Pode Ser a Sua Erva!

Pode Ser a Sua Erva!

 

            Nos seus tempos de Glorioso, o Botafogo teve um goleiro apelidado de Manga. Um grande goleiro, que jogou na seleção brasileira. Num jogo contra a URSS ele participou. Fui com outros adolescentes ao Maracanã para ver Yashin, a “Aranha Negra”, tido como o maior goleiro do mundo, em todos os tempos. Mas Manga roubou a cena. Bateu um tiro de meta na nuca de um soviético, a bola voltou e entrou em seu gol. Foi um jogo bizarro: 4 a 4. Manga dizia de si: “Sou um fenômeno”. Naquele dia mostrou que era mesmo.

 

            Vou emprestar (paulista não dá emprestado, toma) a frase de Manga: “Eu sou um fenômeno”.  Segunda-feira passada fiz chá de hortelã para mim e Meacir, deixei um canecão com água fervendo uma erva, quebra-pedra, e fui levar-lhe o chá. Por lá fiquei, até que meia hora depois reclamei do cheiro de erva queimada. Próximo a nós há alguns fumadores de uma erva maldita, a cannabis sativa, conhecida como “maconha”. Comentei com Meacir: “Hoje eles estão abusando! Esta é a pior que já queimaram! Como cheira mal!”. Cinco minutos se passam e o cheiro piora. Até que ela disse: “Tem panela queimando!”. Dei um salto: “Meu Deus!”. Fui do quarto à cozinha num pé só. A água secara e a erva incandescia e carbonizava no canecão. Desculpe, Manga, mas o fenômeno sou eu! Culpei a cannabis sativa alheia e era a minha phylanthus niruri, a quebra-pedra. E quase incendiei o apartamento.

            Não ria de mim, leitor! Você deve ter feito isto muitas vezes, mesmo que deteste fogão: fez algo errado e culpou os outros.  É a síndrome de Adão: “A mulher que tu me deste”. Eva e Deus erraram e ele, Adão, era vítima. “A serpente me enganou”, desculpou-se Eva. Cada um quis livrar sua pele. A serpente, por não ter dedo, não o apontou para ninguém. Talvez por ser inteligente. Era melhor calar naquela hora!

 

Há gente assim, sempre estendendo o dedo contra Deus (“Por que Deus permite?”) e contra os outros (“Eles é que estão errados!”). Culpa o cheiro da erva dos outros. Mas é a sua que está cheirando mal.

 

            Há pessoas que sofrem de vitimismo. São sempre vítimas. Erram com os outros e culpam a reação destes. Uma pessoa que manipula os outros um dia vê os manipulados se afastarem. E reclama. Deveria reconhecer que foi aproveitadora. Alguém, sempre iracundo, vê as pessoas se afastarem de si. Reclama delas. Alguém, explorador e desonesto com colegas de trabalho, angaria má reputação. Queixa-se da atitude dos outros. Um marido grosseiro ou uma mulher queixosa criam um ambiente insuportável, mas acham que o mau cheiro é da erva alheia. O Botafogo, hoje, culpa os juízes! 

 

            Há acasos e acidentes na vida. Mas muito do que nos acontece em relacionamentos, quer com pessoas quer com Deus, é produto de nossas atitudes. O profeta Obadias, seis séculos antes de Jesus, declarou: “O teu feito tornará sobre a tua cabeça” (v. 15). Muitas atitudes nossas são como bumerangue: voltam sobre nós. Uma pessoa se afasta de Deus, dá-se mal, e depois reclama que Deus a abandonou. Ela abandonou a Deus! Recusou seus cuidados! Alguém se incompatibiliza com outros, que não o julgam confiável, e depois se queixa! Não é a erva dos outros que está queimando! É a delas!

 

            Meu caso terminou bem. Abrimos janelas, ligamos ventiladores, passamos desodorizante de ambiente na casa, fiz outro chá, e continuo tomando-o. O melhor: Meacir ficou com peninha do marido, tão atrapalhado, tadinho! Mas deixar nossa erva queimar nem sempre traz bons resultados. E culpar os outros não resolve.

 

            Está cheirando mal? Pode ser a sua erva!

           

            Isaltino Gomes Coelho Filho