A Necessidade De Constante Auto-Avaliação

A Necessidade De Constante Auto-Avaliação

 

                        No livro O cristão e a cultura, Horton analisa a cultura contemporânea, desde seus fundamentos vindos do passado, e como ela afeta a igreja. Mostra que deveríamos marcar o mundo, mas é ele que nos dita um estilo de vida. Assim, a igreja é mundana.

 

            “Mundana” não significa usar jóias, enfeites, perfumes, ir a cinema e ouvir música profana. Significa aceitar as regras do mundo em seus critérios de avaliação. Uma das questões diz respeito ao rumo de muitas igrejas. Não são orientadas para a fidelidade, mas para o sucesso. O critério é empresarial: se o rol de membros aumentou, se as entradas e a freqüência cresceram, e não se a Bíblia tem sido ensinada e rege a vida da igreja e se ela tem crescido no conhecimento de Cristo. Estas coisas, que são certas (a primazia da Bíblia e Cristo na vida), não abafam o crescimento. Produzem o verdadeiro crescimento, pela conversão e não pela adesão. E levam à maturidade.

            O mundanismo se vê no ensino teológico. Teólogos dizem que não podemos entender o sentido do texto bíblico, por causa das distâncias temporal, lingüística, conceitual e estrutural. O sentido é dado pelo leitor, e não pelo autor. Isto não é ensinar a Bíblia, mas o desconstrucionismo literário de Jacques Derrida. Não é preparo teológico, mas destruição de fundamentos teológicos. Quem não entende o Salmo 23, João 3.16, Atos 4.12, por exemplo? O teólogo que não entende o texto acate Tiago 1.5 e ore.

 

            O mundanismo se vê em muitos cânticos, mais parecidos com jingles de publicidade que com hinos de louvor a Deus. A música é unidimensional, barulhenta, repetitiva e fácil de lembrar. São mantras para produzir descontração. Mas e os grandes ensinos bíblicos que a música cristã sempre trouxe, onde ficam? Tudo é superficial e banal, como na cultura contemporânea. Lutero ensinou teologia e vida cristã com seus hinos. Aprendemos com os nossos, ou apenas nos sentimos bem, como se a função do culto fosse produzir bem estar nas pessoas, e não reflexão sobre a vida diante de Deus e da Palavra?

 

            Cristo tem deixado de ser uma pessoa histórica, o Deus encarnado, para ser um conceito ou a representação simbólica de nossos ideais e aspirações. Um Cristo adaptado à nossa cultura. Assim surgiram as igrejas só para brancos, nos Estados Unidos. Hoje há igrejas só para surfistas. Cristo deixou de ser supra-racial e foi adaptado a grupos. A teologia da libertação nos deu um Cristo de pigmentação marxista. A teologia da prosperidade nos dá um Cristo “lâmpada de Aladim”. Ser cristão é ser abençoado, rico, feliz, sem doença. O ideal de vida das pessoas encampa a figura de Cristo.

 

            Uma das idéias de Lutero era uma igreja sempre se reformando, à luz das Escrituras. Isto é subordinar toda a práxis da igreja à Bíblia! Nossa visão de vida cristã, conceitos, estilo de culto, perspectiva eclesiástica. Qual a razão de ser de uma igreja? Por que somos igreja? Para anunciar as grandezas de Deus, “para o louvor da glória da sua graça” (Ef 1.6, 12 e 14). A igreja existe para Deus, para espelhar sua glória e sua graça no mundo. Não é uma ONG de auto-ajuda e enriquecimento emocional. Somos igreja para honrar, glorificar e servir a Deus. Isto é o fundamental.

 

            Se o fundamental é praticado, as demais coisas se acertam. Sobram-nos atividades, mas faltam-nos poder, autoridade e credibilidade. Porque deixamos de nos avaliar pelas Escrituras. Necessitamos de constante auto-avaliação, à luz da Bíblia, para não perdermos o rumo.

 

            Auto-avaliemo-nos, pois, para uma Reforma constante, e uma vida acertada.

 

Isaltino Gomes Coelho Filho