A Filosofia Do Boteco Pé Sujo

A Filosofia Do Boteco Pé Sujo

 

            No livro Livre-se dos “corvos” – cuidado com os “sugadores de energia”, Luiz Marins tem um capítulo sobre manter a serenidade.  Ele ficou preso em um táxi, num engarrafamento em S. Paulo. Um caminhão quebrara numa das marginais e o trânsito ficou mais caótico que o habitual. Ele estava atrasado para um compromisso, o táxi não tinha ar-condicionado. O motorista comia biscoitos de polvilho, mastigando ruidosamente, deixando farelos pelo carro. E ligou o rádio em alto volume, competindo com o som externo, numa emissora que tocava rap e pagode (ninguém merece!).

            Saíram da Marginal, e num semáforo pararam diante de um bar. Um daqueles pés sujos de subúrbio. Diz ele: “Um pequeno bar de esquina, desses que vendem desde pastéis de vento até ovos coloridos. O bar era um exemplo de sujeira e poluição visual. Tinha de tudo nas paredes – de quadro da Sagrada Família a distintivo do Corinthians. Encostado no balcão, um senhor gordo, com camisa aberta até o umbigo”. Já não era pé sujo. Era pé cascorento! Mas o que chamou a atenção de Luiz foi “uma placa pequena, mal escrita, suja, com os seguintes dizeres: ‘Viva tranqüilo, alegre e despreocupado’”.

            Filho de dono de bares, vivi em três deles. Sei que esta é a proposta dos bares. Principalmente os “pés sujos”, aqueles em que o garçom limpa a mesa com um pano e consegue deixá-la mais suja. Não apologizo bares, mas conheço-os por dentro, pela minha criação. As pessoas vão lá porque querem se livrar das pressões do cotidiano. A bebida, as piadas muitas vezes sujas, o blábláblá inconseqüente e uma postura de todos sendo amigos de todos torna o bar atraente. Esta é a proposta.

            Deus tem uma proposta melhor. Não é que esqueçamos as preocupações afogando-as em álcool, em momentos inconseqüentes. É que descansemos em suas promessas, crendo em seu amor, aceitando sua mão estendida na pessoa de Jesus, para vivermos tranqüilos, alegres e despreocupados. Os problemas não deixam de existir. Podem até aumentar quando entregamos a vida a Cristo. Ele não prometeu que não os teríamos. Disse que teríamos. “No mundo vocês vão sofrer”, disse ele (Jo 16.33). E completou: “Mas tenham coragem. Eu venci o mundo”.

            O contexto desta palavra de Jesus é significativo: antes de sua prisão, tortura, julgamento e morte. Não tinha vencido nada, aos olhos humanos. E não venceria nada, aos olhos humanos. Seria morto, seus seguidores dispersos e sua causa, aparentemente, vencida. Não seria um vencedor, e sim um derrotado. Mais um fracassado que tentou dar um golpe e se deu mal.

            Numa manhã de domingo, ele saiu da sepultura. Venceu o mundo, a morte, o poder do mal, Satanás, e firmou seu reino, que nunca será abalado: “No tempo desses reis (os romanos), o Deus do céu fará aparecer um reino que nunca será destruído, nem será conquistado por outro reino. Pelo contrário, esse reino acabará com todos os outros e durará para sempre” (Dn 2.44). Deus chama para depositarmos nossa fé e entregarmos nossa vida a esse Rei vitorioso, que nunca será vencido, que da morte tirou vitória. Ele é aquele que “saiu vencendo, e para vencer” (Ap 6.2). Nele, como diz a Bíblia, “somos mais que vencedores” (Rm 8.37). Jesus não nos chama para vivermos alienados, mas confiantes. Para descansarmos nele: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso. Sejam meus seguidores e aprendam comigo porque sou bondoso e tenho um coração humilde; e vocês encontrarão descanso” (Mt 11.28-30).

            É possível viver alegre, tranqüilo e despreocupado. Não por causa de um pé sujo. Por causa dos pés sangrentos traspassados por pregos. Os pés de Jesus crucificado, poder de Deus. Viva alegre, tranqüilo e despreocupado. Entregue sua vida totalmente a ele.

            Isaltino Gomes Coelho Filho