Chronos e Kairós

Chronos e Kairós

 

                Não estou a falar línguas estranhas. É grego, embora eu prefira o hebraico, a língua de Deus. Deixe-me explicar.

                Em 1988 eu trabalhava na Faculdade de Brasília e fui ao Canadá participar de um encontro missionário e um congresso de teologia. Falei na Igreja de Strathroy, no tempo do Pr. Jackson Rondini, brasileiro. De lá fui a Portugal. Como sempre, quando visito o Pr. Renato Cordeiro, um trabalho duro: levar um piano para o terceiro andar (isto é outro caso). Mas convidei um jovem canadense, Allan Calcutt, para estudar na Faculdade de Brasília. Voltei pelo Canadá, e o Pr. Rondini me falou que Allan aceitara.

                Até encontrar uma pensão, Allan, que casou com uma brasileira, morou em minha casa. Eu o levava a todo lugar, para ele melhorar o português (a mãe era lusa). Um dia eu ia a um lugar, mas dei uma carona ao meu irmão, hoje Pr. Isaías Gomes Coelho. E eu, cumpridor de horário, me atrasei. Expliquei à pessoa, que entendeu.

                Allan comentou que um canadense deixaria o irmão ir de táxi, mas não se atrasaria. Nós, brasileiros, prezávamos muito os relacionamentos. Eu prezo. Até que a pessoa me desencante mostrando ser falsa ou aproveitadora. Depois, num curso de Cultura Brasileira, ouvi o preletor dizer que os saxões dão valor ao tempo e nós, a eventos. A seguir, substanciou seu argumento. Então entendi a diferença de pensar. Um canadense não se atrasa, mas um brasileiro não deixa um amigo na mão.

                Num congresso, onde fui um dos preletores, um inglês, que nos tratava como se tivéssemos descido das árvores há pouco, criticava os brasileiros porque se atrasam (detesto atrasos). Ele nos tratava como moleques, o que me chateou. Disse que seu avô viajara dois dias a cavalo para um encontro, e que a pessoa se atrasou dez minutos. Seu avô, zangado, regressou. O bwana branco se zangou porque eu disse que seu avô era uma anta.

                Que tem isto a ver com chronos e kairós? Volto ao livro de Nowen, “Transforma meu pranto em dança”. Há um capítulo, “Tempo real e tempo cronológico”. Nowen usa os termos gregos. Chronos significa o tempo medido em semanas, horas e minutos. O tempo que corre. Nós o usamos para alcançar um fim. Queremos o máximo de chronos para fazer o máximo de coisas. Por isso que andamos fisicamente fatigados e emocionalmente estressados.

                Kairós é “um termo em grego do Novo Testamento que significa oportunidade, aqueles momentos que parecem prontos para um propósito intencional” (p. 61). A questão não é quanto chronos temos, mas quantos kairós fazemos como nosso chronos. Bem simples: como usamos o tempo. E como vemos Deus trabalhar em nossa vida através dos eventos, os kairós. Vivemos ocupados, cheios de compromisso, correndo, sem tempo para pensar nos atos de Deus e nos atos para os quais pode nos usar.

                A vida não deve ser medida pela extensão, pelo chronos, mas pelos eventos enriquecedores, o kairós. Matusalém viveu 969 anos e dele se diz que gerou filhos e filhas. Um bom reprodutor, perdoem a rudeza.  Jesus viveu cerca de 33 anos, não gerou filhos e filhas, mas mudou o mundo para sempre.

                Precisamos transformar nosso chronos em kairós. Tornar nossa vida marcante, útil, enriquecedora, com eventos positivos. Você conhece o evangelho. Uma mensagem que não é blábláblá, que funciona, que transforma vidas e regenera pessoas. Talvez se preocupe muito com seu chronos. Mas produz kairós? Usa bem sua vida? Comparte o evangelho?

                Transforme seu chronos em kairós. Seja útil. Ponha-se nas mãos de Deus.

                Isaltino Gomes Coelho Filho