A Igreja é mais uma família que uma instituição

A Igreja é mais uma família que uma instituição
 

            Sete anos atrás, ao assumir o pastorado da Cambuí, apresentei uma proposta de filosofia ministerial, em cinco itens. Ela nortearia a vida da Igreja, expressando nossa compreensão da vida cristã. Ela está no bienário da Igreja (todo membro tem direito a um), junto com a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, os Princípios Batistas e o Pacto das Igrejas Batistas., que são elementos comuns a quase 7.000 igrejas batistas no Brasil e quase 150.000 no mundo. Como nem todos lêem o bienário, todo ano repito a proposta em forma de pastorais.

            Eis o primeiro item: A IGREJA É MAIS UMA FAMÍLIA QUE UMA INSTITUIÇÃO. Para facilitar a compreensão: cremos que igreja é gente, pessoas, não um prédio ou uma instituição. O Novo Testamento só usa o termo para pessoas. É assim que entendemos “igreja”: gente que creu em Jesus e se comprometeu com ele.

Mais que evento sociológico, a igreja é uma comunidade com fundamentos espirituais. Ela crê na salvação pela graça, por meio da fé, conforme a Bíblia diz (“Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé…” – Ef 2.8). Ela crê que os seus membros foram irmanados ao redor da cruz de Jesus. Crê que ali nasceu uma família. Lemos em Mateus 12.49-50: “Jesus perguntou: – Quem é minha mãe? E quem são os meus irmãos? Então apontou para os seus discípulos e disse: Vejam! Aqui estão a minha mãe e os meus irmãos. Pois quem faz a vontade do meu Pai, que está no céu, é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. A igreja de Cristo, quem crê nele e se torna seu seguidor, é a família de Jesus. Este aspecto deve prevalecer mais que os laços institucionais. Relacionamentos são valiosos na vida da igreja.

Mas não basta colocar uma faixa “A igreja que ama você”, do lado de fora do templo. Isto é artificial. Como disse um vizinho de uma igreja com letreiro semelhante: “Se vocês me amassem, me respeitariam, fazendo menos barulho e incomodando menos meu repouso!”. Também não basta cantar aquele corinho “Esta igreja ama você” e as pessoas saírem apertando mãos umas das outras, sem ao menos olhar em seus olhos. Um dos romances de Mario Simmel tem este título: “Amor é só uma palavra”. Francis Schaeffer, pensador cristão, em uma de suas obras tem um capítulo com este título: “Amor não é só uma palavra”. Schaeffer tem razão. Amor são gestos, são atitudes, são relacionamentos dadivosos. E é assim que a igreja deve viver.

O padrão bíblico para a igreja é de uma vida de profunda solidariedade: “Alegrem-se com os que se alegram e chorem com os que choram” (Rm 12.15). A igreja de Jesus deve ser uma comunidade onde as pessoas se amem, não de palavras, mas com sentimentos reais e gestos que provem este amor.

Mas não basta pedir amor ou atenção. Pessoas carentes, com manifestas patologias emocionais, gostam de ser alvo de atenção. Um cristão maduro dá amor e atenção. Porque, como disse Jesus, “é mais feliz quem dá do quem recebe” (At 20.35). Um cristão se realiza ao se dar e em amar os demais. Ele descobre a beleza da vida cristã, a alegria de ser útil, de marcas vidas, de deixar um pouco de si nos outros.

Se a igreja é uma família nela não há lugar para fofoca. Nem para críticas maldosas. Não há gente que fique do lado de fora apontando falhas. Os jesuítas que colonizaram o Brasil tinham um lema: “Esta terra é nossa empresa”. Um cristão maduro diz isto de sua igreja. Não que ela seja uma empresa comercial, o que não deve ser. Mas que sua igreja é sua responsabilidade. Ele ama sua igreja, os irmãos, ele põe o ombro sob a carga, ele vê sua igreja como sua família espiritual. Os laços desta família não são de sangue humano. São laços formados pelo sangue de Cristo no Calvário. Não os desfaçamos!

Isaltino Gomes Coelho Filho