Lições Da Fomizelda II

Lições Da Fomizelda II

 

            Fomizelda foi uma gata que Meacir e eu tivemos quando recém-casados. Tínhamos o Aristóteles e o Platão, e alguém, vendo que gostávamos de gatos, abandonou-a em nossa porta. Como estava faminta, nós a chamamos de Fomizelda. Era malhada, com o pescoço branco. Vimos uma sósia sua, terça de carnaval, no retiro dos jovens da Igreja do Cambuí. Fomos lá para ver se alguém precisava de carona para retornar.

            Saíamos da chácara onde houve o retiro, e a gata veio correndo pelo gramado, entrou na pista de saída, como campineiro atravessando rua (cabeça baixa, sem olhar nada), passou como um bólido à frente de nosso carro, entrou em outro gramado, subiu numa árvore, do alto olhou-nos com ar de satisfação, pulou para o muro que separava da outra chácara, e pulou para o outro quintal. Para continuar a corrida? De volta para casa? Sei lá, gatos são imprevisíveis.


            Como ela me ficou na retina e na memória, tracei alguns pensamentos. Intitulei-os de “Lições da Fomizelda II”.

            A primeira lição é negativa. Gente que faz jornadas sem olhar os perigos. Baixa a cabeça e vai em frente. Assim, gatos e campineiros acabam atropelados. E muitos de nós, também. Atropelados pela vida. Cometemos erros de avaliação e tomamos decisões erradas, mas baixamos a cabeça e seguimos em frente. Ignoramos o risco. Não os vemos, e fazemos uma corrida louca. A corrida de vícios como álcool e drogas, por exemplo. Uma corrida que termina mal. Não olhar os riscos do que se faz é uma temeridade.

            A segunda é positiva. Deixemos a burrice própria dos gatos, de não olharem quando atravessam rua. Fiquemos com a determinação. Fomizelda II estava determinada. Deu um pique impressionante. Nenhum queniano da S. Silvestre poria defeito. Ela precisava chegar ao outro muro antes do carro passar (por que?). E foi com tudo. Na corrida da vida é preciso determinação. “Vou fazer porque devo fazer” e ir em frente. Há gente patética, que nunca sabe se quer ou não. Como o jovem que pensa ser vocacionado para o ministério, mas fica anos sem se definir. Como dizia um amigo: fica como “orador da turma dos pré-seminaristas por 20 anos”. É o crente que um dia vai dar um pique e consagrar a vida para servir a Deus. Mas não inicia sequer o trote. Sua vida cristã é arrastada. Crentes que não se firmam.

            A terceira também é positiva. A gata venceu os obstáculos. Subiu lépida na árvore de tronco fino e liso, deu um salto espetacular para o muro, correu um pouco por ele e saltou para o outro lado. Gato não planeja nada. Mas se aquela planejou, cumpriu! Tinha que chegar ao outro lado (por que?). E foi com tudo. Deixou obstáculos para trás. Gramado, carro, pista, árvore, muro. Seu ar de satisfação ao nos olhar foi curioso. Como se dissesse: “Viram? Consegui!”. Obstáculos existem para serem vencidos. Como dizia a entrada no Sítio do Sossego, no Rio: “Deus nos deu montanhas para contemplarmos e forças para subi-las”. Isto ou algo parecido. Mas a idéia é esta. Os obstáculos devem servir de estímulo e não de desânimo. Tudo deve ser vencido.

            Pois é, simples e trivial. Ou trivial e simples, como quiserem. Mas a Fomizelda II, além do charme dos felinos, tem ensinos. Aprendamos: cautela, determinação e vitória.

Isaltino Gomes Coelho Filho