Pondo o Foco no Lugar Certo

Pondo o Foco no Lugar Certo

 

Num de seus livros, Helmuth Thielicke conta de uma viagem aos Estados Unidos e sua ida ao edifício das Nações Unidas. Havendo lá uma capela, quis vê-la. O guia o corrigiu: “Ah, é a Sala de Meditações que quereis dizer!”. Thielicke o seguiu, pensando no nome singular: Sala de Meditações, não Sala de Orações. Orar não é meditar. Ao meditar, a pessoa fala consigo. Ao orar, fala com Deus. Aliás, isto explica as constantes crises do mundo. O homem fala demais consigo e pouco com Deus.

 

Ele viu a Sala de Meditações. Pintada de branco, com algumas cadeiras. Perguntou ao guia se alguém ia meditar ali. A resposta foi “não”. Tielicke olhou para o lugar onde deveria haver um altar (para nós o púlpito). Procurou uma cruz, uma Bíblia. Nada! Onde deveria estar o altar, o holofote punha seu foco sobre o vazio. Não sobre um altar, uma cruz ou uma Bíblia. Sobre o nada. E diz o teólogo luterano: “Os holofotes não sabiam em que direção dirigir seus raios de luz, e aos homens responsáveis convidados a esta sala, não se mostrava a quem dirigir seus pensamentos. Era um templo da mais horrível solidão, o campo de ruínas vazias de uma fé desaparecida há muito”.

O homem contemporâneo baniu Deus de suas cogitações. Fez uma divindade à sua imagem e semelhança, de acordo com suas conveniências. Desprezando a sabedoria da Bíblia e optando pela sua própria mente, o homem colocou o foco no nada. Porque buscar respostas dentro de si é cair no vazio. Buscar o sentido da vida no homem é focar o nada.

 

É muito real a frase do pregador alemão: “um templo da mais horrível solidão”. Um templo onde não há nada nem ninguém. Buscar a resposta dentro de si é como tentar se levantar pelos cordões do sapato. Muitos usam a frase “Conhece-te a ti mesmo” (Gnôthi seauton), do templo de Delfos como um aforismo absoluto e redentor. Parece que o autoconhecimento basta e redime o homem. Que olhar para dentro de si traz a verdade. É a ingenuidade racionalista que presume a bondade inata do homem e que a razão nos basta. É a ingenuidade ou sandice de presumir que o homem é um deus que pode se redimir a si. “Em mim não habita bem algum”, disse o brilhante Paulo, de muito mais impacto no mundo que Sócrates, que usou a frase do templo de Delfos.

 

O que dizer de Jesus, o Inigualável, o homem sobre todos, que mudou o mundo para sempre? Ninguém chegou a seus pés. Comparar qualquer pensador com ele é um disparate. Uma covardia. Basta ver a sombra que o Galileu projetou na humanidade em apenas três anos. Ele é nec plus ultra (não há mais além). Que diria ele sobre onde colocar o foco? Diz-se, equivocadamente, que ele pregou o amor. Afirmação superficial. Ele pregou a si mesmo. Seu tema foi ele. “Vinde a mim”, “Aprendei de mim”, “Eu sou”, “Crede em mim”, “Ouvi-me”, “Minhas palavras não passarão”, “Segue-me”, “Eu dou a vida eterna”, “Eu e o Pai somos um”, “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá”. Ele falava dele com muita segurança. E autoridade. Ou era quem ele dizia ser ou era louco. Dizer “Eu respeito Jesus, mas não creio que ele seja Filho de Deus” não faz sentido. Ou ele era quem dizia ser ou era tão doido como o homem que diz é um ovo frito.

 

Ele, o Nome sobre todo nome, disse assim: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). E completou: “Eu sou a verdade” (Jo 14.6). Nele vale a pena crer. Ele pode ser levado a sério. O olhar posto em Jesus não é o olhar posto no nada. É o olhar posto no Tudo. “Cristo é tudo” (Cl 3.11). Ponha o foco nele!

 

Isaltino Gomes Coelho Filho