A Verdadeira Fé

A Verdadeira Fé

            No livro Super-heróis e a filosofia – verdade, justiça e o caminho socrático, há um capítulo de Tom Morris intitulado “Deus, o Diabo e Matt Murdock”. Ele aborda a questão da espiritualidade nas histórias em quadrinho. Aprendi muito. Quando fiz uma pós-graduação em Educação, preparei um trabalho intitulado “A ideologia das histórias em quadrinhos”. Mas o livro foi muito mais fundo.

            Ele faz uma observação pertinente: “Religiosidade não é o mesmo que fé. Mas às vezes não é fácil distinguir uma da outra. A religiosidade é superficial, a fé real é mais profunda. De um modo geral, a religiosidade é só uma questão de hábito. A fé é algo muito mais envolvente”. Ele critica a idéia segundo a qual os homens criaram a fé religiosa por causa de seus temores. Diz que a religiosidade pode ser um escapismo, muleta contra o mundo assustador. A superstição e a religiosidade superficial são apenas reação de pessoas temerosas, mas a verdadeira fé é mais que isto. Identificando a superstição com religiosidade superficial, ele diz: “A superstição é um esforço temeroso e desesperado de manipular a realidade para que se adapte às nossas necessidades”. A pessoa tenta manipular forças espirituais em seu benefício. Ela quer seu mundinho em paz e que tudo a ajude. Assim as pessoas adotam práticas para se proteger: talismãs, simpatias, vudus, mandingas, etc.

            O que é fé? Ele responde: “A fé autêntica é mais como uma rendição pessoal do ego e suas exigências a algo maior que o eu”. Esta resposta se ajusta a Bíblia! Os heróis da fé (Hb 11) abriram mão de projetos pessoais, de seu eu, para atender às exigências de Deus. Abraão deixou tudo para atender ao propósito de Deus para sua vida. Veja Moisés: “Por amor de Cristo, considerou sua desonra uma riqueza maior do que os tesouros do Egito, porque contemplava a sua recompensa” (v. 26). A fé não é gerada pelo medo, mas é uma resposta a um chamado de Deus. Ela acaba com o medo. Volto a Morris: “Alguns dos melhores e mais extremos exemplos de heroísmo destemido em toda a história humana envolvem pessoas com uma fé religiosamente extraordinariamente forte. Considere os profetas, os apóstolos, os missionários e os fiéis leigos no decorrer dos séculos, que preferiram morrer a repudiar e abandonar sua crença”.

            Fé é compromisso. O evangelho tem sido mostrado como uma água com açúcar para que as pessoas se sintam bem. Isto explica porque há tanta desistência, gente que chega, é batizada e some. Não entendeu o evangelho. Jesus não pregou um refresco com pedrinha de gelo. Fez um chamado: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23).

            A fé é render-se a Deus, dedicar-se a ele, firmar votos, assumir um compromisso. É mais que esperar proteção e cumprir ritos para ver se a vida melhora. É achar-se dentro do propósito de Deus. É buscar a vontade de Deus e ajustar-se a ela. Na magia e na superstição tenta-se manipular forças para melhorar a vida. A fé verdadeira reconhece que não temos força suficiente para viver e precisamos da força de Deus para viver. Não para uso em nosso benefício, mas para a glória dele. A verdadeira fé entende que mais importante é que ele seja servido por nós. Que nossa vida o glorifique. A fé autêntica compreende que nos realizamos fazendo a vontade de Deus, honrando-o, promovendo seu reino. Nesta realização temos segurança, a vida tem mais cor, e as demais coisas perdem importância. Na religiosidade, o eu tenta dominar Deus e tirar vantagem. E se desanima quando não consegue vantagens. Na fé, a alegria está em servir a Deus.

            Quem tem fé permanece. Quem tem mera religiosidade se vai. “Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era dos nossos” (1Jo 2.19).

            Você tem fé ou mera religiosidade?

            Isaltino Gomes Coelho Filho