De Volta A Um Solo Amado

De Volta A Um Solo Amado

             Voltei ao Amazonas pela oitava vez em nove anos. Vou com alegria. Não saí fugido nem escorraçado. Quando entreguei o pastorado da PIB de Manaus, o Dr. Manoel do Carmo, Presidente do Corpo Diaconal fez um pedido público, no culto, para que eu ficasse. O Dr. Vanias, em reunião do Conselho, disse que poderiam mudar o que fosse necessário para que eu permanecesse. Saí limpo, porque amava a educação teológica e queria contribuir com ela. Hoje sei que meu lugar é no pastorado e que os seminários estão perdendo espaço. O fosso entre as igrejas e a estrutura denominacional aumentará e eles não serão poupados. Deus dará novo modelo e novas instituições para servir às igrejas.

              Fui a Codajás, subindo o Rio Amazonas. Fui para um lado. Meacir foi para outro. Foi para Xinguara, Sul do Pará, onde pregou (e orou na consagração de nosso filho e nora ao diaconato). A Amazônia nos marcou. Temos nora e neto amazônidas. E um filho pregando na região.   

            Codajás tem 15.000 habitantes, duas igrejas batistas e uma congregação com 40 batistas. Preguei na primeira igreja, com 438 membros, um belo templo para 600 pessoas, com ar-condicionado. O Amazonas não é o fim do mundo. Fui num barco a jato, que levou 6 horas de Manaus até lá. Voltei num navio, o Eliom, casco de ferro, 68 metros de comprimento. Levou 12 horas para descer o rio. Imagine a velocidade do barco que subiu!

 

            Os nomes dos barcos: Jerusalém, Rei Saul, Eliom, Cidade Santa, etc. A presença evangélica no Amazonas é forte. Houve culto no convés do Eliom e a tripulação era quase toda crente. A mentalidade de Eurico Nelson, o apóstolo da Amazônia, permeia aquelas igrejas, pastores e crentes.

 

            Por quase meio século, Eurico Nelson pregou na Amazônia. Fundou igrejas do Maranhão até Iquitos, Peru. Sua paixão missionária marcou as igrejas e criou uma cultura evangelística. Hoje faltam pastores como ele, pregando salvação em Jesus. Há muito blábláblá secular. Tudo se explica por viés humano. 

 

            É difícil ser crente no interior do Amazonas. A vida é dura, há pouca assistência às igrejas, escassez de material, as distâncias são enormes, o povo vive esparramado. Descendo o rio pelo Eliom, via luzes a quilômetros de distância uma da outra. Como alcançar aquelas pessoas? Não é tarefa impossível porque os crentes levam o evangelho a sério.

 

            Hoje, a proclamação do evangelho foi substituída por técnicas de mercado. A preocupação com a multiplicação de igrejas foi trocada pela mega-igreja. Ao invés de proclamar Cristo, pesquisa-se o ambiente para saber quais as necessidades das pessoas para lhes apresentar um evangelho palatável.  

 

            Em Codajás, Nelson alcançou uma família (os Bragas ou os Bastos?) e uma alcançou a outra. Em Manaus a família Corrêa foi uma das primeiras. Estas famílias ganhavam outras. O evangelho era contagioso, naquela época. Cada crente era um evangelista. Hoje há muito comodismo. Os crentes se vêem como clientes, e não como evangelistas a serviço de Cristo. As igrejas precisam redescobrir a paixão por Jesus, pregar seu nome e a salvação exclusivamente por ele.

 

O vozeirão de Nelson quebrou muitas vidraças da PIB de Manaus.  Porto Velho tinha apenas quatro quadras e a cidade inteira ouvia-o pregar. Ele concluía os cultos ao ar-livre cantando o hino “A nova do evangelho já se fez ouvir aqui”. Ah, se cada crente quisesse que isto fosse cantado em sua empresa, sua escola, seu lar, entre seus amigos! Ah, se cada adolescente crente, ao invés de copiar o estilo mundano de seus colegas, fosse um evangelista!

 

            O sol é causticante, a chuva é forte, os rios assustam. Mas o Amazonas é uma lição. Desde Nhamundá, divisa com o Pará, até Tabatinga, fronteira com a Colômbia. Aqueles crentes e suas igrejas são uma lição. Que precisamos reaprender: o evangelho exige vida integral, não apenas o tempo dominical.

 

             Isaltino Gomes Coelho Filho