O Casal e Ninguém Mais

O Casal e Ninguém Mais

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho para os casais da IB do Cambuí, em 14 de abril de 2007
 

INTRODUÇÃO

Começo com o artigo de Fábio Toledo, Juiz de Direito em Campinas, em seus dois primeiros parágrafos, conforme publicado no “Correio Popular”, de 9 de abril de 2007: 

“Lembro-me de uma ocasião em que indaguei a um marido as causas que o levaram a procurar a separação, ele me respondeu cheio de amargura: ‘Doutor, cada vez estou mais convencido de que o casamento é uma loteria, uns acertam, outros erram, mas ninguém sabe exatamente o porquê. É questão de sorte’. Será que o bom êxito na vida conjugal é mesmo uma loteria?

Num curso que participei sobre o relacionamento conjugal, já próximo ao final do evento, o palestrante concluiu que o que sustenta uma relação entre marido e mulher é a qualidade dos momentos que se passam juntos “.

Vou começar por aqui. Seguir na linha dele, ajuntando alguns outros comentários. Começo afirmando o óbvio, que o Juiz Fábio também afirma: casamento não é loteria. É produto de trabalho, investimento pessoal e determinação. Não é aventura nem jornada para deslumbrados, sem noção do que seja a vida. Tenho notado que muita gente que tem casamento fracassado tem também uma visão frívola, muito superficial da vida. Há pessoas sem noção de compromisso, de necessidade de mudar, de corrigir e de se adaptar. Já notei um traço comum em casamentos que não deram certo. Uma das partes ou as duas desejam que o mundo se adapte a elas. Da mesma forma esperam que faça o cônjuge. São pessoas que se colocam como centro dos acontecimentos. Têm uma incrível capacidade de se desculpar e não menos incrível capacidade de culpar o mundo. E azedam a vida ao seu redor.

Com tal tipo de entendimento é pouco provável que a pessoa seja ajustada ao mundo. Menos ainda ao casamento. Relacionamentos exigem que nos adaptemos. Perdemos algumas coisas, ganhamos muitas outras, somos enriquecidos e enriquecemos. Por isto, uso o título para dizer que o bom sucesso de um casal depende do casal e de ninguém mais.     

Alguém se escandalizará por um pastor dizer isto. “E Deus, onde fica?”. Onde sempre ficou ao longo da história. Esperando que o busquemos. Em Amós 5, três vezes ele diz: “Buscai-me”. Estava tudo errado na nação, mas o povo deveria procurar por ele. Até mesmo a intervenção divina depende do casal. Há gente que procura o pastor para aconselhamento, pensando que o pastor resolverá seu problema. Ou pede orações como se oração fosse um passe espírita para exorcizar situações, mas nada decide, nada faz. Elas fazem o bom sucesso depender dos outros. Depende do casal e ninguém mais.  Sou pastor, creio no poder de Deus e na oração. Mas creio que Deus nos deu o poder de conduzir nossa vida. Não confundamos fé com inação. Não procrastinemos presumindo que Deus, à nossa revelia, resolverá a situação para nós. Está certo o Juiz: é “o casal e ninguém mais”.

Dito isto, vamos em frente.


 

1. CORRIGINDO EQUÍVOCOS

            Gostaria de corrigir dois equívocos muito comuns, que tenho detectado em quase 36 anos de pastorado e quase 10 com o título de psicanalista. Começo por aqui porque é necessário desconstruir um pouco.

O primeiro equívoco consiste na espiritualização do problema. A pessoa se recusa a enxergar o problema e espiritualiza a questão. Joga a responsabilidade para Deus. “Vamos orar, somos crentes”.  Crentes casam tão mal quanto não crentes. Gente bem e mal casada há em todas as religiões. É bom ter uma autoridade espiritual comum sobre os dois, mas isto não garante um casamento bem sucedido. Se assim fosse, as pessoas religiosas seriam pessoas felizes em seus matrimônios. O que acontece é que a pessoa não sabe como agir e diz que entregou a Deus. Deveria ter entregado a Deus antes, no início, antes de dar bem ou mal. Mas o fato é que muitos usam Deus e a visão espiritual como paliativos. Via de regra, a fé é terapêutica. Deveria ser profilática. Ao invés de remediar, deveria preparar a pessoa para escolher bem, ter valores corretos, posições maduras. Mas vejo que muita gente usa Deus como pretexto para o que não sabe fazer. Entrega a Deus ou depende de Deus. É bom depender de Deus, mas é oportuno lembrar que Deus nos deu liberdade, inteligência, sensibilidade, espiritualidade para quebrantar-nos e corrigir-nos. Paremos de ver Deus como aquele que só aparece para quebrar nossos galhos. Felizmente ele os quebra, muitas vezes. Mas seria melhor se não os criássemos. Seríamos mais maduros.

O segundo equívoco consiste em presumir que o sucesso de um casamento depende de nível econômico ou cultural. Pode-se dizer a mesma coisa, aqui, que foi dita ao refutar o equívoco anterior. Um casamento bem sucedido não depende de quanto se tem ou de quanto se conhece. Não são circunstâncias externas que fazem um casamento dar certo. Conheci gente pobre e gente rica tanto feliz quanto infeliz em casamento. E gente semi-analfabeta e gente douta também feliz e infeliz em casamentos. “Ah, quem sabe, se nossa situação financeira melhorar nós nos entenderemos melhor!”. E não são cursinhos em igrejas nem diplomas em paredes que tornarão o casal feliz.

 Poderia alistar mais alguns equívocos, mas ficarei com estes dois para construir o argumento a seguir. Depende do casal, de ninguém mais. E depende do casal e de nada mais. Não são os outros que farão seu casamento dar certo. Nem coisas. Serão vocês dois.

 

2. SINAIS DE PERIGO

            Mas eu não seria um bom professor de Filosofia se não tornasse a coisa confusa. Antes de entrar especificamente no cerne do assunto, apresento outro tópico. Alisto três sinais de perigo de que as coisas vão mal e o casal deve trabalhar para bom sucesso de seu matrimônio.

            O primeiro perigo é o débito emocional. Isto acontece quando num balanço emocional um dos cônjuges (ou até mesmo os dois) descobre que há mais momentos negativos do que momentos positivos em seu casamento. Desencontros sempre há. O casal deve trabalhar para minimizá-los. Falo a verdade,  Deus sabe que não minto, e Meacir está aqui para confirmar: nem me lembro em que ano tivemos nossa última altercação. Porque pastor e esposa também têm problemas de relacionamentos. Tanto que há pastores que se divorciam. Mas sempre trabalhamos para nulificar os desentendimentos. Trabalhamos com a perspectiva de desentendimento zero. Temos um saldo enorme. Se vierem problemas, como já vieram em alguns momentos, temos saldo emocional que nos permite atravessar a situação com equilíbrio.

            Seu casamento está no azul ou no vermelho? Não uso verde porque sou daltônico. Mas azul eu sei o que é. Vocês têm mais momentos positivos ou negativos? Há mais alegrias ou mais dissabores? Se está no vermelho, acenda a luz amarela no seu interior.

            O segundo perigo está intrinsecamente ligado a este. É causa e conseqüência, mesmo que isto pareça difícil. É não entender que o casamento é uma conta bancária emocional. Ambos devem depositar. Ambos devem sacar. E devem depositar por igual e sacar por igual. Quando só um deposita e os dois sacam, a coisa vai mal. Alguém vai se esgotar. Alguém sairá no prejuízo. A não ser que tenha mentalidade de Madre Tereza ou de Ghandi.  A questão aqui é esta: examine se você está depositando. Não fique culpando seu cônjuge, dizendo que se mata de trabalhar para dar sustento e não tem correspondência. O depósito de que falo não se constitui de obrigações. Constitui-se de gestos extras.

Se um não deposita não será porque o outro não está suprindo suas necessidades? Ou é mesmo desinteressada? Se não há interesse em suprir a questão deve ser examinada com mais profundidade. Há pessoas que são mesmo mesquinhas e só pensam em tirar vantagem. Estas nunca depositarão, apenas quererão sacar. Estão condenando o casamento ao fracasso. Minha vivência em aconselhamento tem mostrado que a parte acusatória, geralmente, é que está em débito. E esconde seu fracasso acusando. Deposite e não cobre. Se você depositar, a outra parte depositará.

Este é o segundo perigo: quando não há depósitos emocionais na conta conjunta, por parte dos dois, e quando não há saques emocionais por parte dos dois.

O terceiro perigo é a apatia.  Uma das músicas de nosso cancioneiro diz assim: “Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar, há um adeus em cada gesto, em cada olhar, e já nem temos  mais vontade de brigar”.Vontade de brigar não é bom. Mas a letra da música mostra a apatia, o desinteresse que surge no casamento.  O risco do naufrágio, neste momento, é enorme. O relacionamento é rotineiro. Casamento bem sucedido exige determinação e gente vencedora. Não é difícil, no mundo de hoje, conquistar uma pessoa do sexo oposto por semana. Mas isto revela grande imaturidade e, por que não dizer, mediocridade. Mas conquistar a mesma pessoa e manter-se apaixonado pela mesma pessoa por mais de 30 anos requer grande sensibilidade, grande atividade, empenho. Pular de galho em galho mostra apenas que se vive mais instintualmente que emocionalmente. Esta pessoa pode ser um herói para a mídia medíocre que nos massifica, mas no fundo, sabe que é um fracasso. É incapaz de manter um relacionamento verdadeiro. Não é uma pessoa sempre apaixonada. Não sabe se apaixonar. Isto é apatia, falta de sentimento verdadeiro. Entra a rotina porque se perdeu a capacidade.

O casamento ajustado é aquele que tem mais momentos prazerosos que daninhos. Quando posto na balança revela mais alegria que aborrecimento. Há lucro emocional. Se há débito ou apenas igualdade entre crédito e débito, corre risco.


 

3. COMO FAZER PARA DAR CERTO?

Isto aqui não é receita de bolo, que seguindo as instruções sairá algo uniforme.  São diretrizes. Por isto volto ao título do artigo do juiz, que produziu o título desta palestra. Depende do casal. Depende de Deus, mas ele não baixa decretos nem obriga. Deixa conosco. Não depende do conselheiro, também. Já aconselhei casais que se voltaram contra mim porque o casamento fracassou. Eu não garanto sucesso alheio. Outros se voltaram contra mim porque precisavam de um inimigo comum para combater e se manterem unidos. Paguei a conta. Pelo menos estão unidos, salvando as aparências. Eu não dou receita garantida. Aponto diretrizes.

Começo definindo bons momentos. Não são apenas sexuais. São momentos de convivência. Momentos de passeio. Momentos de camaradagem. Muitos casamentos acabam porque não há companheirismo. Os cônjuges não são amigos. São apenas sócios. Quero ler a dedicatória que fiz em meu livro Pentateuco (já na segunda edição), para Meacir. Fui sincero. Os melhores momentos da minha vida têm sido com ela. É a melhor companhia para mim. É a pessoa cuja presença mais me alegra.

 Se seu cônjuge não tem prazer em sua companhia pergunte-se “Onde estou errando?”. Quando não se quer alguém como amigo, a pessoa precisa ver o que há com ela. Sei que há gente incapaz de ser amiga. E amigo é coisa séria. É para se guardar do lado esquerdo do peito. Tenho visto pessoas que são mesquinhas e só querem que os outros sejam seus amigos, mas nunca são amigas. Num casamento não pode ser assim. A culpabilização do outro revela falta de amizade, e de amor. Quem ama protege. Quem ama evita culpar a parte amada. Se o casal não é amigo os dois estão profundamente errados e precisam rever seus métodos. Em princípio, pare de acusar e pergunte-se: “Onde estou errando?”. Pare com esse blábláblá de criança mimada de “Eu tenho o direito de ser feliz!”, e pergunte-se: “O que tenho feito com minha obrigação de tornar meu cônjuge feliz?”

Uma sugestão: tirem um tempo a sós para os dois. Pode ser um dia por semana ou um dia por mês. Para irem juntos ao cinema, ao shopping, ao futebol, à praia, à piscina.  Só vocês dois. Não façam isso por obrigação. Neste caso, não há valor nem beneficia os dois. Torna-se enfadonho.

Meacir e eu começamos nosso ministério pastoral no interior. Ganhávamos menos de quatro salários mínimos por mês e tínhamos as contas dos móveis para pagar. Nossa cidade não tinha cem mil habitantes. Nosso sotaque carioca nos denunciava. Aonde íamos sabíamos que éramos de fora. Não tínhamos privacidade, neste sentido. Mas nos acostumamos a ver televisão juntos, no início. Havia só dois canais e o receptor era preto e branco. Mas gostávamos de assistir Glen Ford é a lei, os filmes do Columbo e do McCloud. Desde cedo reservamos tempo para comunhão. A chegada dos filhos não interrompeu o hábito que construímos e vimos modificando, ao longo dos anos.

Quando sair, arrume-se bem. Não vá com aquela bermuda com que consertou o vazamento de esgoto no quintal. Ou as unhas sujas de mexer no motor do carro, como se entendesse alguma coisa. Mulher, não vá com cheiro de cebola ou água sanitária. Ponha um perfume, vista-se bem, arrumem-se um para o outro. Eliminar a caspa, ter bom hálito, isso também ajuda.

O elo de união mais forte no relacionamento do casal, fora sua fé em Cristo, deve ser vocês dois mesmo, e não os filhos. No nosso caso, vieram filhos, mas tivemos tempo para nós. Repito isto com tanta freqüência, que me surpreende que as pessoas que me ouvem não levam a sério: filhos não salvam casamentos, casamentos ajustados salvam filhos. Se vocês depositarem esperança de viverem bem em filhos dará errado. Depende do casal e ninguém mais.

O elo entre vocês dois também não devem ser os amigos, mas vocês dois mesmos. Há casais que não conseguem sair porque não têm o que conversar. Aí precisam de companhia extra. Ora, falem sobre vocês. Nada de discutir contas a pagar ou conduta de filhos. Mas como isso surge? Nutrindo genuíno interesse pelo outro. Valorize seu cônjuge. Muitas vezes um fala e outro está grudado na tevê. Mas tenha bom senso: saiba a hora de falar. Estamos aos 45 minutos do segundo tempo, o jogo é decisão do campeonato, está empatado, e vem um pênalti a favor do time do marido. Naquela hora a mulher quer discutir a relação. Faça-me o favor! Bom senso nunca matou ninguém!

 

CONCLUSAO

Casamento não é loteria. É trabalho. Trabalho conjunto. É o cultivo de relacionamento supraconjugal. Esta expressão significa algo além do relacionamento marital.  Não ver apenas o outro como cônjuge, mas como pessoa amiga e de companhia prazerosa. Buscar bons momentos. São os melhores momentos da vida, aqueles quando só existe o casal e ninguém mais. Como diz o caipira, “é bão demais, sô!”.