O Livro De Êxodo

O Livro De Êxodo

 

 

Núcleo De Estudos Bíblicos No Taquaral, Campinas

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

 1. TÍTULO –  O  título hebraico original é We'elleh Shemôth que são as primeiras palavras do livro “Ora, estes são os nomes de”.  O livro começa com um “vav” conetivo (a nossa conjunção “e”), mostrando que é a continuidade de Gênesis. Êxodo é derivado da palavra grega que significa Saída. Este nome veio da Septuaginta, passou para a Vulgata, em latim, Exodus e deu Êxodo, em português. O livro relata a redenção dos descendentes de Abraão da sua escravidão no Egito, e, em muitos sentidos, de forma tipológica, figura a nossa redenção por Jesus Cristo. Este livro fala da libertação que resulta na nova relação com Deus, expressa em obediência, adoração, comunhão e serviço. Ensina também que a redenção é primordial e essencial para que tenhamos comunhão com o Deus Santo e que um povo remido não pode ter comunhão com ele se não viver em santificação, e na garantia da redenção.

 

 

 

2. TEMA – Deus redime seu povo e estabelece seu pacto. Por isso o livro é chamado de "o coração do Pentateuco". O ponto central é 3.18, que dá base à “teologia da história”. É o momento em que Deus entra na história do seu povo. Em Êxodo, Deus não apenas fala. Ele age. É o Deus que age. Ele redime Israel para si e vem habitar no seu meio, numa nuvem de glória. Deus ensinou a Israel as suas justas exigências através dos mandamentos, convencendo, assim, o próprio povo de Israel do seu estado pecaminoso. Deus providenciou também uma maneira de restaurar a comunhão com Seu povo, através do ministério sacerdotal do Senhor Jesus.

 

3. ESBOÇO – Eis um esboço geral do livro para facilitar sua compreensão:

 

I.                    A libertação de Israel – 1.1 a 15.21

(1)   Deus levanta um líder – 1 a 4

(2)   O choque com Faraó – 5 a 11

(3)   Israel sai do Egito – 12 a 15.21

 

II.                 Israel vai para o Sinai – 15.22 a 18.27

(1)   Provações no deserto – 15.22 a 17.16

(2)   Jetro visita Moisés – 18

 

III.               Israel no Sinai – 19 a 40

(1)   O pacto da lei – 19 a 24

(2)   O pacto violado e renovado – 31.18 a 33.45

(3)   O tabernáculo – 25.1 a 35.17 e 35.1 a 40.38

 

 

Quanto ao autor, o texto nos dá Moisés, de forma bem declarada: 17.14; 24.4,7; 34.27-28. Isto deveria ser suficiente para nós.

 

4. A MENSAGEM CENTRAL DE ÊXODO – Êxodo e Levítico são os livros que mais se prestam à tipologia em toda a Bíblia. Isto significa que eles tratam de um assunto real, histórico, que oferece a possibilidade de vermos nos seus personagens alguns tipos do Novo Testamento. O estudo da tipologia bíblica abre-nos o grande cenário para entendermos os mistérios das verdades bíblicas que se encontram no Antigo Testamento. As verdades do livro de Êxodo jamais serão esgotadas em sua aplicação à alma humana. Este livro deve ser estudado juntamente com o livro de Levítico, pois são como irmãos gêmeos.

 

5. DOIS TERMOS A CONSIDERAR – Há dois termos que merecem explicação, para bom entendimento do livro. Um é “faraó”, um título que significa “a grande casa”.  Era o título mais comum dos reis do Egito.  “Egito”, no hebraico, é Mizraim (literalmente, Mitsraym), palavra que ocorre 87 vezes no Antigo Testamento.  Mizraim é a forma dupla referindo-se aos dois Egitos, o Alto Egito, uma estreita faixa de terra 19 km de largura e 966 km de extensão, ao longo do rio Nilo; e Baixo Egito, a larga região do delta do Nilo.  Houve três reinos egípcios fortes com trinta dinastias entre 3000 e 300 a.C.

 

6. QUANDO ACONTECEU O ÊXODO?  – Eis uma possível cronologia de Êxodo:

 

1875 a.C. – Jacó e família entram no Egito – Gn 46.1-6, 26-27. Seriam os faraós Senusert II e III. Deveriam ser hicsos. Os hicsos eram asiáticos seminômades de origem semítica. Usavam carruagens puxadas por cavalos, uma nova arma naquela época. Muito provavelmente os hicsos (reis pastores) favoreceram o povo de Deus e que foi sua expulsão que causou a opressão pelos egípcios.

 

1804 a.C. – Morte de José aos 110 anos (1914-1804 a.C.) – Gênesis 50.26 e Êxodo 1.6. Foram anos de prosperidade em Gósen. Vejamos Êxodo 1.7.

 

1750 a.C. – Surge um novo rei (Êx 1.8), Amosis I que teria deposto os hicsos.   Amosis I foi o primeiro rei da 18ª dinastia do Egito.  Foi um período de 125 anos de escravidão.

 

1525 a.C. – Nascimento de Moisés (tirado das águas) – Êx 2.1-10 (Tutmés I era faraó e Hatshepsut a princesa que adotou Moisés).

 

1485 a.C. – Fuga de Moisés para Midiã aos 40 anos – Êx 2.11-22; At 7.23 (Tutmés III)

 

1445 a.C. – Êxodo do Egito – Êx 12.37-41; At 7.30 – 430 anos depois da entrada no Egito; 305 anos (1750-1445) ou 125 anos (1570-1445) de escravidão.  O faraó que endureceu seu coração foi  Amenófis II – Êx 4.21; 7.3,13,23; 8.15,19.32; 9.7,12,34,35; 10.1,20,27; 11.10; 14.4,17.  Há alguns teólogos que acham que era Ramssés II, colocando o êxodo, evento histórico, entre 1290 e 1240 a.C.

 

1444 a.C. – Chegada ao Monte Sinai, três meses depois da saída (Êx 19.1).  Saída do Monte Sinai, onze  meses e vinte dias depois da chegada  (Nm 10.11,12)

 

 

 

 

7. O ÊXODO EM 1445 a.C. – Esta data é preferível à data de 1290 a.C., pois combina com 1Reis 6.1, que ocorreu em 965 a.C.; com Juízes 11.26, que indica 300 anos de residência em Canaã antes de Jefté; e com Atos 13.17-20 que indica que Israel passou 450 anos em Canaã antes de Samuel, que morreu por volta de 1020 a.C.  A data de 1290 a.C. é dada por alguns por causa de Êxodo 1.11 (a construção das cidades de Pitom e Ramsés), mas o nome “Ramsés” deriva do deus-sol “Ra”, e possivelmente foi usado bem antes do nascimento desse particular faraó popular e forte (1.11; 12.37). Antes de ser nome deste faraó, uma pessoa histórica, foi aplicado a outras pessoas.

 

 

8. MOISÉS – É a figura humana dominante no livro (o sujeito do livro é Deus). Seus 120 anos (Dt 34.7) dividem-se em três períodos de 40 anos (At 7.23,30,36):

(1) 40 anos no Egito – Segundo filho de Anrão e Joquebede, da tribo de Levi.  Formação religiosa no lar paterno (Êx 2.9-10); formação intelectual, política, militar na corte de faraó.

(2) 40 anos no deserto de Midiã – Casado com Zípora, filha de Jetro (Reuel), o sacerdote (Êx 2.11-3.1); com ela tem dois filhos, Gérson e Eliézer (Êx 18.1-4).

(3) 40 anos liderando o povo. Agiu como servo do Senhor (Dt 34.5; Hb 3.5); como profeta (Dt 34.10,11); como sacerdote (Êx 32.11,14,30; 33.11; Nu]m 12.6-8); como juiz (Êx 18.13); como ensinador (Êx 18.16; Dt 4.5); como líder e legislador (Êx 14.15; Jo 1.17; At 7.36).

 

9. A RELIGIÃO NO EGITO – As divindades mais importantes tinham imensos templos.  Seus sacerdotes, bem como os sábios e encantadores magos (Êx 7.11), exerciam grande poder sobre o povo e os políticos egípcios.  A circuncisão era um dos seus ritos mais notáveis. Aliás, esta prática era comum aos povos antigos.  Todas as religiões praticadas no Egito criam na vida após morte.  Por isso havia tantos preparativos para o sepultamento. Os faraós e os ricos construíam grandes túmulos para preservar suas múmias e guardar seus bens materiais que eles acreditavam iriam acompanhá-los na vida futura.

 

10.  AS DEZ PRAGAS – Houve quatro razões pelas quais pragas que fustigaram o Egito: 

1.      Livrar o povo de Deus da escravidão.                            

2.      Demonstrar o poder de Deus aos egípcios e a Israel.      

3.   Castigar os egípcios por sua crueldade.

4.    Desmascarar as divindades egípcias.

 

Eis a relação das dez pragas e o que elas significaram:

 

            1. Sangue – Êx 7.14-25 – contra Knum – guardião do Nilo, e  Haspi – espírito do Nilo

            2. Rãs – Êx 8.1-15 – contra Hect – deus da ressurreição (com aspecto de rã)

3.      Piolhos – Êx 8.16-19 – Provavelmente contra o escaravelho sagrado (inseto)

4. Moscas – Êx 8.20-32  – Idem

                        5. Peste nos animais – Êx 9.1-7 – contra Hator – deusa mãe (com forma de vaca); Apis – o touro do deus Ptá, que era símbolo da fertilidade, e Mnevis, o  touro sagrado de Heliópolis

            6. Úlceras – Êx 9.8-12 – contra Imotep, o deus da medicina

7. Saraiva – Êx 9.13-35 – contra Nut, a deusa do céu; contra Ísis, a deusa da vida, e contra Set, o protetor das colheitas

            8. Gafanhotos – Êx 10.1-20 – contra Ísis, deusa da vida; contra Set, o protetor das colheitas

            9. Trevas – Êx 10.21-29 – contra Rá, Aten, Atum, Horus,  todos eles deuses do sol

10. Morte do primogênito – Êx 11.1-12.36 – contra a divindade do faraó; contra Osíris, o deus da vida.

 

            Assim se vê que em cada praga Deus humilhou as divindades egípcias. Como já fizemos um estudo sobre a páscoa, não vamos comentar este tópico. Mas lembremos a grande lição de Êxodo: o livramento vem pelo sangue. Comparemos com Hebreus 9.22, e lembremos da cruz de Jesus.

 

11. OS DEZ MANDAMENTOS – O pacto com a humanidade foi feito mediante Abraão (Gn 12.1-3; 17.5; 22.16-18).  O pacto com Israel foi feito mediante Moisés (Êx 19.3-8).  Os capítulos 19-23 são chamados de “O Livro do Pacto” (Êx 24.4-7).  O capítulo 20 registra os mandamentos espirituais e morais. Os capítulos 21-23 registram as ordenanças sociais e civis. 

Esta foi uma aliança bilateral, no sentido de adoção da parte de Deus e de obediência da parte do povo.  A prosperidade ou maldição é condicionada à obediência ou desobediência respectivamente.  Foi unilateral no sentido de que Israel não podia discutir cláusulas. Aceitava ou largava. Uma observação necessária: temos duas redações dos dez mandamentos (Êx 20 e Dt 5) e elas  não são coincidentes. Há variações.  Em Deuteronômio há mais de um motivo para santificar o sábado, e no décimo mandamento, a esposa vem antes da casa.  Parece que Êxodo é uma narrativa da ação divina e Deuteronômio é uma explicação da parte de Moisés.

 

 

12. JESUS E O ÊXODO – Comparemos Êxodo 4.22 e 6.7 com Oséias 11.1 e Mateus 2.15.  Jesus substituiu Israel (40 anos no deserto, 40 dias no deserto; ambos tentados; Israel falhou, mas Jesus, não). Ele originará uma comunidade que não será substituída. Ele não falhou e estabeleceu um novo povo.

 

 

13. TABERNÁCULO – Capítulos 25-28,30,35-40 (11 capítulos) – O tabernáculo era o lugar da habitação de Deus (Êx 25.8).  Cristo “tabernaculou” entre nós (Jo 1.14); nós somos agora o “santuário” de Deus (1Co 3.16-17; 6.19; 2Co 6.16).  Tudo tinha que ser feito conforme o modelo mostrado a Moisés (Êx 25.9,40; 39.42; 40.16); que era apenas uma “figura”, uma “sombra”, ou uma “parábola” do verdadeiro no céu (Hb 8.5; 9.1,9,23-24; 10.1). Esta é grande diferença e a imensa superioridade da revelação do Novo Testamento sobre a do Antigo Testamento.

            O tabernáculo tinha uma cerca de cortinas de 2,5 metros de altura, sustentada por colunas separadas por 2,5 metros uma da outra, formando assim um átrio ou arraial em volta do santuário.  Esta cerca media 25 metros de largura por 50 metros de comprimento.  O tabernáculo próprio media 5 metros por 15 metros, sendo dividido entre o Santo dos Santos que foi um cubo de 5 metros por 5 metros e o Santo Lugar que media 5 metros por 10 metros.  O tabernáculo foi sustentado por tábuas de acácia de 5 metros por ¾ metro em cima das quais se estendiam dez cortinas de linho fino torcido de azul, púrpura e carmesim de 14 metros por 2 metros (Êx 26.1-14); onze cortinas de pelos de cabras de 15 metros por 2 metros, peles de carneiros tintas de vermelho, com peles de golfinhos por cima de tudo (Êx 36.8-30).

 

Tabernáculo

 

 

            O tabernáculo era o lugar da morada de Iahweh com seu povo, e também o lugar onde ele o povo se encontravam. O texto de João 1.14 diz, literalmente, que “o Verbo se fez carne e tabernaculou entre nós”. Deus estava em Cristo (2Co) e é nele que encontramos Deus. Neste sentido, tudo o que Êxodo prenunciava se cumpriu nos evangelhos. A páscoa judaica foi suplantada, porque se cumpriu  neste evento, na ceia do Senhor. O sangue de um cordeiro foi substituído pelo de Cristo. E este fez isto uma vez por todas, como se pode ler nos capítulos 8 a 10 de Hebreus.