A Incrível Viagem De Shackleton

A Incrível Viagem De Shackleton

 

                Com 16 anos de idade ouvi um pastor batista, no Rio, falar de seu hábito de leitura. Decidi imitá-lo desde então: leio pelo menos um livro por semana. Assim, li centenas de livros. E poucos me fascinaram tanto como “A incrível viagem de Shackleton”. Ao acabar de lê-lo, em casa, coloquei-o sobre o braço da poltrona e aplaudi. Mesmo ignorando os termos náuticos e de navegação, fiquei fascinado.

                Em 1914, Ernest Shackleton partiu a bordo do navio Endurance, rumo ao Atlântico Sul. Pretendia cruzar o continente antártico, passando pelo Pólo Sul. O navio ficou preso no gelo e foi destruído. Shackleton e seus homens, por quase seis meses, permaneceram numa placa de gelo, no ambiente mais hostil do planeta. Frio de 35 graus abaixo de 0, ventos de até 150 km por hora, comida escassa, tidos como mortos. Empreendeu uma duríssima viagem em três barcos, por centenas de quilômetros até uma ilha. Lá deixou alguns homens e fez outra viagem, de barco e a pé, por dezenas de quilômetros, até uma estação baleeira. Sempre sob muitas adversidades. Após uma jornada titânica, ele sobreviveu e salvou todos os liderados.

A vitória não veio por sorte. Havia um profundo senso de lealdade dos homens a Shackleton, acatando sua liderança, sem questioná-lo. Havia uma profunda dedicação de Shackleton aos homens e à sua missão: mantê-los vivos. Havia uma determinação tipo: “nós podemos e vamos conseguir!”. E conseguiram o impossível.

                Se Shackleton e sua equipe fossem como boa parte dos batistas, teriam morrido todos. Muitos de nossos fiéis são marcados pelo individualismo, pela falta de engajamento na obra, e preocupação consigo mesmo, e não com o grupo. Os náufragos tinham um alto grau de solidariedade, que deveria haver em todas as nossas igrejas.

                Se eles fossem como boa parte dos batistas teriam se autodestruído. Comentários ferinos, alheamento, queixas, gente de braços cruzados esperando para ver o que acontece, tudo o que sucede em nosso meio, os teria aniquilado.     Se Shackleton e sua equipe fossem como boa parte dos batistas teria dado errado. Não eram salvos por Cristo, não tinham o Espírito Santo, não faziam parte da Igreja de Jesus. Não tinham a Palavra de Deus para iluminá-los. Mas entenderam que seus destinos estavam interligados e que a vitória deles dependia do empenho de todos, e a omissão de um seria o fracasso de todos. Não eram espirituais. Mas tinham bom senso. Tinham visão.

                Olho minha congregação e me frustro com a falta de engajamento de muitos, com o número de não dizimistas (que sabem como as finanças da igreja devem ser geridas), com o desinteresse de tantos pela obra, e com a preocupação pessoal, em detrimento de um projeto de grupo. Na equipe de Shackleton ninguém via seu mundinho. Mas entre nós há a doença que chamo de “bençãotite”. Todos querem ser abençoados. Emprego melhor, problemas resolvidos, doenças curadas, relacionamentos restaurados, ter a vida tranqüila.

                O livro de Shackleton é uma lição de vida. A determinação de um homem em querer algo justo e se dispor a obtê-lo. Mas me frustrou.  Não há muitos Shackletons em nossas igrejas. Há muito Gérson, um ex-jogador de futebol, que fazia propaganda de um cigarro mata-rato: “Levar vantagem em tudo, cerrrto?”.

                Seria bom ver os crentes cheios de determinação e de solidariedade. Mas estas virtudes são do passado. O negócio hoje é ser abençoado e ser feliz. Sou um pregador jurássico. Prego compromisso e engajamento.

                O poente do meu ministério se avizinha, e estou frustrado. Não com Deus. Com a mentalidade eclesiástica. Como seria diferente se tivéssemos a visão de Shackleton e sua equipe!

 

Isaltino Gomes Coelho Filho