Não É Preciso Morrer Antes Da Hora…

Não É Preciso Morrer Antes Da Hora…

    Explico o título antes que alguém se escandalize com ele.  Meus leitores (presumo que os tenho) geralmente são de igreja. Como a pastoral roda pela Internet e às vezes é publicada em boletins de outras igrejas, em jornais e revistas evangélicos, acaba lida por pastores. Como membro de igreja e como pastor sei que este é um público que gosta muito de procurar chifre em cabeça de cavalo e pêlo em ovo. Ou seja, descobrir onde discutir. Mesmo torcendo o que foi dito.

    Antes de ser chamado de herege ou de descrer da ordenação dos fatos por Deus ou coisa que o valha, digo que a frase-título é retórica. Não estou interessado em discutir teologia. É que li uma observação interessante no livro Os homens são ostras… as mulheres, pés-de-cabra, de David Clarke, Ph. D. e psicólogo cristão. O livro aborda as diferenças de constituição psicológica entre homem e mulher de forma humorada. A observação é esta: “Vocês sabem por que os homens morrem, em média, oito anos antes das esposas? (…) Os homens morrem mais cedo e uma das causas principais é o fato de guardarem as coisas lá dentro de si mesmos. Eles guardam as emoções e a tensão, e acabam morrendo dos estragos internos que essa falta de expressão causa” (p. 52).

    Muitos de nós, mesmo as mulheres, guardamos muita tensão, muita raiva e frustração dentro de nós. Há situações que nos aborrecem muito. Há pessoas que falham conosco e nos decepcionam mais ainda. Quanto mais perto a pessoa, quanto mais a valorizamos, mais dura é a decepção que ela nos causa. Ruminar a mágoa piora a situação.

    Aqui entra o poder do evangelho. Ele é fascinante. Não ensina uma meditação que a nada leva, nem a uma alienação de não sentir, não desejar, a nada aspirar. Nem mesmo ao “en sha allah” (de onde vem “oxalá”), que significa “Assim Alá queira”. Não é alienação nem suicídio intelectual, nada pensando, nada querendo, a tudo se conformando. O evangelho de Jesus nos ensina que há um Deus em quem podemos confiar, com quem podemos nos abrir, a quem podemos externar nossas queixas e expressar raiva, medo, insegurança e frustração. Os salmos estão repletos de orações assim. Orar não é repetir palavras. É abrir o coração com Deus.

    O Deus que se encarnou na pessoa histórica de Jesus é o Deus que ouve, conhece, entende e aceita. Nem sempre podemos abrir o coração com alguém. Tal pessoa poderá usar nossa confidência contra nós, apunhalando-nos. Mas podemos abrir o coração com Deus. Não é preciso morrer mais cedo, recalcando emoções, reprimindo dores e ocultando tudo de todos. Há um Deus que conhece e que nos aceita, não concordando com tudo que fazemos, mas perdoando-nos e restaurando-nos. “Se confessarmos os nossos pecados a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é correto: ele perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda maldade” (1Jo 1.9).

    Podemos temer as pessoas (e algumas devemos temer mesmo – são terríveis!). Podemos sentir-nos inseguros quanto à receptividade às nossas palavras e se seremos aceitos. As pessoas podem agir assim e fazerem-nos guardar muitas coisas dentro de nós. Mas com Deus podemos abrir o coração, mostrar-nos como somos, e sermos aceitos.

    É isto o que quero dizer com “Não é preciso morrer antes da hora”. Se guardar sentimentos negativos, ressentimentos, raivas e medos dentro de nós podem encurtar nossa vida, a confiança em Deus nos ajuda. Graças a Jesus Cristo, que em sua morte nos reconciliou com Deus, temos um Pai celestial. Podemos orar confiantemente, e abrir o coração, sem receio, diante dele. Deus sabe o que é ser homem. Ele já foi um, um dia. Ele esteve aqui como um homem, Jesus de Nazaré. Deus nos compreende.

    Isaltino Gomes Coelho Filho