A Proposta do Presidente Lula

A Proposta do Presidente Lula

 

                 “O Globo” de 14 de maio trouxe um trecho da fala do Presidente Lula, em seu programa de rádio:

Conversei com o papa sobre a necessidade da integração religiosa na América Latina, porque a Igreja Católica na América Latina também tem um peso muito importante. Nós estamos, já há algum tempo, falando em integração da América Latina, integração cultural, integração social, integração energética, integração de ferrovia, tudo. É importante que haja uma integração religiosa – afirmou.

                Este não é um espaço político, por isso meu comentário deve ser entendido no contexto religioso. O que é a “integração religiosa” proposta pelo Presidente? Como nossa mídia é fraca e não faz análises, não vi um comentário sequer, nos meios de comunicação, sobre como os entendidos compreenderam a fala presidencial. Provavelmente, são palavras sem sentido, jogadas fora, como de hábito. Talvez nem o seu emissor saiba o que significam.

 

                Particularmente, não entendi nada. Talvez por ignorância. Eu nem sabia que temos uma integração de ferrovia na América Latina. Nem que temos uma integração de “tudo”. Se a integração econômica da América Latina é uma confusão, imagine uma religiosa. Os presidentes Evo e Chávez trazem constantes complicações, mesmo com um deles chamando Lula de “irmãozinho”. Imagine uma integração religiosa.

                Assusta-me que o governante de um estado leigo use um programa de rádio oficial para expressar seu desejo de uma integração religiosa. E assusta mais porque ninguém disse ao Presidente que isto não lhe compete. Talvez porque ele não tenha sido levado a sério. Isto me acalma.

Estado e Igreja têm funções diferentes, embora alguns aspectos possam se tangenciar. Mas suas esferas são outras. Como um batista histórico, conhecedor dos princípios do meu povo, firmo-me neste ponto. Os batistas surgiram tendo como uma de suas pilastras a absoluta separação entre Estado e Igreja. Assim, afirmo que o Estado deve ser leigo. Por este motivo sou contra o ensino religioso em escolas públicas. O Estado não pode ensinar religião (e menos ainda Moral e Cívica, como se faz no Brasil, sob manto religioso). Isto compete às igrejas e às famílias. Não compete ao Estado subvencionar cultos, seja através de doações ou de reformas de templos, sob desculpa de patrimônio histórico. Pode ser um patrimônio histórico, mas abriga uma religião específica. Não é certa a atitude de igrejas evangélicas que pedem ônibus a prefeituras para passeios e retiros. Não é certa a doação de terrenos para construção de igrejas, mesmo evangélicas. Os fiéis que banquem sua religião. Se eles não a mantiverem, é que não lhes é importante. E se não é para eles, que acabe.

Integração religiosa pressupõe coordenação de alguém. Não aceitamos ingerência externa em nossas igrejas. Um princípio batista, além da separação entre Igreja e Estado, é o governo congregacional das igrejas. Cada igreja é  governada por sua congregação, pelos seus congregados.

Mais que questão de princípios, ressalto aqui uma questão de deveres. Os batistas entendem que a igreja somos nós, todos os membros, não a cúpula ou um clero. Sua manutenção depende de todos nós, os membros em geral. Em nossa igreja, esta compreensão do dever por parte de todos está escassa. No engajamento e no assumir a responsabilidade na contribuição. É uma tarefa de todos. A coordenação pode ser do pastor, mas o trabalho é de todos. A integração que precisamos é esta: que cada membro da igreja compreenda sua responsabilidade na obra, se engaje, ore, evangelize e contribua.

Isaltino Gomes Coelho Filho