Horror Vacui

Horror Vacui

 

                Henri Nouwen, que se tornou célebre por seu trabalho pastoral com portadores de deficiências físicas e mentais, foi teólogo, conferencista e escritor. No seu livro “Transforma meu pranto em dança”, ele lembra um conceito do filósofo Spinoza, horror vacui. Alude ao medo do vazio. Nouwen comenta que ao visitar Nova Iorque notou que a maioria dos lugares está atulhada de coisas. Segundo ele, as pessoas precisam entulhar seu espaço físico de coisas. Lembrei-me do choque que a bela Brasília causa em quem a ela chega pela primeira vez. Os grandes espaços vazios, os gramados e parques assustam. As pessoas logo falam que a cidade é impessoal (alguma cidade se relaciona pessoalmente com alguém?). Talvez boa parte do horror vacui venha da imprevisibilidade que o vazio proporciona. Do que pode nos acontecer num lugar em que estejamos a descoberto. Por isso, o lugar deve ser entulhado.

                Mas o pior medo do vazio que muitas pessoas têm não é dos lugares, mas o seu vazio. Elas precisam estar ocupadas, sem tempo para nada. A mente precisa ter algo específico para estar cheia e evitar a reflexão. Assim, entulham seu espaço mental. Há aqueles que não suportam o silêncio. Chegam em casa e logo ligam a televisão ou um aparelho de som. O silêncio lhes é insuportável. O momento que seria útil para meditar, analisar, colocar a vida pessoal em ordem e pensar nas decisões a tomar lhes é insuportável. Elas têm medo de si mesmas. Não conseguem conviver consigo e precisam ocupar a mente, os ouvidos, a atenção, com outra coisa. É aquela turma com latinha de cerveja na mão, fazendo barulho na praia. É a barulhada na mesa do bar, todos falando alto ao mesmo tempo (como o programa do Milton Neves, que meu filho diz parecer um galinheiro, de tanto barulho).

                O bonito hino 262 do HCC fala do “som do silêncio a cercar-te”. Associa-o com a crise existencial (solidão, tristeza, incerteza). Mas o silêncio não é só isto. Ele pode ser enriquecedor. Talvez seja a oportunidade para a voz de Deus ser ouvida. Foi no silêncio do deserto que Moisés teve o encontro com Iahweh (Êx 3). Foi no silêncio do deserto que Elias ouviu a voz de Deus, mansa e suave (1Rs 19) e reordenou sua vida. Foi no deserto que Deus fez sua voz ser ouvida após quatro séculos de silêncio (Mt 3.1). Foi no deserto que Jesus provou ser superior a Satanás (Mt 4.1). O deserto, maior símbolo da solidão, pode ser o microfone de Deus. É onde nossa fragilidade se mostra mais acentuada, e onde a graça mais brilha.

                O vazio pode ser muito bom. Pode ser a oportunidade para Deus nos encher. Com sua graça, com sua Palavra, com sua voz. A experiência de Elias é fantástica. Veio um vento que despedaçava pedras. Deus não estava nele. Veio um terremoto. Deus não estava nele. Veio um fogo (talvez raio).  Deus não estava nele. Veio uma brisa suave. Deus estava nela.

                Deus fala baixo. Vivemos sob a síndrome da gritaria, do barulho, do som ensurdecedor. Associamos poder espiritual a volume de som. Mas Deus tem conteúdo. Pode falar baixo.

                Você precisa do silêncio. Do vazio. Para pensar, analisar a vida, pensar nas verdades de Deus, refletir sobre a Bíblia. Pode ser que Deus o leve ao deserto. Vá com serenidade. É o melhor lugar para se ouvir a voz de Deus. O único vazio a se temer é o vazio espiritual, aquele que é experienciado pela ausência de Deus. Evite este. Mas procure o silêncio para ter tempo com Deus. Busque o vazio da agitação do mundo, para mais comunhão com ele.

                Isaltino Gomes Coelho Filho