A Desfiguração Da Fé Cristã

A Desfiguração Da Fé Cristã 

            Muito se tem falado da desfiguração do natal. Comentei isto na pastoral última, “O padre tem razão… mas ainda há mais”. Mas esta desfiguração é apenas parte da que se faz com a fé cristã. Quem leia o Novo Testamento em busca de entendimento se surpreenderá com a distância entre seu ensino e o que se faz hoje sob manto de fé cristã.


            Dia 20, deixei Meacir e Nelya no Shopping D. Pedro (se é mérito, vá lá: o maior shopping da América Latina só poderia estar em Campinas). Na volta cruzei com um carro com um adesivo enorme: SOU ABENÇOADO, no vidro dianteiro, como um quebra-sol.  Pelo menos o dono do veículo era pouco cobiçoso. O carro era velhinho, mas ele via como uma bênção.  Lição boa. Não é preciso ter uma Ferrari… O que temos é bênção do Senhor.

            As pessoas gostam de alardear bênçãos. Eles vêem saúde e as coisas materiais como bênção de Deus. Estão certas porque tudo que nos vêm às mãos é um dom gracioso de Deus. O problema é quando as bênçãos são mostradas como prova de que elas são os filhos especiais do Papai do céu. Como se elas fossem superiores às que não tivessem seus recursos. A espiritualidade passa a ser medida por coisas que a pessoa tem. Ouvi curiosa conversa, certa vez. Dizia a pessoa que era mais abençoada que uma outra e a prova era que seu carro era mais novo.

            Um capitalismo grosseiro, que põe o sentido da vida nos prazeres, migrou para dentro das igrejas. A fé cristã não é mais um chamado para tomar a cruz e comprometer a vida com Cristo e os valores do seu reino. Passou a ser busca de “bença”. As pessoas querem ser abençoadas e medem as bênçãos em nível material. Constantemente se usa a vida de Abraão para mostrar como Deus abençoa o fiel. E assim se pregam as bênçãos, em vez de se pregar o Abençoador. Tal exegese se esquece que Abraão já era rico quando Deus o chamou. Esquece-se que em toda a sua vida a única propriedade que ele teve como sua foi a cova onde sepultou Sara e onde seus filhos o sepultaram. Esquece-se que ele enfrentou sérios problemas familiares e enfrentou ciclo de fome. Mas, o mais importante, esquece-se da ordem divina: “E tu, sê uma bênção” (Gn 12.2).  Ser abençoado não traz mérito algum. Mas ser uma bênção para os outros e para o mundo é diferente. Significa ter sido útil.

            A busca infantil de felicidade a qualquer custo, mostrada pelo mundo, está presente na igreja. As pessoas querem ser felizes, isto é, ser abençoadas. Mas nem sempre querem tornar as outras felizes, isto é, abençoar. Assim, temos um cristianismo de crianças espirituais, que querem presentes. Mas a Bíblia nos exorta a sermos varonis: “… portai-vos varonilmente, sede fortes” (1Co 16.13). Ser cristão não é ser um molenga queixoso e choroso, mas adulto, com vida marcante e transformadora. O cristão maduro quer ser bênção para o mundo.

            Assuma um propósito com Cristo de ser um cristão maduro, engajado e abençoador. É legítimo desejar ser abençoado. Mas um cristão digno do nome quer abençoar. O ano de 2007 está às portas. Assuma o propósito de abençoar outros com seu testemunho. Você foi abençoado em 2006? Dê graças a Deus! Mas abençoe em 2007. Seja um dizimista fiel, devolvendo o que é de Deus e que ele deixou com você. Invista na obra missionária, na construção do novo templo, na ajuda aos carentes. Invista mais tempo no Reino de Deus.

            Se você realmente deseja ser abençoado, abençoe os outros com sua vida. Na vida cristã, a mão que se estende levando alguma coisa nunca volta vazia. Seja um cristão adulto e varonil. Comprometido e engajado. Isto, por si só, é uma bênção. Mas Deus verá: “Não deixem de fazer o bem e de ajudar aos outros, pois são esses os sacrifícios que agradam a Deus” (Hb 13.16).

            Isaltino Gomes Coelho Filho