É Questão De Caráter

É Questão De Caráter
 
    Recebi mais uma carta anônima, nesta semana. Elas são cíclicas. Vêm, geralmente, de homossexuais e pentecostais. Uma veio de uma petista zangada porque quando Mário Covas morreu eu disse que ele fora um homem íntegro. E era. Não carregava dólares em roupas de baixo nem pagava ou recebia mensalão. Mas deixa pra lá. Ignoro o motivo pelo qual optam pelo anonimato. Será humildade? Esta veio com um recorte de um jornal da cidade onde um colunista fala dos políticos evangélicos corruptos. Até aí nada demais. Fiz duas pastorais sobre eles.

    A pessoa sublinhou um trecho em que o articulista menciona um deputado batista e, com letra bem feita, mostrando ser uma pessoa letrada, pergunta-me: “O pastor pensou que apenas da I. U. eram corruptos?”. Na menção ao deputado batista, o missivista anônimo, com sua letrinha caprichada, coloca um nome, com um ponto de interrogação.

    A carta não me afeta, mas me enseja considerações sobre o tema. Por isso que, sem ressentimento e sem dar bordoada em seu autor, faço duas observações.

    A primeira é que nunca pensei que só a Universal tivesse corruptos. Alguns corruptos são católicos, outros são espíritas, outros são batistas e outros são ateus. Há corruptos agnósticos e livres pensadores.  A corrupção é marca do caráter de um homem decaído. Numa das pastorais sobre a corrupção endêmica e que tem sido adubada no Brasil, discordei da crítica de Sebastião Nery contra a Universal. Não concordo com seus ensinos, bem distantes do Novo Testamento, mas rejeito a pecha que Nery lhe deu de “Igreja de Satanás”. A segunda é que me espanto de crentes enviarem cartas anônimas. Como brinca minha esposa, eu ladro, mas não mordo. Por que a pessoa não conversa pessoalmente e expõe seu ponto de vista?

   Há corruptos em todos os níveis. Em vários artigos e pastorais combati o sociologismo  de que o mal é por causa de pobreza. Honestidade e desonestidade há entre ricos e pobres. O caráter de uma pessoa não depende de situação social. E gente honesta e desonesta há em todas as religiões, porque vivemos um tempo de rótulos religiosos. As pessoas os têm, mas isto não significa que têm caráter ou assimilaram os valores da sua fé. Caráter é algo que uma pessoa decide ter. É opção de vida. Neemias declarou que decidiu não ser corrupto nem explorador por temer a Deus (Ne 6.15). Quis ser decente.

   Sobra religião e falta temor de Deus. Sobram denominações, impérios religiosos, abundam os cultos, vazam pelo ladrão os congressos religiosos, mas a vida das pessoas nem sempre é um ato de culto a Deus nem mostra caráter cristão. Há muita externalidade. Muita fachada. Mateus 23 é muito atual e serve para o cristianismo nominal contemporâneo.

   Pecado há em todos os níveis. Só os ingênuos apregoam a bondade inata do homem. E só os ultra-ingênuos pensam que sua seita ou seu grupo se compõe das melhores pessoas do mundo. Participei de uma sociedade que dizia escolher os homens bons e torná-los melhores. Mas minha teologia sempre me ensinou que não há homens bons. Há homens maus tocados pela graça de Deus. Porque a graça regenera as pessoas. Corruptos e pecadores há em todas as denominações e em todas as igrejas. Até entre os batistas, meu povo, que muito amo. É a força do pecado. A alternativa é a graça regeneradora de Deus. Ela muda os corruptos. Ela transforma o pior pecador. Pecadores precisam de arrependimento e apropriar-se da graça. Inclusive políticos desonestos, de qualquer igreja, bem como escritores anônimos.

   E ao escriba anônimo: apareça para um papo e lhe pago um café. Você tomará uma infusão da rubiácea, economizará selo e receberá um amplexo. E mostrará caráter.

    Isaltino Gomes Coelho Filho