A Carta aos Romanos


IGREJA BATISTA DO CAMBUÍ

NÚCLEO DE ESTUDOS BÍBLICOS – NÚCLEO DO GUARANI

A CARTA AOS ROMANOS

Preparado pelo Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

 

            Estamos no ano 56-57 de nossa era. Após dez anos de intensa evangelização às margens do Mar Egeu, Paulo está em Corinto, na casa de um amigo, Gaio (Rm 16.23). Sua visão agora se volta para a Espanha. Ele não tinha disposição de edificar sobre fundamento alheio (Rm 15.20). Será uma grande oportunidade para ele, conhecer a fabulosa Roma. Embora fosse cidadão romano (sobre isto tratamos mais à frente) ele não conhecia a cidade nem os cristãos de lá. Esta era uma grande oportunidade para conhecer a igreja cuja fama se espalhava e compartilhar alguma coisa com seus membros (Rm 1.9-13).

A carta à Igreja de Roma foi ditada por Paulo (1.1), mas redigida por Tércio, um cristão de quem temos poucas informações, mas que era bem conhecido na época (16.22). Como começou esta igreja e quem levou o evangelho para Roma, nunca se soube ao certo. Uma pista nos é dada em Atos 2.10 (”forasteiros romanos”).  Baseados aqui, podemos crer que judeus que moravam em Roma foram convertidos a Cristo no dia de Pentecostes e regressaram para a cidade, levando a mensagem do evangelho. No 4º século, Ambrosiaster, um historiador secular e que era membro da igreja de Roma, expôs esta teoria. Parece a mais aceitável, hoje em dia. Mas deve se levar em conta que Roma era o centro do mundo, ponto de partida e de chegada para muita gente, e que o evangelho pode ter chegado lá por algum convertido de fora, sem participação de qualquer apóstolo.

À luz de 1.10-15, Paulo não conhecia a igreja, mas apenas ouvira falar de sua fama (1.8 e 16.19). No entanto, conhecia muita gente de lá (16.13-15). Isto se explica pelo fato de que havia um constante viajar das pessoas e o apóstolo tinha parentes em Roma (16.11). Não é de se estranhar, pois já vimos que ele era cidadão romano (At 22.28), e boa parte de sua parentela devia ser, também. Os cidadãos romanos, mesmo nascidos em outro país, podiam residir na cidade com mais facilidade. A família de Paulo era fabricante de tendas e, segundo alguns, seu pai vendera tendas militares para o exército romano, o que facilitara a conquista de cidadania. Paulo já o tinha por direito de nascimento, pois herdara do pai (At 22.28). Seus vínculos com a cidade de Roma deveriam ser grandes, portanto.

            Duas citações de dois dos maiores vultos da Reforma nos ajudam a entender o valor desta carta. Disse Lutero: “É o livro principal do Novo Testamento e o mais puro evangelho”. E Calvino disse: “Para quem chegue a conhecer esta epístola, ficam abertos todos os tesouros escondidos das Escrituras”. Foi o texto de 1.17 que levou Lutero à conversão (o justo viverá da fé). Conhecer bem esta epístola é conhecer a fundo a essência do evangelho de Jesus. Com isto em mente, vamos estudá-la reverentemente. Romanos é o livro da Bíblia que mais impacto tem produzido no cristianismo. A Reforma de Lutero, o avivamento dos Wesley, a teologia de Barth, todos começaram com o estudo de Romanos. Uma teologia sadia, com bases bíblicas sadias, produz um avivamento que dura séculos. O ôba-ôba que se vê em muitos círculos produz agitação, mas deixa poucos frutos na história. O que deixa frutos é a consistência do evangelho, e a pregação da mensagem bíblica.

            Romanos é chamada de “O evangelho de Paulo”. O apóstolo usa esta palavra por 12 vezes, na epístola. E em 2.16 e 16.25, segundo a Versão Almeida, usa a expressão “meu evangelho”. Não é uma obra no estilo de Mateus, Marcos, Lucas e João, mas é o seu relato teológico das “boas novas”.


 

UM ESBOÇO DA CARTA

            Utilizaremos o esboço de Crabtree, para facilitar nossa compreensão do livro:

 

Introdução – 1.1-15

A.      A Doutrina da Justiça Que Vem de Deus – 1.16 a 11.36

I.                    A necessidade da justiça que vem de Deus é universal – 1.18-3.20

1.      É necessidade dos gentios – 1.18-32

2.      É necessidade dos judeus – 2.1 a 3.8

Conclusão – todos os homens estão debaixo do pecado – 3.9-20

II.                 A natureza da justiça que vem de Deus – 3.21 a 4.25

III.               Os efeitos benéficos da justiça que vem de Deus – 5.1 a 8.39

IV.              A incredulidade de Israel em relação à justiça que vem de Deus – 9.1 a 11.36

B.      Exortações – 12.1 a 15.13

Epílogo – 15.14 a 16.27

 

            Neste esboço de Crabtree (que foi simplificado, aqui, desprezando-se as subdivisões) se vê claramente que a idéia principal do livro é “a justiça que vem de Deus”. Devemos ter em mente, mais uma vez, o texto de 1.17: “Porque no evangelho é revelada, de fé em fé, a justiça de Deus, como está escrito: Mas o justo viverá da fé”. O evangelho revela a justiça de Deus. Esta palavra deve ser definida. O termo grego é dikaiosinê, que significa “tornar reto”, mas com sentido jurídico. A questão é esta: Deus torna o homem reto diante dele. Cessam as acusações e a culpa do pecador quando crê em Jesus Cristo, o tema central do evangelho.

            Outra maneira mais fácil de dividir a epístola é ver nela duas grandes partes. Do capítulo 1 ao capítulo 11, o apóstolo trata de doutrina (o que Deus fez) e do capítulo 12 até o capítulo 16, ele trata de ética (como devemos ser). Na realidade estas duas grandes divisões aparecem no esboço de Crabtree. A parte A é a teológica e a B é a parte ética. Já nos fica uma lição, aqui. O que uma pessoa crê afeta sua vida e vai determinar como ele procede. O credo de uma pessoa determina sua ética. Em outras palavras, o que nós cremos deve influenciar a maneira pela qual vivemos.

 

 DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

            A epístola aos romanos é muito rica em ensinos teológicos, mas vamos destacar aqui apenas cinco deles. E começaremos pela mais expressiva, nesta obra de Paulo, que é a doutrina da justificação.  Vamos empregar algum tempo aqui, mais que nos outros. Esta doutrina é a base de toda a epístola e é preciso ter alguma coisa sobre ela na mente para poder entender a carta. Esta é, também, a doutrina básica da Reforma e a maior herança teológica dos protestantes e evangélicos: o homem é justificado pela fé (1.17). A justificação é um ato de Deus. Precisamos defini-la bem. “Justificar (dikáios, no grego) é um termo forense (vem de foro, tribunal) que significa “absolver, declarar justo, o oposto de condenar”. Justificar ou absolver  um ato próprio de um juiz. A Bíblia mostra Deus como o Juiz de toda a terra (Gn 18.25). Ele pode julgar. E o faz. Ele é justo e justificador de quem tem fé em Jesus (3.26).

            Ainda sobre justificação, vale a pena citar aqui um trecho de Stott:

 

Este é o tema básico das cartas aos gálatas e aos romanos. Ser “justificado” significa ser inocentado, seja por um tribunal humano, seja por Deus, o Juiz de toda a raça humana. É uma expressão suada no Velho Testamento, onde aos juízes foi ordenado que julguem “justificando ao justo e condenando ao culpado” (Dt 25.1). Semelhantemente Deus diz sobre si mesmo: “Não justificarei o ímpio (culpado)” (Êxodo 23.7) [1]

 

            Quando Paulo diz que Deus justifica o pecador que crê está dizendo que ele atribui justiça, ou seja, que ele declara inocente e perdoado que crê em Jesus. Quem crê em Jesus é absolvido.  Por isto, uma boa definição de “justificação” é:

 

Justificação é o ato de Deus que redime os pecados de homens culpados e que os reputa retos, gratuitamente, por sua graça, mediante a fé em Cristo, à base, não de suas próprias obras, mas do representante obediente à Lei, que derramou seu sangue a favor dos mesmos, o Senhor Jesus [2]

 

            Os versículos que dão base a esta definição são 3.23-26, 4.5-8, 5.1, 8-9 e 18. Em outras palavras, Deus perdoa os pecados de quem crê em Jesus. É bem simples: Deus declara quem crê em Jesus como sendo inocente. Absolve-o de seus pecados. Em 5.1-2, Paulo deixa claro que a justificação traz paz com Deus (porque os pecados foram perdoados) e a esperança da glória de Deus (porque não estando mais sob o castigo podemos esperar confiantemente o propósito de Deus em nossa vida). A glória que receberemos é certa, conforme lemos em 8.30. O justificado pode ter a certeza de que foi justificado para sempre e que nada pode separá-lo do amor de Deus (8.33-39).  Esta figura jurídica reaparece nos escritos paulinos em Colossenses 2.13-14. Nos tempos antigos, quando um réu era declarado inocente, a declaração de que estava justificado (absolvido) era  afixada num mural, no tribunal. Cristo não apenas fixou, mas cravou nossa sentença de absolvição no mural do tribunal, a sua cruz. É na cruz de Jesus que nossa sentença de absolvição está cravada. Foi na cruz que nosso processo terminou. E terminou com nossa absolvição. Na cruz de Jesus está a declaração de que o crente nele é inocente, é perdoado.

            A doutrina da justificação surge como conseqüência de quatro aspectos diferentes do trato de Deus com os homens.  O primeiro é a fidelidade. Deus é fiel em sua palavra (3.3-4).  As promessas de Deus têm que se cumprir porque Deus não falha com o que diz. O segundo é a ira de Deus, que pode ser entendida como sendo sua aversão ao pecado, e não um capricho de uma divindade desequilibrada. Ele fez promessas, mas o pecado humano atrapalha suas promessas no sentido de impedirem que ele nos dê suas bênçãos. Isaías 59.1-2 é um texto que esclarece bem este ponto, por isto vale a pena lê-lo. O texto de Romanos 1.18 mostra a ira de Deus contra o pecado dos gentios que o levou a abandoná-los (1.24, 26 e 28). O terceiro é a justiça de Cristo. Nela se manifesta a justiça de Deus para nós. Jesus é Justo (At 3.14). Não podemos ser justos. Cristo o foi e nos oferece sua justiça (3.21-28).  Por fim, a ligação da justiça com a fé. Somos tornados justos pela fé em Jesus (3.22, 24). Para quem crê, pode-se dizer que está absolvido e não há nenhuma condenação contra ele: 8.1.

            A justificação não é, como alguém poderia pensar, uma concessão de Deus ao pecado, como se ele tratasse a questão de maneira leviana, já que perdoa gratuitamente. Ela é uma graça transformadora, que regenera quem crê, para que a pessoa ande em novidade de vida. Em 6.11-14 Paulo mostra que a justificação é para nos dar uma vida nova, isto é, uma nova oportunidade de viver na presença de Deus. A pessoa que foi justificada pode caminhar na direção da santificação, como lemos em 6.22. Em outras palavras, o passado acabou e a pessoa passa a ter uma vida nova (2Co 5.17). A justificação é uma nova oportunidade de vida que passamos a ter quando cremos. Quem foi justificado morreu para o pecado e não tem interesse em viver nele (6.1-2). Prefere desfrutar a nova vida com Cristo. Passa ter paz com Deus (5.1) e prefere andar com ele. A absolvição dos pecados, ato que surge na justificação, nos reconcilia com Deus, muda nossa natureza e nos faz desejar andar com ele.


A BONDADE DE DEUS

            Outro aspecto muito ressaltado na epístola é a bondade de Deus. É sua bondade (ou benignidade) que conduz todo o processo de salvação. Nós não nos justificamos por nós mesmos. Somos justificados. E até mesmo o arrependimento, que nos leva a ser considerados por Deus como pessoas transformadas é obra de Deus (2.4). Não nos arrependemos à revelia de Deus. É porque ele agiu primeiro em nós.

A bondade de Deus se verifica no fato de que Cristo morreu por nós quando ainda estávamos no pecado, sem nos arrependermos. Ele não esperou que melhorássemos, mas morreu por nós como estávamos, como se lê em 5.8. É um amor inteiramente imerecido de nossa parte e espontâneo da parte de Deus. Quando o mundo grego apresentava deuses apáticos, que nada sentiam, que nenhum sentimento positivo nutriam pela humanidade, surgiu a espantosa mensagem do cristianismo pela voz de Paulo: Deus ama, Deus sente, Deus se importa. Isto também deve servir para nós. Num mundo de desamor e de desrespeito, de tanta insensibilidade, em que pessoas voltam ao paganismo, crendo em astros, duendes, cores, entidades espirituais das árvores, dos mares, dos rios, sempre como seres assustadores, a mensagem do evangelho continua: Deus ama o pecador. Esta é a mais bela mensagem que nossos ouvidos podem acatar.

            Por causa desta bondade é que nada pode nos separar do amor de Deus (8.35). Não são nossos méritos nem a nossa fidelidade, mas é o amor de Deus que permanece. Deus é o sujeito da vida cristã. Ele se norteia por si e não por nós, em seu trato conosco.

            No trecho de 1.18-32 vemos que Deus colocou os gentios sob condenação. No texto de 2.1-19 vemos que Deus colocou os judeus, mesmo com a Lei e com a observância das festas religiosas por parte deles, sob condenação. Em 11.32 o apóstolo explica por que: “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos”. É com esta expressão que o apóstolo encerra a argumentação teológica, pois o texto de 11.33-36 é uma doxologia, em que Paulo prorrompe em louvor a Deus pelo que ele fez. Assim a parte teológica se encerra com a declaração da misericórdia divina. É a grande última nota.

Esta bondade de Deus aparece na epístola até mesmo quando Paulo fala da rejeição dos judeus e da escolha dos gentios. Apesar da rejeição dos judeus, a bondade de Deus é também por eles. O texto de 10.11-12 mostra que ele é rico para com todos. Jesus já havia antecipado isto em Mateus 5.45, quando disse que a bondade de Deus não é regionalizada nem nacionalizada, mas é por todas as pessoas.

O texto de 9.15 mostra que Paulo não aceita que se diga que Deus foi injusto com ninguém. Ele é soberano e não tem que dar satisfações de seus atos aos homens. Deus rejeitou Israel não porque não foi bondoso com a nação. Pelo contrário. Foi muito bondoso. Israel é que procedeu perversamente, como podemos ler em 10.21. Assim, Deus pôde usar de misericórdia também com Israel, como 11.32, texto que já lemos e agora relemos, deixa bem claro. Por isso mesmo o apóstolo declara Deus como o Deus da esperança (15.13). Podemos ter esperança porque ele é bondoso. Somente coisas boas poderão vir dele para conosco.

            O conceito de Paulo sobre Deus é que ele é soberano, misericordioso e age para conosco na base do seu amor. Por isso esperamos e confiamos. Usamos as palavras de 8.28 como sendo palavras nossas.

 

A SOBERANIA DE DEUS

            É outra idéia muito forte na epístola. Este tema aparece de maneira mais acentuada nos capítulos 9 até 11, na discussão sobre Israel, seu endurecimento de coração que levou a nação a rejeitar Jesus, e o seu futuro. Paulo começa a desdobrar o tema usando a figura do endurecimento do coração de Faraó (9.17) e chega à admirável conclusão de 9.18: “Tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece”. Chega à analogia do oleiro fazendo algo de barro. No v. 21 diz que o oleiro tem poder (autoridade) para fazer um objeto honroso e outro desonroso do mesmo barro. Não compete ao barro dizer o que quer ser nem ao objeto reclamar do que é. Paulo gasta pouco espaço com este aspecto, mas deixa bem claro que o que Deus fez está bem feito e não comporta discussão. Deus não está em julgamento, e sim o homem. Deus é o Juiz. Deus não deve nos dar satisfação. É soberano.

Em dias como os nossos, quando tanto se discutem “os direitos dos crentes”, quando se fala de reivindicar, e se apresentam “alternativas” ao plano de Deus (os famosos “eu acho assim, ó…” e “eu penso assim, ó…”), seria bom recordarmos um lema teológico dos puritanos: Deixem Deus ser Deus. Ele é soberano. O hino de adoração que está registrado nas palavras de 11.33-36 são a melhor mostra do que Paulo estava querendo afirmar. Deus faz o que quer e sempre sabe o que deve fazer. Melhor que questioná-lo é submeter-se a ele.

 

A GRAÇA DE DEUS

            Graça é “favor imerecido”. O termo usado no hebraico, que era o universo lingüístico de Paulo, embora ele fosse poliglota, é hen. Seu sentido é o gesto de bondade de um superior para com um inferior, que errou, e o superior não o castiga. É algo que uma pessoa recebe sem merecer. Por isto, nos três primeiros capítulos da epístola o apóstolo trata do pecado na raça humana. O trecho de 3.9-20, na Versão Revisada, recebeu o título de Todos os homens estão debaixo do pecado.  E termina com a seguinte expressão: “porquanto pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele; pois o que vem pela lei é o pleno conhecimento do pecado” (v. 20). A declaração é dura para com todos os que tentavam (e os que ainda tentam) se justificar pela Lei. Ela não pode fazer nada a não ser nos mostrar que somos pecadores.

            Tendo mostrado a pecaminosidade da raça, Paulo entra na parte do seu argumento que é o da justificação pela fé. O contraste contido nos versículos 23-24 do capítulo é muito forte. Todos, mas todos mesmo, pecaram. Ninguém pode se justificar diante de Deus. O v. 24 traz a nota da graça: “sendo justificados gratuitamente….”. A justificação é um ato gratuito de Deus.  A idéia de graça continua presente na epístola quando seu autor cita a experiência de Davi (4.7-8). Foi perdoado por graça de Deus.

            Mas e Abraão, o pai da nação? Os judeus se orgulhavam de serem descendentes de Abraão (Jo 8.33). Paulo lembra que Abraão não viveu sob a Lei. Em Gálatas (epístola que também trata da relação entre graça e Lei), Paulo lembra que a Lei veio 430 anos depois de Abraão (Gl 3.17). Abraão não foi judeu, mas crente (Gl 3.9). Toda a sua vida foi pela fé. Muita gente fala que o dízimo é da Lei. Abraão foi o primeiro dizimista de que a Bíblia fala e viveu sob a graça. A Lei incorporou esta prática.

            A justiça (ou absolvição dos pecados) foi imputada a Abraão pela fé (Rm 4.9). Veio antes de sua circuncisão, que era o sinal do judaísmo (4.10). Na realidade, de forma brilhante, Paulo inverteu toda a argumentação do judaísmo e dos legalistas. A Lei não justifica, mas apenas a fé (Gl 3.11). Isto é obra da graça de Deus. Não é o que fazemos, pois além de nada podermos fazer, Cristo já fez. É quando cremos. Deus nos perdoa por sua graça e não por causa do que fazemos.

            Estamos misturando, nesta argumentação, os conceitos de justificação e graça. É que a doutrina da justificação é obra da graça. Isto ficará bem claro na declaração contida em Romanos 5.1-2, na expressão “acesso a esta graça”.

            Esta graça é por causa da obra de uma pessoa, Jesus Cristo (Rm 5.15). Na discussão em que apresenta Cristo como o segundo Adão, o reconstrutor da raça humana (5.12-21), Paulo por várias vezes usa a expressão “graça”.

             “Ôba, então, vamos pecar à vontade porque há graça?”. Esta pergunta Paulo antecipou em 6.1, e respondeu-a, enfaticamente, em 6.2: “De modo nenhum”. O argumento usado por ele é o nosso batismo. Este é a nossa identificação com Cristo. Significa que morremos para o pecado e ressuscitamos para uma nova vida. Há um simbolismo muito forte no batismo, e Paulo o usa aqui. A imersão (quando somos mergulhados na água) é o nosso sepultamento. Ela declara que morremos para a vida que vivíamos anteriormente. A emersão (quando somos levantados da água) é o renascimento para a nova vida que passaremos a viver com  Jesus Cristo. Ela declara que ressuscitamos. Por isto que o batismo nunca deveria ser minimizado.  Ele testemunha o que houve conosco. Isto é graça: em Cristo passamos a ter uma nova vida para vivermos. A que passou, passou. Agora, a vida é nova (2Co 5.17). Muitas vezes pensamos: “Ah, se eu pudesse começar de novo!”. Pois bem, em Cristo podemos começar de novo. Isto é graça, uma nova vida, agora vivida com Deus. E a graça se renova a  cada manhã (Lm 3.22-23). Sempre podemos começar de novo.

 

O FUTURO DE ISRAEL

            Este é o quinto e último aspecto a ressaltar em Romanos. É a discussão que ocupa três capítulos, de 9 a 11. Paulo amava sua nação e seus compatriotas. Tanto que aceitaria perder sua salvação se isto significasse a salvação de Israel (9.3). Toda a estrutura prévia do evangelho veio dos judeus (9.4-5). O próprio Salvador era judeu, como ele relembra. Sem Israel não teria havido Jesus nem o evangelho.

            A Palavra de Deus não falhou nas suas promessas. É que nem todo israelita é verdadeiramente israelita (9.6-7). Esta expressão de Paulo deve ser relembrada porque hoje há intérpretes cristãos querendo salvar Israel à força, dando entortadas na teologia para achar lugar para Israel no plano de salvação. Deus não salva nações, mas salva pessoas. Isto porque nem todo israelita é israelita. Como salvar todos os israelitas? Se nem mesmo quem nasceu num país chamado de “cristão” é cristão e não tem salvação por causa do lugar onde nasceu, por que seria assim com Israel? O verdadeiro Israel desembocou na Igreja (9.7-8), pois os verdadeiros israelitas são filhos da promessa e não da Lei. Neste sentido, a Igreja de Cristo é o verdadeiro Israel (e aqui é oportuno relembrar as palavras de Jesus, em Mateus 21.43). A nação chamada de Israel tem zelo por Deus, mas é um zelo sem sentido (10.2). Como muita gente hoje, que é zelosa, mas por picuinhas, por minúcias, e não pela essência. Todos nós conhecemos aqueles membros de igrejas rabugentos, que se perdem em detalhes e pensam que Deus é tão pequeno como eles.

            A eleição dos gentios é para colocar Israel em ciúmes (10.19). Deus não rejeitou Israel, mostrará Paulo em 11.1, texto onde ele apresentará seu caso como um exemplo. Mas pensemos nisto: Paulo não foi salvo por ser judeu, da tribo de Benjamin. Foi salvo por crer em Cristo. Há esperança para Israel? Sim, desde que Israel se converta a Cristo, pois Deus não tem dois povos nem dois caminhos de salvação. Só há uma maneira de uma pessoa ser salva, que é pela fé em Cristo. Na declaração de Pedro em Atos 4.10-12, devemos ter em mente que ele falava à liderança judaica (At 4.1). E deixou isto bem claro. Só Jesus Cristo salva.

            A misericórdia (bondade) de Deus se estende também a Israel (Rm 11.30-31). Por isso eles, os judeus, podem ser salvos.  Os gentios foram enxertados na árvore (11.19). Quando Israel se converter será enxertado na árvore (11.24). Eles, que eram a árvore original, foram cortados (11.17), mas podem ser reenxertados no caso de se converterem.  Cristo é a esperança de Israel.

 

A PESSOALIDADE DA CARTA

            Embora seja um tratado teológico, a epístola é uma mensagem cheia de pessoalidade. No capítulo 16, onde trata de assuntos particulares, Paulo alista 26 nomes de líderes de igreja, amigos pessoais seus. Desde Febe (vv.-12) que foi a portadora da carta, passando por quem o acolheu, por parentes, até o tesoureiro da cidade, Erasto (v. 23). Este cargo corresponderia ao Secretário de Finanças, de uma cidade contemporânea.

            Isto chama a atenção. Os cristãos se viam como uma família, e seus laços pessoais eram mais fortes entre si que com quaisquer outras pessoas. É um desafio para nós. Devemos fazer da igreja a nossa família, envolvendo-nos com os irmãos, apoiando-nos, hospedando-nos, solidarizando-nos uns com os outros. É tocante, nesta ampla relação, o versículo 13. Rufo é filho do Simão que levou a cruz de Jesus à força (Mc 15.21). Agora ele carregava a cruz por ser seguidor de Jesus. E sua mãe era como uma mãe para Paulo. O evangelho faz surgir uma nova família. Isto deveria sempre ser lembrado por todos nós.


 

A DOXOLOGIA FINAL

            Mostrando que esta epístola é um documento bem pensado e que seu conteúdo era emocionante para ele, Paulo termina o escrito com uma doxologia.  Romanos 16.25-27 é uma extraordinária declaração de louvor por tudo que escreveu. Parece que o apóstolo leu o documento que ditara a Tércio(16.22), e agora, entusiasmado, prorrompe em um cântico de louvor. Se Romanos é a essência da teologia cristã, a melhor forma de conclui-la seria esta mesma: “Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar, segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio desde os tempos eternos, mas agora manifesto e, por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus, eterno, dado a conhecer a todas as nações para obediência da fé; ao único Deus sábio seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém.”. Esta é a melhor maneira de terminar as considerações sobre os atos de Deus por nós, na pessoa de Jesus Cristo. Paulo o fez bem. E devemos fazer assim, também.

 


[1] STOTT, John.  Homens Com Uma Mensagem. Campinas: Editora Cristã Unida, 1997, p. 92.

[2] SHEDD, Russel  (ed.). O Novo Dicionário da Bíblia. S. Paulo: Edições Vida Nova, 1966, p.  896.