano pede, nas palavras de Jesus, é que Deus seja “propício” a ele, que Deus seja ou faça sua propiciação. Ele precisava de perdão. O fariseu achava que tinha aceitação divina porque era bom. Deus lhe devia isto. O publicano sabia que não era bom, nada tinha de bom, e que só podia alcançar o favor de Deus como um presente divino. Ele devia a Deus.  Jesus sintetiza bem sua missão, nesta parábola.  Ele, Jesus, é o presente divino para reaproximar as duas partes distanciadas, a divina e a humana. Ao mesmo tempo mostra dois tipos de pessoas. Uma que julga que não precisa de perdão, que Deus deve estar muito contente com ela. Outra que reconhece a necessidade de perdão e sabe que não merece e pede um favor a Deus.

Segundo Hebreus 2.17, Jesus fez a propiciação pelos nossos pecados. Ele mesmo presenteou Deus Pai com sua vida para nos conseguir o perdão. Nesta declaração, a oferta é do Filho. Não há choque com outros textos que dizem que o Pai ofereceu o Filho. É que a epístola aos Hebreus põe o Filho como agente no processo da salvação, em sua linha de argumentação. E lembremos que a Trindade não entra em conflito, mas age sempre em sintonia.

Em 1João 2.2, Jesus é a propiciação pelos nossos pecados. É por isto que ele nos defende, como Advogado, junto ao Pai (1Jo 2.1) Tínhamos, como o publicano da parábola, um débito que não podíamos pagar. Jesus o pagou e por isto pode nos defender. Não devemos mais nada a Deus porque Jesus pagou o preço dos nossos pecados com a sua própria vida. Não se paga um débito duas vezes. Vale a pena a citação do Novo Dicionário da Bíblia neste texto: “Tudo isso nos ajuda a  perceber que, aqui, a  ‘propiciação’ deve ser tomada em seu sentido usual nas Escrituras. O escritor sagrado estava descrevendo a atividade de Jesus em prol dos homens, como a única coisa que pode fazer desviar a ira divina” (p. 1331).

O texto de 1João 4.10 avança significativamente nesta idéia. O Filho, Jesus, é o presente dado pelo próprio Pai. Difere do pensamento do autor de Hebreus. Mas o que realmente interessa é que não é um presente nosso. Não havia nada que pudéssemos oferecer. Então, o Pai ofereceu o Filho. Aqui, não é o Filho que se autodoa ou autopresenteia ao Pai, mas é o Pai quem oferece o Filho ao mundo. A morte de Cristo é um gesto de amor do Pai para conosco. Esta idéia é confirmada por Romanos 3.25-26, onde se vê que é Deus Pai quem oferece o Filho como propiciação. Quem crê na eficácia do sangue de Cristo (não de animais, mas do sangue de Cristo) é justificado. Conforme o versículo 25, Deus deixa de lado os delitos que o pecador outrora cometeu. Um rei guerreava contra outro por ambição ou porque se sentira ofendido. O pecado ofende a Deus e o levaria a nos guerrear, mas em Cristo ele oferece à humanidade a mão estendida para fazer as pazes. O Novo Testamento vê a propiciação como ato de Deus, seja pelo oferecimento do Pai seja pelo oferecimento do Filho.

CONCLUSÃO

O mais fácil ficou para o fim. “Propiciação” vem de “propiciar”, que significa tornar favorável. Esta doutrina mostra como é que Deus se torna favorável a nós. Como, de inimigos que somos, ele nos transforma em amigos. Não é por mérito algum que venhamos a apresentar. Na realidade,  nem mesmo tomamos a iniciativa. Deus nos oferece a reconciliação e amizade por um gesto seu. É ele quem toma a iniciativa. Cabem aqui as palavras do Batista: “O homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu” (Jo 3.27). Propiciação é um gesto de Deus em nos reconciliar com ele. Ele nos dá. Nós aceitamos.