Uma Igreja Preparada para o Presente Século

Uma Igreja Preparada para o Presente Século

 

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para a Igreja Batista Memorial de Belo Horizonte e apresentado em 25.3.2007

 

            Receio temas assim. Explico: não gostaria que as pessoas pensassem que precisamos de uma igreja que varie conforme a época. Anos  atrás fui preletor num congresso de uma denominação irmã, falando sobre o tema: “O perfil do obreiro do século 21”. Comecei com esta pergunta: “Como deve ser o obreiro do século 21?”, e respondi: “Como o obreiro do século 20, do século 19, do século 15”. E mostrei que deveria ser um obreiro cristocêntrico, bibliocêntrico e eclesiocêntrico.



 

Nosso raciocínio é que a tecnologia muda as pessoas ou situações. É um raciocínio certo, mas os desdobramentos deste raciocínio nem sempre o são. Centramo-nos no avanço científico ou na mudança de paradigmas culturais. Esquecemo-nos de que sempre houve avanços, embora mais lentos, é verdade. E que paradigmas são quebrados em qualquer época. Novos são criados e quebrados depois. Paradigmas são padrões de comportamento que variam conforme as tendências culturais.

Devemos ter em mente que não pregamos para épocas ou situações. Pregamos para pessoas. Elas continuam as mesmas, mesmo com avanços tecnológicos e quebra de paradigmas. Uma frase de Billy Graham explica isto muito bem: “O homem é precisamente o que a Bíblia diz que ele é” [1]. Não preciso provar para ninguém que valorizo a reflexão, a análise e a contextualização do evangelho para nossa época. O que questiono é a ênfase nas épocas e na cultura geral. Não precisamos, como disse alguém que precisamos, estar “antenados” na cultura da época. Precisamos estar antenados na Bíblia. Pareço simplista ou demasiadamente piegas? Explico. Pretendo mostrar que uma igreja preparada para o presente século apresenta algumas características bem definidas, que alisto a seguir.

 

1. UMA IGREJA PREPARADA PARA O PRESENTE SÉCULO TEM  UMA COSMOVISÃO BÍBLICA

            “Cosmovisão” é um termo bem simples. É uma maneira de ver o mundo. Cosmovisão são os óculos pelos quais lemos o mundo. Numa frase de MacArthur é “uma explicação e interpretação e do mundo, e em segundo lugar, uma aplicação dessa visão à vida” [2]. A questão primeira, mais importante, para mim, não é descobrir características de nossa época ou cultura. É ter uma cosmovisão. Como vamos enxergar as características do mundo ou da época?

            Tenho me surpreendido e já comentei isto, com a ênfase hermenêutica em alguns círculos. “Uma visão afro da Bíblia”, “Uma visão homossexual da Bíblia”, “Uma abordagem feminista da Bíblia” e temas parecidos revelam uma perspectiva hermenêutica antropocêntrica. O homem posto no centro. A cultura humana interpreta a Bíblia. Sei que a revelação bíblica tem componentes culturais, foi expressa numa cultura, deve ser estudada e transmitida para outra cultura. Leciono Exegese do Antigo Testamento na Faculdade de Campinas, e sei como isto é. Mas embora possa ser veiculada em qualquer cultura, porque vem de Deus e se sobrepõe à cultura humana, a mensagem bíblica em geral e a cristã em particular não podem ser aprisionadas por cultura alguma.

            Em outras palavras: não podemos ter uma cosmovisão secular para interpretar a Bíblia. Ela deve interpretar nossa visão secular. Por isso que precisamos de uma cosmovisão bíblica. A questão mais importante não é “Como é a nossa época?”, mas “Que cosmovisão temos?”. Esta segunda pergunta terá uma resposta de acordo com nosso conceito da Bíblia. A questão parte daqui. Queremos uma igreja preparada para o presente século? Precisamos de uma igreja com sólidas bases bíblicas, com uma cosmovisão bíblica, que leia o mundo pelas lentes da Bíblia. Estou cansado de ler explicações de Freud, Comte, Weber, Marx, Nietzsche. Não sou um despreparado, por isto aceito o que há de bom nestas explicações. Mas elas não são últimas. São penúltimas. A questão fundamental é: “O que a Bíblia diz?”.

            A última citação neste tópico é de Mayhue:

 

As Escrituras são a mente de Deus. Não toda a Sua mente, é claro, mas tudo aquilo que Deus quer dar a conhecer a Seus adoradores. Para pensar como Deus, é necessário pensar nas Escrituras. É por isso que Paulo encoraja os colossenses a que a palavra de Cristo habite ricamente neles (cf. Cl 3.16)[3] .

 

            Fazer isto é agir em resposta positiva à palavra de Paulo: “… levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo”  (2Co 10.5). Uma igreja preparada para este século precisa ter uma cosmovisão bíblica e subordinar todo o ensino humano ao ensino de Cristo.

 

2. UMA IGREJA PREPARADA PARA O PRESENTE SÉCULO TEM  CONSCIÊNCIA DE QUE ESTE SÉCULO É CAÍDO

            “Caído” aqui é no sentido teológico. Nosso século sofre as conseqüências da queda. Vivemos numa cultura que difunde a bondade inata do homem. O homem é bom, em certo sentido, porque foi criado à imagem e semelhança  de Deus. Não vou entrar em discussões teológicas sobre a imagem e semelhança e sobre a queda. Mas é mau, porque caiu. A queda é um axioma teológico. Eis o que diz a Declaração Doutrinária da CBB sobre a queda, comentando o pecado:

 

 Mas, cedendo à tentação de Satanás, num ato livre de desobediência contra seu Criador, o homem caiu no pecado e assim perdeu a comunhão com Deus e dele ficou separado. Em conseqüência da queda de nossos primeiros pais, todos somos, por natureza, pecadores e inclinados à prática do mal. [4]

 

            É necessário dizer isto porque vivemos numa época antropocêntrica, que glorifica o homem e seus feitos e proclama sua bondade inata e permanente. Uma das frases mais sem sentido que ouvimos é: ”O homem é bom, a sociedade é que o corrompe”. Ora, a sociedade é feita de homens. Ela não existe à parte deles e sem eles. Ela é a soma deles. Ela faz o que eles fazem e é o que eles são.

            Não pregamos para um mundo bom, mas para um mundo pecador. E a maior necessidade do mundo é conhecer o evangelho. Educação é bom e necessário. Saúde é bom e necessário. Segurança, idem. Mas a necessidade maior do mundo é do evangelho. O mundo não será melhorado por esforços humanos ou humanistas, mas pelo evangelho. Isto não é escapismo nem pessimismo. É fruto de uma cosmovisão bíblica. Ela diz que o mundo é pecador e que o mundo está debaixo do poder do Maligno (1Jo 5.19).

            O homem é um rei Midas às avessas. Tudo que Midas tocava virava ouro. Tudo que o homem toca se torna pecaminoso. Vemos hoje a exaltação da arte como algo puro e que tenta colocar os artistas acima do bem e do mal. A pornografia, por exemplo, por causa disto, se esconde sob uma capa de arte. A Babilônia do Apocalipse, símbolo do mal, tinha harpistas, músicos, flautistas, trombeteiros e artífices de arte (Ap 18.22).

            Ouvimos dizer que toda forma de amor é válida. E se usa a palavra “amor”  para o cio e até bestialidade. Li uma defesa da prática do sexo humano com animais. A pessoa dizia “fazer amor com animais”. Isto é bestialidade, não amor. Romanos 1.18-32 é bastante claro e forte em mostrar que os que rejeitaram a Deus foram entregues aos seus instintos. Vamos nos acostumando com as afirmações do mundo, exultamos com os padrões novelísticos, vibramos com BBB, assumimos posições mundanas e carreamos nossas emoções para o que se chama de arte, e até pode ser, mas que expressa uma produção humana pecaminosa.

            Somos massificados com este rolo compressor de uma cultura corrompida. Muito lixo nos é despejado em cima e começamos a achar normal tudo isso. Um avanço da sociedade, um sinal de novos tempos, não se pode ser radical, e por aí vai.

            Se a igreja quer estar preparada para testemunhar ao presente século precisa reconhecer que há um combate entre luz e trevas, entre o bem e o mal. E ela está do lado da luz e do bem. Não se trata de maniqueísmo e deve se evitar o maniqueísmo, mas é preciso reconhecer este ensino bíblico. A igreja é diferente do presente século. Ela prega a este século, vive nele, mas não se amolda a ele. Ela está aqui, mas não é daqui. Muitos de nós perdemos a consciência de que somos peregrinos. Há gente que já recebeu o green card do mundo e até assumiu sua cidadania. Mas não somos daqui e este século está corrompido, como os anteriores. A ciência e a educação não o melhoraram. Os construtores das câmaras de gás nazistas eram engenheiros. Médicos fizeram experimentos cruéis com mulheres judias. Não denigro estas classes, porque gente indigna há em todas as classes, inclusive na minha. Mas digo que não é o volume de informações nem o domínio de tecnologia que melhora o mundo.

 

3. UMA IGREJA PREPARADA PARA O PRESENTE SÉCULO TEM  CONSCIÊNCIA DE ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DESTE SÉCULO

            Não vou dissecar nossa época, alistando todas as características de nossa cultura, mas alisto algumas que julgo as mais geradoras de mudanças e que mais nos afetam:

1.      O antropocentrismo

2.      A tendência ao pensamento totalizante

3.      A ditadura de minorias e de grupos barulhentos

4.      A ausência de referenciais absolutos

5.      Uma consciência cósmica que levará a um paganismo panteísta

6.      A cristofobia.

O antropocentrismo já foi comentado anteriormente. Suas raízes remontam ao Iluminismo, que, em síntese, nos diz que a razão humana é guia suficiente para nos levar a um paraíso. Não há necessidade de uma revelação, de um Deus, de religiões metafísicas. As religiões passam a ter uma função terapêutica (e muitos de nós caímos nisto, exultando quando algum psicólogo diz que religião faz bem para a saúde). A religião é apenas uma expressão cultural. O evangelho não pode sofrer este reducionismo. Ele é a verdade, a única verdade. Precisamos abrir os olhos, rejeitar a divinização do homem, enfatizar sua queda, e apregoar a necessidade de uma reconciliação com Deus e que ela só pode acontecer em Jesus.

O pensamento totalizante é bem mais sutil. Há uma indução à globalização de conceitos. O Islã entendeu isto muito bem e sua revolta contra o Ocidente é por ter captado que estão querendo subordinar seus valores a um pensamento global. Observe nas discussões de artistas, em programas de televisão, que todos procuram chegar a um ponto comum. É o politicamente correto. Não se pode ser do contra. Todas as religiões são iguais, todas ensinam a mesma coisa, todas falam de Deus, etc. Roma aceitaria que o cristianismo apresentasse mais um deus, mais uma verdade. Havia tantos e tantas! Mas não tolerou a ousadia dos cristãos que enfatizavam haver apenas um Senhor, Jesus, e apenas uma Verdade, Jesus. Há uma caminhada para uma ditadura conceitual, hoje. A verdade é definida em termos de maioria. É o bem maior para o maior numero de pessoas. O que é agradável para o maior numero de pessoas. E não é. A multidão gritava contra Jesus, na cruz. A minoria que estava certa se manteve calada, olhando sem se envolver. Há uma busca de um consenso, de uma pauta ditada pelo mundo. A igreja precisa estar atenta. Ela não é conduzida. Deve usar como lema o que diz o brasão da cidade de S. Paulo: Non Ducor, Duco, cuja tradução é: “não sou conduzido, conduzo”.

A ditadura das minorias e de grupos barulhentos é uma questão muito delicada. Pode se discordar da opção religiosa de uma pessoa, e até combatê-la ou ironizá-la, mas não se pode discordar da opção sexual de uma pessoa. É crime. Piadas sobre loiras são engraçadas. Sobre negras são racistas. Direitos das minorias têm sido vistos como domínio de minorias. Há um desequilíbrio de forças, por se conceder mais espaço e direitos a certos grupos. Teremos tempos em que dizer que homossexualismo é pecado nos trará processos. O divórcio, que é uma concessão e um paliativo, recebe tanto espaço e divulgação que parece ser anormal estar casado há anos com a mesma pessoa. É curioso que esta atitude, da valorização de grupos minoritários como sendo o padrão em alguns segmentos, não se choca com o pensamento totalizante. Busca-se totalizar o pensamento pela minoria. É uma tentativa de derrubar o que sempre foi maioria em termos de moral e de cultura. É algo bem orquestrado.

Temos a ausência de absolutos. Tudo é relativo. É um produto do pós-modernismo. Cada um tem sua verdade. O que é verdade para um não é para outro. Na realidade, verdade é o que uma pessoa gosta. Isto se explica porque na pós-modernidade, a ética foi substituída pela estética. O certo é aquilo de que gosto. O certo é o que me dá prazer. Então, eu sou o fio de prumo a validar o certo. Como pregar num mundo sem absolutos? Uma pessoa me disse que Jesus era a verdade para mim porque eu me sentia bem assim. Mas ele se sentia bem bebendo. Disse-lhe que na hora de aflição ele deveria orar à bebida. Estamos num século em que a verdade é pessoal. Então as pessoas são católicas, mas vão a terreiro de umbanda. São católicas, mas discordam das decisões da Igreja e do Papa. São evangélicas, se vestem de  branco, na noite de vigília, para atrair energias positivas. Como pregar neste mundo? Como pregar o Absoluto, se só há relativos?

“Eu Tenho a Força!”, gritava He-Man. Há uma tendência a buscar uma divindade cósmica, não pessoal, mera energia. Certos grupos neopentecostais mostram um Espírito Santo assim, uma força para energizar a vida do fiel. Não há espaço para uma Divindade Pessoal, Criadora, Sustentadora e Redentora. Um casal foi matricular a filha numa escolinha e soube que eles oravam antes das refeições. Ficaram encantados com isto, até que viram que oração se fazia. “Ó banana, obrigado porque agora vou comer você e você vai fazer parte de mim”. É um panteísmo, a divinização do universo e da matéria. Agora há uma preocupação salutar com o ambiente (“meio ambiente” é pleonasmo). A consciência ecológica vem crescendo cada dia. É justo e a Bíblia nos traz o ensino consistente de uma teologia da criação. Mas muito desta consciência ecológica resvala para a ecolatria. “A natureza é sábia”, dizem. Como se ela fosse uma pessoa ou uma divindade. É sábia coisa alguma. É uma força cega, e impessoal. Se fosse sábia não produziria tiririca, mas apenas comida. Choveria regularmente ao redor do globo, sem secas e enchentes. É uma força a ser usada e bem usada pelo homem, mas não um ser. Mas tenta-se cultuar a natureza. Isto se vê até nas historinhas do Chico Bento: o homem civilizado é destruidor, e a natureza é uma pessoa sábia e bondosa. A natureza está sendo cultuada. A tese de Fritjop Capra, teórico da nova era, e físico de grande saber, é esta: a terra é um ser vivo: “O planeta está não só palpitante de vida, mas parece ser ele próprio um ser vivo e independente” [5].

A criação está recebendo mais espaço que o Criador. Este é desnecessário.

O espírito cristofóbico se vê de maneira bem clara. Aí estão livros e filmes para desmoralizar o evangelho e a pessoa de Cristo, bem como a Bíblia: O código da Bíblia, Je vous salue, Marie, A última tentação de Cristo, O código Da Vinci, O evangelho de Judas, etc. Há uma reinterpretação do evangelho e da pessoa de Jesus. E até teólogos estão deste lado, pedindo um Jesus mais humano e uma igreja mais humana. Só há espaço e oportunidade para um Jesus humano, bondoso, edulcorado, mas não o Jesus Mediador, Salvador e Redentor. Jesus está sendo posto em xeque neste século. Até sua sepultura, com seus restos mortais, já foram “encontrados”. O exclusivismo salvacionista cede lugar a um universalismo salvacionista em que Jesus é reduzido à dimensão de um Buda, de um Gandi ou de um monge hindu qualquer. Há ódio ao cristianismo e à pessoa de Jesus em muitos círculos. Isto cumpre as palavras de Jesus o mundo odiar os seus porque o odiaria.

 

CONCLUSÃO – UMA IGREJA PREPARADA PARA O PRESENTE SÉCULO SABE COMO AGIR

            Não respondi, no tópico anterior, como se deve fazer para enfrentar estas situações. Está claro. Se a igreja tem uma cosmovisão bíblica, sabe que está num mundo pervertido e corrompido, dirigido pelo Maligno em muitos setores, embora Deus nunca tenha perdido o controle do mundo. Ela sabe que está como luz num mundo em trevas e que as trevas odeiam a luz.  Se tem uma cosmovisão bíblica saberá que tem um destino certo, o único possível: a vitória. Permanece em sua fé, firmada na Palavra. Testemunha de Jesus. Não teme. Não negocia. Não aceita ser massificada. Mantém-se Militante na espera e na certeza de que será Triunfante. Proclama a Palavra de Deus, resposta para todos os infortúnios humanos. Não brinca de ser igreja. Não se preocupa com as migalhas do varejo (prosperidade, por exemplo) e tem uma visão macro do Reino.

            Ela sabe estas coisas, entende-as, enfrenta-as. Escorada na Palavra e firmada na Rocha dos séculos. Então ela se apropria das palavras de Paulo: “Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores por aquele que nos amou” (Rm 8.37). Porque a igreja preparada para o presente século batalha e vence por Cristo.


[1] GRAHAM, Billy. Mundo em chamas. Rio de Janeiro: Record, 1966, p. 15

[2] MACARTHUR JR., John. Pense biblicamente. São Paulo: Hagnos, 2005, p. 15.

[3] Ib. ibidem, p. 58

[4] Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, item IV. O PECADO, afirmações 2 e 3.

[5] CAPRA, Fritjop. O ponto de mutação. São Paulo: Círculo do Livro, 1986, p. 278. Este livro é a “bíblia” do movimento nova era, no que tange às relações do homem com o mundo físico.