Intelectuais de Cristo

Intelectuais de Cristo

 

                Fiz estudos sobre Daniel, na PIB de S. Carlos. Dias depois recebi mensagem de um participante, agradecendo e fazendo uma observação interessante. Impressionou-se com minha declaração de que a fé cristã não é suicídio intelectual, que não somos amebas comatosas, e que erudição e piedade não são incompatíveis.

 

                Doutor na área de ciências humanas, a pessoa é crente fiel, e se inquieta com a apologia do obscurantismo em muitas igrejas. Muitos acham que ignorância é sinal de fé. E que estudar atrapalha. Isto já surge na mente de alguns seminaristas. Ter fé é fraqueza intelectual e acadêmica. O “intelectual” deve ser herege ou viver em crise.

                Deus não é matéria de intelecto ou conhecimento cognitivo. É matéria de fé e de experiência. Quando Oséias registra: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (4.6), não alude ao conhecimento cognitivo, cerebral. É o mesmo sentido de “Adão conheceu sua mulher”. O termo hebraico dá a idéia de um conhecimento experiencial, emocional, relacional e profundo. Deus não é matéria de razão pura. É por isto que temos uma Bíblia: ele se revelou. Ele se deu a conhecer. Ele se manifestou na pessoa de Jesus de Nazaré. Podemos conhecer a Deus porque ele se deu a conhecer. Mas duas pessoas podem ler o mesmo exemplar da Bíblia e terem posições diferentes. Porque só se descobre seu sentido verdadeiro pela iluminação do Espírito.

                Isto é diferente da apologia do obscurantismo. Muitos gostam de exibir um conhecimento de Deus todo especial: Deus fala com eles. Diariamente. Eles não precisam da Bíblia, nem aprender seu sentido. Num misticismo arrogante eles dizem “Deus falou comigo”. Nunca vi um dizer “Deus falou comigo para ser mais humilde e aprender dos outros”. Deus fala para colocá-los numa posição superior ou para apoiar decisões sem sentido, que eles não querem discutir. 

                Algo deve ficar bem claro: o Espírito Santo não obscurece nem emburrece. Ilumina. Esclarece. Capacita. Uma mente submissa a Deus, desejosa de conhecê-lo e de estudar a sua Palavra, será esclarecida. “A exposição das tuas palavras dá luz; dá entendimento aos simples” (Sl 119.130). Precisamos de pessoas que pensem e estudem, que se aprofundem na cultura secular, e que a analisem à luz das Escrituras. Precisamos de crentes firmes na Palavra, que entendam o mundo à luz dela, que ajudem a Igreja a se firmar neste mundo confuso.

 

                 Deus não é matéria de conhecimento livresco, e sim espiritual. A Bíblia nos revela Deus, e pode ser entendida pela pessoa mais simples. Quem não entende João 3.16? Mas precisa de cuidados para uma interpretação correta. Escrita em outras línguas, vem de outra cultura e outro contexto. Mas seus princípios são eternos. Conhecer Deus é produto de um coração submisso, de uma mente rendida a Cristo, e com fome da Palavra. Mas os que estudam e pesquisam são bem-vindos. Devem ser estimulados. A Igreja deve dar apoio e sustentar em oração os jovens que estudam, os adultos que pesquisam, e fortalecê-los no conhecimento de Deus e da Bíblia. Precisamos de mentes como a de Paulo, lúcida, culta e brilhante. E como ele “levando cativo todo pensamento à obediência a Cristo” (2Co 10.4). A verdadeira fé não teme conhecer.

 

                Estudante cristão: cresça, brilhe e seja o melhor. Honre ao Senhor. Pesquisador cristão: seja o melhor. Honre ao Senhor. E tudo que você conhecer, analise à luz da Bíblia. Aprofunde-se para melhor servir a Cristo e sua Igreja. “Porque nada podemos contra a verdade, porém, a favor da verdade” (2Co 13.8).

 

Isaltino Gomes Coelho Filho