Em Busca de Atalhos

Em Busca de Atalhos

 

            Algumas atividades demandam de seus praticantes boa capacidade de ouvir coisas surpreendentes. Mais que a dos brasileiros ouvindo sandices de alguns ministros e assessores políticos. Advogados, médicos, psicólogos, psicanalistas, padres e pastores ouvem coisas surpreendentes. Mas recebem orientação para o silêncio, e se acostumam. Quando externam é porque foi demais…

                Foi assim que entendi a fala de um médico procurado por meninas com menos de 16 anos, obesas, que queriam fazer cirurgia de redução de estômago. Não adiantava ele dizer que era caso de dieta e reeducação alimentar, quebrando maus hábitos alimentares. Elas queriam emagrecer sem sacrifício. Sem disciplina, sem método, sem contrariedade. Queriam comer e beber de tudo, até não poderem mais, e continuar magras. Queriam um atalho para emagrecer.

Acontece o mesmo na área espiritual. Muitos crentes querem vida mais perto de Deus, abençoada, mas por atalhos. Assim procuram gurus, benzedores, cultos de oração forte, reuniões espirituais carregadas de emocionalismo e desprovidas (até combatendo) de raciocínio. Antes que digam que o evangelho é irracional, lembro que razão Deus só deu aos humanos. E que Jesus é chamado de Logos, Razão, em grego (Jo 1.14). Seguir a Cristo não é cometer suicídio intelectual. A questão é que as pessoas querem mágica, não religião. Por que compromisso, se uma oração forte resolve o problema? Por que disciplina espiritual, se barulho resolve? É mais fácil gritar e entrar em transe que buscar as verdades de Deus na Bíblia, e aplicá-las à vida.

                Um casal me pediu para exorcizar-lhes o “demônio da incompreensão conjugal”. Zangaram-se quando eu lhes disse que viviam mal por causa deles, e não por demônio. Culpar demônio é mais fácil que trabalhar a vida.

                As pessoas querem poder sem santificação. Crescimento sem aperfeiçoamento. Vitória sem luta, só recitando frases de efeito.

                Tive um professor de Hebraico, no mestrado, que dizia que “atalho dá trabalho”. É verdade. Não há trono para o cristão que fuja da cruz. Não há glória sem luta. A vida cristã é dedicação, é disciplina. Não há cirurgia de redução do pecado. Não há pílulas para crescimento espiritual. Isto é um processo, que demanda aplicação, esforço, quebrantamento aos pés da cruz, leitura da Bíblia, envolvimento com o reino de Deus.

                No Antigo Testamento, o sacrifício era a forma mais sublime de culto. Mas Samuel mostra o que é mais importante: “Acaso tem o SENHOR tanto prazer em holocaustos e em sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? A obediência é melhor do que o sacrifício, e a submissão é melhor do que a gordura de carneiros” (1Sm 15.22). Cultuar a Deus é bom. Um culto agitado, em que se extravasam emoções, satisfaz bastante. Mas não santifica. O que santifica é a Palavra de Deus: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 1.7.17).

                Deus estabeleceu um caminho para chegarmos a ele: Jesus Cristo. E uma palavra verbalizada e proposicional, a Bíblia. Cânticos não santificam, correntes de vitória não santificam, orações em montes na Palestina não santificam. O que santifica, aperfeiçoa, fortalece e nutre é a internalização da Palavra de Deus. O ajuntamento do povo de Deus, como igreja também ajuda, por isso Hebreus 10.25 recomenda que não abandonemos a igreja local.

                Crescer espiritualmente dá trabalho. Mas deve ser o trabalho correto, prescrito pela Bíblia. Atalho não resolve. Atalho dá trabalho, dizia meu mestre. E não dá resultado. Não há cirurgia de redução de estômago espiritual. Há disciplina.

Isaltino Gomes Coelho Filho