A Teologia e a Ética de Enílton

A Teologia e a Ética de Enílton

            Enílton, jogador do Palmeiras, fez dois gols na vitória sobre o Botafogo. Numa foto do “Estadão”, ele aparece num lance com um botafoguense. Bem nítida no seu antebraço está a inscrição “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”. Ele é dos Atletas de Cristo. Acho tatuagem um pouco esquisito, mas o braço é dele. Espero que ele não caia da fé para não ser como quem tatua o nome da namorada e depois o romance acaba. O sujeito tatua o nome da Marinete, namora a Ipanema e casa com a Solineuza (já vi “A diarista”). Fique firme na fé, Enílton. Isso é bonito.

            Não assisti ao jogo, pois não agüento ouvir locutor esportivo. E ainda ouviria os solavancos do Casagrande. Mas vi os gols, depois. Num deles, Enílton pôs as duas mãos nas costas do zagueiro do Botafogo, empurrou-o contra o goleiro, os dois se chocaram, e a bola sobrou para ele, que fez o gol. E ainda vaiaram o coitado do goleiro. Gostei da vitória do Palmeiras. Sempre torço pelos times paulistas. Mas o gol foi irregular.

            “Isso é uma pastoral ou coluna futebolística?”, perguntará alguém. Calma, já chego lá. O atleta de Cristo Enílton, com o Salmo 23.1 tatuado no antebraço, foi entrevistado sobre o lance. Negou firmemente ter feito falta, apesar da exaustiva repetição do lance. Todos viram, mas ele disse que não fez. Sua teologia é correta, mas a ética não. A inscrição do antebraço e a declaração de que não fez falta não coincidem.

            Não podemos desdizer nossa declaração de fé com atitudes contrárias. Além do mau testemunho para o mundo (os comentaristas ironizaram o palmeirense) é um depoimento contra nós mesmos. O que dizer de quem canta “Tudo, ó Cristo, a ti entrego”, mas não é dizimista? O que dizer de quem faz uma profissão de fé pomposa e não se integra na igreja nem leva a sério seus compromissos com Cristo e sua igreja? E de quem fala de amor, mas é fofoqueiro? E do líder que reclama porque não se integram no trabalho que ele dirige, cobra integração, mas não se integra aos outros?

            A teologia é o que cremos. É a explicação da fé. A ética é a prática da fé. É como a aplicamos no dia a dia. Não deve haver divórcio entre credo e conduta. Não precisamos tatuar a Bíblia no corpo, mas ela deve ser visível na nossa vida. O mundo nem sempre vê quando pregamos o evangelho, mas vê se o “despregamos”. Eis o comentário de Sebastião Nery, na “Tribuna da Imprensa”, do Rio, em 15.8.6: “’Xô, Satanás’! A lista dos 72 parlamentares sanguessugas é um exorcismo, um ‘Xô Satanás’! O Congresso tem 62 parlamentares ‘evangélicos’. Desses, 30 estão na lista dos ‘sanguessugas’ denunciados pela CPI. E, dos 30, 17 são da Igreja Universal, que devia chamar-se ‘Igreja Universal do Reino de Satanás’, pois tem uma bancada de 18 e só um ficou fora do templo sanguessuga. Não se trata de um ou outro, de ‘ovelha tresmalhada’, de que fala a Bíblia, e que, às vezes, ‘põe o rebanho a perder’. São quase todos. É o ‘rebanho perdido’…”. E ele conclui seu artigo: “Todos se elegeram falando em Jesus, ética, moralidade”. Em outra coluna política se lê: “O País já desconfiava, mas não tinha as provas na mão. Agora, escancarou. Coitados de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. A pior bancada desse Congresso, unanimemente, é a bancada evangélica”. Não endosso a palavra sobre a Universal. É grosseira e generalizadora. Discordo de suas práticas, mas ela não é de Satanás. Mas dá para ver o que mundo pensa de nós. Consideremos isto seriamente: nossa imagem é ruim! Não tapemos o sol com peneira. Não defendamos o indefensável.

            Precisamos viver à altura de nossa fé, harmonizando credo e conduta. Não sejamos como o Enílton. Nem como os sanguessugas. Honremos o nome de Jesus. Com o caráter, mais que com palavras.

            Isaltino Gomes Coelho Filho