É Preciso Ter Coragem

É Preciso Ter Coragem

por Pr. Elias Moreira da Silva

       Desde que deixei o ministério de música de uma de nossas Igrejas, depois de 16 anos, tenho visitado outras igrejas e observado com apreensão o rumo que estamos tomando na nossa forma de adorar.

 
       Adoração coletiva tem tomado um caminho muito individualista. Cada pessoa, ou dirigente, ou pastor, tem um gosto por uma forma particular. Encontramos pessoas que se expressam quanto à forma de adorar, assim: “É preciso que o culto seja espontâneo”, outros “Eu acho que temos que ter liberdade para nos expressarmos”, outros “Nós temos que nos afastar da formalidade” etc…

 
       Estamos na era do data-show, das coreografias, das danças, dos ritmos fortes que nos sacodem e nos fazem pular, bater palmas, dar gritos pra Jesus.

       Nossos cultos estão parecendo um show com direito a animador e tudo. O momento do sermão, esta parecendo mais uma sala de aula. Precisa do data-show para que a aula seja bem explicada. Não basta mais somente ouvir. No passado, pelo que pudemos deduzir, Deus não conseguiu se comunicar com o homem porque não tinha o data-show! Não temos a preocupação de ter um ambiente convidativo à oração, à adoração, à introspecção. Na maioria das igrejas o local de culto mais parece um palco de um show desorganizado, onde as coisas estão expostas poluindo o visual, criando um ambiente muito propício à irreverência.

 
       Não sou contra os recursos modernos. Equipamentos eletrônicos se renovarão a cada segundo e sempre estaremos atrás. Haverá sempre novos recursos técnicos eletrônicos à disposição do homem. Fico pensando uma orquestra sinfônica. O que vamos fazer para substituir o regente. Já pensou você ir a um concerto e lá encontrar ao invés de músicos, um monte de robôs realizando o concerto? Acho que isto não vai acontecer.

 
       Acho que o data-show que tem proporcionado aos crentes o ”conforto” de não precisar levar hinário, bíblia precisa ser repensado. Isto tem facilitado algumas coisas, mas tem prejudicado muito a criação de um ambiente uma estética, em muitos casos, bastante conflitante com a arquitetura do santuário.

 
       Nossos templos não são centros de convenções. Eles foram idealizados para o culto de adoração e precisam contribuir para que este ambiente seja percebido pelo adorador.

 
       Começando com a transformação filosófica dos anos 60, onde a música foi o instrumento maior de mudança do comportamento humano, a igreja vem sendo influenciada por essa filosofia individualista que possibilita às pessoas agirem não pelo que é eticamente correto, mas, sim, pela minha ética pessoal.

 
       Paradigmas têm sido quebrados, formas têm sido modificadas, outros paradigmas têm surgido. As formas que foram deram lugar a outras.

 
       Um dos paradigmas que tem sido muito combatido pela “nova igreja,” diz respeito à música.

 
       Poucas são as igrejas que possuem coros. Eles foram substituídos por bandas, e em alguns casos por grupos de dança. Outro paradigma é o uso dos hinos. A maioria das igrejas os substituiu por hinetos. Isto me faz pensar que legado hinológico estamos deixando para a história! Até porque, a música popular, pela sua própria natureza, não tem as características de se perpetuar. Há algumas exceções. São bem escritas e tem bom conteúdo teológico.

 
       Há um paradigma que, no meu entender, precisa ser quebrado. Participei de um culto em minha igreja em que a dirigente não usou os cânticos como se faz hoje. (há um momento em que ficamos em pé, para cantar corinhos). Ela usou hinos e corinhos de forma inteligente e racional, não misturando os ambientes que são tão importantes para uma boa ordem de culto. Não havia um grupo atrás com um microfone na mão, cantando a mesma coisa que a congregação, muitas vezes com vozes não muito agradáveis, e com uma vestimenta muito mais própria para um pic-nic ou passeio com o namorado, com movimentos de dança inoportunos com uma encenação de espiritualidade que, a julgar pelas ações (não estuda a bíblia, não lê a bíblia, não lê um livro de conteúdo devocional, não tem uma palavra amável com as pessoas de mais idade, não tem um comportamento fora da igreja que testemunhe a fé que professa!) mais parece uma representação teatral de péssimo bom gosto. A igreja não precisa disto.

 
       Há alguns chavões que ouvimos com muita freqüência. “Nossa igreja tem que ter cultos alegres, contagiantes”. Concordo com as palavras alegres, contagiantes. Discordo da provocação desta alegria e contágio. A alegria que tem o crente não precisa destes estímulos superficiais que alguns “líderes de louvor” com seu show de expressões faciais, e palavras de ordem (chavões) transformam o culto em um momento de entretenimento. Como se o Espírito Santo de Deus precisasse destas atitudes para se manifestar. Isto nos dá a entender que o Espírito Santo não atuou na igreja no passado, não muito distante. Ele somente atua agora porque somos mais espirituais. Na realidade a música popular sempre existiu e sempre causou as mesmas sensações que causa hoje. As igrejas que se dizem contemporâneas, seu contemporanismo nada mais é que trazer para igreja a música popular. Eu pessoalmente não tenho dificuldade em aceitar a música popular na igreja. Há muita forma de música popular onde a arte que foi criada por Deus tem lugar de destaque. O que não consigo aceitar é uma música popular ou não, de má qualidade, mal executada, com letra que não reflita um ensinamento baseado na Palavra de Deus.

 
       É preciso ter coragem para mudar. Não uma mudança radical, mas, procurar um equilíbrio.

       A igreja não pode perder sua capacidade de influenciar a humanidade. Ela precisa ter o cuidado de os costumes da humanidade a influenciarem. A igreja não pode perder seu caráter educacional, usando os recursos das artes da ciência e da filosofia na orientação de seus membros, especialmente as crianças e jovens.

 
       Adoramos melhor a Deus quando percebemos Suas realizações, a maneira como Ele nos criou, criou o mundo, quando percebemos Seus feitos através da história.

 
       A Igreja precisa suprir a falta de equilíbrio que temos na preparação de nossos cidadãos.

 
       Quando a igreja se preocupa com o ensino musical para as crianças, ela não está criando músicos, e sim, cidadãos melhores e mais aptos a entender Deus. Refiro-me à música porque é o que mais está em evidência na igreja. Mas, as outras artes, que também foram criadas por Deus, merecem toda importância.

     
       Uma ocasião me foi pedido para fazer a pastoral para o boletim da minha igreja. Hoje estive lendo e achei interessante transcrever neste artigo.

 
       Estou escrevendo esta pastoral em forma de carta. Primeiro porque desejo que cada membro da igreja sinta que esta carta é dirigida pessoalmente a cada um. Segundo porque parte do meu coração o desejo de que ela tenha uma resposta.

       É do conhecimento dos irmãos que nós fomos criados por Deus para que o adoremos, e que esta adoração é no que diz respeito à vida cristã, uma necessidade individual. Contudo como igreja de Cristo, uma necessidade coletiva, corporativa.

       No meu entender, participar do culto, é preparar-se para ele, mesmo antes de seu começo. Esta preparação se dá mesmo antes de sairmos de nossas casas. É uma atitude. É uma compreensão real de que estamos sendo procurados por Deus para Adorá-Lo. “Deus procura adoradores que o adorem em espírito e em verdade”, foi o que Jesus falou à mulher samaritana. A adoração não parte de nós. É um ato de Deus.

       O assunto básico desta carta é conscientizar-nos de que não sentimos necessidade de adorar a Deus, quando não temos prazer em Deus. Não adoramos ou não louvamos alguém a quem não admiramos. Não adoramos a Deus, quando não sentimos alegria n’Ele. Bach escreveu um hino cujo texto foi traduzido assim: “É Jesus minha alegria, meu prazer, consolo e paz.

       Ele as dores alivia, e minha alma satisfaz. É Jesus meu sol fulgente, meu tesouro permanente. Eu por isso, o seguirei. E jamais o deixarei.” Salmo 37:4, o salmista assim se expressa: “Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração” em outras versões: “Deleita-te no Senhor”.  O Salmo 42:1-2, “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando irei e me verei perante a face de Deus?” Salmo 63:1 “Ó Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, numa terra árida, exausta, sem água.”

       Que prazer maior, quando estamos com muita sede e encontramos um lugar onde há água que sacie nossa sede!

       Não quero que esta carta seja muito longa. Espero que ela traga reflexão aos irmãos à medida que examinam estes textos e outros.

       John Piper no seu livro The Desiring God, explicando porque ele é um hedonista cristão, assim se expressa.”Eu concluí que a bondade de Deus, o principal fundamento da adoração, não é uma coisa que você paga seus respeitos a algum tipo de desinteressada reverência. Não, isto é alguma coisa para se ter prazer: “Provai e vede que o Senhor é bom” (Salmo 34:8) e em salmo 119:103 “Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca”

 

       A alegria no culto não é motivada por alguém ou por um programa ou ordem de culto. Ela é o resultado de uma adoração individual, realizada diariamente. É o resultado de uma convivência com Deus. Paulo nos exorta a realizarmos um culto racional. Eu perguntaria: O que é culto racional? Jesus diz à mulher samaritana: Deus deve ser adorado em espírito e em verdade. O que isto significa?

       É preciso ter coragem: Para vencer a influência dos nossos filhos, que muitas vezes nos fazem agir para satisfazê-los; Para analisarmos o que está acontecendo e racionalizarmos; Para ensinar nossos jovens e darmos a orientação bíblica; Para vencermos o desejo de um crescimento rápido de nossas igrejas; Para não sermos tomados por uma atitude populista. É preciso ter coragem para dar à igreja o que ela precisa e não o que alguns querem.

       Enfim, é preciso ter coragem para mudar.

 
Pr. Elias Moreira da Silva

[email protected]

São Paulo, 17 de setembro de 2006.