Natal, Ano Novo, Superman, Jesus

Natal, Ano Novo, Superman, Jesus

 © Darlyson Feitosa – Pastor Auxiliar da SIBPP

     Na contra-capa do DVD Superman – O Retorno se lê: “É muito além de super. É soberbo”. Por conta disso aluguei o filme e assisti-o com um pouco de interesse. O interesse foi aguçado com o enredo e alguns diálogos, que passo a comentá-los.

     Digamos (como se diz, fazendo de conta) que o filme queira não realmente mostrar o que mostra, mas sim passar uma mensagem subliminar, algo como um estereograma, aquela imagem tridimensional camuflada. Teríamos, então, a seguinte história:

     Superman é a encarnação de seu pai. “O filho transforma-se no pai e o pai transforma-se no filho”. Essa transformação se ratifica quando o pai envia esse seu único filho à terra. Uma criança, que cresce em conhecimento e estatura no meio dos homens. Tem a forma humana, mas não é exatamente humano. “Embora tenha sido criado como um ser humano, você não é um deles”, avisa-lhe o pai. Os homens, diz o pai, “podem ser boas pessoas. Desejam ser, só lhes falta uma luz para mostrar o caminho… por isso eu enviei o meu único filho”. O filho é um referencial. “Sua liderança pode incentivar outros… mesmo para aquelas tarefas que os seres humanos poderiam resolver sozinhos”. Então o filho tem grande atuação entre os homens. Tudo vê, tudo ouve. E, especialmente, realiza milagres. Mas nem tudo lhe são flores. Luthor (não confunda com Luther – Lutero, ou com Lúcifer – ou seria pra confundir mesmo?), é o inimigo nr. 1, opositor da missão do filho. Luthor deseja criar um novo mundo e sobre esse novo mundo reinar em glória. O mundo de Luthor é de cristal, sem tanta criatividade diante dos cristais presentes diante do trono de Deus conforme descrição joanina no Apocalipse. Também, Superman, que não é deste mundo, vive os conflitos deste mundo, estereotipados na relação com uma jornalista: ela é apaixonada por ele e, ressentida por uma ausência prolongada dele, escreve o premiado artigo “Por que o mundo não precisa de Superman”, sob o argumento claro e ressentido que o mundo não precisava de um salvador. Superman objeta-lhe: “Você escreveu que o mundo não precisa de um salvador, mas todo dia eu ouço pessoas pedindo um”. Desfeitas e passadas as mágoas, a jornalista escreve outro artigo: “Por que o mundo precisa do Superman”, sobre a necessidade de um salvador em seu cotidiano, no cotidiano da humanidade.

     Superman sofre. E sofre segundo o mais alto padrão de sofrimento, o sofrimento de um justo. Não fez mal algum, mas padece e é maltratado como símbolo de uma humanidade que está prestes a ser submissa de uma vez por todas a Luthor. Luthor derrota Superman. O salvador morre, mas, como era de se esperar em nossa parábola, é ressuscitado. O bem vence. O mal, Luthor, não morre exatamente, mas fica por um período sem condições de agir, com seus planos pateticamente frustrados.

     O ressuscitado traz novo vigor para os habitantes da terra. A jornalista, curiosa e em evidente atração, inquire-lhe: “Nós veremos você? Por aí?” A resposta de Superman não poderia ser diferente: “Eu estou sempre por aí”, no exercício de sua onipresença e onipotência. E assim a vida continua para os homens e para Superman, cujo nome é Kal-El, que quer dizer “amigo de Deus”.

      Comparações entre Jesus e Superman há muito têm sido feitas. Há artigos e até mesmo teses acadêmicas sobre o tema. Trago à baila aqui o assunto, à luz do presente momento de festas natalinas e iminente ano novo, para pensar em um ano novo diferente.Um ano onde o Jesus bíblico seja por nós mesmos sobreposto às nossas fábulas. Um ano onde não percamos de vista (prática e espiritual) a necessidade do Salvador conosco. E, mesmo nas tarefas que nós mesmos poderíamos realizar, cuja banalidade não requeresse qualquer intermediação divina, um ano onde O convidássemos a participar mais de nossos simples atos.

      Um ano onde aprendêssemos a lidar com Ele sem tantos interesses e reivindicações, que muitas vezes são mais expressões de egoísmo e mesquinharia do que devoção. Um ano onde Ele pudesse não realizar feitos extraordinários e, ainda assim, ser amado pelos seus. Um ano onde a História seguisse o seu curso normal e fôssemos ainda assim capazes de vê-LO soberano. Um ano onde o nosso relacionamento com Ele não dependa de feitos contrários à física, de feitos contrários à lógica. Um ano onde o nosso relacionamento com Ele não dependa do extraordinário, onde a normalidade dos eventos que compõem nossas vidas seja indício também de Sua presença.

Capital do Brasil, dezembro de 2006.